Tango Negro
A bicicleta azul volume 4
RGINE DEFORGES

Agradecimentos
O autor agradece s seguintes pessoas por sua colaborao, na maioria das vezes involuntria:
Lenora Acufia de Randie, Henri Alleg, Waldo Ansaldi, Robert Antelme, Roger Arnould, Robert
Aron, Laura Ayerza de Castiio, Maurice Bardeche, Willis Bamstone, Georges Bearn, Maurice
Bedel, Michel ben Zohar, Christian Bemadac, Hector Bianciotti, Adolfo Casares Bioy, Jorge Luis
Borges, Ady Brilhe, Barbara Buber-Neumann, Roger Caillois, centro de documentao judaica
contempornea, Jolie Gil Casalis, Lucien Casteila, Jean-Franois Chaigneau, Patrice Chairoff,
Fermin Chavez, Roberto Conde, Grard de Cortanze, Jorge Cruz, Dominique Deceze, Charlotte
Delbo, Henri Deluy, Dominique Desanti, Gustavo Fazio, Odile Felgine, Claude Flauter, Frederic
Forsyth, Anne Frank, Gisle Freund, Romain Gaignard, Jean Galtier-Boissire, Charles de
Gaulie, Ricardo A. Gietz, G.M. Gilbert, Rita Gombrowicz, Witold Gombrowicz, Juliette Greco,
Emesto Che Guevara, Gilbert Guilleminault, Robert Jay Lifton, No Jitrik, Pierre Kalfon, Thomas
Keneally, Beate Klarsfeld, Serge Klarsfeld, Primo Levi, Herbert Lieberman, Albert Londres,
Flix Luna, Pierre Lux-wurmn, Mary Maim (Maria Flores), Micheline Maurel, Claude Mauriac,
Franois Mauriac, Jean-Yves Menan, Henri Michel, Edmond Michelet, Bartholom Mitre,
Adrienne Monnier, Claude Montet, Charles Moshe Peariman, Benno Mhler-Hihl, Henri
Nogueres, Silvina Ocampo, Victo
ria Ocampo, Albert Ouzoulias, Ccile Ouzoulias-Romagnon, Octavio
Paz Hornos, Eduarte Paz Leston, Moshe Pearlman, (A Longa
Caada), Eva Pern, Guies Perrault, frei Pierre, Lon Poliakov,
Sylvam Reiner, Charles Richet, Jacqueline Richet, Olivier Richet,
David Rousset, Catherine Roux, Fernando Saesay, Simone SaintClair,
Horacio Salas, Oscar Schindler, Victor Smeru, Jean-Franois
Steiner, Janet Spencer Talbois, Germaine Tillion, Maria Esther
Vazquez, O Magazine Littraire, Cahier de l'Herne, Michel C.
Vercel, Charlotte Wardi, Pierre Wiazemski, princesa Wiazemsky,
Elie Wiesel, Simon Wiesenthal, Olga Wormser, Hector Yanover,
Sal Yurkievich.

 meus filhos,
Franch, Camille e La.

Senhor, que sois santo e verdadeiro, at quando esperareis para nos fazer justia, e vingar nosso
sangue solre aqueles que na terra habitam?
O Apocalipse de Joo.

Captulo 1

La permaneceu imvel de tanta felicidade ao ver Franois Tavernier caminhando em sua direo
de mos dadas com o pequeno Charles. Sim, eram eles, aqui, em Montilac, Montillac que ela
considerara para sempre destrudo e que ecoava agora ao som estridente da serra dos carpinteiros, 
as marteladas, a cano de um operrio:  
Um carpinteiro cantava uma cano  
Lxi em cima no telhado das casas  
Sua casa renascia...  
Com um aperto no corao transbordando de felicidade, La percebeu que era ele o verdadeiro 
arteso. Olhava para o amante reencontrado; vivo! estava vivo, contemplando-a, incrdulo, 
maravilhado, transtornado... Seu primeiro impulso foi em direo a La, porm Charles revelou-se 
mais gil. Com profunda emoo, La abraou o menino, balbuciando palavras carinhosas e 
incoerentes. Afastando-se um pouco, ela se ajoelhou para v-lo melhor. Como crescera! Como se 
parecia com a me! A lembrana de Camiile morta provocou-lhe um gemido.  
- Voc t com dor? - perguntou preocupado o pequeno rfo.  
- No, querido, sinto-me to feliz em te ver...  
- Ento, por que t chorando?  
Como explicar a um menino de cinco anos que as lgrimas podem expressar tanto alegria quanto 
tristeza?  
Quem era aquela criana loura agarrada  saia de seu uniforme, e a moa de vestido estampado que 
lembrava a La o que sua me usava no vero anterior  guerra?  
- Franoise?...  
Antes de abra-la, sua irm ajudou-a a se erguer. Em seguida, foi a vez de Laure, com uma roupa 
na ltima moda, Lisa, com a face rosada e cachos brancos, Esteile, cujo ar bondoso no era 
atenuado pelo austero coque, Ruth, a to querida Ruth, guardi das lembranas de sua infncia, 
idosa, encurvada, com as mos trmulas... Abraada por todos, no inteiramente presente, como se 
aqueles beijos, aquelas carcias, as palavras afetuosas no lhe fossem realmente dirigidas. Para La, 
aps as runas de Berlim, da Alemanha vencida, um certo toque de irrealidade cercava esse 
encontro, num local aonde pensara nunca mais voltar.  
Pouco a pouco, apagavam-se a felicidade do regresso a alegria experimentada ao rever Franois e 
Charles vindo ao seu encontro. Nada daquilo era verdade; nada mais era do que uma farsa, uma 
grande mentira... No passavam de fantasmas... O que fazia essa mulher de cabea raspada, 
gesticulando com o vestido de sua me?... e essa jovem muito maquiada que lembrava as prostitutas 
de luxo com quem se divertiam os oficiais alemes nos bares de Bordeaux?... essas crianas 
barulhentas, com as mos e a cara sujas de amora?... essas velhas de vestido preto parecidas com 
as beatas de Saint-Macaire?... e esse homem de rosto marcado, com um sorriso irnico?... por que 
sorria? O que havia de to engraado assim?... e seu jeito de encar-la! Uma profunda irritao 
embaralhava seus pensamentos. Nunca!... nunca! ela no deveria ter voltado a Montillac, tudo 
estava destrudo, maculado, morto!... Da alameda arborizada, surgiriam a qualquer momento 
Maurice Fiaux e seus milicianos... gritos, berros ecoavam em sua cabea... no eram as marteladas 
dos carpinteiros que ela ouvia, e sim as coronhadas arrombando as portas da casa... a fumaa que 
subia de sob o terrao no provinha da grama queimada, mas do corpo martirizado de sua tia 
Bernadette... 
La empurrou com certa violncia todas as mulheres e crianas que no a deixavam. No iriam 
conseguir... ningum a prenderia...  
Estarrecidas, suas tias e irms viram quando ela fugiu. Apenas Franois Tavernier percebeu o que 
se passava com a moa.  
Ela saiu correndo pelos vinhedos como um animal assustado, tropeando nos montes de terra, 
caindo, levantando-se, voltando a cair... Ele se encontrava bem perto quando La o viu, mas no o 
reconheceu. Uma nica frase repercutia em sua mente confusa:  
"No vo me apanhar!... No vo me apanhar!..." O terror e o dio davam-lhe asas e ela conseguiu 
correr, ainda mais rpido, apesar dos joelhos machucados. Ao passar pela casa de Sidonie, pensou 
ouvir a voz de Mathias... Seus ps levantavam a poeira branca do caminho que leva ao calvrio de 
Verdelais, abrigo de todas suas tristezas quando criana, das dvidas melanclicas de sua 
adolescncia e de seus temores de adolescente ao enfrentar a guerra e a morte. Feriu as mos nos 
espinhos das moitas... agachada, subiu os degraus do calvrio... Ele conseguiu alcan-la e, ali 
mesmo, lutaram em silncio. Franois precisou de toda sua energia para impedir que La lacerasse 
seu rosto. E, ao perceber que ela enfraquecia, murmurou palavras tranqilizadoras:  
- Pronto, menininha, pronto... no tenha medo... acabou... pronto, calma... Meu amor, ningum vai 
mago-la, prometo...  
Lentamente, o corpo tenso foi relaxando, o olhar perdeu a demncia. La deixou que a ninasse, com 
os olhos fechados... tinha oito anos, o pai tentava aliviar sua dor aps uma queda... em seus braos, 
o choro diminua, o sofrimento serenava... Agora, ele a carregava at a cama...  Franois deitou-a  sombra de um carvalho. Como uma criana, ela adormeceu bruscamente, 
sem 
largar sua mo. Acena lembrava- lhe as noites to raras quando, aps o amor, ela mergulhava no 
sono interrompendo uma frase; aquele tipo de fuga no sono era uma de suas foras.  
Com muita ternura, ele limpou o rosto de La, retirando com o leno toda a poeira que aderira 
devido s lgrimas. Mais uma vez, sentiu-se profundamente tocado por sua beleza, pelo vigor e a 
vulnerabilidade que emanavam desse rosto maculado. Como em 
cada encontro entre eles, era justamente tal contraste que o surpreendia e comovia. Pelo tremor das 
plpebras, ele podia perceber o quanto sofria. Jurou a si prprio fazer o impossvel para que ela 
esquecesse, proporcionar-lhe uma vida feliz e calma, cobri-la de presentes, jias, ajud-la a descobrir 
o mundo, outras paisagens, locais preservados da mo do homem, de sua prpria presena... Mais 
uma vez, ela o faria sofrer com sua vaidade, mais uma vez ele ouviria sua risada, olharia para ela ao 
tomar champanha, deslizariam juntos numa valsa que a deixaria estonteada. Ah! Expulsar por todos 
os meios aquelas terrveis imagens que tanto pavor provocavam!...  
- Franois!  
- Sim, menininha, estou aqui.  
- Franois, se voc soubesse!  
- Sei, querida, sei. Agora, voc precisa esquecer...  
Sentiu o corpo da amiga retesar-se, prestes a escapar.  
- Vai ser duro, mas  preciso. Voc tem uma casa para reconstruir, uma criana para educar, uma 
famlia para...  
- Cale-se! Cale-se!  
Ela martelou seu peito com os punhos fechados. Ele riu.  
Enfurecida com aquele riso, tentou arranh-lo, esbofete-lo! Ele deitou-se sobre seu corpo, 
mantendo-lhe os braos esticados atrs da cabea.  
- Voc no acha que temos coisas melhores a fazer do que discutir? - disse ele, procurando sua 
boca.  
Ela se debateu e o mordeu com tanta violncia que ele a soltou. Despenteada, transtornada pela 
raiva, La levantou-se; durante algum tempo, permaneceram imveis, enfrentando-se. Pouco a 
pouco, ela se acalmou, a clera cedeu lugar  tristeza. As lgrimas abundantes que corriam de seus 
olhos lavavam-lhe o rosto. Tamanha mgoa, sem soluos, acabou aplacando sua dor. Quando 
Franois lhe deu o leno, agradeceu com um leve sorriso.  
- Desculpe, estou sendo ridcula.  
- Voc pode ser tudo, menos ridcula; fique junto de mim.  
Ela se aninhou em seus braos, atenta ao desejo que afastava a angstia. Ao desabotoar-lhe a 
camisa, a mo tocou a pele do amante, 
reencontrando toda sua suavidade, seu odor. Como sentira sua falta durante aqueles longos meses, a 
ponto de quase se entregar a um jovem e belo oficial ingls! Ele, por sua vez, abriu os botes de sua 
blusa to sria, tirou a gravata de seu uniforme e deixou correr as alas da combinao... Os seios 
surgiram, suntuosos! Abolidos guerra, sofrimentos, cu, terra, morte... S havia um homem e uma 
mulher cujos corpos uniam-se como na aurora dos tempos sem qualquer outra exigncia que no o 
prazer; um prazer brutal e rpido que os surpreendeu, deixando-os insatisfeitos.  
Franois ajudou-a a pr-se de p. Abraados, tomaram o caminho de Montillac. Em Beilevue, La 
sentou-se no velho banco de pedra ao lado da casa de Sidonie. Seus olhos percorreram a paisagem 
to familiar. Nada mudara, nada nesses bosques, nessas aldeias, indicava a passagem de uma 
guerra, com pessoas que haviam dado a vida para que os sinos das igrejas, os campos, os vinhedos 
fossem preservados. Nada! Ela reviu em pensamento o pobre corpo desnudo de Sidonie. Fechou os 
olhos e repeliu a abominvel imagem, para guardar apenas a lembrana da bondosa cozinheira que 
costumava dizer:  
- Menina, no vai experimentar meu licor?  
O outono aproximava-se e a claridade do fim de tarde oferecia todo seu esplendor quela amada 
paisagem.  
- Olha, d para ver os Pireneus!  
No era verdade,  claro, mas Sidonie tantas vezes repetira que, com cu claro, avistavam-se as 
velhas montanhas.  
Sacudindo a cabea como um cavalo ao afastar uma mosca importuna, ela se levantou e encarou o 
amante. Aquele olhar queria dizer: "Estou aqui, viva, quero gozar a vida, logo, agora! Voc precisa 
me ajudar, j que me ama. Voc me ama, no ?" Trouxe a escada at a janelinha do sto e subiu 
os degraus oscilantes. Quantas vezes ali viera para se esconder dos adultos com Mathias e todos os 
companheiros de suas brincadeiras infantis! O feno da recente colheita exalava um delicioso 
perfume. La, com os ps mergulhados na palha, arrancou a roupa do corpo e deitou-se, nua, 
indiferente ao pinicar da grama ressecada. Encostado numa viga, 
Franois a fitava, sem esconder sua emoo. Por sua vez, tirou a roupa lentamente, sem afastar os 
olhos da amiga.  
Regressaram a Montillac bem tarde, esgotados e felizes.  
No houve comentrio algum quando, a despeito dos bons costumes, La e Franois resolveram 
dormir no mesmo quarto. As senhoritas de Montpleynet, Franoise, Laure, Ruth e as crianas 
ajeitaram-se da melhor forma possvel nos cmodos reservados aos empregados, at que as obras 
da casa fossem concludas. O arquiteto contratado por Tavemier prometeu que tudo estaria 
terminado em meados de outubro. Esteile e Ruth duvidavam do prazo; Laure vivia atormentando os 
operrios, muito lentos segundo ela; Franoise no ousava abrir a boca depois de ouvir um velho 
pedreiro resmungando: "Puta." Curvando os ombros, ela sara de perto e nunca mais voltara para 
ver as obras.  
A chegada de La trouxe um novo estmulo; todos queriam mostrar um bom desempenho para 
agradar. Ela ficou surpresa ao encontrar o escritrio do pai praticamente intacto: apenas a fuligem 
sujara os livros, as paredes e os tapetes. Sem perguntar a opinio das irms, instalou-se naquele 
cmodo. De acordo com seu modo de pensar, as coisas podiam permanecer como estavam, mas 
Franois conseguiu convenc-la a mandar pintar as paredes, limpar os tapetes e trocar as cortinas. 
O nico item em que ele teve de recuar foi o velho sof: La de nada quis saber; o mvel era 
intocvel e ela sempre o conhecera velho e em mau estado; Franois no insistiu.  
La acompanhava com paixo pelos jornais e pelo rdio o julgamento dos carrascos do campo de 
Bergen-Belsen em Luneburgo. Lembrava-se do chefe do campo, Joseph Kramer, a quem a polcia 
militar inglesa teve muita dificuldade para arrancar das mos dos deportados ainda sos e dos 
soldados britnicos; e do Dr. Fritz Klein, que foi obrigado pelos aliados a posar para os fotgrafos, 
hirsuto, de botas, com o rosto intumescido, de p em meio a milhares de cadveres nus. Lembrava-
se das lgrimas dos jovens soldados ingleses diante daqueles mortos-vivos estendendo braos to 
magros que tinham medo de toc-los e quebr-los; revia o  
espanto e o horror dos mdicos ao descobrirem que, em certos cadveres, faces, braos, 
ndegas e fgado haviam sido extirpados e comidos por presos que a fome enlouquecera.  
Por quanto tempo perduraria tamanho furor? A guerra acabara, era preciso esquecer. Esquecer? 
No, era impossvel, a lembrana tornava-se imperiosa. E essa contradio no parava de 
martelar a mente de La. Para ela, tornava-se ainda mais difcil na medida em que se recusava a 
tocar no assunto, mesmo quando despertada por seus pesadelos, em meio a gritos, em plena 
noite. Franois tentara interrog-la, mas teve de desistir diante de seu pranto ou de sua raiva. Ele 
argumentava que o fato de revelar o que lhe ia na mente facilitava sua compreenso, mas La 
recusava esse tipo de discurso racional. Esteile de Montpleynet, a quem contara o 
comportamento de La, seus temores e suas angstias, aconselhou pacincia: tudo ainda era 
muito recente e seria preciso tempo, muito tempo, para que La alcanasse certo grau de 
serenidade, seno o total esquecimento.  
Mas como? A lembrana dos momentos de felicidade era constantemente apagada por 
reminiscncias de horror. Dentre elas, a da morte de Raoul Lefevre que ela mesma enterrara, com 
a ajuda do irmo Jean e do Dr. Jouvenel, atrs dos arbustos e dos lilases. Certa vez, ao depositar 
flores naquele tmulo improvisado, foi surpreendida por Franois. Ele conhecia as circunstncias 
do falecimento de Raoul, mas La jamais lhe contara onde o corpo se encontrava. Ele sugeriu que 
avisassem a polcia. A nova provao foi suavizada pela alegria de rever Jean Lef'evre vivo, 
durante momentos to penosos.  
Pela manh, logo cedo, os policiais chegaram seguidos pelos prefeitos de Verdelais, Saint-
Macaire e Saint-Maixent, ex-membros da Resistncia e companheiros do defunto. Na presena 
da Sra. Lefvre, amparada pelo filho sobrevivente, procedeu-se  exumao. O tempo e a 
natureza haviam produzido sua obra: um esqueleto coberto de trapos, que a me reconheceu. 
Nem um s grito, nem um s gemido, apenas um silncio opressivo realado pelo rudo das ps 
afundando no solo mvel e o choque abafado da terra  
amontoada. Acompanhando Jean Lefvre, compareceu  cerimnia um jovem padre com o rosto 
emaciado, vestindo uma batina desbotada pelo uso, que abenoou os despojos colocados num 
caixo.  
Incrdulos e felizes, Jean e La abraaram-se chorando. A me de Raoul apertou nos braos a 
amiga de seus dois filhos, murmurando um obrigado transbordante de emoo.  
Aps sua fuga de Montillac, Jean Lef'evre, apesar de ferido, conseguira chegar at Pauillac no 
Mdoc, onde encontrara companheiros do maqui de Grand-Pierre. Medicado numa fazenda perto 
de Lesparre, juntou-se posteriormente ao grupo Charly e, em 23 de julho, com setenta camaradas, 
participou do ataque  fbrica de plvora de Sainte-Hlne, no qual dezenas de alemes, bem como 
27 companheiros, foram mortos. Novamente ferido, acabou sendo preso e levado com outros sete 
membros da Resistncia para o forte do H. Espancado, torturado, em 9 de agosto foi atirado num 
trem para a Alemanha, com detentos franceses e estrangeiros, quase todos presos na regio de 
Toulouse e transferidos, no dia 2 de julho, das prises da cidade para a sinagoga e mais tarde para o 
forte do H de Bordeaux. Amontoados como gado em vages com setenta homens cada, sob um 
calor insuportvel, lutando por um pouco de ar, um filete de gua ou um pedao de po, certos 
prisioneiros entregaram-se ao desespero ou mergulharam na mais profunda loucura. Escapando dos 
ataques dos avies aliados, o trem passou por Toulouse, Carcassonne, Montpellier, Nimes, o vale do 
Rdano... at chegar a Dachau, em 27 de agosto.  
Jean estava vivo, porm em lamentvel estado! Durante a viagem, dezoito companheiros faleceram. 
A cada parada, quando os alemes abriam as portas, os cadveres eram atirados na via frrea. No 
destino, a pequena estao de Dachau, seis corpos exalando um mau cheiro insuportvel foram 
jogados na plataforma. Durante o interminvel trajeto, Jean fora amparado e tratado por um jovem 
monge, padre de um maqui de Corrze, Michel Delfand, conhecido como padre Henri. Ardendo em 
febre, ele ajudara os agonizantes, consolando e encorajando os outros. Tendo em vista sua frgil 
constituio, ningum entendia como aquele homem  
doente conseguia agentar. Agentou at 29 de abril de 1945, dia da libertao do campo pelos 
americanos. O tifo que se alastrara por todo o campo fez com que ele se deitasse. Levado para o 
Revier', recebeu a extrema-uno de um padre polons e sentiu-se pronto e feliz para ir ao 
encontro de seu Deus. No entanto, sua hora ainda no chegara: a frgil carcaa resistiu  doena. 
Aps a quarentena imposta pelos libertadores, padre Henri e Jean foram repatriados para a Frana. 
Extremamente enfraquecidos, passaram dois meses numa casa de repouso na Savia antes de voltar 
para casa. Durante aquela permanncia, laos de uma profunda amizade nasceram entre os dois 
homens. Como a sade do padre no lhe permitia levar a vida difcil dos capuchinhos, conseguiu de 
seus superiores a autorizao de deixar o mosteiro. Mandaram-no a Bordeaux para prestar auxlio 
ao padre de Saint-Michel. Logo aps sua chegada, contactou o amigo que s encontrara a famlia 
na vspera. Foi justamente durante sua primeira estada em La Verderais que os policiais vieram 
avisar a Sra. Lef'evre que o corpo de seu filho Raoul seria exumado no dia seguinte. Naquela 
ocasio, Jean contou  me e ao amigo as circunstncias da morte de seu irmo.  
Apesar dos pesadelos que a atormentavam quase todas as noites, deixando-a sem foras, durante o 
dia La esforava-se em afugentar todas aquelas to lancinantes imagens. A presena de Franois 
a seu lado, sua ternura, suas carcias, as horas de amor profundo, de gozo mtuo, ajudaram muito em 
seu restabelecimento; apesar de no conseguir esquecer, e jamais conseguiria, a vontade de viver 
era mais forte.  
A licena de quinze dias concedida pela Sra. de Peyenmhoff chegavam ao fim. La precisava 
retornar  sede da Cruz Vermelha em Paris. As uvas estavam maduras, suas irms fecharam um 
acordo com um proprietrio vizinho para que tivessem lugar as  
primeiras vindimas da Frana libertada. Graas ao dinheiro de Franois Tavernier, foi possvel 
contratar cerca de trinta trabalhadores dentre os quais mais de dois teros eram prisioneiros 
alemes. Profundamente deprimida, ela abandonou aquilo que voltara a amar. Aquelas duas 
semanas em Montillac levavam a crer que tudo poderia recomear.  
A volta para Paris na grande limusine de Tavemier parecia uma viagem de frias, com um tempo 
quente e ensolarado, as hospedarias acolhedoras e um Franois apaixonado e alegre.  
Logo aps a sua chegada, La foi at a sede da Cruz Vermelha para falar com a Sra. de 
Peyerimhoff. Ali, teve a alegria de encontrar Claire Mauriac e Jeanine Ivoy, recm-chegadas de 
Berlim. As trs moas abraaram-se efusivamente, entre gritos e risadas, fazendo com que a Sra. 
de Peyerimhoff sasse de sua sala.  
- Muito bem, senhoritas, o que houve?... Calma, o que pensaro nossas amigas americanas a 
respeito do comportamento das colegas francesas!  
- Pode deixar, senhora, na idade delas  natural gostar de rir  
- comentou com um forte sotaque americano uma linda e alta mulher, surgindo do escritrio.  
- Laureen, quero lhe apresentar trs colegas. Parecem jovens desmioladas, mas trata-se de mulheres 
de primeirssima ordem, corajosas e eficientes; cabea de vento e corao de ouro, vaidosas mas 
capazes de suportar bravamente o frio e a sujeira, gulosas como verdadeiras crianas, porm 
sempre dividindo sua parcas raes com os mais necessitados. Senhoritas, Laureen Kennedy!  
- Elas falam alemo? - perguntou a americana.  
- Acredito que La Delmas sim. Voc no teve uma bab ou uma governanta que lhe ensinou 
alemo? - comentou a Sra. de Peyerimhoff.  
- No ensinou, mas costumava contar histrias, cantar e ler poemas em alemo; quanto a ensinar... 
Era da Alscia, por isso...  
- Por isso o qu?  possvel nascer na Alscia e ser tambm cidado francs, o que no impede que 
se fale a lngua natal.  
- Claro, principalmente se essa lngua for o alemo - respondeu La com rispidez.  
A Sra. de Peyerimhoff surpreendeu-se diante dessa atitude. Olhou sria para La.  
- Voc fala alemo? Sim ou no?  
- Falo mal, mas entendo quase tudo.  
- Pois ento, se a Sra. de Peyerimhoff no se importar - disse Laureen Kennedy -, vai comigo para 
Nuremberg.  
- Nuremberg!  
- Sim, l ter lugar o julgamento dos criminosos de guerra. 

Captulo 2

Para Sarah, o pesadelo continuava.
Ter sido descoberta por La em meio aos cadveres de Bergen-Belsen e sua "fuga" do campo
permaneciam irreais para ela, assim como sua presena naquele hospital militar nos arredores de
Londres. Todas as noites, o horror recomeava: o bordel dos soldados onde, apesar das marcas 
de queimaduras de cigarro infligidas por Massuy, ela continuava como uma das moas mais 
requisitadas pelos oficiais SS. Seu corpo dolorido recusava-se em vo. E quando a penetrao 
revelava-se muito difcil, untavam seu sexo com os mais diversos produtos; afirmavam, em meio a 
desprezveis risadas, que o melhor de todos era gordura de judeu. Quando pela primeira vez 
entendeu a que se referiam, caiu desmaiada. Foi despertada com um copo de gua gelada no 
rosto. A partir de ento, quando os membros untados pelas mais incrveis pomadas deslizavam 
em seu corpo, ela passara a murmurar o nome de todos os seus amigos judeus desaparecidos, e 
jurou que viveria para se vingar, j que no tinha coragem suficiente para se matar e escapar 
daquelas relaes infames. Certo dia, Sarah deixou de agradar aos oficiais, passando a trabalhar 
na manuteno de estradas. No campo de Ravensbrck, foi vtima dos sarcasmos das outras 
prisioneiras, portadoras do tringulo verde destinado aos presos comuns, enciumadas do corpo 
de La ainda sedutor e que insultava sua prpria magreza. 
- E a, sua putinha dos alemes, foi bom?  
- Te mandaram pra c porque no era boa chupadora de pica?  
- Foi a foda deles que te deixou retardada?  
Sarah tornara-se violenta devido  vergonha e  clera; lanou- se sobre duas mulheres cujos ossos 
rompiam a pele sob o vestido listrado, e acabou com elas sem a menor dificuldade. Ameaador, o 
bando enfurecido de prisioneiras cercou-a. Foi salva graas  interveno dos kapos, dos guardas e 
seus ces. Duas mulheres morreram e ficaram atiradas na lama. Seis prisioneiras foram designadas 
para arrastar os cadveres at o forno crematrio. Sarah, sem qualquer emoo aparente, foi levada 
at a enfermaria onde uma jovem deportada, lindssima, prestou-lhe os primeiros socorros, deitando-
a num catre com Ienis encardidos, repugnantes. Sarah adormeceu.  
Ao despertar, encontrava-se a seu lado uma mulher de uniforme, robusta e bonita apesar dos traos 
duros.  
- Sou a Dra. Schaeffer, assistente do Dr. Oberheuser, mdico desta merda de campo. Estou vendo 
em sua ficha que voc  alem, judia alem; que exagero, no acha? Os judeus representam a 
escria da humanidade e por isso devem ser eliminados. Nosso Fhrer entendeu perfeitamente o 
problema e resolveu livrar o mundo de todos esses homens inferiores, esses quase macacos. Mas 
apesar de tudo voc  alem, e vou trat-la para que a judia possa chegar em boa forma at a 
cmara de gs.  
- A cmara de gs? - murmurou Sarah, erguendo-se.  
- Sim, trata-se de um meio eficaz para eliminar centenas de parasitas. Ah-ah... se voc os visse 
debaterem-se, lutarem em suas celas... como piolhos... ah-ah... como piolhos... Nada como um bom 
jato de gs zyklon para nos livrarmos da podrido judia...  
Sarah agarrou-a pela garganta e, com uma fora ampliada pelo dio que consumia seu corpo, tentou 
estrangular a mulher. Os gritos da jovem deportada alertaram os kapos. Foram precisos trs para 
obrigar Sarah a soltar sua presa. Tossindo, cuspindo, com o pescoo  
vermelho e sangrando, a Dra. Schaeffer respirava com dificuldade. Sarah, novamente desmaiada, 
com a sobrancelha aberta, os lbios rasgados, encontrava-se cada no cho.  
Ao ver que recobrava a conscincia, a mdica atirou-se sobre aquele corpo inerte e comeou a 
chut-lo. Teria matado Sarah se uma das kapos no comentasse:  
- Deixe-a, doutora, poder servir para suas experincias.  
Foi quando teve incio, para Sarah, uma longa descida no mais profundo dos infernos.  
Jogada num velho colcho no fundo da enfermaria, ela permaneceu vrios dias sem cuidados e sem 
alimento, apenas um pouco de gua suja era trazida por uma jovem deportada polonesa com uma 
perna amputada. Na manh do terceiro dia, arrancaram-lhe a roupa em frangalhos e arrastaram-na, 
ardendo em febre, para uma espcie de recinto fechado onde se encontravam presas cerca de cem 
mulheres, mias, de cabea raspada, sem idade, reduzidas na grande maioria a verdadeiros 
esqueletos, vrias com um brao amputado, outras sem uma perna, todas elas com feridas abertas, 
purulentas, j com vermes nos ombros, no ventre, nos seios, nas coxas; cobertas de crostas 
sanguinolentas, lama, excrementos, deitadas ou agachadas no cho mido repleto de imundcies, 
palha apodrecida e trapos srdidos. Atirada naquela fossa, ela foi empurrada com gritos de raiva e 
dor pelas mulheres sobre as quais cara e teve de lutar, acima e alm de suas foras, para escapar 
dos golpes e das dentadas. A febre provocava nela um estado de apreenso total juntamente com 
um sentimento de irrealidade.  um pesadelo, pensava, j vou despertar.  
Sarah s despertou no dia seguinte com uma sensao de sufoco. Estava escuro. Onde se 
encontrava? Quem a prendia daquela maneira? Com extrema dificuldade, conseguiu soltar um dos 
braos e, tateando, tentou perceber onde se encontrava. Segurou alguma coisa gelada e inerte, em 
seguida outra dura e gelada, novamente mole, dura, mole, gelada, mole, e... com um berro, conseguiu 
desembaraar-se da massa de corpos sob os quais ficara enterrada. Mortas, todas as mulheres 
aleijadas daquele recinto estavam mortas; mortas azuis, verdes, cinza, amarelas, cores que  
transpareciam sob a sujeira. Os rostos fixos numa mscara de dor, e baba espessa escorrendo das 
bocas abertas, membros retorcidos, corpos arqueados por um sofrimento intolervel!... Mortas! 
como?... Por qu?... Quando?... E o que fazia, aparentemente sozinha e viva, rodopiando, tentando 
fugir, pisando uma cabea, afundando uma barriga, quebrando um ombro, pisoteando um lquido 
marrom grosso e malcheiroso, cambaleando, tropeando e voltando a se levantar, caindo novamente 
em busca de uma sada... E aquelas risadas, aquelas palmas, a msica alegre de uma gaita, e, de 
repente, um cheiro de gasolina... Oh! que pesadelo! Ela pensara estar acordada, porm continuava 
dormindo. Todos aqueles sonhos horrendos deviam ser causados pela fome... Ento, parou de correr  
- ser possvel fugir dos sonhos? - e esperou, de olhos fechados, em p, com os braos pendentes ao 
longo do corpo, para ver se despertava.  
Um calor repentino obrigou-a a abrir os olhos:  sua frente, chamas azuis lambiam os cadveres 
com rudos gulosos e o empireuma que exalavam trouxe-lhe  mente a imagem de um fabuloso 
banquete oferecido a seu pai pelo rei do Marrocos, no fim de um concerto: dezenas de carneiros 
assados na brasa, iluminando a noite. Sarah sentiu a saliva invadir sua boca. Quase ao mesmo 
tempo, foi tomada por um sentimento de vergonha que a tirou da sua imobilidade fascinada. Por 
aquela saliva em sua boca, por todos aqueles corpos desnudos, comestveis durante um segundo 
apenas, pela humilhao que experimentara ao agarrar o fuzil que um SS lhe entregara sorrindo, pelo 
temor que contraa suas entranhas, em meio a uma breve vertigem ela jurou vingar-se at que o 
esquecimento apagasse essas imagens e a lembrana daquele obsceno festim.  
Aps a ordem de uma kapo, quatro deportadas agarraram os membros de Sarah e carregaram-na 
at um barraco quase limpo onde se encontravam alinhados quatro ou cinco leitos, atrs de uma 
cortina vermelha. Ao fundo, havia uma banheira cheia onde as mulheres deixavam-se cair. Sarah 
deu um grito, a gua estava  
gelada. Tentou levantar-se, mas uma das deportadas disse em francs:  
-  melhor ficar quieta, assim vai acabar logo; precisamos te lavar...  
- Me lavar?  
- , tem de agradar a Bertha...  
- Bertha, a gorda?  
- A doutora do campo. No  seu nome, foi um apelido que a gente lhe deu. Gosta de mulheres. 
Quando deseja alguma, manda ela tomar banho antes de us-la e depois...  
- Cale-se - ordenou uma deportada que j fora muito bonita.  
- Na minha terra, costumam dizer que um homem prevenido vale mais que dois, uma mulher ento!...  
Enquanto conversavam, lavavam seu corpo e seu cabelo com um sabonete rosa de cheiro enjoativo. 
A gua, apesar de fria, trazia a Sarah um certo bem-estar.  
- Voc deve ter cado nas boas graas da Bertha, pois teve direito ao seu sabonete. Na semana 
passada, a pequena iugoslava s pde usar o sabo feito com a gordura de judeus.  
- Cale-se, no tem provas!  
- Provas? Que provas? No acha que eles sejam capazes de tudo, em sua monstruosidade?... E 
voc, sua sonsa, com ares de moralista, bem que aceita fazer certas tarefas, em troca de uma tigela 
suplementar de sopa com um pedao de salsicha!  
- J sei, j sei!... Pelo amor de Deus, cale-se!  
As lgrimas escorriam no rosto daquela infeliz enquanto enxaguava o cabelo de Sarah.  
- Seus cabelos so lindos. Por que no teve a cabea raspada como todas ns?  
- No sei.  
- Esquece, ela esteve num bordel; voc sabe que no gostam de putas carecas.  
Deitada numa cama de lenis brancos, com suas feridas tratadas,  
alimentada com uma sopa grossa e quente, vestida com uma camisa  
de pano grosseiro porm limpo, Sarah tentava compreender o que acontecia. Por que a brusca 
reviravolta? Espancam-na, abandonam- na sem cuidados, matam umas cem mulheres mas ela 
no, salvam- na das chamas, lavam-na, tratam dela, alimentam-na, sossegada, quietinha numa boa 
cama aquecida. Por qu? Teria sido melhor para Sarah se jamais obtivesse resposta.  
No era para fazer dela sua amante que a Dra. Schaeffer mandara tratar de Sarah, e sim para que 
estivesse completamente lcida diante de tudo que iria acontecer.  
Jovem mdica ginecologista que alcanara grande renome antes da guerra, a Dra. Rosa Schaeffer 
tornara-se assistente do professor Cari Clauberg, obstetra de fama internacional graas ao seu 
teste sobre a ao da progesterona e artigos sobre os mais diversos tratamentos hormonais. 
Depois de trabalhar no hospital de Kisnigshutte, Rosa Schaeffer passara a auxiliar o professor em 
suas experincias na esterilizao das mulheres de raas consideradas inferiores no campo de 
Auschwitz, juntamente com o enfermeiro Bnning e o qumico Gbel, representantes dos 
laboratrios Schering-Kahlbaum. Completamente insensvel, assistira e participara da esterilizao 
de dezenas de mulheres, todas elas judias, de origem francesa, holandesa, belga, grega, polonesa, 
russa... Cari Clauberg e Rosa Schaeffer, casal monstruoso e de um ridculo atroz, ele com 1,50m 
de altura e ela 1,75m!... Enviada a Ravensbrck para dirigir a maternidade, associara-se ao Dr. 
Herta Oberheuser, assistente do professor Carl Gebhardt, amigo e mdico de Himmler, que 
testava com certas prisioneiras a eficcia das sulfamidas. Vrias cobaias, que ele chamava 
carinhosamente de suas "coelhinhas", morreram e outras ficaram mutiladas para o resto da vida.  
Em Ravensbrck, a Dra. Schaeffer sentiu-se atrada pelo que havia de mais desprezvel dentre o 
pessoal do campo e dentre os deportados de direito comum ou as prostitutas. Pobres das jovens 
e das mulheres convidadas s suas festas: costumavam sair direto para a cmara de gs, ou 
morrer de "ataque cardaco" provocado por alguma injeo letal. O fato de ser escolhida pela 
gorda Bertha significava a morte. Vrias deportadas ainda muito bonitas sujavam o rosto com graxa ou terra para no serem notadas pela terrvel  
amazona que apreciava a carne fresca e curtia a humilhao de suas  
conquistas. H anos, acostumara-se ao temor que provocava em  
seus colaboradores e nas prisioneiras; por isso, a revolta de Sarah  
transtornara violentamente aquela diablica mulher.  

Captulo 3

Todas as convices corriqueiras e burguesas de Esteile e Lisa de Montpleynet haviam
desaparecido durante aqueles quatro anos de domnio alemo, os fatos que ocorreram aps a 
Libertao, o clima de dio e desconfiana no qual se encontrava mergulhada a Frana, e a 
penria cujo fim ainda estava muito longe. O conflito acabara, mas nada era como antes; as 
restries alimentares, de tecido e carvo, continuavam idnticas ao perodo de ocupao nazista. 
Elas no passavam de senhoras idosas, assustadas com as incertezas do futuro. Pensaram que, 
com o fim dos combates, as privaes tambm acabariam. Entretanto, com o passar do tempo, 
no puderam deixar de perceber que sua vida agradvel de antes da guerra deixara de existir. No 
momento, o cotidiano apresentava-se to difcil quanto os anos negros: restries, penria, 
cartes de racionamento, filas interminveis diante das lojas vazias. Sem o trfico de Laure, no 
conseguiriam subsistir, sem falar no dinheiro que comeava a escassear. Moralmente, era pior 
ainda: a desonra de Franoise recaa sobre elas. Pouco a pouco, os amigos deixaram de visit-
las. Lisa no conseguia aceitar o fato de no ter mais com quem jogar bridge. Esteile revelava um 
temperamento mais enrgico, embora sofresse mais profundamente; censurava-se por no ter 
sabido proteger as filhas da sobrinha Isabeile, e por no ser bastante rigorosa diante dos atos de 
La e do comrcio duvidoso de Laure. A pobre mulher nem contava mais com o amparo das 
preces:  
perdera completamente a f. Isso representava todo seu drama  
ntimo. Freqentemente, a lembrana do padre Adrien vinha  sua mente, S o medo de magoar as 
sobrinhas e principalmente Lisa, que sempre fora considerada como uma verdadeira filha, impedia 
Esteile de pr fim  vida, seguindo o exemplo do dominicano.  
As senhoritas de Montpleynet tiveram de aceitar a realidade:  
sua fortuna acabara. S lhes restava o apartamento da rue de Universit e uma casinha em 
Langon, nas margens da Gironde, comprada graas aos conselhos de Pierre Delmas, com o objetivo 
de, com a idade avanada, ficarem mais prximas de sua querida Isabelle. O velho tabelio fora 
bastante claro: precisavam vender o apartamento e morar em Langon. Mas o que seria de Franoise 
e do menino, de Laure e Lisa, responsveis por Charles? A resposta foi dada por Franois 
Tavernier, por ocasio de uma visita quando se encontrava em Paris.  
- Senhoritas, esto cobertas de razo em querer sair da capital.  
- Mas o que vai ser das crianas? Para onde vo?  
- Podem ficar em Montillac.  
- Montillac ! ... mas Montillac  uma runa s, segundo fomos informadas.  
- Runas podem ser reconstrudas. Olhem  sua volta:  o que est ocorrendo por toda parte.  
- Mas as meninas no tm dinheiro, e nem ns, infelizmente!  
Estelie no pde conter uma lgrima que enxugou discretamente. No entanto, Franois percebeu 
tudo, embora disfarasse.  
- Receberam notcias de La? Deixei-a em Berlim j faz um ms; depois disso, no soube mais 
nada.  
- No escreve muito. Sua ltima carta levou quinze dias para chegar. S a recebemos h cerca de 
uma semana. Ela comenta sua sada de Berlim. Tome, quer ler?  
Estelle tirou do bolso uma missiva escrita numa folha de papel azul. Franois comoveu-se ao 
reconhecer a letra grande e desordenada.  
Queridas tias, minha pequena Laure, querida Franoise e querida Ruth,  
Uma palavrinha apenas, pois a portadora vai pegar o avio  
daqui a pouco. Recebi ontem sua carta e as fotos, muitssimo obrigada. Charles est uma gracinha, e como 
parece com a me! Laure usa un chapu que me agrada muito, vou pedir emprestado quando voltar; o novo 
penteado de Franoise fica-lhe muito bem; o pequeno Pierre no saiu bem na foto - deve ter-se mexido - e 
no d para ver seu rosto. A vida em Paris parece bastante difcil e o abastecimento continua complicado. 
Aqui acontece o mesmo, s comemos conservas americanas. Quanto a mim, est tudo bem apesar das 
condies de trabalho muito penosas. Voltei ontem de uma misso de trs dias ao Bltico, perto de Schwein. 
Fez um tempo lindo. Eu trouxe de volta um prisioneiro francs e dois belgas. Os outros carros estavam 
lotados. Tive de viajar  noite durante quatro horas, com os faris em pssimo estado, e quando comeou a 
chover sem limpadores de pra-brisa, no enxergava quase nada e continuei rodando na mais completa 
escurido. Tinha toda a certeza de no conseguir voltar s e salva e me sentia to tensa que cheguei a 
desejar um acidente para acabar logo com aquele pesadelo. Mas deve existir um Deus para as motoristas e 
cheguei bem, mas de pssimo humor! Convivemos muito bem com os soviticos, facilitam as coisas para ns, 
no so como os anericanos que s trazem problemas. Viajei cento e cinqenta quilmetros com um russo 
que ajeitava meu casaco nos ombros sempre que escorregava. Quando estamos juntos em misso, dividimos 
suas refeies. Aqui est o cardpio tpico: caf da manh, sopa; almoo, pur de batata e rabanete; jantar 
sopa; e no dia seguinte, exatamente a mesma coisa. Como podem ver nada de muito apetitoso para algum 
guloso como eu. Ainda bem que tem vodca. Podem ficar sossegadas, no bebo muito. Nossos amigos, porm, 
podem ingerir quantidades inacreditveis. No sei como a conseguem, pois a venda de lcool sofre um 
controle muito rgido.  
Ser que podem me mandar algum dinheiro? No tenho mais nada. Vou devolver tudo, pois a CRF' me deve 
muito. Comprei uma mquina fotogrfica espetacular Claire Mauriac tirou vrias fotos 
de mim ao lado de minha ambulncia; aproveito para mand-las junto com a carta. Comprei 
tambm 35 maos de cigarros. Estou dura.  
Franois Tavernier deixou Berlim h uma semana. Sinto muito a sua falta.  
Que idia  essa de querer vender o apartamento da rue de l'Universit e morar em Langon? 
Quanto a mim, nem pensar em ficar naquela regio, com tantas lembranas terrveis. Quando 
eu voltar encontraremos uma soluo. Pretendo trabalhar Por enquanto, Laure precisa se 
virar A propsito, minha querida Laure, voc pode conseguir sapatos para mim? S tenho um 
par e no sei quanto tempo mais vo agentar! Obrigada, irmzinha. Conto com voc.  
Tomem conta de Charles e dem-lhe mil beijos por mim. Penso muito nele.  
Preciso acabar essa carta porque j me avisaram que o avio est partindo. Cuidem-se bem, 
e mando beijos e abraos para todos.  
Sua La  
Franois dobrou a carta.  
- Coitada! Como consegue dirigir transportes to pesados?  
- comentou Lisa, mostrando as fotos que La enviara.  
A linda motorista parecia to melanclica, sentada, com as pernas balanantes, no degrau do 
veculo, cercada por trs colegas sorridentes! Em outra fotografia, via-se La com o uniforme 
cinza da Cruz Vermelha, com o quepe regulamentar, de luvas nas mos, o n da gravata 
impecvel, em p diante das ambulncias bem alinhadas, durante a revista do comandante Rozen.  
Ao devolver as fotos, Franois Tavemier lembrou-se de que no possua nenhum retrato dela.  
- Como ela parecia, na ltima vez que voc a viu? - perguntou Esteile.  
- Espetacular - comentou Franois, sorrindo.  
- Como?  
- Desculpe... eu quis dizer muito bem, parecia muito bem.  
- No muito cansada pelo trabalho?  
- Um pouco, claro; mas La  muito forte, muito corajosa. Seus superiores no lhe poupam elogios. 
Apesar de ser a mais bonita,  adorada por todas as colegas.  
- Ficamos muito felizes. Eu me preocupo tanto com essa menina; tem a sensibilidade da me e a 
teimosia do pai.  orgulhosa e obstinada, forte como voc bem disse, mas to frgil...  
- Sei muito bem,  por isso mesmo que ela consegue ser to atraente, to encantadora.  
- Receio que ela tenha uma certa dificuldade para adaptar-se  vida normal, casar-se, ter filhos. No 
acha?  
Como aquelas senhoritas de Montpleynet eram encantadoras, to ingnuas e puras, sobretudo Lisa, 
com seus cachos louros onde o cabeleireiro colocara reflexos de uma tonalidade rosa bastante 
acentuada.  
Franois ignorou a pergunta.  
- Vamos falar de seus projetos. O dinheiro da venda do apartamento ser suficiente para seu 
sustento? Peo desculpas se sou indiscreto...  
- Por favor, estamos entre amigos e no ponto em que chegamos... segundo nosso tabelio, sim, sem 
grandes extravagncias,  claro. Mas isso no resolve o problema de nossas sobrinhas.  
- Posso ajudar.  
- Como assim?  
- Emprestando o dinheiro para as obras de Montillac...  
-Mas...  
- Deixe-me continuar: esse dinheiro ser devolvido quando suas sobrinhas receberem as 
indenizaes de guerra...  
- No ser suficiente!  
- Vocs se esqueceram do produto da vindima. O vinho de Montillac  de excelente qualidade.  
- Mas no h mais ningum para tomar conta da propriedade.  
- No se preocupem, vamos encontrar. O mais importante  que Franoise, La e Laure aceitem. 
Vocs acreditam que elas concordem?  
- Franois, penso que para ela nada disso importa. L ou aqui, tanto faz; ela se sente profundamente 
infeliz e no sabemos o que fazer para atenuar sua tristeza. Laure ainda  menor e talvez possamos 
convenc-la a vir conosco; seria uma boa maneira de separ-la das pessoas com quem anda saindo. 
Quanto a La, pelo contedo de sua carta, ficou claro que ela nem pensa em voltar a Montilac.  
- No  bem assim. La nasceu l, est muito ligada quela regio. O que ela mais receia  
encontrar a casa em runas; depois de reconstruda, tudo voltar ao normal.  
- Acha mesmo?  
- Claro, ela vai gostar de reerguer a propriedade em homenagem aos pais. Alis, nem tem outra 
opo! Vocs deveriam aceitar minha proposta.  
Lisa suspirou, Estelie baixou a cabea. As trs permaneceram caladas.  
- Posso lhe fazer uma pergunta indiscreta? - disse Esteile.  
- Por favor.  
- Bem...  difcil para mim, peo desculpas... mas preciso perguntar antes de aceitar sua generosa 
oferta... Quais so seus sentimentos em relao a La?... Quais so suas intenes?  
- O que pretende me dizer : tem a inteno de se casar com ela? - disse Franois com uma ironia 
que no conseguiu disfarar.  
- Isso mesmo.  
- Para responder com toda a franqueza, o assunto exige reflexo...  
- Como? - disseram ao mesmo tempo as duas irms.  
- ... O que quero dizer  que no estou convicto de que La seja uma boa esposa e menos ainda de 
que me aceite como marido.  
- Nesse caso... - disse Esteile, levantando-se.  
- Sente-se, senhorita, no tive a inteno de ofend-la; s quis lhe dizer que no depende de mim, e 
sim de La. Para responder mais simplesmente  sua pergunta, sim, eu me casaria com sua sobrinha 
com o maior prazer.  
As velhas senhoritas deixaram escapar um profundo suspiro de alvio.  
- Que susto me deu! - exclamou Lisa com uma voz abafada, abanando-se com o leno.  
Esteile nada disse, apenas sorriu.  
- Com sua permisso, senhoritas, vou conversar com o tabelio. Qual o nome dele?  
- Sr. Loiseau, mora no bulevar de Courceiles.  
- Muito bem, falarei com ele durante a semana.  
Franois Tavernier encontrou-se com o tabelio e apresentou uma proposta de compra do 
apartamento extremamente vantajosa para as velhas senhoritas, com a condio de que o nome do 
comprador fosse mantido em segredo at nova ordem. Em companhia de Franoise, viajou para 
Montillac para verificar o estado da propriedade. Os estragos eram menos srios do que pensara. 
Todo o telhado precisava de reparos, assim como parte da estrutura; quanto ao resto, aps uma boa 
limpeza, bastava pintar ou forrar os vrios cmodos, e comprar novos mveis.  
Franoise mal pde esconder a emoo ao rever o local de sua infncia.  
- No pensei que nossa casa querida tivesse sofrido tanto!  
Mas voc est certo, temos de morar aqui. Quanto a mim, j decidi  
e virei para c com meu filho. Aqui vou conseguir esquecer e educar  
o menino da melhor maneira possvel. Espero convencer Laure e  
La a fazerem o mesmo.  
- Tomou a deciso correta, e desejo que suas irms pensem da mesma forma.  
- No caso de La, no sei. Parece-me que s voc pode convenc-la. Laure me preocupa mais. 
Acostumou-se a um tipo de vida fcil, agitada, tipicamente parisiense. No consigo imagin-la na 
vida simples e calma da provncia.  
- Penso da mesma forma. Mas ser que pode deix-la sozinha em Paris? Ela  muito nova.  
- De qualquer maneira, Laure far o que ela quiser. Sei perfeitamente que j pensava em sair do 
apartamento da rue de l'Universit e mudar para um quarto-e-sala, na rue Grgoire-deTours. 
Conheo-a muito bem; se j resolveu morar em Paris, nada  
far com que mude de idia. Ela consegue ser ainda mais teimosa que La.  
Aps ouvir a opinio de Franoise, Tavernier deixou as obras a cargo de um arquiteto de Bordeaux 
que se comprometeu a fornecer um oramento o mais rpido possvel.  
Graas aos cuidados de um vizinho, os vinhedos encontravam- se em bom estado. O Sr. Testard, 
muito simptico, recomendou um parente seu como administrador. Prisioneiro durante quatro anos, 
Alain Lebrun passara todo o cativeiro numa propriedade vitcola nas margens do Reno; na ausncia 
do dono e dos filhos, todos eles combatentes, obtivera excelentes resultados. De tal forma que a 
dona da propriedade, sem notcias dos homens ao fim da guerra, chegou a lhe oferecer uma de suas 
filhas em casamento. Alain recusou gentilmente a proposta e, logo aps as vindimas, s pensava em 
regressar.  
-  um homem muito correto - comentou Testard, ele ama e respeita a terra; aceitou ficar at o fim 
das vindimas. As senhoritas Delmas no encontraro ningum melhor do que ele, posso garantir. J 
mandei uma carta para sond-lo quanto s suas intenes; respondeu que se as senhoritas o 
contratassem, de sua parte no haveria o menor problema.  
- Lembro-me dele - respondera Franoise. - Trata-se de um rapaz de minha idade, sem famlia e sem 
dinheiro. Foi educado por um tio tanoeiro em Saint-Macaire. Quando jovem, era muito trabalhador e 
calado. Se no mudou,  exatamente o tipo de pessoa de que precisamos em Montillac.  
Franoise escreveu a Alain Lebrun e marcaram um encontro assim que ele voltasse.  
Os dois meses seguintes passaram muito rpido e, no incio do vero, as senhoritas de Montpleynet 
deixaram Paris com Franoise, seu filho e o pequeno Charles. Laure aceitou vir passar as frias 
mas recusou instalar-se definitivamente em Montillac; chegou a dizer que fugiria se as tias 
obrigassem-na a ficar. Vencidas pelo cansao, suas tutoras concordaram em alugar o quarto-e-sala 
da rue  
Grgoire-de-Tours. Em sinal de agradecimento, Laure prometeu retomar os estudos e ajudar nas 
reformas de Montillac.  
De acordo com Franois Tavemier, La no fora informada dessas grandes mudanas na vida da 
famlia.  
- Ser uma surpresa - disse Franois.  
As primeiras semanas foram marcadas por uma grande euforia e um terrvel caos. A casa de 
Langon era muito pequena para receber tanta gente. Acomodaram-se da melhor forma possvel em 
Montillac; o tempo estava lindo, aquele tipo de acampamento divertia crianas e adultos e as obras 
progrediam rapidamente.  
Franoise e Laure experimentaram uma profunda alegria ao rever Ruth, a velha governanta. Como 
parecia diferente!... Guardavam a lembrana de uma mulher na fora da idade e agora... suas mos 
trmulas revelavam todos os sofrimentos por que passara. Ruth era muito querida e dizia que a vida 
continua, que a infncia no desaparecera por completo, pois quem costumava contar lindas 
histrias, cantar suaves canes, continuava viva e contando como antes histrias de fadas e lobos, 
monstros e belas princesas adormecidas para dois garotinhos que, instintivamente, chamavam-na de 
v Ruth. 

Captulo 4

Aps dois meses de hospital, Sarah Muistein fora acolhida pela famlia do major George McClintock
em sua imensa propriedade no norte da Esccia. Ali, cercada de cuidados e afeto, sua sade
melhorara com surpreendente rapidez, na opinio dos prprios mdicos. Um deles, mais perspicaz,
preocupava-se com seu estado mental. Ela se recusava obstinadamente a falar do que acontecera 
na Alemanha, dando a impresso de optar pelo esquecimento. No entanto, havia algo contraditrio: 
assim que seu cabelo voltou a crescer, ao se sentir bastante forte, raspou tudo. Diante das perguntas 
de seus hospedeiros, limitou-se a responder, com profunda ironia, que se julgava mais bonita assim. 
Lady Mary, me de George McClintock, mandou vir uma linda peruca de Londres; Sarah agradeceu 
rispidamente e acrescentou que no poderia us-la, pois lembrava-se de outras cabeleiras enviadas 
aos milhares dos campos para fbricas de tecidos. Esta foi uma de suas raras aluses ao universo 
dos campos de concentrao nazistas no decorrer de sua estada. Embora chocados com sua atitude, 
todos agiram com tato e compreenso.  
No outono, ela comunicou sua inteno de voltar  Alemanha a fim de tentar saber o que 
acontecera com o pai e os primos, assim como toda a famlia do marido.  
George tentou dissuadi-la.  
- Eu tinha famlia em Berlim e Munique; quero saber se ainda restam sobreviventes. Alm do mais, o 
processo dos criminosos  
nazistas vai comear. No posso perder este acontecimento e fao questo de prestar meu 
testemunho.  
- S h runas em Berlim, e o mesmo deve ocorrer em Munique e em todas as grandes cidades da 
Alemanha.  
- Sei, mas quero ir mesmo assim. No precisa viajar para Nuremberg? Ento me leve.  
- Voc no est em condio de voltar para l!  
- Engano seu. Se no quiser me levar, irei sozinha.  
McClintock acabou cedendo e tratou de todas as formalidades.  
Acompanhou Sarah at Munique antes de viajar at Nuremberg. Na antiga capital da Baviera, ela 
teve a grande alegria de encontrar um de seus primos, Samuel Zederman, jovem advogado antes da 
guerra, que conseguira escapar da polcia por um milagre no dia em que sua famlia foi detida: pais, 
avs, irmos e irms. Todos deportados para Mauthausen.  
Samuel sobreviveu escondido no poro de sua namorada no- judia; esta, durante dois anos, trouxe-
lhe comida e o protegeu sem que ningum soubesse. Com a freqncia cada vez maior dos 
bombardeios, acostumaram-se a passar todas as noites no poro. L nasceu uma menininha que 
morreu durante o parto, e que foi enterrada pelos pais, desesperados, num canto qualquer. Certa 
noite, sua amiga no apareceu; ele esperou em vo durante vrios dias. Finalmente, quando tomou a 
deciso de sair, louco de angstia e fome, no reconheceu mais nada. A sua volta, s restavam 
runas onde vagavam criaturas cinzentas, procurando comida entre os destroos. Caminhou muito 
at encontrar um prdio quase intacto, erguendo-se solitrio em meio aos escombros; no trreo, 
havia um bar com as vidraas substitudas por cartolina. Do lado de dentro, uma nica lmpada a 
querosene ou a leo mal iluminava a sala onde se encontravam seres humanos sentados em bancos 
diante dos mais variados recipientes, dos quais saa um filete de vapor. Todos se empurraram para 
que ele pudesse sentar-se tambm e, sem qualquer comentrio, uma moa magra e plida colocou  
sua frente uma tigela rachada cheia de um lquido fumegante. Agradecido, ele pegou a vasilha; o 
paladar era indefinvel, porm o lquido estava  
quente. Sentiu uma violenta vertigem e desmaiou. Ao recobrar os sentidos, a sala encontrava-se 
vazia, as sirenes rugiam. Logo em seguida, as primeiras bombas explodiram. Ao seu redor, o solo, as 
paredes estremeciam, nas prateleiras os copos chocavam-se com sons cristalinos logo encobertos 
pelo rudo das exploses, enquanto pedaos de reboco caam sobre sua cabea. Era preciso fugir, 
mas antes tinha de encontrar algum alimento. Passou para trs do balco e procurou em todos os 
armrios. No fundo de um deles, encontrou um pacote de biscoitos e trs latas de leite condensado. 
Com a ponta da faca, abriu uma e ingeriu o delicioso contedo. Teve a fora de vontade necessria 
para no tomar tudo e guardou a lata na mochila que se lembrara de encher com algumas roupas, 
um copo de prata, um colar de prolas que pertencera  sua me e uma foto dele em companhia da 
namorada. Mal sara do local, uma bomba pulverizou o prdio. O deslocamento de ar atirou-o  
distncia. Levantou-se atordoado, tossindo, porm inteiro, em meio a uma espessa nuvem de poeira. 
S se ouvia o rudo dos avies afastando-se no cu e o crepitar das chamas saindo do edifcio 
destrudo. Apalpando tudo  sua frente, ele se afastou do fogo, tropeando nos destroos. Pouco a 
pouco, a nuvem de poeira tornou-se menos densa. Assim como espectros, erguiam-se criaturas com 
aspecto vagamente humano, que pareciam surgir da sombra; nem um s grito, nem pranto, nem o 
menor gemido, apenas gestos em cmera lenta. Em seguida, formou-se uma pequena multido 
silenciosa que se afastou lentamente. Samuel misturou-se quela gente: havia principalmente 
mulheres, cobertas de um p que ocultava sua idade, homens j bastante idosos e encurvados e 
crianas que caminhavam sempre para a frente, sem pressa e sem destino.  
Quanto tempo durou seu priplo atravs da Alemanha devastada, fugindo dos bombardeios, dos 
bandos de assaltantes, dos soldados desertores? Nunca soube exatamente. Certo dia, despertou  
beira de uma estrada, apoiado num imenso soldado negro americano que lhe dava gua.  
Quando Sarah e ele se encontraram, o jovem e brilhante advogado servia de intrprete s tropas 
francesas e americanas, e procurava saber o que acontecera  sua famlia. Conseguiu convencer  
o comando francs da regio da necessidade de uma intrprete feminina para lidar especificamente 
com as crianas. Certo dia, acompanharam um comboio da Cruz Vermelha Internacional 
encarregado de repatriar inmeros rfos que viajavam na companhia de mdicos e enfermeiros 
alemes. Ao descer do trem, cada criana recebia um copo de leite quente e um tablete de 
chocolate. As crianas, em sua maioria vestidas com roupas desbotadas, magras, os ps envoltos 
em trapos, olhos imensos e esbugalhados e rostos macilentos e sujos, em estado de choque, fitavam 
aquelas gulodices com certo receio antes de engolir tudo num segundo, com um brilho no olhar.  
Samuel chamou um dos dois mdicos identificveis pela braadeira e perguntou qual deles era 
responsvel pelo comboio.  
- Das bin ich 
- Sou eu.  
- respondeu uma robusta e bonita mulher.  
Ao ouvir aquela voz, Sarah deteve-se, aterrorizada. Com um esforo incrvel, conseguiu virar-se, 
mas os olhos turvos pelas lgrimas no distinguiam os traos do rosto: s pde observar, em meio a 
uma espcie de nvoa, que a mulher usava o uniforme azul da Cruz Vermelha... Devia estar 
sonhando, no era possvel.  
- Die Kinder sind blutarm, aber im aligemeinen ziemlich gesund, nicht Wahr Inge?  
- Ja, Frau Doktor wie haben unser Bestes getan, um sie zu pflegen
- As crianas esto anmicas, mas, no conjunto, seu estado de sade  bom. No , Inge?  
- Sim, doutora, fizemos o melhor possvel. 
- disse uma enfermeira 
que se encontrava a seu lado.  
Essa outra voz?...No!... No!...  
Deve ter gritado, pois Samuel voltou correndo.  
- O que houve? Voc no est bem, o que foi que aconteceu?  
Sarah tremia, incapaz de falar, sem ar, lvida. Ele lhe deu um tapa no rosto.  
- Aquelas assistentes da Cruz Vermelha, conseguiu articular, apontando ento para o mdico e a 
enfermeira.  
- E da? So pessoas competentes encarregadas pelos aliados de encontrar crianas perdidas por 
toda a Alemanha.  
- Mas no  possvel, elas no!  
- O que est dizendo, no entendo!  
As duas auxiliares do comboio notaram o violento transtorno daquela mulher com seu traje 
vagamente militar, e uma boina que escondia o cabelo. Havia algo de familiar nesse rosto. De 
repente, a que se chamava Inge empalideceu e murmurou no ouvido da companheira:  - Ich erkenne sie, sie war es, die euch in Ravensbrck - derstandleistete.'  
- Sprich nicht so laut, du Idiotin ?... Du hast recht!  
 - Sei quem , foi ela quem desafiou voc em Ravensbrck.  
- Fale mais baixo, sua idiota!...Voc tem razo 
Um trem chegou em outra plataforma; as enfermeiras juntaram as crianas para afast-las da beira, 
criando assim uma certa confuso que as duas alems aproveitaram: passaram por trs do grupo 
bastante agitado e dirigiram-se para a sada. Os passageiros do novo trem saltaram, formando uma 
multido desordenada, o que fez com que as duas mulheres conseguissem escapar antes que Sarah 
e Samuel pudessem reagir. Quando chegaram na sada da estao, ambas j haviam desaparecido. 
S lhes restava fazer um relatrio s autoridades americanas.  
- Voc est certa de que se trata realmente da Dra. Rosa Schaeffer, mdica no campo de 
Ravensbrck, e da enfermeira Ingrid Sauter? - perguntou a Sarah o comandante que os recebeu.  
- Absolutamente convicta. Na qualidade de mdica, ela  a responsvel pela morte de centenas de 
deportadas. Praticou em numeras mulheres uma srie de experincias que, se no as mataram, 
deixaram-nas mutiladas para o resto da vida. Sou uma delas e estou pronta a testemunhar.  
- Obrigado, senhora. Elas constam de nossa lista de pessoas procuradas por crimes. Vamos tomar 
todas as medidas para det-las.  
- Mas como puderam infiltrar-se na Cruz Vermelha?  
- No fao a menor idia, s sei que tivemos de recorrer a mdicos e enfermeiras alemes 
disponveis; nossas prprias equipes no conseguem dar conta de tudo. No  o primeiro caso de mdicos nazistas tentando valer-se 
da situao. Certas redes formaram-se para fabricar documentos falsos e encontrar esconderijos 
seguros em meio  populao. Existem outras especializadas em retirar do pas os elementos mais 
comprometidos. Grande parte dos servios aliados vem procurando desmantelar tais redes. No  
nada fcil, pois boa parte da populao tornou-se cmplice e os procurados ainda podem contar com 
a ajuda externa. No caso que nos interessa, no dever ser to complicado encontrar aquelas duas 
mulheres.  
Durante os dois dias que se seguiram quele sinistro encontro, Sarah permaneceu prostrada no 
quarto, sem falar com ningum. Samuel Zederman, consciente do choque que sua prima recebera, 
deixou-a em paz at o momento em que no agentou mais.  
- Voc no pretende ficar trancada aqui sem fazer nada, esperando simplesmente que as tragam de 
volta. Alis, quem disse que os americanos conseguiro encontr-las? Existem milhares de casos 
semelhantes,  como procurar uma agulha num palheiro. Cabe-nos sair em busca dos criminosos e 
nos vingar. Mas, antes, precisamos saber se existe alguma chance de encontrar nossa famlia. 
Muitos sobreviventes de Mauthausen acham-se perto de Linz, em campos especiais para pessoas 
deslocadas. Vamos para l, Linz fica a apenas trs horas de Munique.  
Levaram dois dias para fazer essa viagem num trem superlotado que parava, s vezes, durante 
horas. Na chegada, aps minuciosos controles de identidade, esfomeados, correram at uma 
carrocinha onde eram vendidas bebidas quentes e salsichas. Saciados, perguntaram ao dono se 
havia uma possibilidade de encontrar um quarto na cidade. Ergueu os braos para o cu mas disse 
baixinho que sua irm talvez pudesse dar um jeito e ajud-los, por um preo razovel.  
O preo razovel acabou sendo igual ao aluguel de uma sute no melhor hotel parisiense. Mas o 
quarto tinha duas camas, uma pia atrs de uma cortina e um fogo; o maior luxo naqueles dias to 
difceis. Aps um banho rpido, foram at o recm-organizado  
comit judaico de Linz. Uma multido de homens e mulheres com o rosto emaciado e plido, onde 
sobressaa a marca azulada das olheiras, todos vestidos com roupas imensas ou muito apertadas, 
enchia os dois cmodos e a entrada do comit para consultar as listas de sobreviventes. Gritos, risos, 
lgrimas, abraos, xingamentos, injrias... Sarah saiu, empurrada, completamente atordoada pelo 
barulho. Encostou-se na parede e fumou um cigarro. Imediatamente, braos e mos estenderam-se 
 procura do mao que ela entregou. Um turbante de l escondia sua cabea raspada, o casaco que 
usava era de boa qualidade, os sapatos e a bolsa de couro verdadeiro. As pessoas que entravam 
olhavam para ela, principalmente as mulheres. Perdida em seus devaneios, no reparou logo que um 
homem, muito alto e macrrimo, encontrava-se  sua frente.  
- Em que posso ajud-la, senhora?  
Ela ergueu a cabea e sentiu-se imobilizada pelo olhar de seu interlocutor; um olhar intenso, 
profundo, inquisidor, que parecia ler seus pensamentos, um olhar bom porm triste, imensamente 
triste.  
- Obrigada, mas acho que o senhor no pode. Meu primo est l dentro.  
- Procuram por parentes, amigos?  
- Eu no procuro nada, meu pai e meu marido morreram. Toda minha famlia desapareceu, exceto 
meu primo Samuel, que ainda pensa encontrar algum.  
- Ele est certo, a esperana ajuda a viver. Muita gente consegue encontrar familiares.  
Sarah respondeu com uma risada sarcstica.  
No mesmo instante, Samuel descia as escadas apressado, o rosto coberto de lgrimas, um sorriso 
radiante nos lbios, arrastando um rapaz muito novo e assustadoramente magro.  
Ficou louco, pensou Sarah.  
- Daniel... encontrei Daniel, meu irmozinho... Deus  bom, Sarah... meu irmozinho!...  
Deus  bom! ... Mas que idia para um brilhante advogado ateu! Ela experimentava um sentimento de 
raiva. Seu olhar cruzou-se com o do rapaz, repleto da mesma clera.  
- Est vendo como no se deve perder a esperana? - comentou o desconhecido.  
- Claro - disse Sarah, bastante rspida.  
Samuel chegava sem largar o irmo.  
- Daniel, voc no a conhece,  nossa prima Sarah Muistein, abrace-a.  
Abraaram-se sob o olhar atento do estrangeiro.  
Simon, ande logo, precisamos de voc - disse uma mulher saindo da sala.  
- J vou. At logo e boa sorte.  
Sarah o deteve.  
- Por favor, conhece o responsvel pelo comit?  
- Sou eu.  
- Gostaria de conversar,  muito importante. Quando podemos falar?  
- V hoje  noite at minha casa, na Landstrasse; por volta das oito.  
- Obrigada. Meu nome  Sarah Muistein.  
- Eu sou Simon Wiesenthal.  
Durante o almoo, Daniel contou rapidamente, friamente, sem detalhes, como fora preso com os 
pais. Falou da chegada ao campo onde seus avs foram imediatamente assassinados na cmara de 
gs. Certo dia, sua me e suas irms desapareceram; deviam ter sido mandadas para Ravensbrck. 
Quanto ao pai, morrera de esgotamento em seus braos.  
Ele tinha pouco mais de dezoito anos, falava num tom aparentemente calmo e sem qualquer 
emoo. Sarah experimentou logo uma grande atrao ao v-lo, mas ele desconfiou daquela mulher 
to bonita apesar das cicatrizes em seu rosto, muito elegante na sua opinio. Mais tarde, quando ela 
tirou o turbante e mostrou o nmero em seu brao, Daniel deixou de ficar sempre na defensiva e 
atirouse em seus braos chorando. Durante alguns minutos, ele se sentiu em segurana como um 
beb no seio da me. Daquele dia em diante, nasceu entre eles um sentimento de fraternidade, uma 
certa cumplicidade, uma compreenso total do temperamento do outro. Foi a nica vez em que ele teve pena 
de si prprio.  
Sarah insistiu para ir sozinha  casa de Simon Wiesenthal.  
O apartamento era composto de um s cmodo modestamente mobiliado e cujas janelas davam para 
um jardinzinho. Era justamente por causa desse jardim que Wiesenthal fora atrado.  
- O que posso fazer para ajud-la?  
- Pode ajudar a me vingar.  
- Eu j sabia que se tratava disso. Li em seus olhos. Entendo seu sentimento, mas no o aprovo. O 
que eu quero  justia.  
- Como pode falar de justia, se viu como eu o horror nazista?  
- exclamou Sarah, exasperada.  
- Por isso mesmo. Devemos dar nosso testemunho ao mundo. No acredito na culpa coletiva do 
povo alemo. Pessoalmente, posso afirmar que soldados da SS revelaram um comportamento 
humano para com os presos judeus...  
- No devem ser muitos - interrompeu Sarah com uma risada irnica.  
- Basta um justo apenas, lembre-se de Sodoma e Gomorra...  
- Ah, no! No vim at aqui para ouvir suas citaes da Bblia. Se Deus existiu alguma vez, deve ter 
morrido nos campos de concentrao.  
- Voc conseguiu sair viva e eu tambm. Por qu? Por que fomos poupados enquanto centenas de 
milhares morreram assassinados?... O que fizemos para termos o direito de sobreviver? No nos 
cabe justificar esse favor do destino? Eu tambm, num primeiro momento, pensei em vingana; toda 
minha famlia foi exterminada, minha me levada na minha frente, minha esposa que eu considerava 
morta... para quem viver, por que viver?, pensava eu. Quanto mais o tempo passa, mais aumenta a 
lista dos desaparecidos... Mataram gente aos milhes...  
- E todos esses milhes de mortos no exigem vingana?  
- No, s pedem justia. Pedem que seus assassinos sejam denunciados abertamente e que o mundo 
inteiro saiba o que fizeram; exigem que no se esqueajamais, que nossos filhos e os filhos  
de nossos filhos nunca deixem de se lembrar o que aconteceu para que no volte a acontecer nos 
prximos vinte anos, cem anos...  
O cmodo era muito pequeno para aquele homem magro e alto que andava de um lado para o outro, 
fazendo grandes movimentos com os braos, ele que parecia to calmo no incio da conversa; agora, 
ele deixava transparecer uma violenta emoo.  
- ...Umjudeu que acredita em Deus e em seu povo no pode acreditar na culpa coletiva do povo 
alemo. Claro, ele no desconhecia totalmente as atrocidades que estavam sendo cometidas atrs 
dos arames farpados nos campos da morte; de medo, de vergonha, todos preferiam desviar o olhar 
diante das lojas de judeus destrudas, diante dos vizinhos judeus presos, das crianas expulsas das 
escolas, das cruzes gamadas sujando as vitrines de judeus...  
- Tudo o que est dizendo mostra que os alemes sabiam, e no entanto continua afirmando que a 
culpa deles no  coletiva?  
- Ns, judeus, no sofremos durante milhares de anos, porque ramos acusados de ser 
"coletivamente culpados", todos, inclusive as crianas ainda no nascidas, da morte de Cristo, das 
epidemias da Idade Mdia, do comunismo, do capitalismo, das guerras desastrosas e dos tratados de 
paz igualmente desastrosos? Todos os males da humanidade, desde a peste at a bomba atmica, 
so "a culpa dos judeus". Somos os eternos bodes expiatrios. Ns sabemos perfeitamente que no 
somos coletivamente culpados; ento, como poderamos acusar outro povo pelos crimes cometidos 
por alguns de seus filhos? Entretanto, peo a Deus que me d a fora necessria para levar a cabo 
minha tarefa: nenhum criminoso pode julgar-se em segurana; em qualquer parte do mundo e at o 
fim de seus dias, ns iremos busc-lo a fim de que responda diante dos tribunais por todos seus 
crimes contra a humanidade.  
Esgotado, Wiesenthal sentou-se numa cadeira. Sarah, transtornada, olhava para ele. Como aquele 
homem to ferido ainda conseguia falar de justia? Ela experimentou uma admirao incrdula 
diante dessa confiana na justia, diante da coragem desse homem tranqilo. Nada do que ele havia 
visto e vivenciado pudera abalar ou fazer desaparecer sua crena no homem.  
O clima do quartinho estava carregado de tamanha emoo que  
ambos permaneceram durante longo tempo mergulhados em seus pensamentos. Sarah conseguiu 
reagir primeiro.  
- Eu o admiro muito mas no posso segui-lo. Sei que no poderei viver se no me vingar, no s do 
mal que me fizeram, como tambm do que fizeram aos outros. Sei que existem listas de criminosos, 
de testemunhos que foram enviados a Nuremberg para a preparao dos processos. A nica coisa 
que lhe peo so os nomes dos criminosos de Ravensbrck.  
- Tais nomes encontram-se nas mos das autoridades aliadas. Todos sero julgados e punidos em 
funo de seus crimes. Voc no  a primeira e no ser a ltima a me fazer esse pedido. Ns, as 
vtimas, devemos aceitar o fato de delegar nossa vontade de vingana aos tribunais e respeitar seu 
julgamento, seja qual for. Ns,judeus, no devemos ter o mesmo comportamento dos nazistas que 
mataram homens porque pensavam ter tal direito. Matando-os sem julgamento, estaramos agindo 
como eles.  
- No! Nunca irei acreditar nisso! Nunca! No posso esperar que desapaream em meio  massa 
"inocente". Alguns dias atrs, vi dois dos monstros de Ravensbrck vestindo o uniforme da Cruz 
Vermelha. Juro que farei o impossvel para encontr-los e mat-los, pois s a morte pode impedir 
esses vermes de espalhar a epidemia nazista.  
- A nica coisa que vai conseguir so novos sofrimentos.  
- No me importo. Perdi minha alma naqueles campos. Voc continua com a sua... Essa  a grande 
diferena.  
Sarah saiu sem um palavra de despedida. Sentado na cadeira, Simon Wiesenthal chorava. 

Captulo 5

Profundamente transtornada, La deixou a sala de audincia superaquecida do Palcio da Justia
de Nuremberg. No agentava mais ouvir toda aquela enumerao de atrocidades, e os filmes 
sobre os campos de concentrao de Dachau e Buchenwald esgotaram sua resistncia. Durante a 
projeo, com os fones nos ouvidos para entender todas as intervenes em ingls, 
completamente fascinada, ficara olhando, examinando os rus. Um silncio incrvel reinava na 
sala. Como que agarrado ao assento, Hans Fritzsche, chefe da propaganda no rdio, observava 
as imagens atrozes com uma expresso de grande sofrimento; Hjalmar Schacht, presidente do 
Reichbank, o tempo todo de cabea baixa, recusava-se a olhar para a tela; Hans Frank, ex-
advogado, governador geral da Polnia, chorava enquanto roa as unhas, ou tapava os olhos com 
as mos; Franz von Papen, chanceler do Reich, mantinha-se ereto, imvel; Baldur von Schirach, 
protetor da Bomia e Morvia, chefe da Juventude Hitierista, com seu belo rosto plido e srio, 
olhava atentamente, ofegando em certos momentos; Rudolf Hess, com olhar demente, 
embrulhado num cobertor, parecia no entender onde estava; Albert Speer, ministro do 
Armamento, ia ficando cada vez mais triste; o almirante Doenitz agitava-se, com a cabea baixa 
praticamente o tempo todo; Hermann Goering, marechal do Reich, encostado no "corrimo", 
lanava olhares desanimados  sua volta; Joachim von Ribbentrop, ministro das Relaes 
Exteriores, levava as mos trmulas  testa; Julius Streicher, diretor do jornal 
Der Strmer mantinha-se imvel, sem qualquer sinal de emoo aparente; Alfred Rosenberg, 
filsofo das doutrinas nazistas, saqueador dos objetos de arte europeus, agitava-se o tempo todo; 
Ernest Kaltenbrunner, chefe da segurana de Himmler, parecia entediado; o general Alfred Jodi, 
rgido, tinha um ar mais prussiano do que nunca; o marechal Wilhelm Keitel, igualmente rgido, 
desviava o olhar; Arthur Seyss-Inquart, chanceler da Austria, limpava os culos, impassvel; 
Constantin von Neurath, ministro das Relaes Exteriores, olhava para baixo quase que o tempo 
todo; Wilhelm Fnck, ministro do Interior, sacudia a cabea como se quisesse afastar alguma mosca; 
Walter Funk, ministro da Economia, soluava; Fritz Sauckel, chefe de recrutamento do trabalho 
obrigatrio, de boca aberta como se estivesse com falta de ar, no parava de enxugar o rosto; 
quanto ao almirante Erich Raeder, parecia grudado no assento.  
Desde a abertura do processo, em 21 de novembro de 1945, pelo procurador geral americano 
Robert H. Jackson que pronunciara as seguintes palavras, como prembulo, "Que quatro grandes 
naes vitoriosas, embora lesadas, no exeram vingana em relao aos seus inimigos prisioneiros: 
este  um dos tributos mais importantes que uma potncia j tenha pagado  razo", La acreditava 
estar num universo de loucos ou num teatro onde era representada uma pea de terror da pior 
qualidade. Tudo lhe parecia uma grande farsa, inclusive a descrio dos horrores, e ela achava 
impossvel que atores to sem classe, to despreparados, tivessem sido capazes de representar o 
papel que um tal de Hitler lhes atribura. Apenas dois ou trs dentre eles estavam  altura de seus 
personagens: Goering era o melhor de todos, o mais fascinante; percebia-se o seu prazer em estar 
ali representando. Na mente de La, uma pergunta voltava incessantemente: como pessoas to 
comuns podiam ter chegado to longe a ponto de quase dominarem o mundo? Com a ajuda de testes 
prticos, sabia-se que a maioria dos homens julgados era de uma inteligncia acima da mdia, mas 
nada explicava que eles pudessem ter levado o conjunto do povo alemo a partilhar de suas idias. 
Era o que parecia sugerir o juiz Jackson, ainda em sua declarao de abertura: 
"Tambm gostaramos de deixar claro que no pretendemos incriminar todo o povo alemo. 
Sabemos que o partido nazista no chegou ao poder pelo voto da maioria dos alemes. Sabemos 
que tomou o poder graas a uma aliana nefasta dos piores revolucionrios nazistas, dos 
reacionrios alemes mais violentos e dos militaristas alemes mais agressivos. Se o povo alemo 
tivesse aceitado de sua prpria vontade o programa nazista, o partido no teria precisado, no 
incio, das tropas de assalto e nem, mais tarde, dos campos de concentrao e da Gestapo. Essas 
duas instituies foram criadas assim que os nazistas assumiram o controle do Estado alemo. S 
depois de provar que funcionavam na Alemanha, essas inovaes criminosas passaram a ser 
utilizadas em outros pases. O povo alemo deve saber que, de agora em diante, o povo dos 
Estados Unidos no sente nem medo e nem dio dele. Convm lembrar que os alemes nos 
ensinaram os horrores da guerra moderna."  
La no concordava com esse discurso; assim como muitas outras pessoas, estava convicta de 
que toda a Alemanha tinha a responsabilidade daqueles crimes pelos quais s uns poucos eram 
julgados.  
Sentada na cafeteria do Palcio da Justia, ela tentava esquecer sua nusea com um copo de 
conhaque. De fato, j era demais. A noite ela mandaria um telegrama para a Sra. de Peyerimhoff, 
pedindo sua demisso. A msica suave, tocada permanentemente, irritava seus nervos. Os 
organizadores imaginavam que um pouco de msica pudesse acalmar as ondas de dio que todas 
as pessoas presentes no processo dos principais criminosos de guerra nazistas, secretrios, 
advogados, intrpretes, polcia militar, experimentavam diante dos testemunhos dos carrascos e 
das vtimas! Muitos nem entendiam o motivo desse processo: aqueles canalhas no mereciam 
tanto! Culpados, todos eram, j se sabia: russos, americanos, ingleses e franceses estavam de 
acordo quanto a isso. Ento, por que essa necessidade de justificar se os criminosos seriam 
enforcados ou fuzilados? La tinha a mesma opinio. Esse processo servia apenas para confortar 
o dio dos vencidos. Nada poderia fazer com que toda a Alemanha no fosse responsvel pelo 
massacre de milhes de judeus, ciganos, russos, comunistas, membros da Resistncia, mulheres e crianas: 
massacres deliberados, genocdio programado. Como acreditar que tais atrocidades pudessem 
ocorrer sem a cumplicidade de todo o povo?  
Um conhaque, por favor - disse em ingls uma voz feminina.  
Perto dela, acabava de se sentar uma mulher alta e linda, morena, vestindo um tailleur cinza-claro 
com um leno de seda no pescoo. La lembrou-se dela no tribunal. Uma das raras mulheres 
presentes no processo. Sentada, desarvorada, com as mos triturando o leno, muito plida apesar 
da maquiagem, ela murmurou em francs:  
- Que horror!... que horror!  
Engoliu de um s trago o copo de lcool que o garom lhe trouxe.  
- Mais um, por favor. Deseja tomar alguma coisa? - acrescentou, olhando para La.  
- Queira me desculpar, no entendo ingls.  
- Ah,  francesa! Que bom para mim, em meio a tanto horror, poder encontrar uma francesa aqui. 
Mas  muito jovem para assistir a tantas monstruosidades. Quer tomar um copo? Vai lhe fazer bem. 
At eu, que detesto bebida alcolica, preciso de algo bem forte para me refazer. Ento?  
- Por que no?  
- Dois conhaques...  minha primeira viagem na Europa depois da guerra. Comeo a me perguntar 
se fiz bem em aceitar a proposta de vir para c; na Argentina, nunca iro acreditar o que vou 
contar. Oh, nem me apresentei: Victoria Ocampo, de Buenos Aires, trabalho para a revista Sur 
Estou aqui graas a uns amigos ingleses. Antes da guerra, eu costumava vir  Europa, principalmente 
 Frana. A Frana  minha segunda ptria e sua literatura a primeira do mundo... Sou incurvel, 
desculpe, acabo sempre falando de literatura. Ser que ela ainda existe depois de tudo isso, depois 
de Hiroxima?...  
Calou-se e La permaneceu em silncio.  
Aps um longo momento, Victoria continuou: 
- Voc no tem a sensao de estar assistindo aum espetculo da pior qualidade? O general Jodl no 
lembra Laurel, o Magro, como se ele dissesse a Hardy, o Gordo, colocando o capacete: "Me deixa 
fazer como eu quiser, vou pr esse capacete do meu jeito."J percebeu que esse processo  um 
assunto s de homens? Desde que sa de Londres com meu Dakota, voc  a primeira mulher que 
encontro.  primeira vista, as mulheres no parecem muito teis nesse tipo de esporte... O compl 
hitierista foi tramado por homens; no h mulher alguma entre os rus, ser por isso que tambm 
no h entre os juzes? J que os veredictos finais tero conseqncias quanto ao destino da Europa, 
no teria sido mais justo que algumas mulheres fizessem parte dos jurados? Ser que elas se 
revelaram to indignas durante o conflito? (Another cognac, please.)  
As duas mulheres permaneceram novamente em silncio.  
Em meio a seus pensamentos, nem perceberam um grupo de oficiais franceses entrando na 
cafeteria. Um deles aproximou-se da mesa e disse a La:  
- Voc no  a Srta. Delmas?  
- Sou.  
- Sou o tenente Labarrre. Estou aqui com o comandante Tavemier.  
- Franois aqui? - exclamou La, to alto que ficou logo envergonhada.  
- Sim, senhorita, ele faz parte da delegao francesa.  
- Onde ele est?  
- Estamos esperando. Pode nos dar o prazer de esperar cofosco?  
La olhou para Victoria Ocampo, que lhe disse para aceitar. As duas mulheres apertaram as mos e 
La, feliz, acompanhou o tenente, que apresentou seus companheiros. Os rapazes sentaram- se e 
comearam a conversar.  
Embora nada tivessem combinado, falaram de tudo, do preo das crticas dirigidas a Romain Gary 
por causa de a Educao  
Europia, do prmio Goncourt para Jean-Louis Bory por Minha Aldeia na Hora Alem, do 
prmio Renaudot para O Casebre Thotime de Henri Bosco, do ltimo filme de Danielie Darrieux, 
dos quarenta gramas de fumo por ms aos quais as mulheres teriam direito, do assassinato de um 
editor parisiense, da retomada da vida social, das boates de jazz abrindo em toda parte, de tudo, 
exceto do processo. La sentiu-se aliviada.  
- Hoje noite, fomos convidados por nossos colegas ingleses para o aniversrio de um deles. Seria 
bom se voc tambm viesse.  
A moa aceitou aquele convite com a maior alegria. Desde sua chegada a Nuremberg, o clima no 
era nada festivo. Toda noite, os membros das delegaes aliadas voltavam entre as runas para os 
hotis ou casas particulares completamente atordoados com tudo o que haviam visto e ouvido. Uma 
atmosfera de dio e morte reinava sobre a cidade repleta de policiais militares com capacetes 
brancos, distantes e brutais quando desafiados.  
- Pronto, o comandante Tavernier chegou.  
Ela se ergueu, como se tivesse levado uma picada. Mais uma vez, a magia atuava: a mesma onda de 
felicidade, uma vontade irresistvel de se aninhar contra ele, de no pensar em mais nada. Ele vinha 
em sua direo com passos largos e um sorriso conquistador e feliz nos lbios.  
Sem ligar para os colegas que se levantavam, ele agarrou La e a manteve contra seu corpo.  
- Finalmente, minha linda, te achei. Quanta falta voc me fez. Eu nem podia imaginar que sentiria 
tanta saudade. Deixe olhar para voc.., apesar desse uniforme to feio, est sensacional.  
La nada dizia, deixando-se levar por um suave bem-estar;  
sobretudo no se mexer, deixar o calor dele misturar-se ao dela,  
sentir seus corpos colados. A mo em seus cabelos que descia at  
a nuca, segurando-a como se segura um filhote, gato ou co. Com  
esse gesto, ela se sentia mais submissa do que com qualquer outro,  
e ele sabia. Por que motivo ela lhe contara esse detalhe, num certo  
dia de confidncias amorosas? Uma tosse discreta trouxe-a de volta  
 realidade.  
- Comandante... 
- Sim, Bernier, sente-se.  
- Convidamos a Srta. Delmas para ir  festa dos ingleses.  
- Fez muito bem. Onde voc est alojada?  
- Num prdio requisitado pela Cruz Vermelha, sinistro e frio, onde ficamos como pensionistas, 
proibidas de sair depois das nove da noite.  
- Vamos dar um jeito. Est sob as ordens de quem?  
- De Laureen Kennedy.  
- Laureen!  uma velha amiga. No sabia que ela se encontrava aqui. Fico contente de poder rev-
la.  uma mulher encantadora, um pouco louca. Vocs se do bem?  
- Vamos indo. Ela me irrita um pouco, falando sempre dos americanos. Ela s sabe jurar em nome 
dos Estados Unidos. Segundo ela, a Europa  um pas de selvagens e a Frana, depois da Alemanha 
pelo menos,  o mais degenerado de todos. Fico furiosa com isso.  
- No  de se estranhar, chauvinista como voc  - comentou Tavernier, rindo s gargalhadas.  
Como era gostoso ouvir uma boa risada! La tinha a impresso de que no ouvira ningum rir desde 
que se encontrava em Nuremberg. Outras pessoas devem ter sentido o mesmo, pois em volta deles 
todo mundo olhava com um misto de reprovao e surpresa.  
- Acho que no estamos agradando - sussurrou La no ouvido dele.  
- Infelizmente, meu amor, voc est certa. Temos de entend-los. No entanto, a vida continua,  
preciso reaprender a viver, rir, divertir-se e amar - disse ele, segurando sua mo.  
Era o que La mais desejava; deixar aqueles lugares mortferos e partir em busca de cus mais 
amenos, em pases onde os habitantes no conheciam a guerra. Devia estar sonhando; que pas 
nunca passara por uma guerra? Nenhum, claro.  
Ao ver Franois Tavernier, Laureen Kennedy precipitou-se em sua direo com uma pressa que 
pareceu suspeita a La. Aqueles dois teriam sido amantes? No! O abrao entre eles lembrava o 
encontro de antigos colegas de colgio ou de quartel. Era do tipo: "Como 
vai voc, seu pilantra?" Mas aquela onda de cime deixou-a preocupada. Estaria mais apaixonada 
do que imaginava? La sabia amar Franois, mas seu instinto lhe dizia para tomar cuidado. Desse 
homem ela conseguiria o melhor e tambm o pior, e o pior La no queria - era o que justificava sua 
atitude de abandono e reserva, quase de frieza, que surpreendia Tavemier cada vez que se 
encontravam.  
Nessa relao to forte, ela pensava desconfiar dele; na verdade, era dela prpria. Por que motivo 
no conseguia se entregar totalmente? Ele s lhe trouxera boas coisas. Por que tanto receio?  
Laureen Kennedy concedeu a permisso de voltar  meia-noite com a condio de que ele viesse 
jantar no dia seguinte em sua companhia para "falar dos bons e velhos tempos". Tavemier aceitou e 
disse que passaria para buscar La s seis horas; esperava que ela se enfeitasse bastante.  
- Entrem, entrem, sejam todos bem-vindos - disse em francs uma voz com forte sotaque ingls.  
O oficial britnico que abriu a porta ficou boquiaberto, como uma esttua, com uma garrafa de 
champanha na mo levantada.  
- George! - exclamou La.  
Em meio  imensa alegria de encontrar George McClintock, ela se atirou em seu pescoo e levou 
um banho de champanha.  
-  sinal de felicidade, felicidade! - gritava ela, rindo muito.  
O ingls, com o rosto pegando fogo, tambm ria, gaguejando:  
- Desculpe... estou to confuso... to feliz... La... nem posso acreditar... no  possvel.., voc aqui!  
- Sou eu, sim, George. Apresento-lhe o comandante Tavernier. Franois, este  meu namorado 
ingls, major McClintock.  
Os dois homens, que tinham ouvido falar um do outro graas a La, apertaram-se as mos com 
certa frieza.  
- Foi George quem acolheu Sarah. Como vai ela?  
- Na medida do possvel, vai bem. Chega a ser um milagre, segundo os mdicos. Encontra-se na 
Alemanha j faz alguns dias.  
- Como - exclamou Tavernier, interrompendo-o com certa irritao - deixou que ela fosse embora? 
- Meu caro, acho que  um velho amigo da Sra. Muistein, e sabe perfeitamente que no se trata de 
uma pessoa a quem se possa dizer o que deve fazer ou no. Queria voltar  Alemanha, no tive 
como impedi-la, a no ser que mandasse intern-la...  
- Pois  o que eu teria feito, em seu lugar!  
- Franois, George, estou pedindo, por favor, o mais importante  que Sarah esteja bem. No 
estraguem minha noite. Hoje  dia de festa, s quero pensar em me divertir, rir, beber e danar. 
Encontrei vocs dois, por ora  o que importa.  
Se cada um deles apreciou moderadamente essas palavras, tiveram a gentileza de nada demonstrar 
e entraram sorridentes no salo, enquadrando a to linda amiga.  
La provocou a maior sensao. Estava sensacional em seu longo de veludo que trouxera escondido 
na mala. Era a primeira vez que o usava. O vestido deixava suas costas e ombros nus e realava a 
sinuosidade do seu corpo. Ao v-la, os homens tinham dificuldade para engolir e as poucas mulheres 
presentes olhavam para ela com inveja.  
La danou com todos, foi de uma alegria contagiante. Durante algumas horas, com sua juventude e 
seu riso, conseguiu fazer com que os convidados esquecessem que estavam em Nuremberg.  
Passava e muito da meia-noite quando Franois deu o sinal da partida a uma La um pouco bbada, 
e que desejava danar a noite inteira.  
A cidade em runas estava deserta e sombria - apenas os arredores do Palcio da Justia tinham 
direito a uma iluminao mais generosa - e o silncio s era quebrado pelas patrulhas da polcia 
militar. Havia sentinelas nas ruas varridas por um vento gelado. Franois guiava devagar, tomando 
cuidado para no incomodar a linda cabea despenteada que repousava no seu ombro.  
- Para onde est me levando?  
- Esta noite, para lugar nenhum. Minha senhoria  muito severa: nada de mulheres em casa.  
- Oh no! Eu gostaria tanto de ficar com voc! 
- Eu tambm, mas hoje no  possvel. Amanh vou encontrar um lugar.  
Ele at gostava dessa espera que aguava seu desejo. Para La, era insuportvel: esperar, esperar 
sempre!  
- Amanh  muito longe - disse no pescoo de Franois.  
A rouquido daquela voz venceu sua pacincia. Estacionou perto de um prdio destrudo, desligou o 
motor e os faris. De repente, sua pressa tornou-se muito intensa. Quando sua mo encontrou a 
maciez das coxas de La, logo acima das meias, e depois seu sexo mido completamente 
descoberto, pensou que fosse explodir.  
- Sua safadinha, pensou em tudo.  
Ela riu baixinho e deitou-se no assento.  
Se Laureen Kennedy soube a que horas La voltou, no fez a menor aluso no dia seguinte, para 
alvio de Franois, que estava seriamente temeroso.  
Durante um ms, encontraram-se quase todos os dias. A severidade da senhoria desaparecera 
diante dos pacotes de manteiga, salsichas, chocolate e lcool trazidos pelo "maravilhoso comandante 
francs". Agora, vivia sorrindo apesar da frieza de La, que a detestava:  
achava seu olhar cruel, seus modos hipcritas e sua cumplicidade obscena.  
- Tenho certeza de que ela fica escutando atrs da porta.  
Passearam pelas ruas repletas de escombros, barricadas, controle a cada cruzamento, 
aparentemente indiferentes aos olhares hostis da populao, aos pedidos das inmeras crianas 
vestidas com trapos. Naquela cidade devastada onde setenta mil cadveres ainda se encontravam 
sob os prdios destrudos, sentia-se o dio dos sobreviventes.  
Passaram a noite de 31 de dezembro de 1945 trancados no quarto bem aquecido pela lareira.  
Franois Tavernier insistiu junto a Laureen Kennedy no sentido de pedir  Sra. de Peyerimhoff para 
chamar La de volta  Frana. A 
resposta chegou no dia 5 de janeiro. A partida estava prevista para o dia 10. Laureen concedeu  
protegida de seu amigo uma licena para que ela pudesse se preparar. Em meio  alegria de deixar 
Nuremberg, La no reparou na expresso preocupada de seu amante. Ele recebera ms notcias 
de Sarah Muistein. A moa, em termos sibilinos, anunciou que fazia parte de uma rede judaica cujo 
dever era caar criminosos de guerra nazistas. "Conto com voc para participar dessa vingana. 
Entre em contato comigo assim que chegar a Paris. "A vingana no incomodava Tavemier, mas 
pensar em Sarah, que mal sara do inferno, nos rastros dos nazistas fugitivos, isso sim o preocupava 
muito. Pressentia que, em vez de acalmar a ex-deportada, essa aventura iria mergulh-la numa 
engrenagem de onde sairia mais machucada ainda. Ele lhe escreveu nesse sentido, tentando 
encontrar as palavras mais convincentes. Mas o compromisso de Sarah junto a certos judeus da 
Palestina j era um fato consumado que lhe dava foras para viver. Ele se lembrava da 
determinao daqueles voluntrios palestinos, soldados do exrcito britnico, que encontrara no norte 
da Itlia durante uma misso. Todos estavam envolvidos para vingar seus irmos e esperavam com 
impacincia o momento de ir  Alemanha com os exrcitos de ocupao; aquele povo maldito veria, 
ento, de que eram capazes os filhos de Israel: matariam, estuprariam, incendiariam, destruiriam 
cidades e aldeias para que os sobreviventes se lembrassem de que os judeus no eram um povo que 
esquece seus mrtires, e que o tempo da vingana impiedosa chegara. Na vspera de sua partida 
para a Alemanha, diante das bandeiras com a estrela-de-davi, leram para os regimentos palestinos os 
Mandamentos do soldado hebreu na terra da Alemanha:  
Lembre-se de seus seis milhes de irmos massacrados;  
Odeie para sempre os carrascos de seu povo;  
Lembre-se de que est encarregado de uma misso por um povo  
combatente;  
Lembre-se de que a Brigada Judaica Combatente representa na  
Alemanha uma fora de ocupao judaica;  
Lembre-se de que nosso surgimento como brigada, com 
nosso emblema e nossa bandeira, diante do povo alemo, j  em si uma vingana;  
Lembre-se de que a vingana do sangue  a vingana da comunidade inteira, e que todo ato 
irresponsvel vai  
contra a ao de nossa comunidade;  
Comporte-se como um judeu orgulhoso de seu povo e de sua bandeira;  
No manche sua honra com eles e no se misture com eles; No os oua e no freqente suas 
casas;  
Malditos sejam eles, junto com suas mulheres e seus filhos, e seus bens e tudo o que lhes 
pertence; malditos para sempre;  
Lembre-se de que sua misso  o resgate dos judeus, a imigrao em Israel, a libertao da 
ptria;  
Seu dever : devo o,fidelidade e amor para com os sobreviventes da morte, os 
sobreviventes dos campos.  
Todos ouviam em posio de sentido, loucos de impacincia. Que se danem as palavras bonitas, eles 
iriam ser os anjos exterminadores daquele povo de carrascos.  
No entanto, a Brigada Judaica nunca ps os ps na Alemanha: na ltima hora, o comando britnico 
desistiu do projeto. Ficou acampada perto de Tarvisio. Ali, alguns membros da brigada vingaram-se 
nos austracos refugiados na cidadezinha, ou nos ex-SS escondidos nas montanhas. O exrcito 
britnico no podia tolerar esse tipo de atitude. O comando tentou em vo encontrar os culpados.  
No decorrer de sua misso, Tavernier encontrara Israel Karmir, um dos principais chefes da 
Haganah - organizao palestina secreta -, oficial responsvel pela Brigada Judaica. No era a 
primeira vez que os dois homens se viam. Havia entre eles um sentimento mtuo de estima e at 
mesmo de amizade. Claro, nada falaram a respeito de suas atividades, mas Tavernier percebeu logo 
de onde vinham os inmeros desaparecimentos de altos dignitrios nazistas, oficiais da SS e chefes 
da Gestapo, cujos cadveres nem sempre eram encontrados. Ele aprovava tudo. Mas, em relao a 
Sarah, era diferente: precisava encontrar, o quanto antes, o meio de afast-la dos vingadores.  
O dia da partida, to esperado por La, finalmente chegou. Na vspera, Laureen Kennedy e suas 
colegas organizaram uma festa para a qual convidaram Franois Tavemier e George McClintock. 
A noite foi muito animada. Todos sentiam-se aliviados de v-la sair daquela cidade e do clima de 
tenso que reinava em toda parte. Julgavam que no era o lugar adequado para uma moa to 
bonita. Franois insistia para que ela voltasse a Montillac e tomasse conta da casa e de Charles. 
Com certa reticncia, ela prometeu pensar a respeito.  
Os dois amantes despediram-se sem muita tristeza, pois sabiam que a separao seria breve; na 
semana seguinte, Tavernier foi chamado a Paris, por ordem do general de Gaulle.

Captulo 6

Havia uma surpresa para La quando voltou de Nuremberg: Sarah tinha um encontro com ela num
apartamento da Place des Vosges. No perdeu tempo abrindo as malas ou tirando o uniforme, e foi 
correndo at o endereo indicado. Um rapaz louro com rosto feminino abriu a porta.  
-  La Delmas? Pode vir, a Sra. Muistein est esperando.  
O rapaz a levou at um amplo salo com as paredes desbotadas e uma mobilia heterclita, 
enfumaado e superaquecido, onde se encontravam cinco ou seis pessoas, sendo duas mulheres, 
discutindo acaloradamente. Uma das mulheres, alta e magra, elegantemente vestida, tinha a cabea 
raspada. Embora estivesse de costas, La reconheceu Sarah Muistein. Quando se virou, ela ficou 
impressionada com seu olhar duro e frio.  
- Podem nos deixar a ss - disse ela aos companheiros.  
Levantaram-se todos sem qualquer comentrio e deixaram o salo, examinando detalhadamente a 
recm-chegada.  
Intimidada, La olhava aquela mulher estranha que ela havia conhecido to alegre e despreocupada, 
e que a observava, calada. Toda sua alegria antecipada a respeito desse reencontro desapareceu 
instantaneamente. Surpresa com a aparncia e o silncio da amiga, no percebeu que a encarava e 
que esse seu comportamento podia ser desagradvel.  
- Vejo que no perdeu seu costume de fitar as pessoas como se fossem objetos. 
La sentiu o rosto em chamas e ficou irritada. Onde estava a alegria de rever a mulher que ela 
salvara das garras de Massuy e da morte em Bergen-Belsen? Completamente desorientada, abaixou 
a cabea.  
- Vamos, no fique com essa cara, me d um abrao.  
A entonao carinhosa daquela voz venceu o mal-estar de La. Atirou-se nos braos de Sarah com 
uma pressa infantil e beijou o rosto marcado com leves cicatrizes brancas que no diminuam sua 
fria beleza, tornando-o ainda mais singular. Singularidade acentuada pela cabea raspada e pelos 
olhos verdes que pareciam maiores.  
- Como voc est bonita, menina, mais bonita ainda...  
A voz rouca e ligeiramente rachada de Sarah comoveu La e foi com a maior sinceridade que 
exclamou:  
- Voc  que  bonita, apesar...  
Deteve-se, com o rosto em chamas mais uma vez. Sarah sorriu.  
- No, no sou bonita. Por que parou?  
- Seus cabelos! Seus cabelos lindos!  
- O que  que tm meus cabelos? Para que servem os cabelos? Apenas para fabricar tecidos...  
-Oh!  
- Voc ficou chocada, e no entanto era o que faziam com nossos cabelos. Vai ter de se acostumar 
com essa marca de infmia; de fato, raspar a cabea das mulheres  uma marca de infmia. Pensei 
que voc soubesse.  
- Exatamente.  
- Sabe, ao olhar para mim, quero que todos pensem:  uma puta...  
- Cale-se!  
- Sim, uma puta, uma put.a dos boches, como as mulheres raspadas da Libertao...  
- Cale-se! Por que falar comigo assim?  
- Para que voc saiba e no esquea jamais. No campo, colocaram-me num bordel para soldados e 
s dzias, todos os dias, abusaram do meu corpo. Voc tambm, bonita desse jeito, teria sido 
mandada para um bordel. Vamos, no  o fim do mundo!... Isso, 
sabe, talvez eu pudesse perdoar; mas houve o resto, todo o resto, e para esse tipo de coisa no existe 
perdo, nunca existir perdo.  
Sarah virou-se e caminhou at a janela. Apoiou a testa na vidraa e permaneceu um longo tempo 
calada. La aproximou-se e ps a cabea em seu ombro.  
- Acabou, voc voltou viva.  
Num gesto brusco, Sarah empurrou-a com uma risada desagradvel.  
- Viva? Viva, voc disse?... Mas que palavra  essa? Como pode me dizer tantas besteiras!... Viva!... 
Olhe bem para mim... ESTOU MORTA!... Morta para sempre!... Cadver entre os cadveres!... Por 
que voc no passou um pouco mais adiante, em Bergen-Belsen! ... Teria sido melhor me deixar 
apodrecer no meio de toda aquela carne! ... Meu lugar era l, entre minhas companheiras mortas de 
fome, esgotamento, torturas que voc no imagina, ningum pode imaginar, ns mesmos, os 
sobreviventes, no conseguimos acreditar. Todos os dias, desde a nossa volta, pensamos:  
"Sonhamos!... Tudo o que sofremos no passou de um sonho proveniente das nossas mentes 
enlouquecidas!... Nenhum homem no mundo seria capaz de fazer o que fizeram a outros 
homens!..." Pois , eles foram capazes daquilo e de muitas outras coisas. E voc queria que eu 
perdoasse, que eu esquecesse?... Todo mundo diz que devemos esquecer, alguns dentre ns fazem o 
possvel para esquecer, mas  de vergonha, levados por um sentimento perverso de culpabilidade. 
Mas eu digo: no se deve esquecer, jamais!... Ns, que permanecemos vivos, devemos ser as 
testemunhas do horror, devemos vingana a todos aqueles que ficaram, que foram destru- dos com 
um prazer, um refinamento levado ao mais alto grau... e, se for preciso, devemos nos tornar to 
abjetos como eles! No Livro, est escrito: "Olho por olho, dente por dente."Seria preciso arrancar 
mil olhos, mil dentes, de cada um deles para que a alma dos mortos descansasse em paz!... Como 
voc est plida... Assustada comigo?... Tudo bem! Pois vamos assust-los, ca-los em todas as 
partes do mundo, onde estiverem, mesmo se levar mil anos! Eles ainda no sabem, mas os 
vingadores esto se erguendo, um por um, esto a caminho, sero inexorveis. A raa impura vai 
destru-los, 
todos eles e as geraes futuras. Estamos em guerra, La, em guerra durante mil anos at que a 
besta imunda seja riscada da face da terra.  
As cicatrizes brancas de suas faces ficaram vermelhas em meio ao rosto lvido e tenso; a cabea 
raspada brilhava de tanto suor, a boca retorcia-se de dio, os olhos esbugalhados tornaram-se 
foscos, as mos lindas, de dedos compridos, crispavam-se espasmodicamente como se procurassem 
estrangular uma vtima.  
Profundamente abalada, La olhava para Sarah. No havia palavras capazes de abrandar aquela dor. 
Lembrou-se do seu tio Adrien, cujo suicdio desconhecia at sua chegada, e ficou imaginando o 
pavor do dominicano diante das torturas, da traio. Como teria reagido diante dos horrores dos 
campos? O que poderia dizer quela mulher louca de dio? As palavras de compaixo ficariam 
presas em sua garganta, suas preces seriam transformadas em imprecaes, suas mos juntas e 
erguidas, de punho fechado, para esse Deus que ele rejeitara e negara ao se suicidar. Se esse homem 
corajoso, esse combatente das trevas, esse padre, no conseguira encontrar a vontade de viver num 
mundo que deixara de entender, onde uma moa saindo do inferno poderia buscar a fora de 
renascer? Sarah encontrara a resposta, ou pelo menos ela acreditava que fosse: na vingana. La 
sentia o que havia de negativo nessa escolha, mas entendia tal atitude. Por um segundo, pressentiu 
que ela deveria fazer tudo para afastar Sarah de seu terrvel projeto, mas percebeu logo que seria 
impossvel.  
- Pare de olhar para mim com pena. No quero sua pena nem a de ningum. De voc, espero outra 
coisa.  
- Pea o que quiser, sabe muito bem que farei por voc tudo o que estiver ao meu alcance.  
- Vamos ver.  
Sarah permaneceu calada durante um certo tempo, andando de l para c, detendo-se para fitar La, 
com a testa franzida devido a uma profunda reflexo, os lbios cerrados como algum que tem um 
segredo e est com medo de cont-lo.  
- Voc precisa jurar que no falar com ningum a respeito do que vou lhe contar. Jure.  
- Juro. 
- Muito bem, agora oua.  
Sem parar de andar, Sarah falou:  
- Ao sair do bordel, fui mandada para o campo de Ravensbrck. Eu estava grvida mas no sabia. 
Tive o azar de levantar a mo para uma mdica do campo. Fui espancada e em seguida tratada com 
o objetivo de suportar melhor as torturas que aquela mulher reservava para mim como represlia. 
Quando fiquei boa, revelou-me que eu esperava um filho, mas que ela iria provocar um aborto. 
Como aquela revelao fora terrvel, de incio fiquei aliviada com sua deciso. Ela percebeu minha 
reao, e logo mudou de idia.  
"- O que voc tem na barriga  a semente de um alemo. Quero ver com que se parece o fruto de 
uma macaca judia com um homem de raa pura. Vai ser um excelente material para minhas 
pesquisas.  
"Para vergonha minha, supliquei para que ela provocasse o aborto. Teve ento a audcia de 
responder, profundamente indignada:  
"- Voc no tem vergonha de me pedir para cometer um crime desses, logo a mim, mdica, cujo 
dever  respeitar a vida, mesmo a de um feto judeu?  
"Para ter certeza de que minha gravidez no seria interrompida antes do prazo, ela me dispensou 
das tarefas mais pesadas e mandou que eu fosse trabalhar nas cozinhas do campo. Ali, recebi uma 
alimentao um pouco mais substancial que a 'comida' distribuda s outras prisioneiras. Esse 
regime de favor provocou o dio das prisioneiras do meu bloco, apesar de todos os alimentos que eu 
conseguia roubar para elas. Quando descobriram que eu estava grvida, foi pior ainda: passaram a 
me cobrir dos insultos mais ignbeis. Apenas uma mocinha demonstrou compaixo para comigo. 
Tornei-me sua amiga e dei um jeito de lhe trazer sempre alguma coisa para saciar-lhe a fome. Ela 
era meiga, linda e frgil. Polonesa, Ivenska vira os pais e o irmo mais novo serem massacrados. 
Com o choque, ficara completamente perturbada; cantarolava e sorria sem parar, o que irritava 
nossas companheiras. A noite, deitada sobre seu colcho, ela permanecia com os olhos abertos e as 
lgrimas escorriam em seu rosto sorridente. Um dia, a Dra. Herta Oberheuser mandou busc-la para 
lev-la ao Revier. Fiz o possvel para impedir que ela fosse, mas a Schwester' Erika me empurrou e 
me chutou. Ivenska partiu sorrindo. Quando voltou, no dia seguinte, continuava sorrindo, com uma 
expresso de imenso cansao, o rosto lvido, os olhos enlouquecidos, rolando pelo cho, as mos 
crispadas sobre a barriga. A noite toda, ardendo em febre, ela se contorceu de dor, com uma careta e 
um sorriso no rosto. Aquele sorriso em seu rosto atormentado provocava uma terrvel sensao. Sob 
o colcho, formava-se uma pequena poa de sangue. Nas cozinhas, eu j ouvira falar das 
experincias praticadas nas detentas nos servios da Dra. Oberheuser. Ali, sob as ordens do Dr. 
Schumann, vindo de Auschwitz, mais de cem jovens ciganas foram operadas por uma equipe inteira 
de mdicos e enfermeiras da SS. Quando passvamos perto do Revier ouviam-se gritos e choro. 
Inmeras meninas tiveram os ovrios irradiados com raios X, outras sofreram a ablao dos rgos 
genitais. Muitas dentre elas tinham chagas abertas na barriga que no paravam de supurar. Quase 
todas morreram em meio a sofrimentos atrozes. Foi o que aconteceu com Ivenska. De manh, 
encontrei-a morta, com um sorriso em seu rosto finalmente distendido.  
"A criana mexia-se em meu ventre. Pouco a pouco, comecei a amar esse pequeno ser que crescia 
dentro de mim. No final de minha gravidez, a Dra. Rosa Schaeffer mandou que eu fosse 
hospitalizada na maternidade do Revier, onde o parto foi induzido por ela.  
Sarah se calou, com o olhar fixo. Com mos trmulas, pegou um cigarro num mao que tirou de um 
bolso do vestido, acendeu-o na chama do isqueiro de La e deu algumas tragadas nervosas, O 
tremor das mos cessou.  
- Foi um menino.  
Com os ombros encurvados, Sarah apagou o cigarro num cinzeiro transbordando de pontas.  
- Dei-lhe o nome de Yvan... era louro e... muito bonito.  
"- Como  possvel que uma macaca igual a voc pudesse dar  luz um ariano to lindo? - disse a 
Dra. Schaeffer. - Pena que eu precise us-lo para testar uma nova vacina contra o tifo.  
"Implorei para que deixasse a criana e testasse a vacina comigo.  
"- Nem pensar. Voc foi reservada para uma outra experincia. Mas, se no quiser me dar seu filho, 
mate-o.  
Sarah acendeu outro cigarro; as cicatrizes vermelhas de suas faces iluminavam o rosto plido.  
- Fiquei acordada a noite inteira, apertando meu beb nos braos. De madrugada, adormeci. Quando 
despertei, a criana desaparecera. Parada na minha frente, Rosa Schaeffer me olhava sorrindo.  
"- Passou uma boa noite? Acho que sim, pois j est de p.  
"- Onde est meu filho?  
"- Seu filho? Ah sim, seu filho. No se preocupe, ele vai muito bem.  
"- Devolva-o para mim.  
"- Vamos devolv-lo com uma condio.  
"- Qual?  
"- Esta noite, uma cigana deu  luz uma menina.  completamente disforme, mas seu estado de 
sade  bom. No podemos deix-la viver, ela deve morrer. E voc  quem vai mat-la.  
"- Eu?!  
"- Sim, em troca da vida de seu filho.  
"Olhei para ela, incrdula: eu tinha de matar uma criana para salvar a minha. Dei uma risada.  
"- Est com vontade de rir, melhor ainda.  
"Ela saiu e me deixou profundamente transtornada, rindo como uma louca. Logo depois, Schwester 
Ingrid entrou, trazendo um embrulho de onde saam os gritos do recm-nascido. Era acompanhada 
pela Dra. Schaeffer, que segurava meu filho pelos ps... Dei um urro e me precipitei em sua direo.  
"- No se mexa ou arrebento a cabea dele contra a parede.  
"Parei imediatamente. 
"- Mate a menina e devolvo seu filho.  
"Schwester Ingrid entregou-me a menina. No percebi nenhuma anomalia aparente. Segurando-a 
nos braos, experimentei uma profunda sensao de ternura. Os fartos cabelos pretos tinham a 
suavidade da seda. Automaticamente, beijei aquela cabecinha. As duas mulheres me observavam 
atentamente.  
"- Mate-a - falou Rosa Schaeffer com certa ternura.  
"Sacudindo a cabea, entreguei-lhe a menina.  
"- Mate-a, ou eu mato seu filho.  
Sarah ofegava, as mos crispadas no peito. Baixinho, trmula, La falou:  
- Pare com isso, no diga mais nada, isso lhe faz muito mal.  
- No o mal que fao a mim mesma que assusta voc, e sim aquele que lhe posso fazer - disse 
Sarah com voz estridente.  
De p, encarando-se, as duas amigas observavam-se. Sarah afastou-se e continuou a falar.  
- Meu filho, seguro pelos ps pela Dra. Schaeffer, sufocava, com todo o sangue na cabea.  
"- Mate-a.  
"- No posso.  
"Ela balanava meu beb, cujos gritos iam enfraquecendo, o rostinho cada vez mais vermelho. 
Agarrei ento o pescoo da menina entre os dedos e comecei a apertar...  
Gelada, paralisada, La mal continha uma violenta nusea.  
- Naquele momento, uma mulher seminua, ensangentada, surgiu com tais urros que eu me detive. 
Arrancou a criana de mim. Horrorizada, olhei minha mo... Acigana, apertando seu beb nos 
braos, olhava-nos com furor enquanto recuava at a porta. Jamais conseguiu alcan-la. Uma 
rajada de metralhadora ceifou seu corpo. Quanto ao beb, aproximei-me do pequeno corpo e pensei:  
"Ainda est quentinha..."  
"Coloquei com todo o cuidado o pequeno cadver sobre o da me. Inclinei-me e comecei a vomitar. 
Rosa Schaeffer me olhava; seus olhos tinham um brilho infernal, havia um rizo em sua boca. Ca 
de joelhos... arrastei-me at ela, estendendo os braos para meu filho. 
"- Devolva-o para mim!  
"Ela riu.  
"- No se preocupe, vou lhe dar o menino.  
"Senti todo o meu corpo tremendo de alegria, uma alegria demente; levantei-me... ela comeou a 
fazer girar o beb... cada vez mais rpido... gritei, tentei agarr-lo... ela me empurrou com o p e... 
esmagou a cabecinha contra a parede.  
Atordoada, encolhida sobre si mesma, La caiu no cho. Uma baba escorria do queixo de Sarah, sua 
cabea raspada estava molhada de suor, os olhos secos fitavam um canto do aposento. Ela 
caminhou nessa direo como um autmato, abaixou-se, fingiu estar apanhando algo, fez um 
espcie de ninho com os braos e foi at o sof, acalentando o vazio e cantarolando uma cano de 
ninar alem. Sentou-se com todo o cuidado e, sem parar de ninar, falou com voz suave:  
- Durma, meu nenm, durma. Como voc  lindo.., deve estar com fome... tome, querido.., beba.  
Desabotoando a blusa, Sarah tirou o peito e ofereceu-o a uma boca fantasma.  
Foi demais para La. Ela se levantou e, por duas vezes, esbofeteou Sarah com fora. Calmamente, a 
moa voltou a abotoar o vestido.  
- Obrigada - disse ao se levantar.  
As marcas dos dedos imprimiam-se em vermelho forte no seu rosto branco. Em voz baixa, Sarah 
acrescentou:  
- Desculpe, preciso continuar at o fim, voc tem de saber...  
O que me viu fazer foi exatamente o que fiz naquele inferno. Peguei  
o corpo do meu filho e apertei-o em meus braos tentando aqueclo, aliment-lo.., empurrei o 
mamilo do meu peito entre seus  
pequenos lbios, ainda momos...  
- Cale-se, pelo amor de Deus, cale-se!  
- ...Cantarolei a cano de ninar que meu pai cantava para mim antes de adormecer. Eu esquecera o 
cadver da menina, o da cigana e a presena das duas mulheres. Nem percebi que estavam rindo; eu 
me sentia feliz, segurava meu filho no colo. Com receio de que se resfriasse, embrulhei-o com o 
lenol da cama. Em  
seguida, descala, com a camisola manchada de sangue, sa do Revier... nevara.., afundei na massa 
branca, fofa. Nem sentia mais o frio, andava como num sonho, o corao transbordando de 
felicidade pelo fato de poder apertar meu filhinho contra mim, voltar com ele para casa... Cheguei 
no meu bloco. Umas dez prisioneiras encontravam-se perto da porta, tremendo de frio com seus 
vestidos listrados em farrapos. Afastaram-se para me dar lugar. Uma delas ps a mo no meu 
ombro, levou-me at o fogo e me ajudou a sentar num banquinho. Outra colocou uma coberta 
sobre meus ombros, outra ainda vestiu minhas pernas com meias de l multicoloridas. Imaginei que 
ela devia ter tricotado essas meias com infinita pacincia, recolhendo pelos cantos pedacinhos de l. 
Agradeci a todas com gratido; desde o dia em que chegara quele campo, nunca recebera tanto 
carinho e afeto. Deram-me uma bebida quente. Tomei tudo com imenso prazer.  
"- Mostre seu beb.  
"Com todo o cuidado, afastei o lenol.  
"- Cuidado para no acord-lo.  
"Inmeras cabeas raspadas, ou cobertas de leno, inclinaram- se. Mas por que pulavam logo para 
trs, por que gritavam, choravam? Outras inclinaram-se igualmente, e mais outras. Todas tinham o 
mesmo comportamento.  
"- Psiu, no faam tanto barulho, vo acord-lo.  
"Elas nada disseram. O silncio do bloco s era rompido pelo pranto... Eu no entendia por que 
choravam assim ao invs de se alegrar comigo... Durante cinco dias, aquelas mulheres que eu 
conhecera, duras, egostas, capazes de tudo por um pedao de po, alimentaram-me, lavaram-me, 
acariciaram-me, entenderam minha loucura. Deve ter sido graas aos seus cuidados que consegui 
agentar; por fim, compreendi que estava ninando um simples cadver. Elas me ajudaram a 
envolv-lo num lenol e, em procisso, cantarolando a cano de meu pai, foram comigo at o 
forno crematrio. Ali, aps um ltimo beijo, coloquei o corpinho do meu filho sobre os cadveres 
esperando a cremao.

Captulo 7

- Pare de beber assim, vai acabar ficando doente - disse Laure, tirando o copo de usque que La
acabava de encher.  
- Me deixa.  
- Faz dois dias que voc no pra de beber, no come nada e no dorme. O que aconteceu com 
Sarah, o que foi que ela contou para deixar voc nesse estado?  
La no respondeu; tremia da cabea aos ps, deitada e vestida na cama da irm.  
- Voc est doente, vou chamar o mdico.  
- Mdico nenhum vai conseguir me curar - comentou com uma risada irnica. - Me d meu copo de 
usque.  
- No!  
A campainha da porta tocou. Laure foi abrir.  
- Franck, entre logo! Venha me ajudar.  
- O que  que voc tem? Que cara  essa?  
- Tambm, pudera! No durmo h dois dias.  
- Arranjou um novo namorado?  
- Que besteira, estou com La.  
- La? Legal! Voltou da Alemanha? Quando?  
- Faz dois dias. Ela acabara de chegar quando uma de suas amigas, uma ex-deportada, Sarah 
Muistein... voc sabe, aquela mulher de quem j falei, pediu para ir falar com ela. La nem teve 
tempo de se trocar, saiu na mesma hora. Voltou muito mais tarde,  noite, completamente bbada. 
Vomitou por toda parte e recomeou a beber. Ela me assusta, s fala de criana morta... de experincias... cano de ninar.., no 
consigo entender nada. Eu fiquei to feliz com a volta dela!  
- J chamou o mdico?  
- Ela no quer.  
- Espere, vou falar com ela.  
Franck entrou no quarto onde reinava uma desordem e um cheiro horrveis. Ao v-lo, La ficou 
toda encolhida na cama desarrumada.  
- La, sou eu, Franck.  
- Franck?...  
-  sim, o amigo de Laure.  
- Franck!  
Ela tentou se levantar, mas caiu na cama, batendo com a cabea. Comeou a chorar de dor, como 
uma criana.  
- Vou ficar com ela. Ligue para a minha casa e fale com meu irmo Jean-Claude; pea-lhe que 
venha imediatamente, trazendo a maleta.  
- Acha que ele vai conseguir trat-la?  
- Est no ltimo ano de medicina - disse Franck, arrastando La at o banheiro.  
Quando o futuro mdico chegou, La descansava numa poltrona, o cabelo molhado, vestida com 
um robe, enquanto Franck e Laure trocavam os lenis da cama.  
Depois de examin-la, Jean-Claude disse a Laure:  
- Por enquanto, d-lhe aspirina com caf. Ela est de ressaca e teve um choque muito forte. Vou 
chamar meu chefe, que saber melhor do que eu o que deve ser feito.  
Contradizendo todas as expectativas, Laure revelou-se uma excelente enfermeira.  
Ao final do quinto dia, a forte constituio de La venceu; mas ela continuava fechada em si 
mesma, calada, recusando-se a contar ao mdico e a Laure o que havia acontecido. Ao cabo de uma 
semana, ela quis contactar a Sra. de Peyerimhoff para acertar todos os itens de sua demisso.  
- Vamos sentir sua falta - disse esta -, voc era um timo  
elemento... Sua aparncia no  das melhores... Est doente, por acaso?  
- No, senhora, apenas um pouco cansada.  
- Vai passar. Na sua idade, a gente no se cansa. Conhecendo sua situao familiar, entendo as 
razes de sua partida e as responsabilidades que deve enfrentar.  
La concordou, aliviada com o fato de no lhe fazerem outras perguntas a respeito de sua deciso. 
Sem tristeza alguma, ela deixou a sede da Cruz Vermelha, virando assim uma pgina de sua vida.  
J instalada no conjugado de sua irm, na rue Grgoire-de-Tours, La tentava avaliar os ltimos 
acontecimentos. O dinheiro, entregue pela Cruz Vermelha, sera suficiente apenas para vesti-la e 
devolver s tias vrios pequenos emprstimos. Sem trabalho, sem renda e sem moradia, ela no 
tinha a menor condio de permanecer em Paris. No queria, como fazia Laure, viver de 
expedientes. Sentia falta de Franois Tavernier, que saberia aconselh-la da melhor maneira 
possvel. No entendia por que no recebera notcias dele. Com certeza, ficara retido em 
Nuremberg. Ou ser que Sarah tivera outras informaes? Entretanto, rever Sarah agora 
ultrapassava o limite das foras de La, pois as imagens to terrveis multiplicavam-se em sua 
mente. Experimentava tamanho pavor que chegara a se recusar a atender o telefone quando Sarah, 
sabendo que La se encontrava adoentada, ligara inmeras vezes. Por outro lado, Estelie pedia-lhe 
para vir a Montillac onde sua presena era indispensvel. La deixou Paris com grande alvio, sem 
ter voltado a falar com Sarah.  
O inverno fora extremamente rigoroso, a primavera mostrava-se chuvosa. Havia pouco dinheiro 
para aquecer convenientemente o casaro e, alm do mais, o carvo acabara. Franoise, Ruth e as 
crianas permaneciam a maior parte do tempo na cozinha. Sentadas perto da lareira, ouviam rdio 
ou executavam todas as tarefas domsticas enquanto vigiavam Charles e Pierre, que acrescentavam 
um pouco de animao com seus gritos e risos. Charles saa de manh para a escola de Verdelais e 
s voltava  noite. Era um  
menino muito srio para a idade: dividia o tempo entre a leitura e o desenho. O pequeno Pierre ia 
fazer dois anos; tratava-se de um menino turbulento a quem a me deixava fazer tudo, apesar do 
profundo descontentamento de Estelie, que reprovava aquela falta de limites. Mas Franoise era 
incapaz de recusar qualquer coisa ao filho.  
Imaginara que sua volta  casa natal as inmeras ocupaes relativas  propriedade fariam com que 
se esquecesse de seus sofrimentos. Nada disso acontecera. A moa mergulhava a cada dia numa 
solido, numa tristeza que nada conseguia distrair. Pensava sem parar no homem que amara, na sua 
morte, na humilhao de ter a cabea raspada em frente quela igreja de Paris, nos violentos 
insultos que recebera, na atitude desprezvel dos comerciantes de Langon, vrios dos quais 
conheciam-na desde criana, nas observaes dos operrios que trabalhavam na regio e na recusa 
das amigas e dos primos de Bordeaux em receb-la em casa. Depois de sua volta, nenhum deles 
tentara rev-la, compreend-la, ou at manifestar-lhe certa compaixo. O afeto de suas tias e de 
Ruth no era suficiente. Apenas Alain Lebrun, o novo mestre-de-obras, parecia no ligar para seu 
passado. Franoise sentia-se profundamente agradecida por essa atitude e experimentava um certo 
prazer em trabalhar com ele.  
A volta de La representou para todos uma grande alegria, logo sombreada por sua expresso de 
grande tristeza e seu mutismo. Agora, as obras da casa estavam terminadas, os mveis 
encontravam-se em seu devido lugar, com as cortinas e os quadros pendurados. Ao longo dos 
corredores, La tinha a sensao de que, de repente, surgiriam seu pai ou sua me. Ela passou a 
primeira semana trancada em seu territrio, o escritrio do pai, que reencontrara o conforto 
tranqilizador e o sossego que acalmavam outrora seus receios e suas cleras de menina.  
Estelie deixou passar aquela semana antes de agir, o que, alis, nem foi necessrio pois Charles 
resolveu tudo. Conseguiu entrar no quarto e perguntou, chorando, por que La deixara de gostar 
dele.  
- Claro que gosto de voc, querido - respondeu ela, beijando-o. 
- No, no  verdade, voc nunca mais me contou histrias nem brinca mais comigo... no come 
mais com a gente, no fala com ningum. Sei que no gosta mais de mim.  
O menino soluava tanto que La receou que sufocasse.  
- Me desculpe, meu bebezinho, me desculpe, eu te adoro... te amo mais do que tudo. No fique de 
mal comigo, eu s estava muito triste.., mas agora j passou.  
- Por que est triste se eu te amo muito? - disse o menino pendurado no pescoo de La, cobrindo-a 
de beijos midos.  
- Pare, est fazendo ccegas!  
Ele a largou, batendo as mozinhas.  
- Voc est rindo, La, est rindo!...  
Charles pulava de alegria em volta dela, que ria ainda mais ao ver os saltos do menino.  
- O que h por aqui? Que barulho  esse? - disse Franoise ao entrar, seguida de Lisa, curiosa como 
uma fuinha, e tambm de Esteile.  
Diante da surpresa dos parentes, as risadas de La cessaram.  
- Agradeo a pacincia de todos vocs. Se no fosse Charles, nem sei se teria conseguido me libertar 
das minhas angstias.  
- Voc podia ter falado conosco.  
- Franoise, voc  a ltima pessoa com quem eu poderia me abrir - respondeu La rispidamente, 
censurando-se logo em seguida.  
A moa de cabelo curto e olhos tristes teve um sobressalto e empalideceu. A prpria irm 
continuava a odi-la devido ao seu amor por um alemo! ... Esperara tanto sua volta, achando que 
depois de presenciar tantos horrores La entenderia melhor que a vida no seguia necessariamente o 
ritmo que se desejava! Contava com uma amiga, uma confidente, e encontrara um juiz, uma 
inimiga. Franoise sentiu-se profundamente humilhada, trmula e sem voz. La, envergonhada, no 
sabia o que dizer; aquele silncio realava ainda mais o mal-estar. Lisa e Estelle assistiam 
impotentes ao drama vivido pelas duas irms. Mais uma vez, foi Charles quem salvou a situao.  
- Vou contar  vov Ruth que La ficou boa e pedir para ela fazer um bolo bem gostoso.  
Lisa achou graa e Estelie esboou um sorriso. La aproximou- se da irm e abraou-a.  
- Me perdoe, acho que magoei voc, juro que no foi intencional. Assim como os milhares de 
pessoas massacradas, voc no passa de mais uma vtima...  
- Otto no era igual a eles!  
- J sei, mas to culpado quanto os outros...  
- No, era um homem correto, incapaz de fazer o mal!  
- Ele era alemo!  
- Parem com isso, meninas - exclamou Esteile, colocando- se no meio das duas. - Vocs devem fazer 
todo o possvel para esquecer o passado...  
- Esquecer! ... - responderam as duas irms ao mesmo tempo.  
- Sim, esquecer.  impossvel continuar vivendo com a lembrana constante das desgraas 
passadas. Franoise, o menino precisa de seus cuidados, e quanto a voc, La, a responsabilidade de 
Charles  sua. Por essas crianas inocentes,  preciso fazer tudo para esquecer. Trata-se de um dever 
e tambm do nico comportamento plausvel.  
Enquanto a tia falava, La lembrou-se de Sarah ninando um beb fantasma. Fechou os olhos e 
cerrou os punhos com toda sua fora.  
- Tia Estelie tem razo. Mergulhar em nossas tristes lembranas no leva a nada. Vamos fazer um 
esforo. Vou ajud-la, Franoise, e voc vai fazer o mesmo.  
Em meio s lgrimas e risadas nervosas, as duas irms se abraaram.  
O sol voltou a Montilac, nos coraes assim como no cu. De comum acordo, ficou decidido que 
Esteile e Lisa de Montpleynet viriam instalar-se no casaro, onde teriam no primeiro andar um 
apartamento muito prtico; assim, desde logo, a moradia de Langon foi posta  venda. Em menos de 
uma semana, um comprador  
apresentou-se; tratava-se de um jovem mdico que desejava morar perto dos pais aposentados, em 
Villandraut. Aquela venda trouxe a todos um certo alvio e fez com que adquirissem material para 
melhorar o trabalho nos vinhedos: um novo furgo e um carro de segunda mo. No incio do vero, 
as senhoritas de Montpleynet estavam finalmente acomodadas e um pouco melanclicas. Lisa 
afirmava preferir a cidade. Esse termo, aplicado a Langon, fez com que La desse boas risadas.  
- No se preocupe, tia querida, vou lev-la para fazer compras em Bordeaux.  
Essa perspectiva tranqilizou a vaidosa Lisa. Estelle no tomaria jamais essa deciso, temendo 
aborrecer as sobrinhas, no fosse o fato de estar gravemente doente. O que mais a assustava era 
deixar sua to querida e ingnua Lisa entregue a si mesma aps sua morte. Sem fazer comentrio 
algum, comprou uma concesso no cemitrio de Verdelais, perto dos tmulos de Toulouse-Lautrec 
e de Isabelle e Pierre Delmas. Aquela mulher reservada e discreta preparava sua ltima viagem, 
preocupada em poupar os seres amados dos tristes afazeres que acompanham todo falecimento. 
Tratava-se de seu ltimo ato de elegncia.  
Todos os dias, La esperava o carteiro com ansiedade, mas o tempo passava sem trazer qualquer 
notcia de Franois. Finalmente, certa manh, entregaram-lhe um envelope todo amassado, coberto 
de selos e carimbos. A carta, proveniente da Argentina, levara trs meses para chegar ao destino.  
La desceu correndo at o terrao, segurando a carta contra o peito. Ali, sentada no desconfortvel 
banquinho de ferro onde seu pai gostava tanto de descansar  noite, rasgou febrilmente o envelope.  
Buenos Aires, 6 de maro de 1946  
Meu anjinho,  
Parece at existir algo que no deixa a gente se encontrar e viver tranqilamente nosso amor. Aps 
sua partida de Nuremberg, eu esperava encontrar voc logo em Paris. Na vspera da minha  
volta, o governo francs enviou-me a Moscou, de onde lhe escrevi  
- mas estou certo de que no recebeu nenhuma das minhas cartas, pois nossos camaradas soviticos 
enxergam espies em toda parte, e eu no quis utilizar a mala diplomtica para minha correspondncia 
amorosa. Por qu? Pois deve ser nisso que voc estar pensando, no ? Sempre tive escrpulos em misturar 
minha vida profissional e minha vida privada. De passagem em Paris por 24 horas, quando da minha volta 
da URSS, fui correndo  casa de Laure, na rue Grgoire-de-Tours. Voc acabara de partir para Montillac, 
doente, pelo que ela me disse, e profundamente deprimida. Louco de preocupao, tentei ligar para voc, 
mas era impossvel conseguir linha. Tive de partir mais uma vez para Berlim na manh seguinte, sem ter 
conseguido falar com voc. Mais tarde, tive a explicao de seu estado ao rever Sarah: ela me contou o que 
voc j sabe. Fui muito duro com ela, censurei-a por ter feito voc partilhar de sua desgraa. Na verdade, 
tudo o que aquela mulher por quem tenho o maior afeto, vivenciou e sofreu  to horrvel que no consigo 
ficarzangado. Percebi que foram suas revelaes que provocaram sua doena e a levaram a fugir, pois voc 
nem quis atender a suas inmeras ligaes. Entendi sua reao, logo voc, que  movida por uma fora vital 
que a obriga a encarar as piores situaes efugir das que podem mago-la. No entanto, no que se refere a 
Sarah, voc devia fazer um esforo. Assim como eu, ela entende sua primeira reao, mas nem ela e nem eu 
gostaramos que se mantivesse nesse tipo de comportamento. Pense com calma, sei que vai concordar 
comigo. Depois de Berlim, houve Roma, Londres, Cairo, onde tive o prazer de acompanhar Leclerc a bordo 
do Sngalais, e agora Buenos Aires, de onde espero sair na semana que vem. Estou feliz com sua volta a 
Montillac. As obras devem ter acabado, voc ficou satisfeita? Pergunte o que quiser ao arquiteto.  
Sinto muito sua falta, menininha. Eu gostaria de parar em algum lugar com voc, am-la, observ-la viver 
Voc sabe viver La, nunca se esquea disso. Afaste-se dos maus e dos chatos.  
Seu amante, Franois.  
Lentamente, suas mos, que seguravam a carta, pousaram nos  
joelhos. Seu corao batia forte no peito. Todas aquelas palavras  
ecoavam em sua cabea. Por que Franois no se encontrava junto  
dela para falar pessoalmente? De repente, sentiu-se extremamente  
cansada. Onde estaria ele agora? O que significavam todas essas  
viagens? Quando voltaria?

Captulo 8

Certos amigos de Laure pensavam que o desencanto da moa no passava de uma fachada,
outros estavam convictos do contrrio, a maioria no questionava nada, muito ocupados
com o mercado negro, negcios ilegais e festas.
Pouco restava da ingnua provinciana, admiradora do marechal Ptain e supostamente 
apaixonada por Maurice Fiaux, o jovem miliciano responsvel pela morte de Caniille. Seu 
encontro com os caras de Saint-Germain-des-Prs e um bando de jovens traficantes do 
mercado negro transformaram-na rapidamente numa mulher capaz de se virar sozinha. Era 
imbatvel na arte das trocas interessantes: manteiga por fumo, livros por sapatos, discos de 
jazz americano por sabo, ou a revenda desses produtos raros para quem tinha dinheiro. 
Dinheiro.., ele passara a ser o principal objetivo de sua vida; com dinheiro, encontrava-se 
alimento, roupa, divertimento, amigos... o medo desaparecia, a liberdade existia. No incio, 
as censuras de Estelle ainda produziam algum efeito, Laure imaginava que seus pais teriam 
ficado profundamente magoados. Mas a velha senhorita, assim como suas irms, acabou 
aceitando aqueles fornecimentos to oportunos sem grandes problemas... Agora, uma 
simples observao a respeito de suas atividades ilegais deixava-a irritada e ela erguia os 
ombros em sinal de desprezo: todos aqueles que perderam a guerra, que se mantiveram 
calados durante quatro anos, colaborando com o inimigo, denunciando vizinhos judeus ou 
membros da Resistncia, aclamando Ptain e em seguida o general  
de Gaulie, raspando a cabea das mulheres, atirando nos poos traidores, verdadeiros ou falsos, 
abraando agora os americanos, no, no cabia a eles, franceses covardes, hipcritas, vaidosos e 
estpidos, fazer sermes sobre a moral e o bom comportamento. Os jovens de vinte anos no 
queriam identificar-se queles estrangeiros; rejeitavam esses adultos que refletiam uma imagem 
vergonhosa; heris existiram, sim, mas estavam mortos ou se encontravam num estado to 
deplorvel que era melhor desviar o olhar e ignor-los. Laure experimentava uma profunda 
admirao para com La, embora a considerasse uma grande idiota pelo fato de ter arriscado a 
prpria vida por um pas que nada merecia. Mais do que nunca, era preciso viver rpido, viver para 
si. A libertao dos campos e seu desfile de fantasmas, as fotos amplamente divulgadas pela 
imprensa de montes de cadveres macrrimos, crianas queimadas, mulheres torturadas, aqueles 
testemunhos de sobreviventes eram insuportveis. Que choque para os parisienses, dentre os quais 
Laure e seus amigos, que vieram receber os primeiros deportados no hotel Luttia. O encontro com 
aqueles seres provenientes de lugares estranhos, esqueletos sem peso cobertos de trapos listrados, 
fitando tudo com olhos embaados, vazios, tentando esboar um sorriso com a boca desdentada, 
movendo sua frgil carcaa com extremo cuidado... Ao v-los, parecendo prestes a partir-se, diante 
daquelas moas sorridentes com os braos cheios de flores, das mes incrdulas frente queles 
velhos que chamavam "Mame!", homens maduros, combatentes de outra guerra, deixavam as 
lgrimas correr pelo rosto enrugado... Era terrvel ler todos os horrores infligidos queles 
desgraados - os jornalistas costumam exagerar... - mas era ainda pior ver esses fantasmas de um 
outro mundo, onde, com uma lgica implacvel, seus semelhantes, e era nisso que consistia todo o 
pavor, aplicaram-se em destruir no apenas os corpos e as almas, mas a prpria idia de 
humanidade.  
A bomba atmica de Hiroxima no aniquilara apenas dezenas  
de milhares de japoneses numa clara manh do ms de agosto de  
1945; destrura igualmente toda esperana de um possvel futuro.  
O mundo enlouquecera por completo, o homem inventara fmalmente a arma capaz de destru-lo e 
de acabar com toda espcie de  
vida no planeta. De que servia ento a moral dos grandes sentimentos, tudo era falso, tudo no 
passava de uma grande mentira! Para sobreviver, no era preciso ser igual a eles, mas pior do que 
eles. Pior do que eles? Seria difcil...  
Laure e os amigos passavam noites inteiras no caf Flore, Montana, Bar Vert, Tabou ou sentados 
numa calada, discutindo suas dificuldades face  existncia e fumando cigarros Lucky Strike ou 
Camel. O grande negcio era como adquirir um carro, obviamente americano, se possvel 
conversvel.  
Uma jovem do bando, Claudine, uma daquelas mulheres que os G.I. chamavam sign k1nguage 
giris', tinha como amante um sargento negro que roubava para ela, do centro de abastecimento de 
Versalhes, vrios gales de gasolina que a moa revendia com um enorme lucro. Por meio de 
gestos, ela mostrara que desejava um carro. "No problem", respondera ele. Desde ento, Claudine e 
os outros sonhavam com aquele veculo, Chevrolet ou Cadillac, de cor forte, com os cromados 
brilhantes... Imaginavam-se subindo os Champs-Elyses, dando voltas em torno do Arco do 
Triunfo, parando na frente do Fouquet's ou estacionando diante dos Deux Magots sob os olhares 
invejosos daqueles franceses palermas demais para enganar os babacas dos americanos!  
Graas ao mercado negro, Laure andava mais bem vestida e alimentada do que a maioria das jovens 
de sua idade; excessivamente maquiada, passando de uma aventura a outra, procurando em todos 
aqueles breves e frustrantes encontros um prazer que lhe escapava; j bastante desiludida, ela se 
auto-avaliava sem qualquer condescendncia, embora sem uma excessiva severidade; vivendo cada 
momento, incapaz de pensar no futuro, impiedosa nos negcios, ao mesmo tempo desesperada e 
engraada, lder do grupo e pobre coitada cercada de companheiros, seu nico e verdadeiro amigo e 
confidente era Franck. Assim que se encontraram, amaram-se... um amor fraterno. Nenhuma 
atrao sexual entre eles, apenas uma franca amizade feita de acessos de  
Que no fala uma nica palavra de ingls: moas seduzidas por um simples gesto. 
riso, cumplicidades, brincadeiras. Nenhum segredo entre eles, sabiam absolutamente tudo a respeito 
um do outro e no ignoravam tambm que, em qualquer situao, seriam solidrios. Aquela 
amizade era, sem que eles realmente se dessem conta, a principal razo de sua existncia.  
Estavam juntos e acabavam de acordar por volta das duas da tarde quando a campainha tocou vrias 
vezes no conjugado da rue Grgoire-de-ToUrs.  
- Pronto, pronto, j estamos indo! - gritou Franck, vestindo a cala.  
Uma mulher usando um turrbante verde que realava a cor de seus olhos e um rapaz louro, ambos 
altos e bonitos, encontravam-se parados na porta. Ao ver Franck, a moa sorriu ironicamente, o que 
fez com que ele se sentisse envergonhado.  
- Esta  a casa da Srta. Laure Delmas?  
- , sim, senhora.  
- Voc  Franck?  
Despenteada, Laure surgiu vestindo um penhoar de seda amassado, cheio de rendas. Embora nunca 
tivesse visto Sarah Muistein, reconheceu-a imediatamente e sentiu-se pouco  vontade.  
- Sou amiga de La, fiquei sabendo que estava doente, liguei mas no consegui falar com ela. Posso 
entrar?  
- Claro. No repare a baguna, fomos dormir muito tarde. Voc  Sarah?  
- Sou. Este  meu primo, Daniel Zederman.  
- Bom dia, este  Franck Baudelau, um amigo meu.  
- Bom dia. La ainda se encontra em Paris?  
- No, voltou para o Bordelais.  
- J mandei duas cartas. Voc as enviou para o endereo de 
La? 
- Claro. 
- No obtive resposta alguma. Estive ausente durante mais de um ms, ser que ela tentou me 
encontrar?  
- Acho que no - disse Laure com certa rispidez involuntria.  
- Por que pensa assim?  
Laure emudeceu e foi Franck quem respondeu:  
- No sabemos o que houve entre La e voc, mas, aps o seu encontro, La adoeceu. Em meio a 
crises de febre, ela implorava para que voc se calasse e, em seguida, chorando muito, tentava 
consol-la. O que ela dizia era to incoerente, to terrvel que Laure e eu pensamos que estava 
ficando louca. Quando ela melhorou e voc telefonou, La comeou a chorar e tremer, recusando-se 
a falar. Assim que se recuperou, pegou o primeiro trem para Bordeaux.  
Franck calou-se; um silncio pesado instalou-se entre eles. Daniel olhava para a prima, surpreso 
com a emoo que lhe parecia excessiva naquela mulher to dura e dona de seus sentimentos. Sarah 
conseguiu se dominar rapidamente.  
- E como vai ela agora?  
- Muito bem, h muito trabalho em Montillac e assim no lhe resta tempo para pensar - comentou 
Laure.  
- Fico muito feliz. Se escrever para ela, diga que sinto sua falta. At logo.  
Aps fecharem a porta, Laure e Franck permaneceram em silncio durante alguns minutos. A 
campainha do telefone despertou-os de seus pensamentos. A jovem atendeu.  
- Al,  da casa de Laure Delmas?  
- Sim, sou eu mesma. Quem fala?  
- Bom dia, minha querida Laure,  Franois Tavernier. Como 
vai voc? 
Franois!... Fico feliz em ouvi-lo. Onde est?  
Perto, no hotel Pont-Royal. La se encontra em Paris?  
No, est em Montillac. Uma de suas amigas acaba de sair... 
- ... Sarah Mulstein.  
- O que ela queria?  
- Ver La. Eu disse que minha irm no desejava encontr-la. Fiz bem, no ? Aquela mulher me 
assusta... al, al... est ouvindo?... Est ouvindo?... Al...  
- Sim, sim, estou ouvindo. Vou tentar encontrar La. Irei  sua casa, em breve. At logo, menina.  
- Mas eu... al! Desligou.  
Laure colocou o aparelho no gancho com um gesto irritado.  
- Ele me aborrece, continua me tratando como uma garotinha!  
- De fato, voc j  to velha! - disse Franck, segurando-a pela cintura e fazendo-a rodopiar at 
dissipar por completo seu mau humor.  
Sem flego e rindo muito, Laure deixou-se cair na cama.  
- Que horas so?  
- Quatro.  
- Ento, caia fora, preciso me arrumar.  
- Para ir aonde?  
- Vou me encontrar com Franois Tavernier e pedir que me acompanhe at Montillac; quero 
encontrar uma desculpa para no passar lo vero inteiro. Prefiro ir com voc quela aldeia do Sul 
onde seus pais moram. Como se chama mesmo o lugar?  
- Saint-Tropez. Sabe, no oferece nada de especial. Exceto a pesca e os banhos de mar, nem sei o 
que se pode fazer por l.  
- No se preocupe, vamos encontrar. Enquanto isso, precisamos urgentemente de um carro.  uma 
pena, a gente tem gasolina at no poder mais, mas no possui o veculo para us-la! Voc acha que 
vai dar certo, entre Claudine e o seu americano?  
- Estive pensando... Por que no toca no assunto com o tal Tavernier? Voc no me disse que as 
atividades dele durante a guerra no eram l muito catlicas?  
- Pois , mas foi s para disfarar. Na Libertao ele se encontrava ao lado do general de GaulIe, 
voc se lembra?  
- Sabe, nas atuais circunstncias, estamos acostumados a coisas bem mais estranhas...  
-  verdade, mas mesmo assim no me custa nada pedir a ele, e agora me deixe. Agente se encontra 
mais tarde no Flore, como sempre?... L pelas oito?  
- Tudo bem, estarei l. Juzo!  
Franck quase levou na cabea o sapato atirado por sua amiga. 
- Oh, desculpe, senhor!  
Laure, no saguo do hotel Pont-Royal, acabava de esbarrar num homem muito bem trajado, e que 
conduzia pelo brao uma jovem vestida com a mesma elegncia.  
- No foi nada, senhorita.  
- Franois! ... No me reconhece?... Laure... a irm de La!...  
- Laure! A pequena Laure!... Querida, no a reconheci. Voc se transformou numa parisiense de 
verdade! Que elegncia, no ?  
- disse, olhando para a companheira.  
- Exatamente - comentou esta com um sorriso irnico.  
- Laure, no preciso apresentar a Sra. Muistein. Acho que j se conhecem, no ?  
- Sim - murmurou Laure, com o rosto vermelho sob a pesada maquiagem.  
- Marcou um encontro com algum? - perguntou Tavernier.  
- No, vim falar com voc.., mas no h pressa.  
- Sarah, pode me desculpar um instante?  
Ela acenou com a cabea, concordando.  
Franois segurou o brao de Laure e levou-a at o sof.  
- Vamos sentar, no disponho de muito tempo. Diga o que quer de mim.  
- Oh, pouca coisa! Quase nada.  
- Mas o qu, exatamente? Trata-se de La?  
- De certa forma...  isso.., pensei que podamos ir juntos a Montillac, Assim minhas tias no teriam 
argumento se eu fosse embora com voc.  
- Ento no pretende ficar morando por l?  
- Oh,essano!  
A convico foi tanta que ele no pde deixar de sorrir.  
- No entanto, o lugar  lindo, a casa de sua infncia...  
- No passa de um buraco! Foi timo durante a minha meninice! S de pensar em ficar l para 
sempre, tenho vontade de morrer,  
- Mas La gosta tanto.  
- La no sou eu. Alis, quem disse que ela vai to bem assim?... Pois estou convicta de que no. 
La no se sente bem em lugar algum. 
Em Montillac pairam muitas lembranas ruins. Ela cumpre com suas obrigaes, mas sinto que no 
passa de fingimento.  
- Tem certeza disso?  
- Quase. Por que no vai busc-la? S voc pode fazer com que ela esquea...  
- Esquecer!... Essa  a palavra da moda! Esquecer! Voc no acha que eu tambm gostaria de 
esquecer, e Sarah, a mulher que lhe d medo, voc no acha que ela tambm gostaria de esquecer? 
Ponha isso em sua cabecinha: existem coisas que no se pode esquecer, que no se deve esquecer, 
nem pagando com a prpria vida, nem em nome do amor...  
Laure mal conhecia Franois Tavernier e nunca o vira zangado. Com o rosto lvido, ele a segurava 
pelo brao para que entendesse melhor as suas palavras, e apertava com tanta fora que ela no 
pde evitar um gemido.  
- Desculpe, acho que a machuquei. No passo de um velho idiota. Queira me perdoar,  natural que 
uma garota como voc procure esquecer os horrores cometidos pelos adultos. No temos o direito 
de lhes dar uma lio de moral.  
-  exatamente a minha opinio e de meus amigos. No precisamos de lio nenhuma, e de 
ningum - disse Laure, esfregando o brao. - Hitler j morreu, no ?  
- Ele talvez, mas no o nazismo.  
Os clientes do hotel, que passavam por aquela linda jovem vestida na ltima moda e o homem to 
bem trajado apesar das restries, no podiam de maneira nenhuma imaginar o teor de sua 
conversa. Imaginavam ser uma briga de namorados.  
- E da? Isso no pode impedir que eu me divirta.  
Que menina! Seu ar zangado lembrava muito La, porm uma La egosta e ftil.  
- Sua guerra - continuou Laure - nos ensinou que a vida era curta e frgil. No aceito esse tipo de 
existncia maante, como a das minhas irms.  
- Acha que La est chateada? - perguntou Franois, preocupado.  
- No lhe parece normal que uma moa da idade de La se  
aborrea naquele fim de mundo, tendo como nica companhia minhas tias, que so uns amores mas 
nada interessantes, Franoise, que vive chorando, e dois guris barulhentos e insuportveis? Gostaria 
de ver voc por l! Ainda bem que Jean Lefvre voltou e costuma aparecer em Montillac quase 
todos os dias.  
Sem cair na armadilha, Franois Tavernier sorriu.  
- Que bom para ela. No imagino La sem a companhia dos homens...  
-  essa a sua reao - comentou Laure, decepcionada como uma garotinha. - E, ainda por cima, 
voc se diverte!  
-  de voc que acho graa.  
- Oh!...  
- Preciso acertar algumas coisas em Paris, e na prxima quinta ou sexta-feira, vou a Montillac.  
- Posso ir junto?  
- Combinado. Avisarei assim que estiver pronto.  
- Obrigada. Conto com voc. 

Captulo 9

Esteile de Montpleynet via com tristeza Franoise mergulhar numa melancolia cada vez
mais profunda. Permanecia longos momentos prostrada, o olhar perdido, sem foras e sem 
pensamentos. Quando no considerava o mundo  sua volta com indiferena, ela parecia 
perceb-lo com a mais profunda averso e nada lhe dava prazer; o prprio filho no 
conseguia distra-la. Apenas a presena do novo mestre-de-obras fazia com que sasse de 
seu isolamento. Pouco a pouco, uma espcie de amizade acabou se estabelecendo entre os 
dois jovens, a qual, para Lebrun, se transformou logo em amor, sentimento que ele no 
ousava expressar diante do comportamento de Franoise, to afastada de qualquer atrao 
da mesma natureza.  
Alain Lebrun conhecia sua histria. Com certeza a longa permanncia na Alemanha, numa 
casa dirigida exclusivamente por mulheres, fazia com que ele entendesse os laos que 
podiam se criar entre inimigos. Por vrias vezes levantara-se em sua defesa nos bares e nas 
assemblias de que participava; chegara inclusive s vias de fato com um viticultor que no 
media seus insultos contra aquelas putas que deveriam ter sido fuziladas depois de ter a 
cabea raspada. Assim como Estelle, ele tambm se preocupava com o humor sombrio de 
Franoise e fazia de tudo para distra-la, com resultados medocres.  
Entretanto, certo dia, achou que conseguira: levara Franoise  feira de Duras para comprar 
gansos e patos, com os quais ele desejava iniciar uma pequena criao. Antes de partir, 
almoaram  
num bom restaurante da cidade. Ali, pela primeira vez desde que se conheciam, ela se mostrara 
sorridente e descontrada. Na volta, pararam para admirar a paisagem e caminhar um pouco pela 
estrada. Penetraram num bosque com o cho coberto de musgo, sentaram-se para curtir a sombra 
aps tanto calor. Permaneceram calados, num silncio sem tenso, amigvel. Com a mo, Alain 
tocara suavemente seu ombro. Animado com a atitude da moa que nada dissera, atraiu-a parajunto 
de si e beijou-lhe a cabea de cabelo curto. Naquele momento, Franoise teve um sobressalto e 
levantou-se rapidamente, plida, o olhar perdido.  
- Vamos voltar - disse com rispidez.  
Caminharam calados, ele magoado, ela com os lbios cerrados, rgida em seu sofrimento.  
Ao chegarem a Montillac, nem se despediram.  
Durante vrios dias, no se dirigiram a palavra, exceto por necessidade profissional.  
Esteile, que adivinhara os sentimentos do rapaz e notara que Franoise parecia apreciar sua 
companhia, chegara a sonhar com uma possvel unio. Aquela brusca mudana de atitude 
desorientou-a.  
Certa noite, aps o trabalho, Alain Lebrun bateu na porta de La e pediu para conversar com ela. 
Surpresa com o tom srio, ela ofereceu-lhe um lugar numa poltrona de frente para a mesa de seu 
pai.  
- O que houve, Lebrun? Que cara  essa?  
- Srta. La, vim pedir minha demisso.  
- Sua demisso!... Por qu? No est satisfeito com o trabalho?  
- No  isso, senhorita... Na verdade, no depende de mim.  
- No entendo, explique-se melhor. J falou com Franoise?  
- Justamente...  
- Como, justamente?  
- Franoise... quero dizer, a Sra. Franoise...  por causa dela... Eu queria pedir sua opinio.  
Alain calou-se e permaneceu em silncio.  
- Ora, fale! Que opinio voc quer?  
-  difcil dizer... Acha... que... a Sra. Franoise...  
- A Sra. Franoise o qu?  
- ...aceitaria casar-se comigo?  
La olhou para ele espantada e em seguida deu uma boa risada.  
Alain Lebrun ficou lvido e se levantou.  
- Senhorita, no vou permitir ser humilhado.  
- Mas est redondamente enganado, Lebrun. No estou rindo de voc, achei graa porque acaba de 
fazer sua declarao de amor a mim e no a Franoise. Como posso responder por ela? Minha irm 
no costuma me tomar por confidente.  
- Claro, mas, na sua opinio, tenho alguma chance?  
Como ele parecia comovente, de p, desajeitado, sem saber onde pr as mos. La o fez sentar-se 
novamente.  
- Eu ficaria muito feliz, Alain, se passasse a ser meu cunhado, e acho que para Froise seria 
maravilhoso ter um marido como voc. Sabe o essencial a respeito de sua vida e isso no representa 
mais nenhum obstculo; mas para ela talvez seja diferente. J conversaram a esse respeito?  
- No, era o que eu contava fazer, mas, desde a feira de Duras, ela se afastou de mim. Ser que 
poderia me aceitar?...  
- Claro que no. Conheo Franoise. Qualquer interveno de minha parte seria muito mal 
interpretada. Tudo que posso fazer  provocar um encontro entre vocs dois.  
- Faria isso?  
- No  nada - disse La, erguendo os ombros. - Farei o possvel para devolver a Franoise o gosto 
de viver.  
- Obrigado, senhorita. Quanto a mim, darei tudo para que sejam felizes, ela e o menino.  
- Guarde os agradecimentos para mais tarde. Deixe-me pensar. Assim que me ocorrer alguma idia, 
falarei com voc.  
- No demore muito - acrescentou Lebrun ao se despedir. La, pensativa, encostou-se na janela, 
deixando o olhar percorrer o prado que descia suavemente at os velhos lamos erguendo- se acima 
da estrada de Saint-Macaire. Uma brisa amena encurvava a copa das rvores e ondulava a grama. 
Tudo estava to calmo, to arrumado, de certa forma imutvel. La sabia como tudo aquilo era 
enganador, ilusrio: aquela brisa podia transformar-se em tempestade, aquela bonana no maior 
fragor. Sabia tambm que precisava  
preservar essas aparncias. Uma espcie de instinto de sobrevivncia mandava que ela 
fizesse tudo para favorecer os desejos de Lebrun, no s para a felicidade da irm, mas para 
a sua prpria, para sua tranqilidade, sua liberdade. Todos, em Montillac, tinham certa 
tendncia em lhe confiar as dificuldades, desde a administrao da propriedade at a 
escolha do tecido para um vestido, das rvores a serem plantadas ao cardpio do jantar. Ela 
sentia a necessidade de entregar suas obrigaes a outra pessoa; Alain Lebrun parecia o 
mais indicado. Evidentemente, a famlia de Bordeaux no veria com bons olhos esse 
modesto partido, mas, no ponto em que haviam chegado suas relaes, no fazia a menor 
diferena. La imaginava as primas ironizando, comentando que, na situao de Franoise, 
qualquer casamento era uma surpresa e, alm disso, homem algum pertencendo a seu meio 
aceitaria uma mulher com um passado como o dela, trazendo ainda por cima um bastardo 
nas costas. O mais difcil seria convencer a prpria irm. Ela conservava a lembrana de 
Otto no corao; mas o pequeno Pierre estava crescendo e sentia falta de um pai. Mais uma 
vez, La irritou-se com a ausncia de Franois Tavernier. Ele saberia como agir.  
Jean Lefvre retomara seus hbitos de antes da guerra; a cada entardecer, vinha a Montillac. 
Sua presena agradava a todos. Geralmente, era convidado para jantar e ficava at altas 
horas com seus amigos. As vezes, a me o acompanhava e as senhoritas de Montpleynet 
faziam o possvel para distra-la. Mas a pobre mulher jamais deixava de se deter no local 
onde Raoul fora enterrado.  
Sem perceber o que acontecia, La voltara a se comportar como uma jovem vaidosa com o 
amigo, esquecendo-se de que o tempo passara e ele deixara de ser um rapaz inexperiente. 
Nunca falavam daquela noite em Morizs, quando os dois irmos a possuram. Entretanto, 
em suas lembranas, nada fora apagado; uma verdadeira festa dos sentidos, ao mesmo 
tempo afetuosa e louca de paixo, sem conseqncias para La; para Jean, ainda era uma 
violenta vertigem acompanhada por remorsos e um sentimento de culpabilidade. Ele 
perdera um pouco daquela alegria e desenvoltura que faziam todo seu charme e 
costumavam seduzir La. Suas novas  
responsabilidades, a tristeza da me, os sofrimentos, a perda do irmo, davam-lhe uma expresso de 
seriedade que no faziam parte de seu temperamento. Mais do que nunca, amava La e sonhava em 
se casar com ela. Sabia de sua ligao com Franois Tavemier, o que o impedia de se declarar 
abertamente; temia ouvir uma recusa e o argumento de que ela amava outro homem. La lhe falara 
dos sentimentos de Alain Lebrun em relao a Franoise e pedira que organizasse um passeio a 
Pyla, onde os Lef'evre possuam uma casa  beira-mar. Era o ms de junho: nada mais natural de 
que se banhar nas guas do Oceano! Como La no conseguia encontrar um bom motivo para 
deixar os dois meninos em casa, partiram todos os seis, num sbado de madrugada, no Citron novo 
de Jean. Ao ver o imenso carro preto na frente da casa, La ficou momentaneamente assustada, 
como se, do veculo, fossem surgir Maurice Fiaux e seus milicianos.  
O porta-malas do carro estava repleto de mantimentos colocados por Ruth e Esteile; as mulheres 
sentaram-se atrs com as crianas, os homens na frente. Em Villandraut, era dia de feira. Apesar da 
hora, a cidade j se encontrava entupida de carroas, caminhonetes, rebanhos de carneiros e cabras; 
das gaiolas, saam os pios das aves e os grunhidos dos porcos. Na suave claridade da manh, as 
pessoas dirigiam-se com toda a calma para seus afazeres. Fora da cidade, a estrada seguia em linha 
reta pela floresta das Landes. La sentiu um aperto no corao ao pensar nos dias passados nesses 
bosques, escondida, com Camilie e Charles. Embora ainda muito criana naquela poca, ser que 
Charles se lembrava de alguma coisa? No falava nada, olhando muito srio e atento para as rvores 
que desfilavam de cada lado da estrada.  
- O pombal do pai Lon no ficava por aqui? - perguntou de repente.  
La estremeceu e Jean Lefvre freou bruscamente. Transmisso de pensamentos?... Os trs 
pensavam exatamente na mesma coisa. 
- Voc se lembra do pombal do pai Lon? - perguntou La.  
- No muito bem, tinha voc e mame. Ficava por aqui, no ? 
-  sim, querido, acho que no  longe daqui.  
Charles desviou a cabea e, encostado na porta do carro, concentrou-se na contemplao da 
paisagem. Pierre adormecera no colo da me. A viagem prosseguiu em meio a um profundo 
silncio.  
Finalmente, aquela estrada reta que parecia no levar a lugar algum fez uma curva logo aps o 
vilarejo de Lamothe; La suspirou aliviada; desde a infncia, a travessia das Landes sempre 
representara, para ela, em oposio aos pais e irmos, um trajeto opressivo. Diante daquelas 
florestas de pinheiros todos iguais, ela costumava experimentar uma angstia profunda e 
inexplicvel.  
Na sada de Arcachon, detiveram-se na casa da Sra. Roussel, que tinha as chaves do stio.  
- Sr. Jean, que bom rev-lo aps todos esses anos! Coitado do Sr. Raoul! Que tragdi! E a Sra. 
Lefvre, coitadinha, que tristeza!  
Com muita dificuldade, Jean conseguiu livrar-se daquela conversa carinhosa.  
A casa, ocupada durante a guerra pelos alemes, no sofrera demais, simplesmente se apagara. Foi 
essa palavra que veio  mente de La, a qual, sem se dar conta, expressou seus pensamentos em voz 
alta. Seu amigo fitou-a, surpreso.  
-  exatamente a impresso que tenho... Voc se lembra da ltima vez em que viemos, pouco antes 
do noivado de Camiile e Laurent.  
- Parece at que se passaram sculos!  
- Cuidado! No nos deixemos levar pela saudade: o tempo est lindo e voc to bonita!  
- No estou? - respondeu La, rodopiando.  
- La, La, venha logo, venha ver o mar - gritou Charles, empurrando-a.  
- Pierre tambm quer ver o mar.  
Jean ergueu-o do cho e o colocou nos ombros. O garotinho gritava de alegria. La, segurando a 
mo de Charles, saiu correndo.  
- Franoise, Alain, vocs no vm?  
- Irei mais tarde. Tomem conta de Pierre.  
- Eu tambm vou ficar - disse Alain Lebrun.  
- Tudo bem. Segure-se firme, seu cavaleiro, sou Luz de Fogo, o cavalo mais rpido do mundo... 
Tagad, tagad, tagad...  
Apertando com fora as pernas do menino que gritava de felicidade, Jean saiu galopando.  
- Ele vai cair - exclamou Franoise, entre preocupada e sorridente.  
- Fique tranqila,  um bom cavalo - disse Lebrun.  
Da casa, construda no topo de uma colina, descortinava-se a praia alm das dunas, deserta, ainda 
coberta com os escombros da guerra sobre os quais pareciam vigiar as casamatas da Muralha do 
Atlntico.  
- Ser que ainda existem minas? - murmurou a moa, levantando-se para ir ao encontro do filho.  
Alain deteve-a.  
- No se preocupe, todas foram retiradas e o acesso  praia j foi autorizado.  
- Quem sabe ainda tem alguma, perdida por l... No ria, ainda existem obuses da primeira guerra 
que continuam explodindo.  
-  verdade, mas a limpeza foi minuciosamente realizada. Alis, prisioneiros alemes pagaram com 
a prpria vida.  
- Sei - comentou Franoise num tom melanclico.  
Imediatamente, ele se censurou por ter mencionado os alemes, pois tratava-se de uma triste 
lembrana para Franoise. Mas ela j se encontrava perto do carro, retirando os mantimentos do 
porta- malas.  
- Venha me ajudar... No sei o que Rutb ps nesta cesta, mas pesa uma tonelada.  
Calados, colocaram toda a comida sobre uma mesa de jardim enferrujada.  
Cada vez que via o mar, La voltava a se sentir como uma criana: era sempre o mesmo encanto, o 
mesmo desejo de ir alm do horizonte para verificar se o mar continuava ou caa no vazio. Durante 
muito tempo, imaginara que, no fim, havia imensas quedas ainda mais altas que as do Nigara, que 
ela pudera conhecer aos  
seis ou sete anos num documentrio, no cinema de Langon, e com as quais ficara profundamente 
impressionada. Sem parar de correr, tirou o vestido e as sapatilhas, largando tudo na areia.  
Jean recuara no tempo, seis anos atrs, na mesma praia, olhando para a mesma jovem, com o 
mesmo mai azul-marinho... A mesma?... Claro que no... mais esbelta, mais mulher, ainda mais 
bonita! Sentiu um aperto no corao. H seis anos, ele e o irmo Raoul fitavam-na, comovidos e 
apaixonados... Como h seis anos, ela parecia inacessvel.  
- Quer descer!  
Entregue aos seus pensamentos, esquecera-se por completo do pequeno Pierre gesticulando em seus 
ombros. Ele levantou o menino e colocou-o no cho com todo o cuidado. A criana saiu correndo 
na direo de Charles, urrando de felicidade. Os dois meninos chocaram-se e rolaram na areia entre 
gritos de alegria. Com a ajuda de Jean, tiraram a roupa. Ele tambm, por sua vez, ficou desnudo; em 
seguida, segurando a mo das crianas, arrastou-as para a gua e chamou La que nadava 
rapidamente em direo ao mar aberto.  
Sentada sob um pinheiro, apoiada no tronco rugoso, Franoise olhava para o horizonte com 
expresso descontrada. Pela primeira vez em anos experimentava uma espcie de bem-estar ao 
mesmo tempo fsico e moral e pensava em Otto sem aquele sofrimento que costumava deix-la 
inerte, desamparada. Seriam as risadas, os gritos alegres de seu filho que chegavam at ela, trazidos 
pelo vento, ou a suavidade desse incio de vero, ou ainda a presena daquele homem simples e 
calado, cujo amor era mais do que evidente? A vida ainda podia ser boa?... Desde o dia fatdico em 
que sentira no crnio o frio da mquina de raspar, Franoise no derramara uma nica lgrima; a 
notcia da morte de seu amante deixara seus olhos completamente secos. Estou chorando por dentro, 
pensava. Mas essa dor rida tornava-se ainda mais insuportvel. E agora ela sentia escorrer pelo 
rosto um calor mido que deslizava lentamente, inexoravelmente, como gua muito tempo contida 
que por fim se libertava.  
De p, a seu lado, Alain Lebrun contemplava aquelas lgrimas  
que pareciam lavar o rosto da mulher que amava, devolvendo-lhe  
todo o frescor da infncia. Conseguiu conter o desejo que o impelia,  
percebendo, com a delicadeza natural dos amantes, que ela precisava  
descer sozinha at o fundo de sua mgoa.  

Captulo 10

Ao regressar da Amrica do Sul, Franois Tavernier reviu Sarah Mulstein. Aps ouvir,
transtornado, a terrvel narrativa de todo seu sofrimento durante a deportao, 
piedade e raiva tomaram conta dele. Sentia-se atordoado por um sentimento de 
profunda vergonha diante das desgraas que seres humanos haviam causado a seus 
semelhantes. Ele assistira aos revoltantes massacres da guerra da Espanha, crianas e 
mulheres metralhadas nas estradas, cidades bombardeadas, mes enlouquecidas pela 
dor ao lado do cadver dos seus filhos, rfs vagando entre as runas, e tudo aquilo 
reforara nele o desejo de paz, fazendo com que sentisse a necessidade de uma maior 
aproximao entre os povos; mas agora, diante daquela mulher para sempre destruda, 
experimentara um dio como jamais sentira durante toda a guerra. Logo ele que tentara 
se opor ao desejo de vingana de Sarah, hoje estava pronto a ajud-la em sua luta. 
Como ela, Tavernier conclura que aqueles crimes inauditos, e os criminosos arrogantes 
que fizeram muito mais do que simplesmente assassinar, no podiam permanecer 
impunes: as vtimas haviam sido destroadas, maculadas, desprezadas, desonradas. 
Matar, ele mesmo o fizera, podia at compreender; humilhar, jamais. Ele que era 
considerado to esperto, at mesmo cnico, que apreciava os prazeres da vida, 
afirmava no acreditar em mais nada, mas sonhava freqentemente com uma felicidade 
calma e tranqila com La como sua companheira, ele mesmo adotou, embora 
consciente da estupidez de se atirar numa vingana que no lhe pertencia, logo um homem como ele, a causa de Sarah; e com a mesma energia despendida em prol dos 
republicanos espanhis, e da resistncia francesa, procurava agora oficialmente todas as pessoas 
deslocadas de seu pas de origem.  
Aceitou encontrar-se, na casa de Sarah, com Samuel e Daniel Zederman, e dois amigos, igualmente 
judeus, Amos Dayan de Lublin, na Polnia, ex-membro do grupo Nakam, e Uri Ben Zohar, da 
Palestina, ex-combatente na Brigada Judaica.  
- Apresento-lhes Franois Tavernier, de quem j falei tantas vezes. Ele aceitou juntar-se a ns, com 
a condio de que nenhum de vocs se oponha  sua participao.  
Ben Zohar adiantou-se, a mo estendida.  
- Bom dia, tenho o maior prazer em rev-lo aqui - disse em ingls.  
Diante do espanto de Tavernier, que apertava sua mo, ele acrescentou:  
Eu estava em Tarvisio com Ismal Karmir quando voc chegou.  
-  verdade, agora me lembro. Mas no usava bigode naquela poca.  
- Exato - comentou Uri, acariciando um lindo bigode ruivo que lhe dava um ar de oficial britnico.  
- Mas como? Vocs se conhecem!... O mundo  mesmo muito pequeno - disse Sarah ao acender um 
cigarro.  
Amos Dayan aproximou-se, estendeu a mo a Tavemier e falou, num ingls hesitante:  
- Bem-vindo entre ns.  
Samuel e Daniel Zederman tambm se aproximaram.  
- Estou a par do importante papel que desempenhou na resistncia francesa e junto ao general de 
Gaulie e dos laos que existem entre voc e minha prima. No cargo que ocupa atualmente, pode ser 
muito til na descoberta dos criminosos nazistas. Obrigado por se juntar a ns - disse Samuel.  
Daniel saudou-o sem uma palavra. Sarah fez um sinal para que todos se sentassem e disse a 
Tavemier:  
- Todos aqui sabem quem voc  e o que fez. Exceto a mim,  
100 
voc no conhece mais ningum. Se vai lutar conosco,  natural que saiba quem so seus 
futuros companheiros... De forma geral, somos relativamente discretos quanto aos nossos 
atos, mas, em se tratando de voc e levando em conta o que representa, vou relatar 
rapidamente quem so e o que fizeram at hoje nossos quatro amigos. Comeo pelo meu 
primo Samuel, advogado de renome antes da guerra. As medidas antijudaicas obrigaram-no 
a parar de exercer a profisso. Com alguns amigos, fundou um jornal clandestino em 
hebraico, destinado a informar a comunidade a respeito dos perigos do nazismo. Aps a 
publicao de cerca de dez nmeros, ele foi denunciado. Quando a Gestapo veio prend-lo, 
ele no se achava em casa. Depois de espanc-los, os policiais levaram seu pai, sua me, 
suas irms e Daniel, o irmo mais novo. Todos, com exceo de Daniel, morreram no 
campo de concentrao. Samuel viveu dois anos escondido num poro graas  esposa, que 
no era judia. Tiveram um filho que morreu ao nascer. Um dia, sua esposa no voltou, pois 
deve ter sido morta durante um bombardeio; as buscas para encontr-la no deram em nada. 
Voltamos a nos ver em Munique. Em Linz, encontramos Daniel, que conseguiu escapar dos 
campos da morte. Resolvemos ambos vingar-nos dos horrores cometidos, apesar de 
sabermos que a vingana  a arma dos fracos. No foi difcil fazer com que Samuel 
compartilhasse do nosso ponto de vista. Aqui, em Paris, encontramos Amos. Ele fez parte 
do comando que, no ms de abril, envenenou o po destinado aos trinta e seis mil SS 
prisioneiros num campo perto de Nuremberg. Em quatorze mil pedaos de po previstos, 
dois mil foram envenenados com arsnico; apenas mil SS morreram. A censura militar 
aliada fez tudo para abafar o caso. Antes de ser interrogado pela polcia americana, Amos 
conseguiu atravessar a fronteira e refugiar-se na Frana. Uri Ben Zohar  um judeu da 
Palestina que, como voc sabe, combateu na Brigada Judaica. Com alguns companheiros, 
participou da execuo de nazistas na Itlia e na Alemanha. No entanto, a Haganah logo se 
ops aos projetos destinados a matar o maior nmero de alemes, assim como o 
envenenamento dos reservatrios de gua de grandes cidades como Nuremberg, Hamburgo 
ou Frankfurt, ou o incndio de Munique ou Stuttgart. Foi  
lo' 
ordenado que cessassem todas as represlias contra os alemes e voltassem  Palestina. Conta a sua 
vontade, os vingadores obedeceram. Uri foi autorizado a viajar para a Frana depois de passar 
alguns dias numa priso clandestina da Haganah.  
- Por que no foi para a Palestina? No falta trabalho naquela regio - comentou Tavernier.  
- Pensei nessa hiptese - respondeu Uri -, mas formamos um grupo que deseja a vingana antes da 
existncia de um hipottico Estado de Israel, o que se choca com o pensamento dos chefes da 
comunidade judaica de Jerusalm. Embora alguns estejam prontos a nos ajudar, a maioria tem um 
nico objetivo: a criao do Estado judeu. Achamos que Israel no poder existir se seus seis 
milhes de filhos, mortos sem sepultura, no forem vingados. Por isso formamos um grupo que 
pretende caar os nazistas onde estiverem, no mundo inteiro, e acabar com eles.  
Durante um momento, pairou um silncio povoado de dolorosas recordaes para cada um dos 
presentes. Foi Sarah quem voltou a falar:  
- Franois, quer fazer alguma pergunta?  
- Sim... vo precisar de muito dinheiro para executar todas essas operaes. Vocs tm?  
- Dinheiro no  problema, temos bastante - respondeu Samuel.  
- De onde provm?  
- De organizaes judaicas e no-judaicas encarregadas de levantar fundos em todo o mundo para 
nossa causa. No incio, alguns dentre ns no hesitaram em cometer assaltos, mas agora no  mais 
necessrio.  
- J participaram de execues?  
- Ainda no - respondeu Samuel.  
- Eu j-disse Uri.  
- Eu tambm - acrescentou Amos. -De vrias.  
Franois Tavernier olhou para Daniel.  
- Estou esperando minha vez com impacincia.  
Ele nada perguntou a Sarah; j sabia qual seria a resposta. 
- Voc acaba de chegar da Argentina; qual  a situao por l? - perguntou ela.  
- Em Buenos Aires, nos meios peronistas, eu soube da chegada de um certo nmero de famlias 
alems que foram acolhidas por compatriotas radicados na Argentina antes da guerra, a maioria 
com passaportes argentinos, americanos ou da Cruz Vermelha Internacional, outros com 
passaportes diplomticos entregues pelos cavaleiros da Ordem de Malta, e pouqussimas carteiras 
de identidade francesas. As colnias alems da Amrica do Sul so poderosas e numerosas, tanto no 
Chile quanto no Brasil e na Argentina, passando pelo Equador, Uruguai, Bolvia e Paraguai. 
Inmeros polticos desses pases so de origem alem. As rotas de fuga foram facilmente instaladas. 
Convm saber que, desde o incio da guerra, importantes relaes passaram a existir entre altos 
dignitrios nazistas e seus homlogos argentinos.  
Apesar da ruptura das relaes diplomticas entre Alemanha e Argentina, em janeiro de 1944, a 
operao Aktion Feuerland1, lanada por Bormann em fins de 1943, continuou sem graves 
problemas. Assim, milhares de obras de arte, toneladas de ouro e demais valores atravessaram o 
Atlntico a bordo de submarinos partindo da Espanha graas  ajuda do general Paupel, em Madrid. 
O embaixador da Alemanha von Thermann e a esposa, em companhia do capito Dietrich Niebuhr, 
organizavam bailes ou partidas de pquer - os argentinos tinham uma sorte incrvel - onde se 
encontravam a nata da colnia alem, o prncipe e a princesa de Schaumburg-Lippe, o conde de 
Luxburg, Ludwig Freude, Godofredo Sanstede - agente da Gestapo -, von Simon e argentinos tais 
como o atual presidente Juan Pern, os almirantes Scasso e Teissaire, os generais Ramrez e Farrel, 
os coronis Mittelba, Heblin, Gonzalez, Gilbert. Muito espertos, os alemes agradavam ao mximo 
seus amigos argentinos: matrias pagas sistematicamente na imprensa, importantes doaes do 
prncipe de Schaumburg-Lippe a diversas personalidades argentinas, festas regadas ao  
melhor vinho. A declarao da guerra em 27 de maro de 1945, sob a presso dos Estados Unidos, 
no atrapalhou muito as relaes entre os dois campos. Por medida de prudncia, os fundos e os 
bens dos nazistas foram transferidos para contas de cidados argentinos. Quando o governo de 
Buenos Aires apresentou-se para seqestrar os bens nazistas e japoneses, nada mais restava. Em 
abril de 1945, submarinos provenientes da Espanha chegaram  Argentina, trazendo um verdadeiro 
tesouro de guerra: oitocentos milhes de dlares, fruto dos mais diversos saques. Em julho e agosto, 
dois submarinos vieram  tona no porto de Mar dei Plata e foram entregues s autoridades 
americanas. Na Patagnia, sempre no ms de julho, outros dois submarinos atracaram. Oitenta 
pessoas embarcaram em barcos pneumticos e foram deixadas numa praia deserta, onde as 
esperavam imensos carros e caminhes. Foram igualmente retiradas dezenas de pesados caixotes, 
imediatamente levados de caminho at uma hacienda pertencente a uma sociedade alem. Vocs 
talvez saibam que a Organisation der ehemalingen SS-Angehrigen' possui vrias redes que 
permitem aos seus membros fugir para o Egito, Sria ou Amrica Latina. A rota, Alemanha, 
ustria, Tirol do Sul, Gnova via Tanger  a mais utilizada para alcanar os hospitaleiros pases da 
Amrica do Sul. S na regio de Gnova, existem uns dez mosteiros ou presbitrios que servem de 
esconderijo para os candidatos  imigrao sul-americana, sob o comando de um alto dignitrio 
eclesistico croata, Krunoslav Draganovic, grande amigo do Poglavnik Ante Pavelitch.  
Graas s suas relaes diplomticas junto ao Vaticano, ele obteve, de diversos pases e sem a 
menor dificuldade, autorizaes de imigrao para seus protegidos. Apesar da ao policial dos 
aliados, o porto de Gnova representa um ponto de partida seguro para os criminosos nazistas.  
- Sabamos da existncia dessa organizao, mas no podamos imaginar sua importncia - disse 
Sarah. - Voc falou de  
cumplicidades difceis de se admitir... a Cruz Vermelha Internacional, o Vaticano, a Ordem de 
Malta e outras mais...  
- Voc acredita que com o sucidio de Hitler, que para muita gente no  to certo assim, a queda do 
Terceiro Reich e a morte de milhes de seres humanos pudessem aniquilar todos os neofascistas e 
neonazistas da face da terra?... Que nada. Pequenos grupos como o nosso podem prejudicar bastante 
a rede ODESSA mas, no podemos nos iludir, a maioria daqueles canalhas conseguir escapar.  
- J sabemos - disse Samuel. - No somos os nicos a perseguir os nazistas fugitivos. Graas a 
nossos informantes americanos, temos um grupo na pista de Adolf Eichmann. Ex-membros da 
Nakam descobriram o endereo de sua famlia na ustria, em Bad-Ausse; fazem um revezamento 
constante para vigiar a esposa e o irmo de Eichmann. Esse pequeno grupo de vingadores recorrer 
a ns se for preciso. Quanto ao nosso grupo, por enquanto, Amos localizou aquelas duas mulheres 
do campo de Ravensbrtick, Rosa Schaeffer e Ingnd Sauter, que conseguiram se infiltrar na Cruz 
Vermelha e que vimos, Sarah e eu, na plataforma de uma estao ferroviria acompanhando 
pequenos rfos. Encontram-se agora em Lyon, num convento de freiras. Daniel e Amos partem 
amanh para observar seu modo de vida e encontrar um meio de det-las.  
- E vocs pensam em entreg-las s autoridades francesas?  
- perguntou Tavernier.  
- No - disse Sarah rispidamente. - Vamos execut-las.  
- Depois disso - prosseguiu Samuel -, embarcaremos para continuar nossa caada na Argentina; l, 
duas pessoas de nosso grupo se faro passar por nazistas fugitivos. Amos e Daniel, que falam 
perfeitamente o alemo e parecem arianos puros, desempenharo esse papel. Quando voc volta  
Argentina?  
- No outono. Fui encarregado de uma misso junto ao governo argentino pelas autoridades 
francesas.  
- Perfeito; essa viagem pode ser antecipada?  
- No sei, vou perguntar ao Quai d'Orsay.  
- Seria melhor se, antes de partir, voc estivesse casado...  
- Casado?!...  
- Sim, com Sarah. Facilitar muito nossa tarefa... 
- Talvez, mas no pretendo casar de maneira nenhuma.  
- No sou do seu agrado? - perguntou a moa em tom irnico. 
- No  isso, Sarah, voc sabe muito bem.  
- Sei que ama outra mulher. No se preocupe, no estou com siume. 
- No se trata disso...  
- Claro que no - interrompeu Samuel. - Trata-se de mera formalidade...  
- Mera formalidade, essa  boa! Isso porque no  voc que precisa se casar!  
- Franois, estou a par de seus sentimentos, mais at do que imagina. Acredite, se pudssemos agir 
de outra forma, eu no lhe pediria para tomar parte nessa farsa - disse Sarah, seriamente.  
-Mas...  
- Sei o que vai dizer, deixe que eu trate de tudo.  
- Voc nada tem a ver com isso, cabe a mim...  
- Vou acompanh-lo at l.  
- Ela no quer falar com voc.  
- Sei, e  bom sinal. Ela no quer falar comigo porque tudo que lhe contei deixou-a transtornada. 
Conto justamente com isso para obter sua ajuda.  
- Voc no pretende pedir a La...  
- Por que no? No foi ela quem me ajudou, quem salvou a minha vida, arriscando-se corajosamente 
na Resistncia?  
- Exatamente, ela precisa esquecer tudo aquilo!  
- Voc a conhece muito mal, La no conseguir esquecer, embora seja a sua maior vontade. Trata-
se de uma jovem sincera e simples que acredita no castigo para os maus.  
- Sei de tudo isso, mas por que lhe confiar a tarefa de castig-los? Por favor, deixe La fora de tudo 
isso.  
- Por qu, se precisamos tanto dela?  
- Podemos perfeitamente passar sem sua ajuda. Acho intil trabalharmos com uma moa to 
desmiolada...  
- No era esse o julgamento do seu tio, o padre Adrien, que utilizou seus servios em diversas 
circunstncias. 
- Ela lutava para expulsar o inimigo do seu pas...  
- E agora vai lutar para que ele no volte.  
- Tudo isso me parece muito complicado e bastante arriscado  
- comentou Samuel. - Se, como pude perceber, Franois Tavernier est apaixonado por essa tal de 
La, teremos problemas. No h nada pior do que as histrias de amor na clandestinidade.  
- Seu primo est certo,  muito arriscado, no s para La como para todos ns. Comprometi-me a 
ajudar, a participar de sua luta, mas no se for preciso pr em risco a segurana e a prpria vida de 
La.  
- Por hoje basta - disse Sarah. - Voltaremos a falar numa prxima oportunidade.  
O tom daquela voz fez com que todos se levantassem e sassem.  
Algumas crianas brincavam na areia do parque da Place des Vosges sob o olhar das mes sentadas 
 sombra, tricotando ou costurando. O cu estava branco devido ao calor escaldante, no havia 
ningum sob as arcadas. Franois Tavernier deixou os companheiros e, com o palet no ombro, 
caminhou at o carro estacionado na rue de Turenne. Todos aqueles encontros e conversas 
deixavam-no pouco  vontade. Na sua posio, seria conveniente envolver-se nesse tipo de aventura 
com amadores, dentre os quais uma mulher sem o menor bom senso? Claro que no, tratava-se da 
mais completa loucura. Entretanto, desde a guerra da Espanha, o mundo perdera a razo.  
Herdeiro de uma rica famlia de fabricantes de tecidos de Lyon, brigara com os parentes aps seu 
envolvimento com os republicanos espanhis. Apenas um de seus tios, que administrava sua 
fortuna, mantivera relaes distantes porm necessrias, devido aos negcios existentes entre eles. 
De uma honestidade mpar, Albert Tavernier fizera com que o dinheiro do sobrinho triplicasse, sem 
participar dos lucros, o que era muito incomum entre os demais membros da famlia. Sem a 
interveno da ovelha negra, muitos deles teriam sido presos quando da Libertao.  
Perdido em seus devaneios, Tavernier registrava automaticamente tudo o que acontecia  sua volta; 
quando chegou junto ao 
carro, uma vaga silhueta masculina escondeu-se por trs de uma coluna das arcadas. Acostumado 
aos combates de guerrilha, Franois levou a mo imediatamente  cintura  procura da arma. 
Aquele gesto involuntrio provocou um sorriso: a guerra acabara, a pistola Walther, bem como o 
resto de seu arsenal, fora guardada. Atento, continuou andando. Ao abrir o carro, olhou mais uma 
vez  sua volta... devia ter sonhado; exceto por uns poucos transeuntes dirigindo-se  rue de Rivoli, 
no havia ningum.  
No interior do veculo, reinava um calor sufocante. Tavemier soltou o n da gravata e desabotoou a 
gola da camisa. Guiou devagar at a rue de l'Universit, certo de que no o seguiam. Os trabalhos 
encomendados estavam sendo executados normalmente; se tudo corresse dentro do previsto, 
estariam terminados no outono. Veria ento se La aceitava casar-se com ele.  
Enfurecido ao se lembrar da proposta completamente absurda de Sarah, rilhou os dentes. Se 
precisasse casar, seria com La e com mais ningum... No entanto, Sarah tinha razo ao pensar que 
teria mais facilidade de penetrar na sociedade argentina, na qualidade de esposa de diplomata; 
tratava-se de um posto de observao ideal para saber o que acontecia com os nazistas fugitivos 
acolhidos no pas. Ele imaginava perfeitamente Sarah tornando-se amiga daquela atriz de 26 anos, 
Eva Duarte, que o novo presidente argentino acabara de desposar. O fato de Juan Domingo Pern 
sentir-se fascinado por Benito Mussolini e freqentar os crculos nazistas no era segredo para 
ningum, e fora eleito graas aos cabezitas negras'... Apoiado por uma parte da classe operria e 
do exrcito, o "chefe", eleito presidente da repblica com 56% dos votos, iria fazer de seu pas uma 
grande potncia mundial; apesar da oposio dos comunistas e da aristocracia, seu poder parecia 
estabelecido por um longo tempo. Na qualidade de representante do governo francs, Franois 
Tavernier fora apresentado ao casal presidencial. Ele mal conseguira disfarar um sorriso irnico ao 
beijar a mo da esposa do presidente, uma loura oxigenada com o rosto muito  
maquiado e usando um vestido juvenil que no combinava com aquela mulher de 26 anos. Fazendo 
charme, Eva Pern levara-o a visitar o parque da residncia presidencial, extasiando-se com as 
flores pelas quais se dizia profundamente apaixonada. Quanto ao esposo, o general Pern, afirmara 
a Tavemier que ele seria sempre bem-vindo. Naquela mesma noite, durante um jantar na casa de 
Victoria Ocampo, diretora da revista literria Sur o assunto principal da conversa fora a bela Eva 
Pern e o modo pelo qual conseguira atrair o to grosseiro Juan Pern, embora certas senhoras 
presentes na ocasio considerassem-no muy macho. Victoria Ocampo, linda e alta mulher de uns 
cinqenta anos, centro das atenes nos meios literrios argentinos, renomada "devoradora de 
homens", amiga ou amante dos maiores escritores da poca, francfila inveterada, experimentara 
logo uma profunda simpatia por aquele francs que se encontrava sempre em seu caminho, tal como 
um perfume misterioso que despertava sensaes de aventura. Quando de seu regresso a Paris, 
entregara-lhe papel, fitas para mquinas de escrever, caf, acar e todo o dinheiro obtido graas a 
Gisle Freund para o comit de Solidaridad con los escrivatores franceses, destinados a Adrienne 
Monnier - que aceitara servir de intermediria entre os escritores franceses e o comit. A grande 
editora de Ulisses, de James Joyce, recebera Franois Tavemier com toda sua gratido na livraria 
da rue de l'Odon.  
- Graas aos amigos argentinos, vamos poder abastecer nossos escritores que afirmam nada 
conseguir escrever sem sua dose diria de caf. - Diante da surpresa de seu interlocutor, acrescentou 
sorrindo: - Pois , a livraria transformou-se em armazm. O que  que posso fazer? Os alimentos da 
alma no bastam aos nossos literatos. Costumamos distribuir os alimentos diariamente, das quatorze 
s dezoito horas, exceto aos domingos.  
- O que  preciso fazer para conseguir esse auxilio alimentar?  
- Ser escritor e freqentar, ou no, a livraria. Mandamos aos interessados prospectos redigidos por 
Gisle, que informam nossos intelectuais da chegada dos pacotes. Veja s as assinaturas dos 
destinatrios.  
Franois Tavemier leu: "Jean-Paul Sartre: um quilo de caf, 
um salaminho, uma lata de leo, um quilo de frutas secas; Jean Cocteau: trs quilos de caf, um po 
doce, um quilo de frutas secas; Henri Michaux: um quilo de caf, meio quilo de ch, dez tabletes de 
chocolate, trs latas de leite condensado, trs latas suplementares de carne, um presunto, trs pes 
doces; Andr Breton: um quilo de caf, dois salaminhos, uma lata de leo, um quilo de frutas secas, 
um po doce; Albert Camus: dois quilos de caf, duas bandolas, uma lata de leo, um po doce." 
Sem conseguir disfarar sua emoo, Franois colocou no balco repleto de papis os pedidos 
assinados, onde se via impressos um barrete frgio e duas mos se apertando.  
Adrienne Monnier notou sua emoo e disse com um sorriso amigvel:  
- Pois , senhor, no passamos de simples criaturas humanas. Quando quiser voltar, ser sempre 
bem-vindo.  
Depois de penetrar nos meios peronistas e da intelignsia argentina, Tavernier ocupava um posto 
ideal para ajudar Sarah e os amigos em sua misso. Mas seria necessrio casar-se com sua linda 
amiga judia? Suas dvidas aumentavam e no entanto... Para saciar aquela sede de vingana, seria 
preciso sacrificar seu amor por La?  
A fim de se distrair, aceitou o convite de Laure para uma apresentao de jazz no Lorientais, onde 
tocavam Claude Lutter, um clarinetista de cabelo cortado  escovinha e uma expresso de lavrador
canadense com sua camisa xadrez, e um trompetista alto e magro, Boris Vian.

Captulo 11

20 de julho de 1946
Querida,
Estou em Paris j faz alguns dias. O telefone continua falhando neste pas e as operadoras no tm
a menor pena dos amantes. S me resta a caneta para lhe dizer que estou morrendo de saudade e 
chegarei no decorrer da prxima semana com Laure, que encontrei anteontem. Sua irm pretende 
usar-me para evitar uma permanncia muito demorada em Montilakc... S o cabelo dela se parece 
com o seu, o que  uma pena!  
Revi Sarah. Entendi sua reao quando ela me contou o seu suplcio; mesmo assim, nem me contou 
tudo. Voc no deve ficar assim; j sofreu bastante para conseguir entend-la. Vocs duas se 
parecem muito em vrios aspectos. A diferena  que voc no chegou ao fluido do inferno... 
Precisa saber que Sarah jamais voltar a ser uma mulher normal. O que quer que faamos, jamais 
conseguiremos apagar o que foi feito; mas podemos ajud-la. Peo-lhe a permisso de ir a 
Montillac junto com ela,  o que ela mais deseja. Se recusar vou entender Mas conheo voc muito 
bem:  generosa e gosta de Sarah. Daqui a pouco, embarco para Londres, onde ficarei dois dias. 
Telefone a Laure ou mande um telegrama com sua resposta. No vejo a hora de encontr-la, 
abra-la, com seus olhos fechando-se de prazer  
Minha menina querida eu gostaria que voc tivesse uma nica 
certeza: eu a amo. Nunca se esquea disso. O futuro pode nos trazer surpresas, no corresponder a 
tudo com que sonhamos. Entretanto, sei que voc  a nica, ouviu bem? A UNICA, junto de quem 
desejo viver, cercado, e por que no, de filhos que se paream com voc.  
 Franois.
O corao de La batera mais forte ao reconhecer a letra do amante. Deixando com Franoise e 
Ruth a tarefa de tomar conta da gelia que cozinhava desde cedo, ela correu e se trancou no 
escritrio do pai para ler sua carta sossegada.  
A nica! ... era a nica com quem ele desejava viver, ter filhos!... Tambm gostaria de viver com ele, 
pensou La. Um sentimento de felicidade, de paz, a dominou: era a primeira vez que admitia tal 
sensao. Riu s gargalhadas. Por que esperara tanto tempo para confess-lo?... A resposta chegou 
de imediato: "Tenho medo de sofrer por sua causa!" A este pensamento, seu corpo se encharcou de 
suor. "Devo estar completamente louca, ficando transtornada dessa maneira s porque o homem 
que amo - oh, sim, como ela o amava, como era gostoso aceitar o fato - me declara o seu amor! Riu 
novamente, mas continuava tensa e preocupada. La releu a carta. J que Franois lhe pedia, 
receberia Sarah, seria afetuosa e carinhosa. Os dois juntos ajudariam-na a superar sua dor, fariam 
com que desistisse de suas idias de vingana. Ligar o quanto antes para Laure e avisar que 
Montillac esperava pelos trs. Mas por que ele escrevia "O futuro pode nos trazer surpresas, no 
corresponder a tudo com o que sonhamos..."? Havia uma espcie de ameaa naquelas palavras. J 
que eles se amavam, o futuro s podia ser maravilhoso... "O futuro pode nos trazer surpresas..." 
Que surpresas?.., O que significava aquela afirmao?... La levou as mos s tmporas para tentar 
deter a presso em sua cabea... fechou os olhos... abriu-os em seguida... Por trs das plpebras, 
durante um segundo, vira Sarah entregando-lhe o filho morto... Sarah, que ria e a fitava com uma 
expresso terrvel...  
La refugiou-se no velho sof do pai e, toda encolhida, come- 
ou a tremer. O cheiro do suor frio que emanava do seu corpo fremente causava-lhe uma violenta 
nusea. "Preciso me acalmar... preciso... Mame... Camilie... estou com medo, se soubessem como 
estou com medo..." A lembrana suave das mos da me e de Caniille em sua testa, quando os 
pesadelos atormentavam-lhe as noites, acabou por tranqiliz-la. Levantou-se com dificuldade, a 
boca amarga. No espelho do banheiro, viu seu rosto transtornado e lvido como o de um afogado. 
Enfurecida, tirou toda a roupa e tomou uma chuveirada. Ah, limpar-se de todas aquelas lembranas, 
todas as imagens, pensar apenas na alegria de estar viva, possuir um corpo feito s para o prazer!... 
Prazer esse que Franois sabia lhe proporcionar. Encontrar finalmente a felicidade de se sentirem 
unidos em uma nica pessoa... O futuro com ele s traria boas surpresas, era isso que Franois 
quisera expressar. Juntos, devolveriam a Sarah a vontade de viver; saberiam cerc-la com sua 
imensa ternura; o amor entre eles s poderia beneficiar a todos. Todos os seres amados, La 
desejava que fossem felizes prximos dela. A guerra terminara, o tempo de paz e felicidade voltara.  
Saiu do chuveiro cantando, enxugou-se, olhou-se jovialmente no grande espelho do banheiro, 
perfumou-se e vestiu uma roupa leve de algodo.  
Risos e gritos alegres vindos do terrao fizeram-na descer a alameda correndo; ainda no era a hora 
do aperitivo da noite, e sim o que precedia o almoo. A sombra das glicnias, Alain Lebrun abria 
uma garrafa de champanha em companhia de Estelle, Lisa, Franoise e Ruth, ainda com seus 
aventais de cozinheira.  
- O que aconteceu? O que esto festejando sem mim?  
- Charles e Pierre foram cham-la - disse Franoise com um sorriso irnico.  
- No encontrei ningum. Mas ser que podem me contar o que est acontecendo?  
- Franoise... - comeou Lisa, abafando o riso com a mo.  
- Franoise o qu?  
- ...acaba de nos anunciar - continuou Estelle, detendo-se para enxugar as lgrimas que molhavam 
seu rosto. 
- Est chorando! Aconteceu alguma coisa?  
- No... isto , sim, Srta. La - disse Alain, tirando a rolha da garrafa.  
- Vocs poderiam me contar... Oh, acho que entendi!... voc  
e Franoise?...  isso mesmo?... Oh, irmzinha, como estou feliz!  
- exclamou La ao abraar Franoise. - Meus parabns, Alain  
- acrescentou, abraando o rapaz.  
- Obrigado, senhorita.  
- Chega de senhorita. Agora no sou sua cunhada?  
- Obrigado, La.  
Sorridente, La pegou a taa de champanha que ele lhe entregou.  
- A gente no encontrou... Ah, voc est a!... Eu e Pierre procuramos por toda parte - disse Charles 
sem flego.  
- Venham meninos, vamos brindar todos juntos.  
- Alain, s uma gotinha, eles ainda so muito pequenos - disse Franoise.  
Aps servir a todos, Alain Lebrun ergueu sua taa.  
- Fao um brinde ao mais belo dia de toda minha vida.  mulher que amo, a Montillac e a todos 
aqueles que aqui moram.  sade de todos vocs.  
- Como seus pais ficariam felizes! - disse Ruth, chorando.  
- Vamos, minha querida Ruth, hoje no  um dia de tristeza  
- disse Estelie assoando-se ruidosamente.  
- No, no  - soluou Lisa.  
Aquelas trs eram to cmicas, com o leno na mo, que Franoise e Alain riram s gargalhadas.  
- Isso mesmo, podem zombar da gente - resmungou Ruth.  
Ao anoitecer, todos brindaram em homenagem aos noivos, em companhia de Jean Lefvre e do 
padre Henri.  
- E quando ser sua vez? - perguntou sutilmente Jean a La.  
- Mais cedo do que imagina - respondeu ela, despreocupada.  
Ao perceber sua gafe, La arrependeu-se do tom de sua resposta 
Como reparar aquele erro? Felizmente, Franoise mudou de assunto.  
- Padre, Alain e eu ficaramos muito contentes se aceitasse celebrar nosso casamento.  
- Com o maior prazer.  
- Vocs vo esperar o fim da vindima para as npcias? - perguntou Jean.  
- No - respondeu Franoise. - Alain e eu fazemos questo de casar o quanto antes, assim que os 
papis ficarem prontos.  
- No teremos tempo de preparar tudo, mandar fazer o vestido de noiva, entregar os convites, 
organizar a festa...  
- No haver festa, La - comentou Franoise. - Quero me casar na mais estrita intimidade.  
-Mas...  
- Ser que no entende por qu?  
Claro, entendia perfeitamente. Ela no passava de uma grande tola!  
- Franois me avisou de sua chegada com Laure e uma amiga. Quem sabe possam ficar at o 
casamento? - disse La.  
- Que boa notcia - comentou Lisa. - Gosto muito do Sr. Tavernier.  
Mas a notcia no agradou a Jean Lefvre, que olhou de relance para La.  
- Se aceitarem, voc e Jean sero meus padrinhos. Alain escolheu um tio e um amigo.  
Durante o resto da semana, at a chegada de Laure e dos convidados de La, uma agitao que 
desaparecera h muito tempo voltou a reinar em Montillac: idas e vindas pela casa, troca de mveis, 
compras diversas devido  instalao do novo casal. Resolveram ocupar o antigo quarto do Sr. e da 
Sra. Delmas, o mais bonito da casa, pois formava uma verdadeira sute com saleta e banheiro. As 
obras recentes tornaram aqueles aposentos ainda mais agradveis O quarto de Pierre ficaria ao lado 
da me. 
Com a notcia desse casamento, Lisa e Ruth rejuvenesceram; conversavam a respeito de enxoval, 
prataria, roupa, loua. A costureira de Langon veio tirar as medidas das senhoras de Montillac para 
preparar os vestidos. As vrias escolhas provocaram animadas discusses. Franoise optou por um 
simples tailleur amarelo-claro, La por um vestido vermelho-escuro, Lisa por uma roupa de voile 
estampado com um casaquinho, Estelle por um conjunto cinza-prola; Ruth disse no precisar de 
nada. Tendo em vista o reduzido prazo, todos concordaram com a costureira em fazer apenas uma 
prova. La precisou de toda sua persuaso e de muito afeto para fazer com que a Sra. Larcher 
aceitasse essa deciso, pois ela queria experimentar seu traje umas trs vezes. Ficou decidido que as 
senhoras iriam a Langon para ganhar tempo. Agora, tinham de escolher chapus, sapatos, bolsas e 
luvas. Com uma amostra do tecido de cada vestido, partiram para Bordeaux na vspera da chegada 
de Laure.  
Esgotadas com as compras, sentaram-se num salo de ch em frente ao teatro, cercadas de 
embrulhos. Numa mesa vizinha, avistaram sua prima Corine Delmas, que acabara de se casar com 
um rico proprietrio de Pauillac, juntamente com duas amigas. As trs jovens comearam a falar 
baixinho ao reconhecer La e Franoise. Esta enrubesceu e baixou a cabea, enquanto La olhava 
para elas descaradamente.  
- Que ousadia! - exclamou uma das amigas de Corinne em voz alta.  
- Como ousam sair  rua assim? - disse a outra.  
- Vamos embora - disse Franoise, extremamente plida.  
- Nada disso - respondeu La, o olhar enfurecido.  
- Meninas, nada de escndalo - sussurrou Esteile.  
La levantou-se e dirigiu-se  mesa das trs jovens.  
- Bom dia, Corinne. Parece que o casamento lhe fez muito bem, voc parece tima. A ltima vez em 
que nos encontramos, estava bem mais magra. Bom dia, senhoras.  
- Bom dia. 
- Franoise se casa daqui a trs semanas.  claro que voc e seu marido so nossos convidados.  
- Parabns - balbuciou Corinne. - No sei se poderemos comparecer.  
- Tente, querida, ficaramos muito contentes com sua presena. At logo, ainda temos muito o que 
fazer. At breve, vamos mandar um convite.  
- At logo.  
Satisfeita com sua atuao, La retornou ao seu lugar.  
- Convidei Corinne para o casamento.  
- Por que fez isso?  
- Fique tranqila, ela no ir; mas estou contente por ter criado uma situao pouco agradvel para 
aquela bestinha.  
- Foi para mim que voc criou uma situao pouco agradvel  
- disse Franoise com tristeza.  
- Perdo, irmzinha, no foi essa minha inteno.  
- Garom, a conta, por favor - pediu Estelle.  
Aps uma chegada to alegre e animada, retornaram caladas, cada uma delas perdida em seus 
pensamentos.  
Ao anoitecer do dia seguinte, Franois Tavernier e Laure chegaram em companhia de Sarah 
Mulstein e Daniel Zederman. Desde o incio da tarde, La esperava por eles, na entrada de 
Montillac,  beira da estrada... Quando o carro entrou, apressada como estava, quase foi atropelada. 
O chofer conseguiu evitar o acidente e saiu furioso do veculo:  
- Senhorita, que loucura  essa? Por pouco no se acidentou.  
O rosto de La no disfarou sua decepo.  
- Mas no...  
- Estou aqui.  
- Oh, Franois! Achei que no tivesse vindo!... O que foi? Est machucado?  
- Por causa da sua corrida e da brusca freada de Daniel, bati com a cabea no pra-brisa.  
- Oh, sinto muito - disse La, rindo s gargalhadas.  
Franois olhou furioso para ela. 
- Ento  essa sua reao?  
La riu ainda mais, no que foi imitada por Laure e Daniel, e em seguida por Sarah, que acabavam 
de saltar do carro. Tavernier assumiu uma expresso ameaadora que s fez aumentar a comicidade da cena. Ele tambm acabou contagiado por aquele acesso de riso. 
Apertou La em seus 
braos.  
- Sua chatinha, sempre no meu caminho.  
Sarah aproximou-se do casal, sorridente sob o turbante preto.  
- La, muito obrigada,  a primeira vez que sou to descontrada depois da guerra. Quero te dar um 
beijo.  
As duas amigas se abraaram sem tentarem dissimular a emoo.  
- Entendo agora sua preferncia - murmurou Daniel para Franois. - Sua amiga  lindssima.  
- Cuidado, no se apaixone por ela, ou vai ter que se entender comigo.  
- Por uma mulher como essa, eu seria capaz de enfrentar todo um exrcito.  
O tom dessas palavras, os olhares enlevados que Daniel lanava a La foram profundamente 
desagradveis para Franois. "S me faltava agora sentir cimes", pensou.  
- Querida, meu primo Daniel Zederman tambm veio. Espero que voc no fique aborrecida comigo.  
- Claro que no, a casa  muito grande.  
Laure saiu correndo em direo  propriedade. Radiante, de brao dado com Sarah e Franois, La 
caminhava at a casa.  
- Estou feliz por conhecer finalmente esse famoso Montillac, a respeito do qual voc falava tanto. 
Entendo por que ama tanto o lugar, tudo  to harmonioso, to evidente e natural, apesar de uma 
certa reserva. Trata-se de uma moradia que no deve se entregar a qualquer pessoa - comentou 
Sarah.  
La fitou-a atentamente: como uma estranha pudera apreender de forma to correta o esprito 
daquele local?  
Passaram frente  fachada posterior, ao longo dos galpes de madeira que abrigavam as carroas, 
enquanto o sol declinava em meio a chamas vermelhas apocalpticas, dando um aspecto irreal  
s construes de Beilevue que pareciam fundir-se na fornalha. Para La, o pr-do-sol sempre 
representara um momento de profunda intensidade. Quando menina, mal sabendo andar, costumava 
fugir para o lado oeste da casa para ver o astro brilhante "ir para a cama". Cada vez que ele 
desaparecia atrs da colina de Verdelais, La experimentava um aperto no corao e sentia-se 
vagamente inquieta. Aquela sensao persistia at hoje. Agora, entre o homem que ela tanto amava 
e a amiga reencontrada, diante de um cu atormentado de prpura e negro e de um sol brilhante 
como uma bola de fogo, a angstia manifestava-se ainda mais intensa. Seus companheiros 
detiveram-se, calados diante daquele instante de beleza que absolvia, por um breve instante, toda a 
fealdade da face da terra. Por que essa repentina ansiedade?... Oh, tomara que o sol no se ponha, 
que a noite com seus pesadelos sombrios nunca chegue!... Apoiada no amante, La estremeceu 
longamente. Sentir um corpo amado vibrando contra o seu, compartilhar com ele a emoo do 
momento, s isso era verdade, pensou Tavernier estreitando seu abrao. La ergueu os olhos, 
resplandecente, irreal, aureolada pelos raios do sol poente. Suas sombras enlaadas projetavam-se, 
quase palpveis, sobre o muro onde floresciam perfumadas rosas brancas. Seu desejo crescia em 
meio ao odor das rosas, to violento que experimentaram um brusco gozo que os deixou trmulos, 
transtornados por aquele reconhecimento de seus corpos. Sarah e Daniel olhavam para eles, 
entregues aos mais variados sentimentos; aqueles dois haviam sido feitos um para completar o outro. 
"Ser que tenho esse direito?", pensava Sarah. "Desejo que um dia essa mulher me ame tanto 
quanto ela o ama", pensava Daniel.  
Sempre abraados, La e Franois caminharam lentamente at a entrada da frente do casaro. Ali, 
chegaram ao salo onde os esperavam as senhoritas de Montpleynet, Franoise e Laure, 
conversando animadamente, padre Henri, Jean Lefvre e Alain Lebrun, que fumava pensativo. 
Charles atirou-se nos braos de seu amigo Franois.  
- Oi, rapazinho, voc agora  um homem de verdade - disse Tavernier, colocando o menino no cho.  
Quanto a Pierre, pouco acostumado com tanta gente, escondeu- se atrs da me.  
La fez as apresentaes. Aps tomarem um copo de um dos melhores vinhos de Montillac, 
instalaram-se  mesa.  
A refeio foi alegre e animada. Ruth cozinhara os melhores pratos e recebeu os parabns de 
Tavernier. Sarah, sentada entre padre Henri e Jean Lef'evre, parecia sorridente e descontrada, 
ouvindo atentamente todos os seus vizinhos; Alain Lebrun no tirava os olhos de Franoise, Daniel e 
Laure conversavam com entusiasmo, Estelie e Lisa vigiavam as crianas. Aps o jantar, foram 
todos para o terrao.  
Agora, a noite chegara, quente e estrelada. Enquanto fumavam, encostados no parapeito, 
contemplavam a sombria paisagem iluminada por raras luzes na direo de Langon. Um trem 
passou pela ponte metlica tal qual uma serpente luminosa. La avistou uma estrela cadente e fez 
um desejo.  
Cansada da viagem, Sarah pediu licena para se recolher. Subiram de volta para o casaro. Jean e 
padre Henri despediram-se.  
- Laure, voc fica em seu quarto, no ? Deixei o dos fundos para Sarah e o menor, ao lado do seu, 
para Daniel - disse La.  
- Boa noite, querida - disse Sarah abraando a amiga.  
- Boa noite, senhorita.  
- Boa noite, Daniel, meu nome  La. At amanh.  
Enfim ss!  
- Vem, a noite est linda demais para dormir. Quero caminhar a seu lado.  
Enlaados, seguiram pelo caminho que ladeava os vinhedos, cuja terra era muito suave sob seus 
passos. Viraram  esquerda, em direo aos salgueiros.  
- Reconheo este lugar.  
-  a Gerbette, estivemos aqui na noite em que meu pai foi enterrado.  
- Agora me lembro - disse Franois, atraindo-a para junto de si.  
- Venha - disse La, afastando-se. 
Como na primeira vez, ele precisou empurrar a porta com o ombro. Como na primeira vez, ela disse:  
- No  muito bonito. Em minhas lembranas, parecia muito mais lindo.  
E, como na primeira vez, ele cobriu o cho de feno com o palet.  
Amanhecia quando regressaram a Montillac, exaustos e felizes. Assim que se deitaram na estreita
cama onde La costumava dormir, mergulharam ambos num sono profundo.

Captulo 12

La tinha tantas coisas e tantos lugares a mostrar aos amigos que a semana transcorreu como num
sonho. Laure no saa de perto de Daniel, devorando-o com seus olhares; ele a julgava encantadora, 
apesar de estar sempre em sua companhia, completamente diferente da irm que atraa toda sua 
ateno e na frente de quem qualquer outra mulher perdia brilho - exceto Sarah, mas com Sarah era 
diferente. Sarah representava seu duplo feminino. Haviam passado pelos mesmos tormentos, as 
mesmas angstias, e o mesmo dio os mantivera vivos; do fundo do inferno, prestaram o juramento 
de continuar para testemunhar, para se vingar. Sentiam uma certa vergonha do que haviam feito 
para sobreviver, mas at essa vergonha gritava por vingana. Sabiam tudo um do outro e se 
reconheceram de imediato como almas gmeas. Ele tinha dezoito anos, ela quase trinta, porm 
sentiam-se mais velhos do que algum com noventa anos. Franoise pensava que conseguiria amar 
Alain, La e Franois mostravam-se to apaixonados que aquele sentimento tornava-se incmodo. 
Incmodo e doloroso para Jean. Ele entendia a escolha da amiga: Tavernier representava a 
aventura, Paris; com ele, era a vida calma e burguesa, a provncia, e, no entanto, estava convicto de 
que uma grande parte de La era feita exatamente para uma vida sossegada nesta regio que ela 
tanto amava.  
No terrao, andando de um lado para o outro, padre Henri e Sarah mantinham uma discusso das 
mais animadas.  
- ...Os verdadeiros combatentes tm medo de se tornar carrascos 
Desprezam com a mesma averso aquele que se deixa levar pelo furor guerreiro at tornar-se um 
matador...  
- Tem razo, padre, no somos verdadeiros combatentes, e por que seramos, diante dos que foram, 
eles sim, os carrascos? No estamos sendo levados por nenhum furor guerreiro, e sim por vingana. 
E o senhor ainda fala de bondade, amor, justia, perdo!... Como  possvel, para ns, entender 
essas palavras?  
- Mas  o que devem fazer. Cabe a todos vocs uma imensa responsabilidade: testemunhar. Revelar 
ao mundo inteiro todas as loucuras das quais o ser humano  capaz; assim, ao tomar conhecimento 
de tanto horror, ele poder rejeit-las...  
- Depois de assistir, assim como eu, a tudo que foi cometido, como  possvel que o senhor ainda os 
considere seres humanos? Continua acreditando em seu Deus?...  
- Sim, mais do que nunca acredito Nele. Sei com toda certeza que o Eterno  Amor, que Ele est 
presente, ativo, e no-culpado de toda essa dor e de tanto mal. Pode parecer que os gritos de dor 
que ainda ecoam neguem Sua existncia. No entanto, para continuar acreditando em Deus, no 
basta ser simplesmente um crente, e sim um crente apesar de tudo, ou seja, de olhos abertos diante 
das realidades que dizem respeito a todos os homens, ferindo-os e deixando-os sem resposta; mas 
certos de que o Eterno  Amor apesar de tudo. Perdoar  um dever...  
- Continue falando para si mesmo, cristo, mas eu sou judia! Mesmo que eu quisesse perdoar, no 
poderia, no teria esse direito, com tantas mortes, tantos sofrimentos que clamam por justia...  
- Voc mesma usou a palavra certa. Deixe agir a justia, ela tem seus direitos: mais do que direitos, 
deveres categricos. Ela precisa castigar, mas a justia nada tem a ver com dio e vingana. Nem o 
dio nem a vingana podem produzir; so estreis e destruidores.  necessrio que a justia cumpra 
seu papel, mas nosso corao no tem o direito de se perverter. Afaste-se do contgio que faz com 
que, em certas ocasies, aps o seu triunfo, aquele que combateu o mal acabe contaminado por esse 
mesmo mal que ele quis destruir.  
- Tarde demais, j estou contaminada. 
- No posso acreditar. Pelo menos, no leve junto seu jovem primo, no passa de uma criana...  
- Uma criana! Quer que esta criana lhe conte tudo o que viu, naquele inferno, ou melhor, o que ele 
mesmo fez? A criana a quem se referiu no existe mais, morreu em Mauthausen, Buchenwald, 
Auschwitz, Birkenau, Dachau, a escolha  sua. Essa criana tem dio em seu corao e no foi eu 
quem a contagiou.  
- No inferno dos campos, rezei por nossos carrascos. De fato, nosso orgulho, na qualidade de 
franceses, consiste em pertencer a um povo que no tolera, no admite, ao preo da prpria vida, 
que certos homens sejam tratados como ns fomos; mas  pela justia, exclusivamente pela justia, 
que temos o direito de nos vingar, pois apesar de tudo trata-se de irmos nossos, pertencem a ns 
pelo fato de serem humanos.  
- Pare, por favor, no tem o direito de comparar vtimas e carrascos. Assim, s faz acrescentar uma 
dor insuportvel aos meus sofrimentos.  
- Perdoe-me, mas como padre no posso me furtar ao dever de lhe dizer que se encontra no 
caminho errado. Ao se tornarem vencedores, de que maneira as vtimas de ontem no se 
transformaro em poderosos carrascos, se a lei no lhes for repetida? "Ajude primeiramente quem 
mais sofre", o que corresponde exatamente a "Ama teu prximo como a ti mesmo"?  
- Guarde suas boas palavras. Errei em confiarno senhor. Mas o que poderia esperar de um padre 
dessa religio que tanto mal nos tem causado?  
Padre Henri baixou a cabea, com uma expresso de dor profunda.  
- Sei... A intolerncia da Igreja Catlica para com os judeus tem muito a ver com o extermnio do 
seu povo. Mas h muitos de ns, no seio da Igreja, pedindo perdo pelo mal que lhes causamos.  
- Perdo... perdo... sempre a mesma palavra! Isso diz respeito a vocs, mas conosco  diferente.  
- Pobre filha!...  
- No sou sua filha!... Oh, me desculpe! 
Sarah, com um grande gesto de revolta, empurrou La, que deixou cair a bandeja e os copos.  
- Ser que no pode tomar cuidado? - comentou La, aborrecida.  
- Sinto muito, mas o padre...  
- Ah, entendi, foi mais uma de suas discusses. No compreendo, padre, por que teima em lhe 
mostrar o caminho correto. Eu j desisti h muito tempo.  
Padre Henri nada respondeu, ocupado em ajudar Sarah, que juntava os cacos de vidro.  
La experimentava o maior afeto pelo padre Henri. Ele no possua a estatura nem a eloqncia de 
seu tio Adrien, mas havia entre os dois religiosos um sincero amor pelos homens e uma imensa 
compreenso de seus sofrimentos. Entretanto, o capuchinho revelava uma ingenuidade que no 
existia no dominicano, algo que subsistira da infncia. O amigo de Jean Lefvre tinha uma confiana 
ilimitada em seu Deus e em seu amor por todas as criaturas. Das noites passadas em Montillac, 
passeando pelos vinhedos ou no terrao, ou sentada no escritrio do pai, La guardava a lembrana 
de longas conversas sobre os mistrios do amor divino e o papel do homem na terra.  
"A nica e verdadeira glria para Cristo  a de ser reconhecido pelo que ele , ou seja, Amor 
infinito. Cabe a ns corresponder ou no! O inferno no so os outros, somos ns mesmos, que nos 
recusamos a amar. Olhar-se no espelho da eternidade e enxergar-se sem falsidade! E a salvao, 
ao se rejeitar o ilusrio, consiste nesse encontro com o essencial. No devemos ter medo de viver 
com os olhos abertos, sem esconder absolutamente nada: nem os horrores do mal nem os 
encantamentos do belo; no devemos ter medo de ir para onde nos levem nossos passos e nossos 
dias. O mal, aos meus olhos, consiste em grande parte no fato de acreditarmos orgulhosamente que 
somos auto-suficientes.  o sentimento de nossa autosuficinciae o desprezo de outrem levados ao 
extremo. O escndalo da vida desregrada, esbanjada, da indiferena para com os ancies e os 
pobres, famintos, oprimidos, desempregados, carentes de toda espcie... Tudo isso  
responsabilidade nossa, problema nosso, no 
de Deus. O caminho da vida e o da paz passam para os indivduos e para os povos, pelo 
enriquecimento do dilogo e a aceitao da partilha, seja qual for o seu nome. As loucuras 
sangrentas s quais temos presenciado no representam a exacerbao do desespero diante de 
qualquer recusa e rejeio? Minha angstia consiste na convico, na intuio de que a 
humanidade caminha inevitavelmente para sua perda se no voltar a se questionar, se no 
encontrar com a maior urgncia o sentido do Eterno e seu corolrio: a exigncia do Amor com A 
maisculo. A nica opo vivel  o nascimento de um novo homem ou o risco de ver 
desaparecer da histria universal a humanidade enlouquecida. O novo homem ser aquele que 
perceber que  impossvel ser completamente feliz sem os outros, e menos ainda contra os outros. 
Aquele que estiver convicto de que, se for preciso continuar a luta para que reine a liberdade nos 
lugares e nos coraes onde ela ainda no existe,  preciso igualmente lembrar-se do objetivo 
fundamental dessa liberdade, seu sentido verdadeiro que ultrapassa a liberdade pela liberdade. 
Caso contrrio, ao invs de nos libertarmos, cairemos novamente sob a opresso (da ideologia, 
da intolerncia, do dio) ou na escravido (do poder, do dinheiro, do egosmo exacerbado). Os 
caminhos da vida, da paz, passam, para todos os indivduos e para todos os povos, pelo 
enriquecimento do dilogo e a aceitao da partilha, seja qual for o seu nome."  
Como ela desejava compartilhar de sua f, acreditar no homem novo, livre e generoso, acreditar 
em seu desejo de paz, de amor pelo prximo. No havia nada  sua volta que o anunciasse e as 
palavras de Sarah e Daniel rebatiam as do homem de Deus. Com um aperto no corao, 
lembrou-se do seu tio Adrien. Mais do que nunca, naquele instante, sentia sua falta. Embora ele 
tivesse perdido a f, La estava certa de que ele saberia encontrar os termos de esperana para 
acalmar suas angstias, suas indagaes a respeito da vingana e da justia. Em sua mente 
conturbada, chocavam-se as palavras de amor do padre Henri e os gritos de dio de Sarah. 
Quem estava com a razo? Ao deixar padre Henri, La sentia o desejo de ajudar na edificao 
de um mundo novo; mas, aps uma discusso com Sarah, seu corao transbordava de violentos 
rancores e da vontade  
de eliminar todos aqueles que causaram tantos sofrimentos  sua amiga.  
A chegada de Franoise e Laure tirou La de seus pensamentos to confusos.  
- Mais copos quebrados! Se continuar assim, no teremos mais nenhum em pouqussimo tempo - 
comentou Franoise num tom de censura.  
- Foi culpa minha - disse Sarah. - Empurrei La com a bandeja. Vou buscar mais copos.  
- Vou com voc - disse padre Henri.  
Pela primeira vez depois do reencontro, as trs irms ficaram a ss. Laure segurou as outras duas 
pelo brao.  
- Franois precisa regressar a Paris daqui a dois dias; no sei como fazer para avisar nossas tias de 
que vou junto. Podem me ajudar? 
- Por que no fica at meu casamento? Faltam s trs semanas.  
- Voltarei. Prometi aos meus amigos viajar com eles para o Sul.
- Algo me diz que se Daniel ficasse voc tambm ficaria - disse Franoise com um sorriso malicioso.  
Laure enrubesceu e largou o brao da irm.  
- Por que diz isso?  
- Todo mundo percebeu. Voc no tira os olhos do rapaz e no o larga um segundo; estou surpresa 
por no estarem juntos agora. Assim que ele se afasta, voc sai correndo atrs, concorda com tudo 
o que diz, ri s gargalhadas quando conta uma piada, voc...  
- Oh, chega!... por que no se preocupa com seu casamento em vez de tomar conta de Daniel e de 
mim?  
- Estou esperando pelo seu.  
Laure corou mais uma vez e saiu correndo at a casa. Franoise e La riram ao v-la saindo s 
pressas.  
- Coitada de nossa irmzinha, eu no devia provoc-la assim  
- disse Franoise, encostada no parapeito.  
- Deixe, no faz mal. Ela se apaixona pelo primeiro homem de olhos bonitos que encontra. Lembra-
se de Maurice Fiaux?  
- Voc no pode comparar aquele criminoso com o primo de Sarah!  
-  claro que no comparei. S disse que ela imagina amar Daniel, assim como imaginou amar 
Fiaux.  
- Acho que voc est enganada, parece-me que desta vez  srio. O problema  ele, que no gosta 
dela.  
- Mas Daniel  muito jovem.  
- Voc devia saber que o amor no tem idade. Ele no a ama, ama outra mulher.  
- Quem?  
- No se faa de santinha, sabe muito bem de quem estou falando; voc,  claro.  
- E voc acha que olhei para a cara dele... Esqueceu-se da existncia de Franois.  
- Eu no falei que voc o amava, mas que ele estava apaixonado.  
- Vai passar.  
- Duvido muito.  
Essa discusso foi interrompida pelo regresso de Sarah e do padre Henri, trazendo copos e garrafas. 
Daniel estava com eles, segurando com todo o cuidado uma cesta de pssegos.  
- O que houve com Laure? Est com uma cara!  
- Muito bem, Sr. Tavernier, em breve vamos celebrar o casamento de Franoise; e o seu com La, 
quando vai ser? - perguntou Estelie sentando-se perto de Franois, que fumava um charuto no ptio, 
 espera do cafezinho.  
- Logo aps minha viagem  Argentina.  
- Podiam casar-se antes e partir juntos.  
- Impossvel. A misso confiada pelo governo exige inmeras viagens por todo o pas, inclusive a 
certos locais bastante desconfortveis.  
- Espero que no fale assim para assustar minha sobrinha.  
- Claro que no, mas quero evitar que ela corra qualquer tipo de risco. A Argentina no  um pas 
estvel. A demagogia do 
governo no tem escrpulos em se apoiar nos sindicatos, apesar de revelar a maior tolerncia em 
relao aos nazistas fugitivos, o que gera um clima de desconfiana muito desagradvel. Confie em 
mim,  melhor aguardarmos um pouco.  
- Mas o bom nome da minha sobrinha!...  
- Por favor, senhorita... Acredite em mim, isso tambm me preocupa.  
Ele falou com tanta convico que Estelie baixou a cabea em sinal de aprovao. Tavemier 
prosseguiu.  
- Meu maior desejo  tornar La feliz, peo-lhes que acreditem nas minhas palavras. Nesse 
momento, no se trata de subterfgios da minha parte, e sim da obrigao de permanecer livre por 
mais algum tempo.  
- Acredito no que diz, Sr. Tavemier, mas no posso deixar de me preocupar com o futuro dessa 
menina. Os anos difceis que acabamos de atravessar marcaram-na profundamente. Receio que ela 
no consiga se encontrar em nosso mundo.  
- Por que diz isso?  
- Essa melancolia que, subitamente, faz com que La se afaste de todos, a tristeza alternada com 
uma excessiva exuberncia.  
- Muitas moas da idade dela costumam ter esse tipo de comportamento.  
- Sei, mas La perdeu aquela alegria de viver que fazia dela uma jovem to atraente.  
- Ser que isto no se deve s preocupaes ligadas  administrao da propriedade?  
- No  s isso. Percebo nela uma profunda angstia, principalmente aps o seu regresso.  
Franois, conhecendo perfeitamente a causa daquela angstia, censurou-se por no poder atenu-la. 
Quanto mais se aproximava a data de sua partida, mais ele temia a obrigao de relatar a La o 
delirante projeto de casamento com Sarah. Como entenderia ela essa necessidade? Franois exigira 
o silncio de Sarah; agora, porm, chegava a lamentar o seu pedido. 
La e Sarah haviam reencontrado a antiga amizade. As duas passavam horas conversando. La 
estava convicta de que, graas a ela, Sarah deixara crescer o cabelo. Na verdade, ela s agira 
assim devido aos argumentos de seu primo Samuel; uma fina penugem castanha cobria seu crnio. 
De brincadeira, La costumava passar a mo, comentando que jamais tocara em nada to suave. 
Jamais, em todas as suas conversas, elas voltaram a falar dos sofrimentos de Sarah durante a 
deportao; entretanto, a idia de vingana avanava um pouco mais a cada dia.  
Na vspera da partida, Laure anunciou s tias que regressava a Paris. Diante de sua 
determinao, Estelie de Montpleynet resignou-se. Laure prometeu voltar em trs semanas para o 
casamento da irm.  
A refeio que reuniu a todos foi bastante curiosa. Cada um parecia se esforar para revelar a 
alegria daquele encontro. Apenas La no tentava dissimular sua tristeza e nada notava dos 
olhares apaixonados de Daniel, nem do cime de Laure; tambm no se preocupava com Jean, o 
qual agora sabia que ela nunca o amaria e que, mesmo ausente, no poderia esquecer o amante. 
No entanto, Jean percebeu em seu rival uma espcie de incerteza, um certo contido mal-estar. 
Rechaou a vaga esperana que renascia em seu corao. Se a felicidade de La dependia de 
seu sacrifcio, ele estava prestes a se afastar e deixar essa regio de que tanto gostava. Franois e 
Sarah no tinham feito comentrio algum a respeito de seu projeto. Com o corao fechado, 
exceto em se tratando de sua vingana, Sarah lamentava no ter falado antes: tratava-se de 
ganhar tempo. Quanto a Franois, censurava-se por sua covardia. Estelie sentia-se 
profundamente abalada, pois parecia adivinhar que esta seria uma de suas ltimas refeies com 
as trs sobrinhas reunidas. A senhora Lefvre lembrava-se de que o filho Raoul passara as ltimas 
horas de sua vida nessa casa. Padre Henri, que conversara demoradamente com cada um dos 
presentes, rezava baixinho para que Deus lhes desse a fora necessria para sobrepujar todos os 
obstculos. O religioso  
sentia-se impotente para conseguir animar os amigos, e essa sensao causava-lhe profunda mgoa.  
La e Franois no dormiram a noite inteira. Amaram-se, mas no puderam acalmar sua angstia 
no gozo da relao. Ao amanhecer, Franois encontrou a coragem necessria para anunciar seu 
casamento com Sarah. La ouviu tudo calada. Surpreso com sua reao, ele perguntou:  
- Por que no diz nada?... Voc entendeu mesmo que nada vai mudar entre ns, e depois tudo 
voltar a ser como antes?... Fale, diga alguma coisa.  
Nua, La levantou-se, acendeu um cigarro e foi at ajanela. L fora, uma espessa neblina no 
deixava o sol aparecer. O ar estava pesado, anunciando uma tempestade. Por sua vez, Franois 
acendeu um cigarro e aproximou-se de La. Os dois corpos juntaram-se. Ele nunca se sentira to 
desamparado como agora, diante daquela mulher calada cujo corpo rgido expressava toda a tristeza.  
- Meu amor, quando tudo acabar, voltarei e tudo ser como antes...  
- No!  
- Sim, prometo...  
- Cale-se, no diga nada, no minta para si prprio... Nada ser como antes, no por causa desse 
casamento, mas por causa do que vo fazer... Posso entender Sarah, mas voc?...  
- Ela precisa de mim.  
- Voc j me disse. Mas no justifica nada. Cabia a voc demov-la da idia...  
- Tentei.  
- E voc, por que se envolver nessa aventura que considera intil, pelo que j me explicou?  
- Meu amor, como posso explicar?... Sinto-me na obrigao de ajudar Sarah. O marido dela era meu 
melhor amigo, eu gostava do seu pai como jamais gostei do meu. Apesar de ser completamente 
louca, percebo uma verdade nessa causa. Voc a considera intil, mas  necessria para muita 
gente. Particularmente, no concordo com todos os aspectos dessa vingana, entretanto 
compreendo suas motivaes.  
- Eu tambm compreendo. Mas quando tudo isso vai parar? No podemos confiar na justia para 
castigar aqueles criminosos?  
- Voc tem toda a razo, mas sabe perfeitamente que ela s  aplicada a um nmero muito reduzido 
de pessoas. Sarah e seus companheiros no suportam a idia de que grandes criminosos de guerra 
possam escapar de um castigo mais do que justo.  
- E cabe a eles decidir?  
- Tm esse direito, mais do que quaisquer outros.  
La virou-se e o fitou atentamente. Sentia-se mais forte pelo fato de ter conseguido falar, expressar 
suas dvidas e perceber que pensavam ambos da mesma maneira. Ela o entendia e sabia que, em 
seu lugar, adotaria exatamente o mesmo comportamento. Experimentou ento uma sensao de 
profunda suavidade e cansao, que tomava conta de seu corpo. Como gostaria de passar seus dias e 
suas noites em companhia de Franois, abraados, olhando para ele! Quanta ternura havia no sorriso 
que ela lhe dirigiu!  
Oh, aquele sorriso! ... Ele no se enganara, La correspondia exatamente s suas expectativas, 
generosa e forte. Profundamente comovido, Franois a fitava com uma intensidade quase dolorosa. 
Os olhares dos dois amantes atrelavam-se um ao outro, confiantes, tranqilos. Nada do que pudesse 
acontecer conseguiria destruir a certeza daquele amor. Tinham ambos a impresso de que seus 
corpos enlaados no tocavam mais o solo, pareciam levados por uma imensa onda que os atirava 
num universo de paz e serenidade. Sem que eles deixassem de se olhar, encontraram-se deitados no 
cho. Sem se moverem, seus sexos uniram-se; e ento, da ponta dos cabelos  planta dos ps, 
aqueles dois corpos experimentaram o mais profundo gozo. Um gozo intenso, imaterial, absoluto. 
Sem outros movimentos exceto a vibrao de toda a carne... Uma onda incessante levava-os, num 
prazer interminvel... Mergulharam numa deliciosa sonolncia.  
Essa sensao de intenso bem-estar no os deixou at a hora da despedida. A emoo de Sarah foi 
to violenta que ela quase  
entregou os pontos, ao ouvir La falando baixinho em seu ouvido enquanto as duas amigas se 
abraavam:  
- Franois me contou tudo. Tentarei no sentir cimes. Gosto muito de voc, concordo com o plano.  
Durante um longo tempo, Sarah acenou pela janela do carro.

Captulo 13

A casa pareceu muito vazia aps a partida de todos os convidados. Mas as tarefas dirias e os
preparativos do casamento preencheram o tempo e os pensamentos dos que permaneceram em 
Montillac. Uma grande preocupao veio perturbar o dia-a-dia do casaro: o estado de sade de 
Esteile piorou muito aps um demorado desmaio e provocou a visita do mdico, que informou 
Franoise e La da gravidade do problema. Devidamente prevenido pela velha senhorita, ele s 
revelou uma parte da verdade quanto ao estado da paciente. Mas o pouco que contou j bastava 
para assust-las, embora no se mostrassem realmente alarmadas. Lisa no parecia se dar conta 
da seriedade da doena que afligia a irm; em meio a risadas, chamou-a de preguiosa quando 
soube que Esteile precisava ficar de cama por ordem mdica.  
Estelie pediu para conversar com padre Henri: sabia estar desenganada e pedia a Deus que a 
mantivesse viva at o casamento. A partir desse dia, o monge, que se encontrava de repouso em 
La Verderais na casa do amigo Jean Lef'evre, veio visit-la todas as manhs, aps a missa. A 
carinhosa presena do padre, sua elevada espiritualidade, seu profundo amor para com os 
homens deram a Estelie uma nova fora e a levaram de volta para Deus. Graas ao reencontro de 
sua f, ela sentia a aproximao da morte sem medo algum. Seus temores em relao  irm 
desapareceram aps conversar com o tabelio e tomar as providncias necessrias.  
Na vspera do casamento, Laure chegou de Bordeaux de txi, com as malas repletas de presentes 
para as irms e as tias. Apalidez e a magreza de Esteile deixaram-na profundamente impressionada. 
Como mudara em to pouco tempo!  
No dia seguinte, assim que Franoise despertou, desceu at o jardim. O tempo estava lindo. A moa, 
melanclica, caminhou lentamente na direo de Believue. Dentro de algumas horas, tornar-se-ia 
esposa de Alain Lebrun e todas as suas lembranas falavam de Otto. Otto, a quem tinha a sensao 
de estar traindo ao se casar com outro homem. Era tarde demais para voltar atrs. Para que magoar 
uma pessoa to correta como Alain, suas tias e o pequeno Pierre, que tinha pelo futuro padrasto o 
maior afeto? O campanrio de Verdelais tocou: sete horas. Ela voltou para casa.  
Na cozinha, em meio a gritos, Charles e Pierre tomavam o caf da manh preparado por Ruth, que 
colocara um avental branco para no sujar seu traje mais bonito.  
- Onde voc estava? Alain procurou voc por toda parte.  
- Fui da uma volta. Ainda tem caf?  
- O bule est cheio. Vamos, meninos, as cozinheiras vo chegar logo.  
- Ruth...  
- O que foi?  
- Voc acha que estou certa?  
- A velha governanta, que derramava um pouco de caf na xcara, deteve-se e, franzindo as 
sobrancelhas, olhou para a jovem de cujas doenas infantis havia tratado, consolando a menina 
quando se sentia triste.  
-  um pouco tarde para pensar nisso.  
Franoise suspirou.  
- Voc fez a escolha certa - prosseguiu Ruth. - Pierre precisa de um pai e voc, de um homem. 
Lebrun  uma pessoa forte, com um corao de ouro. Vai ser muito feliz com ele, no tenho a 
menor dvida.  
- Obrigada, Ruth, suas palavras me fizeram bem. Charles e Pierre j acabaram?... Vamos tomar 
banho.  
Mal saram da cozinha quando Laure e La chegaram, despemteadas, com os olhos inchados de sono. Abraaram Ruth, que lhes ofereceu um prato repleto de 
fatias de po com manteiga. 
- Eu preferia croissants - disse Laure, bocejando.  
- Pois vai ter de se contentar com po, gracinha - respondeu La, esticando-se como uma gata.  
- Croissants! E por que no brioches? - resmungou a governanta.  
De que aquelas duas jovens achavam tanta graa?... Quanta audcia. A expresso zangada de Ruth 
fazia com que aumentassem as gargalhadas.  
- Vejam s quanta animao por aqui - comentou Alain ao entrar.  
Devia ter encharcado a cabea com uma garrafa de gua-de- colnia; seu cabelo, ondulado por 
natureza, estava cuidadosamente penteado, a camisa branca com o colarinho muito apertado 
ameaava sufoc-lo, e quanto ao terno azul-marinho, o corte apresentava vrios defeitos. Ele 
parecia to desajeitado, to arrumado, que, aps uns segundos de surpresa durante os quais as 
moas olharam-no espantadas, com as fatias de po paradas no ar, as risadas recomearam com 
maior vigor. Lisa tambm apareceu, com um penhoar de cetim roxo e a cabea cheia de rolmhos. 
Foi a gota d'gua; as duas irms davam verdadeiros gritos e Ruth andava pela cozinha feito tonta.  
- Calma, vocs vo acabar passando mal.  
- Mas de que vocs acham tanta graa? - perguntou Lisa.  
La levantou-se e, toda encurvada, saiu para a rua, seguida de Laure, com soluos, o rosto vermelho 
e coberto de lgrimas, as mos na barriga.  
- Acho que vou fazer xixi nas calas - conseguiu dizer.  
- Pare... estou com dor de tanto rir!  
Sentadas no cho coberto de pedras da alameda que separava os celeiros das cocheiras, chamada 
de rua quando eram pequenas, as duas irms se contorciam de tantas risadas. Na entrada da 
cozinha, Lisa, Alain e Ruth olhavam-nas atnitos. Finalmente, quando conseguiram se acalmar, 
estavam com o rosto em chamas e encharcadas de suor.  
A cerimnia na baslica de Verdelais foi simples e comovente. A noiva, de tailleur amarelo-claro, 
com um chapu de palha natural enfeitado por uma grande rosa amarela, estava linda apesar de 
seu ar amedrontado e sua palidez. Olhava preocupada, como se esperasse uma multido 
assustadora surgindo  sua volta. Alain, ao perceber a tenso de Franoise, segurou sua mo. Ela 
sorriu em sinal de agradecimento.  
Exceto os amigos mais prximos, no havia mais ningum:  
nenhum membro da famlia de Bordeaux, nem mesmo aquelas velhas que por nada nesse mundo 
faltavam a um casamento ou a um enrro. Essas ausncias significavam que o passado no fora 
esquecido. Franoise j esperava por isso, j passara por inmeras situaes bastante 
desagradveis, com insultos e ofensas, aps o seu regresso  propriedade do pai, e ela se 
mostrou praticamente indiferente. Mas com a Sra. Lefvre, Lisa e Ruth, a reao foi bem 
diferente; as trs mulheres sentiam-se humilhadas com aquele desprezo. Precisamos entender os 
motivos deles, pensava o tio de Alain, Jules Testard. Laure, em seu lindo vestido de seda azul, 
mostrava-se aborrecida. A seu lado, La sentia-se pouco  vontade com seu traje provinciano. 
No podia deixar de comparar esse casamento com o de Camilie e Laurent d'Argilat, s 
vsperas da guerra. A igreja de Saint-Macaire encontrava-se lotada, a noiva de branco, as damas 
de honra com vestidos coloridos. La, emocionada, lembrou-se de si mesma naquele dia. O 
sofrimento que experimentara ento ficara para trs, mas a simples recordao daquela mgoa, 
vivenciada como um verdadeiro abandono, como uma traio, continuava muito sensvel.  
Aps a refeio, as mesas e as cadeiras foram colocadas no fundo para que todos pudessem 
danar. La tivera essa idia, pois fazia questo de se divertir. Trouxera de Paris uma grande 
quantidade de discos e comearam a danar. Alain e Franoise abriram o baile, Laure bailou com 
o padrinho do noivo, que mal conseguia acompanhar os novos passos, e La com Jean Lefvre. 
Ambos danavam calados e melanclicos. A noite quente chegara. La sugeriu que fossem dar 
uma volta pelo terrao. Sentados num banco de ferro, fitavam o cu estrelado.  
- Oh, uma estrela cadente! - exclamou La. -  preciso fazer um pedido. Vamos, faa um.  
- Para qu? S tenho um e sei perfeitamente que ele jamais se realizar.  
La olhou para Jean; sabia no que pensava, mas nada podia fazer. Suavemente, ps a mo sobre a 
dele.  
- Logo vai encontrar uma mulher feita para voc, que te amar, amar os vinhedos e te dar uma 
poro de pequenos Lefvre.  
Ele retirou a mo, irritado.  
- J encontrei essa mulher.  
- Que bom! - disse La toda contente. - Por que no me contou?  
- No seja irnica, sabe muito bem que me refiro a voc.  
- Pensei...  
- Que nada! Sabe perfeitamente que sempre fui apaixonado por voc. Raoul tambm te amava; isso 
era inclusive um dos seus assuntos preferidos para zombar de ns dois. Fez gato e sapato da gente, 
metida como voc era, e ns, como dois idiotas, obedecamos a todos os seus pedidos...  
- ramos apenas crianas!  
- Voc talvez, mas conosco era diferente. Ambos desejvamos casar com voc.  
- Mas ento um dos dois teria ficado muito infeliz!  
- Claro, no era possvel desposar os dois ao mesmo tempo.  
A lembrana da noite que os trs passaram juntos voltou  sua mente. Comovidos e embaraados, 
mantiveram-se calados. Felizmente, apareceram Laure e seu cavalheiro.  
- Tinha certeza de que encontraria vocs aqui - disse ela ao se sentar perto de Jean. - Que linda noite, 
uma verdadeira noite de npcias!  
Laure tambm se calou, contemplando o cu coalhado de estrelas antes de prosseguir.  
- Voc vem comigo para Paris, no vem? - perguntou aLa.  
- Vou, se tia Estelle estiver passando bem.  
- Como voc parte para Paris sem me contar nada?  
- Ainda no tinha decidido.  
- No consegue ficar longe de Tavernier, no ?  
- Voc no tem nada com isso, vou aonde bem quiser.  
- Parem de discutir - disse Laure. - Foi eu quem pediu a La para passar uns dias em Paris antes da 
vindima. Ela tem todo o direito de tirar frias.  
Jean levantou-se com dificuldade.  
- Mas  claro que ela tem esse direito - disse ao se afastar.  
- Coitado de Jean, voc  muito dura com ele - comentou Laure.  
- No fao de propsito. Gosto muito dele, no tenho culpa se est apaixonado por mim.  
- Voc nunca lhe contou a verdade a respeito de Franois?  
- No, mas  do conhecimento de todos, e ele tambm deve estar a par da situao.  
- Teria sido melhor voc mesma contar.  
- Que coisa irritante! At voc me vem com lio de moral! Eu no costumo me intrometer em sua 
vida, no ?  
- Tudo bem. Vamos mudar de assunto. Quando  que voc e Franois vo se casar?  
- Mas que mania! Tia Esteile, Franoise, Ruth e agora voc s sabem falar de casamento. Eu ainda 
no sei de nada, um dia desses, talvez; no estamos com pressa.  
- E se voc ficar grvida?  
- Se isso acontecer, pensaremos no que fazer. At voc pode engravidar.  
- Pare com isso, que desgraa! Eu no possuo Tavernier algum  minha disposio.  
- Confio em voc. Despachada como , vai acabar encontrando um bom partido.  
Laure ergueu os ombros e mudou de assunto.  
- Que tal viajarmos daqui a dois dias? J falou com tia Esteile?  
- J. Ainda h pouco e muito vagamente. - Sorriu de modo estranho e disse: - Divirta-se bastante, 
minha filha. Voc acha que ela est melhor?  
- Parece, apesar de sua magreza; ela ficou conversando um  
tempo com a Sra. Lefvre e Lisa.  
- Pois ... Mas no consigo deixar de me preocupar. Tenho a  
impresso de que ela nos esconde alguma coisa.  
- Se fosse to grave assim, o mdico avisaria.  
- Voc deve ter razo. Est bem, vamos embora dentro de  
dois dias. Sinto-me aliviada em deixar Montillac por alguns dias:  
nem sei por qu, mas me sinto de certa forma trancada.  
- Voc vai ver, vamos nos divertir muito e danar todas as
noites.

Captulo 14

Franois Tavernier aguardava as duas irms na estao de Austerlitz. Assim que o viu, La
precipitou-se em seus braos, deixando Laure tomar conta da bagagem. Quando o casal se afastou 
um do outro, a cena de Laure, furiosa, arrastando as pesadas malas, provocou uma gargalhada 
geral.  
- Em vez de rir como dois bobos, deveriam me ajudar. Mais tarde, tero todo o tempo que quiserem 
para se beijar.  
Franois acenou para um carregador, que colocou as malas nos  
ombros e os acompanhou at o carro.  
- Sinto-me feliz por estar aqui - disse La ao passar em frente  catedral de Notre-Dame.  
- Para esta noite, reservei uma mesa no Ami Louis, um velho bistr onde se costuma comer um dos 
melhores foies-gras de Paris. Durante a guerra, estive l algumas vezes. Era um dos restaurantes 
do mercado negro. Com a Libertao, o dono teve problemas, mas a comida continua excelente. 
Laure, voc vem conosco... convidei Daniel tambm.  
- Com todo prazer - balbuciou Laure, corada.  
La e Franois entreolharam-se, com ar de cumplicidade.  
Havia uma multido perambulando lentamente pelos cais, parecendo entorpecida pela suavidade 
daquele fim de vero. Vez por outra, apareciam as primeiras folhas amareladas. Chegaram  rue 
Grgoire-de-Tours.  
- No vai ficar aborrecida se eu roubar La a partir do primeiro dia?  
- Claro que sim. Estou muito zangada, mas entendo os namorados. Quando pretende traz-la de 
volta?  
- Veremos daqui a pouco. Esteja pronta s nove horas, passarei para apanh-la. Pode deixar, vou 
subir com as malas.  
No carro, La acendeu um cigarro. Por que seu corao batia to forte? Devia ser pelo fato de se 
encontrar sozinha com ele. Fechou os olhos, sentindo um frisson por todo o corpo. Um perfume 
delicioso a despertou. Franois colocara-lhe um buqu de rosas no colo, sob os olhares coniventes 
do florista, de p atrs da sua barraca.  
- Obrigada. Para onde pretende me levar?  
- Surpresa.  
Entraram na rue Jacob.  
- Vamos passar bem na frente da casa das minhas tias. Mas por que parou?  
- Porque chegamos.  
- Mas...  
- Fui eu que comprei o apartamento.  
- Oh, Franois! - disse La comovida, enlaando-o.  
- Est feliz?  
- Que pergunta! Sinto-me louca de alegria!  
La corria por todos os aposentos, encantada com tudo.  
- Que beleza! Trata-se do mesmo lugar, e no entanto no reconheo mais nada; est tudo to claro, 
parece at maior.  
-  natural, ainda no foi totalmente mobiliado. Conto com voc para concluir a arrumao.  
- Com todo o prazer, ser muito divertido.  
- J viu seu quarto?  
- No sei qual .  
- Venha comigo.  
Ele abriu uma porta.  
- Oh!...  
Os ltimos raios de sol iluminavam o quarto dourado e branco, com uma mobilia lindssima estilo 
Charles X, de macieira clara. Um tapete com rosas imensas cobria quase todo o assoalho. A cama 
de casal tinha uma brancura imaculada.  
- Como voc conseguiu? Sempre desejei um quarto assim!  
- disse La, atirando-se na cama.  
- Foi muito fcil, conheo bem o seu gosto.  
Foi se juntar a La e, sem sequer se despir, deitou-se sobre ela.  
Quando chegaram ao Ami Louis, Daniel Zederman j se encontrava  espera. Laure, elegantemente 
vestida para um lugar to simples, aproximou-se com um imenso sorriso nos lbios. Daniel levantou- 
se educadamente.  
- Estou muito feliz em rev-lo.  
- Eu tambm - respondeu ele, procurando por La.  
Sentaram-se. La olhava  sua volta, amuada.  
- O que foi? No  do seu agrado?  
- No muito. Voc disse que o lugar est na moda?  to feio, com uma iluminao horrvel. Tem 
certeza de que  bom?  
- Excelente. Garom!  
Um rapaz de avental branco aproximou-se.  
- Pois no?  
- Vocs ainda servem aquele meursault?  
- Sim, senhor.  
- Traga logo uma garrafa.  
- Claro, senhor.  
- Vocs vo ver, nunca tomei um vinho to gostoso. Pegue o cardpio para escolher.  
Na mesa vizinha, quatro pessoas conversavam em voz baixa, olhando para eles. Uma elegante 
mulher morena levantou-se e se aproximou.  
- Sr. Tavernier!  
- Sra. Ocampo!  
Franois empurrou a cadeira e tambm se ergueu.  
- Que bom encontr-la em Paris!  
- Vou ficar mais alguns dias, depois parto para Londres.  
- Eu soube que a senhora foi agraciada com a Legio de Honra. Meus parabns.  
- Obrigada... Mas voc no  aquela jovem de Nuremberg? Fico feliz por encontr-la.  amiga do 
Sr. Tavernier?  
- Sou. Boa noite, senhora, quero lhe apresentar minha irm Laure e um amigo, o Sr. Zederman.  
- Boa noite para todos. Estou no Hotel Ritz, venham me visitar. Terei o maior prazer em bater um 
papo com vocs antes de partir.  
Victoria Ocampo retornou ao seu lugar.  
- Onde voc a conheceu? - quis saber La.  
- Em Buenos Aires. Trata-se de uma mulher muito importante por l e que pode ser de grande 
utilidade para ns - acrescentou Tavernier, olhando para Daniel.  
O meursault chegou e foi servido com todo o cuidado pelo prprio dono do restaurante.  
- Depois, me contem como foi; peguei uma garrafa da safra mais antiga.  
- H... est to gostoso quanto o que tomei em 43.  
O dono fechou a cara e retornou  cozinha.  
- Parece que ele no gostou muito - disse Laure.  
- s vezes convm refrescar a memria de certas pessoas.  
- De novo? Ser que no consegue pensar em outra coisa! Deve ser o nico que continua lembrando 
o passado. Ningum mais liga para os colaboracionistas ou para os membros da Resistncia. Aquilo 
tudo j acabou, as pessoas esto fartas, s querem esquecer, encontrar comida, roupa, viver! A 
guerra acabou, eu desejo me divertir, no pretendo ouvir falar de vingana, execues, nem...  
- Tem toda a razo, minha querida Laure. Vamos esquecer tudo isso... s esta noite.  
Tomaram o vinho lentamente; um silncio embaraoso pairava entre eles. "Ela est certa", pensava 
La. "Para que voltar ao passado? No h nada que consiga apagar o que aconteceu." A grande 
maioria tentava esquecer, apenas um punhado de homens queria manter acesa a lembrana do 
inferno nazista. La sentia-se dividida.  
Na hora do cafezinho, Tavernier anunciou:  
- Agora, vamos nos encontrar com Sarah e Samuel numa boate russa. Gostam de msica cigana?  
Sarah, de olhos semicerrados, ouvia o lamento dos violinos. De camisas coloridas, os msicos do 
Shhrazade cercavam a mesa. La, um tanto ou quanto bbada, entregava-se ao bem-estar que a 
dominava. Laure devorava Daniel com os olhos. O rapaz, bastante nervoso, fumava um cigarro 
atrs do outro. Samuel e Franois pareciam pensativos.  
- Aqui  muito bonito - disse Laure. - E se fssemos agora a uma cave de Saint-Germain-des-Prs?  
- Oh! Sim - disse La. - Nunca estive num lugar assim!  
Deixaram a boate por volta das duas da madrugada. A noite estava suave.  
Um carro, de faris apagados, vinha na direo deles. Vrios tiros ecoaram... gritos... Sarah caiu. O 
carro acelerou e virou perto da place de l'Europe... Tudo parecia irreal... Samuel inclinou-se sobre a 
moa... a parte superior do seu vestido branco estava coberto de sangue... ela abriu os olhos... 
Franois inclinou-se tambm e chamou o porteiro que permanecia de p, com os braos balanando, 
atnito.  
- Rpido, chame um mdico.  
Em seguida, ouviram-se as sirenes da polcia. Um homem sem palet, com uma maleta na mo, 
chegou empurrando todos os curiosos que olhavam a cena. Ajoelhou-se e examinou a mulher ferida.  
- Uma bala atravessou-lhe o ombro - disse a um policial  paisana. - Preciso de exames mais 
minuciosos, mas aparentemente no  grave. Esta senhora teve muita sorte.  
- Acredito no senhor, doutor - disse Sarah antes de desmaiar.  
La e Laure choravam abraadas.  
- Como esto vendo, ainda no acabou em definitivo - comentou Daniel rispidamente, dirigindo-se a 
Laure.  
O pranto da jovem aumentara ainda mais.  
Sarah foi levada de maca pelo furgo da polcia. Samuel e Daniel acompanharam-na.  
Aps relatarem ao comissrio o ocorrido, Franois, Laure e La entraram no carro. Fizeram o 
trajeto calados at a rue Grgoire-deTours.  
- Convm passarem a noite juntas. Vou at o hospital e voltarei assim que possvel. Enquanto isso, 
no abram a porta para ningum.  
Franois Tavernier s voltou no fim da manh, exausto e barbado.  
- Sarah est fora de perigo. S tem uma ferida no ombro. Em dois ou trs dias, poder sair do 
hospital.  
- O que foi que a polcia disse?  
- No tem pista alguma. No se esquea de comparecer ao Qual des Orfvres hoje  tarde.  
- Claro - disse Laure. - Mas quem estaria com tanta raiva assim de Sarah, a ponto de querer mat-la? 
Tem alguma idia?  
- Nenhuma. Deve ser um engano.  
- Mas, Franois...  
- Sim, La, um engano.  
- Por que pediu que no abrssemos a porta para ningum?  
- Por uma questo de prudncia. No posso me demorar, preciso ir ao Qual d'Orsay. At breve.  
No, ela no conhecia inimigo algum em relao a Sarah, no, no vira os agressores nem anotara o 
nmero da placa do carro, no, no observara ningum suspeito, no... La ficou irritada com aquele 
interrogatrio. O atentado deixara Laure profundamente perturbada, pois a jovem percebia que seu 
pequeno universo fora abalado. Sentia-se to assustada que o inspetor de polcia que a interrogava 
teve pena dela e encurtou suas perguntas. Ao sair do Palcio da Justia, Laure deixou a irm, 
pretextando um encontro muito importante.  
La atravessou o Sena e caminhou pelo bulevar Saint-Michel. Vrios rapazes olhavam para ela com 
assobios de admirao aos  
quais respondia com sorrisos. Sentia-se elegante com o tailleur azul-marinho que Laure lhe 
emprestara. Reinava por todo o bulevar a agitao tpica da volta s aulas; rapazes e moas 
perambulavam, com os braos carregados de livros. Diante da estao ferroviria do Luxembourg, 
um pequeno grupo de curiosos cercava um casal de cantores populares, e juntos entoavam o refro 
de uma msica de Edith Piaf. Ao final da cano, recolhia-se o dinheiro do pblico.  
- Cinqenta centavos, com a letra e a msica, quem quer comprar o grande sucesso da jovem Piaf? 
Obrigada, senhorita.  
Nas ruas Gay-Lussac e Saint-Jacques, La acelerou o passo. Homens uniformizados saindo do Val 
de Grce dirigiram-lhe observaes desagradveis. Na estreita calada, ela se escondeu no vo de 
uma porta para deixar passar uma jovem me com um carrinho de beb. Percebeu quando foi 
empurrada por uma pesada mo, encostando-a na parede enquanto lhe tapavam a boca. A pesada 
porta de ferro fechou-se. La sentiu um hlito desagradvel em seu rosto.  
- No se mexa, no grite... no quero machuc-la, s preciso te passar um recado... Voc vai ao 
hospital visitar sua amigajudia?... Diga-lhe para ficar bem quietinha... Ontem, ela escapou por pouco, 
mas amanh tudo vai dar certo... Estamos por toda parte... mataremos todos aqueles que nos 
atrapalharem...  
- No estou entendendo - foi o que La conseguiu articular.  
- Melhor para voc. Se entendesse, j estaria morta... Aquela judia no  uma boa companhia para 
uma linda jovem como voc... Entendeu bem o recado?... Agora vou lhe soltar... procure no gritar, 
ou serei obrigado a acabar com voc, o que ser uma pena. Pronto, pode ir visitar aquela puta.  
O homem soltou La brutalmente, saiu do vo e abriu a porta sem a mnima pressa. Assustada e 
muito nervosa, com as pernas trmulas, ela comeou a chorar. Um rudo de passos na escada 
trouxe-a de volta  realidade.  
- Est procurando alguma coisa? - perguntou um garoto da idade de Charles.  
- No, obrigada.  
- Mas voc est chorando! Se machucou?  
Ela conseguiu sorrir:  
- Tudo bem, voc  um amor.  
Aps a entrada sombria do prdio, o sol ainda luminoso do fim de tarde fez com que seus olhos 
piscassem. Ela correu, empurrando as pessoas na rua. Correndo sem parar, atravessou o bulevar de 
Port-Royal em meio a uma sinfonia de buzinas e insultos. Completamente sem flego, chegou ao 
hospital; indicaram-lhe ento o prdio onde Sarah se encontrava. Uma freira a levou at o quarto, na 
porta do qual havia um policial que lhe pediu os documentos.  
- Ela no pode se cansar, a visita deve ser breve - disse a freira, abrindo a porta.  
O aposento encontrava-se mergulhado numa suave penumbra. Pela janela aberta, protegida por uma 
grade, entrava um pouco de ar, fazendo ondular lentamente a cortina de tecido branco. No alto leito 
de ferro, com o ombro engessado, Sarah parecia dormir. Emocionada, La inclinou-se. Sarah abriu 
os olhos, fitando atentamente a amiga, enquanto um leve sorriso aflorava em seus lbios, 
embelezando-lhe o rosto. Sorriso que se apagou ao perceber os vestgios de lgrimas nas faces de 
La.  
-  por minha causa que voc chorou?... Estou tima... em dois ou trs dias vo me dar alta. Sente-
se mais tranqila agora?... Mas o que aconteceu?... Por que continua chorando?... O que foi?...  
Dominando a emoo e o nervosismo, La conseguiu contar o que acabara de ocorrer e transmitiu-
lhe o recado do seu agressor.  
Sarah ergueu-se, mas sem evitar um gemido de dor.  
- A culpa  minha, devia aguardar at voc se recuperar completamente.  
- No se preocupe comigo. Resolveram ento partir para a agresso. Pensei que no tivessem 
coragem de atuar na Frana. Isso nos leva  concluso de que eles tm alguns cmplices que 
ignorvamos, ou ento perceberam que chegou a nossa hora de reagir. Samuel obteve a 
confirmao de que as duas mulheres que venho procurando se encontram em Paris, prontas a 
embarcar para a Argentina com outros criminosos de guerra. Voc precisa me ajudar...  
- Mas, Sarah,voc no entendeu. Se continuar, vo mat-la!  
- J me mataram, perdi todo o medo deles. E, quanto a voc, querendo ou no, j faz parte do nosso 
grupo; no tem escolha:  
agora, j sabem tudo a seu respeito e sobre sua famlia tambm. Se deseja ter a mesma vida 
sossegada de antes, precisa nos ajudar a elimin-los.  
- Voc est completamente louca! O tempo da clandestinidade j passou...  
- Pelo contrrio, atingiu seu apogeu. Para eles, assim como para ns mesmos, a guerrilha continua.  
- Quanto a isso, j entendi perfeitamente. Por que no contar  polcia tudo o que voc sabe sobre a 
atuao deles na Frana?  
- Porque ningum vai querer me ouvir. Dizer aos franceses, ao mundo inteiro, que os nazistas 
continuam vivendo entre ns, que a besta imunda ainda no morreu e se encontra prestes a atacar 
como sempre, que em cada pas eles possuem amigos poderosos prontos a ajud-los, que alguns 
dentre eles fazem parte do governo, da imprensa, indstria, literatura, contar tudo isso significa, na 
melhor das hipteses, provocar um grande deboche irnico e incrdulo, e, na pior das hipteses, 
atrair novos simpatizantes para a causa deles. No, nada posso contar  polcia.  
- E ao servio secreto?  
- A sim, iriam me ouvir; mas apenas para ordenar que silenciasse.  
- No entendi.  
- Porque j esto a par de tudo e ajudam certos nazistas a fugir em troca de informaes...  
- No posso acreditar.  
- No que se refere  Frana, no tenho provas; mas os americanos, dentre outros, utilizam-se dos 
servios de vrios criminosos.  bvio que os franceses devem fazer o mesmo.  
- Os franceses!...  
Sarah, cujo rosto tornara-se mais duro no decorrer da discusso, deu uma gargalhada sarcstica.  
- Pensei que depois de passar por tudo o que passou, depois de ver a traio, a colaborao com o 
inimigo, na sua prpria famlia inclusive, voc no fosse mais to ingnua.  
Vencida, La baixou a cabea. Sim, os prprios franceses...  
Uma freira entrou no quarto.  
- Sra. Tavernier, sua amiga vai ter de se retirar. Precisa descansar.  
- Obrigada, irm, ela j vai sair.  
Um frio intenso penetrou o corpo de La. Incrdula, olhando para a porta que se fechara atrs 
daquela mulher de branco, gelada, de cabea baixa, sem coragem de enfrentar o olhar de Sarah. 
Uma vaga esperana... Na recepo, perguntara pela Sra. Muistein...  
- Percebi que Franois no lhe contou nada. Ns nos casamos logo aps o nosso regresso de 
Montillac. Mas no significa absolutamente nada, no passa de mera formalidade, porm muito 
necessria. Enk'e voc e ele nada ir mudar. No estou com cimes.  
"Mas eu sim", pensou La, quase chorando.  
- Voc precisa encontrar Franois o quanto antes - prosseguiu Sarah, fingindo no perceber a palidez 
da amiga. - Se no conseguir, ligue para Danton 26-27. No vai esquecer?... Mas no escreva 
absolutamente nada. Quando atenderem, diga que a Sra. Hugo est esperando o Sr. Sainte-Beuve 
na hora prevista. Hoje  noite, s nove, voc precisa ir ao beco Saint-Andr-des-Arts. Sabe onde 
fica?  
La balanou a cabea afirmativamente.  
- Preste bem ateno para que ningum a siga. Vista uma roupa escura, esse tailleur azul d muito 
na vista. Nesse encontro, haver algum dos nossos. Voc me disse que seu agressor tinha um 
sotaque da Europa Central, no foi?... E tambm que sentiu o bigode dele no seu pescoo?... Pode 
ser um indcio. A pessoa vai se aproximar de voc e perguntar se encontrou-se com Victor. Sua 
resposta ser a seguinte: "Pretendo encontr-lo hoje  noite." Entendeu bem? Repita.  
Com voz monocrdia, La obedeceu.  
- Tudo bem. Volte amanh para me manter a par de tudo.  
No corredor, cruzou com Daniel.  
- Como vai Sarah?... Por que voc no diz nada?... Sente-se mal? Est to plida! 
Apoiando-se no rapaz, La sentou-se numa cadeira, as pernas trmulas,  beira de um desmaio.  
- Tudo bem, j me sinto bem.., no suporto o cheiro de ter.  
- Voc me assustou... Como vai Sarah?  
- Melhor, muito melhor.  
- Quer que a acompanhe?  
- No  preciso, muito obrigada.  
A nica vontade de La era fugir daquele hospital e ficar sozinha para refletir. Despediu-se 
rapidamente de Daniel.  
No Observatrio, pegou um nibus andando. O trocador segurou-a pelo brao e fechou a porta.  
- Moa, pegar nibus andando  muito perigoso.  
- Vai para a place Saint-Michel?  
- Vai sim, so dois tquetes.  
La pagou e se encostou na janela. Seu cabelo esvoaava ao vento.  
O pequeno e estreito beco Saint-Andr-des-Arts estava lotado. Ao chegar  rue Grgoire-de-Tours, 
abriu a porta com a chave que sua irm lhe entregara. No havia ningum em casa. Por trs vezes,
La ligou para a rue de Le Universit. Ningum: Franois tambm no se encontrava em casa. Em
compensao, no nmero que Sarah lhe dera, uma voz de homem respondeu.

Captulo 15

- Encontrou-se com Victor?
Apesar de preparada, La assustou-se. Um desconhecido, com magnfico bigode ruivo, esperava
sua resposta.
- Pretendo encontr-lo hoje  noite.
- Tudo bem, venha comigo.
Alcanaram o bulevar Saint-Germain e entraram num caf imenso. Ele a empurrou para o fundo,
onde havia pouca gente.
- O que deseja tomar?  
- No sei, o mesmo que voc.  
- Garom, dois copos de vodca bem gelada.  
Permaneceram calados at o garom voltar.  
- Beba, parece estar precisando.  
La bebeu de olhos fechados... Lembrou-se imediatamente das noites, dos dias passados na 
Alemanha com os soldados soviticos, em busca de pessoas deslocadas, de rfos; recordou-se 
daqueles fantsticos pileques, das lindas e melanclicas canes. Eram esses soldados provenientes 
do Leste que lhe proporcionaram tantos momentos de alegria enlouquecida e de profunda tristeza. 
Ela podia rever aqueles olhares perdidos, pensando na terra natal, na mulher amada: quanta ternura 
e delicadeza ocultas sob uma aparncia rstica! E os esforos daqueles homens no sentido de 
tornarem suas noites menos desconfortveis, privando-se de cobertor, partilhando ch, po preto... 
Como sentia falta deles, de sua camaradagem, de todos os mnimos detalhes que tornavam menos 
difcil e mais  
calorosa a vida em meio s runas! La sentiu saudades daquele perodo e suspirou.  
- Senhorita, ser que podia voltar  realidade? - disse o homem de bigode.  
- S estava pensando nos soldados russos, nos meus amigos...  
Ele a fitou com uma expresso divertida: "Outra louca!", pensou.  
- No podemos ficar juntos muito tempo. Se Sarah lhe deu este nmero, devia ter algo importante a 
comunicar.  
Ela no pde deixar de perguntar, com ar irnico:  
- Como foi que adivinhou?  
Ele no devia ter um profundo senso de humor, a menos que as sutilezas do francs no lhe fossem 
muito familiares, pois franziu as sobrancelhas em sinal de irritao. Sem perder a pose, La 
prosseguiu e falou de sua aventura na rue Saint-Jacques.  
- No tem outros indcios?  
- No, exceto o bigode e o sotaque, ele no parecia muito mais alto que eu. Ah! sim, usava uma 
jaqueta ou um casaco de couro...  
- Com esse tempo?  
- Pois , cheguei a pensar o mesmo enquanto ele me segurava.  
- Acha que se tratava de um homem jovem?  
-  difcil afirmar.., sim, acho que sim.  
- Muito bem, trabalharemos com o que temos. Vai visitar Sarah amanh?  
- Sim - respondeu baixinho.  
- Avise que localizamos a fera e que a caa poder comear antes da data prevista. Ela entender.  
- Eu tambm entendi... Parece um jogo de escoteiros ou um romance da coleo Sinais de Pista, no 
conhece?,.. Que pena, tem muita aventura.,.  
- Senhorita, no se trata de nenhum romance de aventuras,  
- Sei perfeitamente e lamento muito.  
Como aquela jovem era irritante! ... Por que agradava tanto a Tavernier?... De fato, ela no era nada 
feia, mas perto de Sarah...  
- Mesmo assim, seja prudente, as pessoas que enfrentamos  
no so heris de novela... j viu o que aconteceu ontem. Agora saia, antes de mim... At logo.  
Ao se encontrar na calada, La pensou para onde ir. No tinha a menor vontade de voltar  rue 
Grgoire-de-Tours, nem  rue de l'Universit. Automaticamente, caminhou na direo do 
ThtreFranais. Na rua de l'Odon, deteve-se diante da vitrine iluminada de uma livraria. No 
interior, vrias pessoas conversavam animadamente. Uma bela mulher morena, com o cabelo 
penteado para o alto e um lindo rosto distante, mantinha-se afastada do grupo, ouvindo um homem 
despentado, com uma ponta de cigarro entre os lbios, que discutia com grandes gestos: Andr 
Mafraux. La lembrou-se que Raphal Mahl recomendara que lesse A Condio Humana.  
De cachimbo na boca e culos, um homem feissimo tambm ouvia atentamente; uma mulher baixa 
e ligeiramente rechonchuda, com um coque cuidadosamente puxado para trs, de vestido cinza 
extremamente simples, tentava pr um pouco de ordem numa pilha de livros. E aquele homem calvo 
de leno vermelho no pescoo:  
Andr Gide!... Seu tio Adrien, contrrio s opinies de toda a burguesia de Bordeaux, apreciava 
muito seus textos. Os dois se haviam encontrado em Paris e trocaram algumas cartas, motivo de 
maior orgulho para o dominicano. Uma mulher de cabelo curto, trajada como um homem, e outra de 
costas... Victoria Ocampo conversando com Franois Tavernier. Ah, essa no, ele no! Naquele 
instante, o olhar de La cruzou com o da jovem argentina, que mostrou a vitrine ao seu interlocutor. 
Antes que La pudesse reagir, ele j se encontrava  sua frente, segurando-a pelo brao.  
- Aonde voc se meteu? Fiquei louco de preocupao!  
- Deixe-me!  
- Sarah me contou tudo,  melhor regressar a Montillac.  
- Regressarei se eu quiser! Quem  voc para me dar ordens?...  
- No se trata de uma ordem,  apenas um conselho urgente.  
- Guarde seus conselhos...  
- Srta. Delmas, acabamos nos encontrando mais cedo do que imaginvamos.  
- Boa noite, senhora.  
- Venha, vou apresent-la aos meus amigos.  
Sem coragem para recusar, La entrou na livraria.  
- Adrienne, apresento-lhe minha jovem amiga, La Delmas. La, estes so Adrienne Monnier e 
Sylvia Beach, ambas donas de livraria, a Sra. Simone de Beauvoir e o Sr. Jean-Paul Sartre, os 
senhores Andr Gide e Andr Malraux... Gisle Freund, que esteve comigo na Argentina durante a 
guerra e se encontra de passagem em Paris - disse Victoria Ocampo.  
Aps cumprimentar La, Sartre e Mairaux prosseguiram sua conversa; Gide despediu-se s 
pressas.  
- Vamos embora - falou Tavemier em voz baixa.  
Saram depois de prometer a Victoria Ocampo que passariam pela sua casa no dia seguinte para um 
ch.  
- Voc j jantou?  
La balanou negativamente a cabea.  
- Precisa comer, vamos - acrescentou Franois, segurando- a pelo brao.  
Caminharam sem trocar uma nica palavra at Saint-Germaindes-Prs. Entraram na cervejaria 
Lipp.  
O filho do dono, Roger Cazes, veio receb-los.  
- Boa noite, Sr. Tavernier. A mesma mesa de ontem?  
Instalaram-se perto da caixa. O mattre trouxe o cardpio.  
- Aceitam um aperitivo?  
Sem consultar o cardpio, Franois respondeu:  
- Duas taas de champanha, por favor.  
Em outra mesa, Jean Cocteau jantava com Marie Beli. Mais afastados, La reconheceu Georges 
Bidault e Maurice Schumann. Ambos acenaram com a cabea.  
- Agora, conte tudo.  
La tomou um gole de champanha.  
- No tenho nada para contar. Sua esposa j lhe disse tudo.  
- Pare, por favor, no use esse tom entre ns. Voc j conhecia esse projeto de casamento. 
Aconteceu e pronto.  
- Pronto! - exclamou La, to alto que os olhares de todos os presentes dirigiram-se para a mesa 
deles. - Essa  demais -  
prosseguiu ela, baixando a voz. - Imaginei que voc desistiria desse plano insensato. No pensou em 
mim?  
- Minha querida, no fao outra coisa. Mais tarde, vou me divorciar e casar com voc...  
- E acha que vou ficar esperando, quietinha, at que resolva pedir o divrcio? Voc no  o nico 
homem na face da terra...  
-  verdade, mas sou o nico que voc ama.  
Quanta audcia!... Entretanto, era a pura verdade; ela amava aquele cafajeste, e a simples idia de 
que pudesse interessar-se por outra mulher provocava nela um terrvel sofrimento...  
- No existe nada entre mim e Sarah, e jamais existir. Mas preciso cuidar dela e ajud-la...  
- E a mim, voc protegeu hoje  tarde?  
De repente, ele pareceu profundamente preocupado!  
- Eu daria tudo para evitar que voc estivesse metida nessa histria...  
- Tarde demais. Como no conseguia falar com voc, encontrei um amigo de Sarah...  
- Um homem de bigode ruivo?  
- O prprio. E ele me disse que a caada podia comear antes da data prevista...  
- Ah, foi isso - comentou Franois, pensativo.  
- Significa que encontraram aquelas mulheres horrveis de quem Sarah jme falou?  
- No sei, talvez.  
- Se conseguirem prend-las, o que faro com elas?  
-  fcil adivinhar.  
Todos aqueles acontecimentos pareciam fazer parte de um romance de m qualidade; o dilogo 
naquela cervejaria parisiense excessivamente iluminada, lotada de polticos, estrelas de cinema, 
escritores, lindas mulheres conversando sob as cermicas de Fargue... La tinha a impresso de 
viver um sonho absurdo; a seu lado,  
o homem que ela amava e que a amava casara-se com outra, a mesma que s pensava em sua 
vingana, com companheiros misteriosos, que era ferida no meio da rua, e que lhe entregava 
mensagens codificadas enquanto ela prpria fora agredida  luz do dia por  
um homem bigodudo que proferia ameaas... A loucura era tanta que La teve um acesso de riso.  
Na verdade, aquela jovem nunca deixaria de surpreend-la; ela podia mostrar-se abatida, calada, 
agressiva, mordaz, maldosa, e agora risonha! Que mulher imprevisvel! Em sua companhia, no 
havia tempo para o tdio. No entanto, por trs daquela risada de La, ele reconhecia o medo, a 
angstia, o sofrimento, e sentia-se profundamente culpado. "Eu deveria proteg-la, torn-la feliz. Em 
vez disso, eu a estou arrastando para uma perigosa aventura e colocando-a em risco de vida; no 
passo de um canalha." Franois experimentava um imenso cansao e sentia-se velho! ... Um violento 
desejo de fugir com ela para qualquer outro pas, abandonar Sarah e seus planos assassinos, seu 
cargo junto ao governo francs, seus bens... partir s com ela, para longe dos perigos que pairavam 
 sua volta, poder viver e amar essa mulher, ter filhos com ela...  
- Tavernier, at que enfim consegui encontr-lo!  
Samuel Zederman estava de p, junto  mesa.  
- Percorri todos os cafs do bairro atrs de voc. V rpido at a Place des Vosges para um 
encontro...  melhor no levar a senhorita.  
Acabaram de jantar no mais profundo silncio.  
Franois acompanhou-a at a rue Grgoire-de-Tours. Laure ainda no havia chegado.

Captulo 16

La no conseguia dormir. Um dos campanrios da redondeza tocou: meia-noite. Levantou-se e
vasculhou o armrio da irm. Logo em seguida, saiu da rue Grgoire-de-Tours vestindo uma saia 
longa preta e um pulver apertado da mesma cor, com o cabelo preso num rabo-de-cavalo. 
Caminhando por trechos mal iluminados, dirigiu-se at a rue Dauphine, procurando a cave de que 
Laure lhe havia falado: Le Tabou.  
Na esquina entre as ruas Christine e Dauphine, um bando de rapazes fumava e conversava, 
apoiados num estranho carro conversvel amarelo e preto. Ela se aproximou e perguntou a um deles:  
- Conhece Le Tabou?  
- Deve ser a freqentadora mais engraadinha do lugar. O que  que voc acha, Toutoune?  
Uma jovem, com os seios apertados num agasalho de l, as ndegas moldadas por uma cala de 
veludo cotel, um nariz comprido e longos cabelos pretos, olhou para La de cima a baixo.  
- Pois , nada mal. E voc, Anne-Marie, qual a sua opinio?  
- Legal - respondeu uma jovem ruiva e esbelta.  
La estava ficando irritada com aquela investigao.  
- Procuro Le Tabou.  
- Est bem na sua frente, senhorita.  
Ento era aquela a cave da moda, a respeito da qual Laure enchera-lhe os ouvidos em Montillac! 
Ergueu a cabea: ali estava o nome da boate, no havia a menor dvida.  
- Parece surpresa - disse um rapaz todo desengonado, com um bon cheio de gales na cabea. - 
Ficou assustada como aspecto deplorvel do lugar? Pois , minha cara,  como a nossa poca, suja 
e podre, o ponto de encontro dos viciados, pobres e ricos, todos juntos, o verdadeiro ideal comunista, 
dos existencialistas...  
- De quem?  
- Ei, t fazendo hora comigo?... T querendo me enganar,  isso... Vestida desse jeito... Oh, 
desculpe, no me apresentei: Franois de la Rochefoucault, porteiro, s suas ordens. Frdric, vem 
c... Olha s que beleza, t procurando Le Tabou... No acha que ela possui absolutamente tudo 
para ser aceita nesse templo freqentado pelos mais espetaculares espritos da poca?...  
Um belo rapaz, com bigode claro de oficial de cavalaria, aproximou-se.  
- Bom dia, senhorita, meu nome  Frdric Chauvelot. De certa forma sou o animador do local. 
Permita que lhe oferea um trago de boas-vindas... Tarzan, no vai se esquecer do lindo rostinho da 
senhorita?  
- Pode confiar - comentou um brutamonte tatuado.  
- Ele consegue esmagar uma cabea entre o polegar e o indicador - cochichou Frdric no ouvido de 
La ao empurrar a porta.  
Um bafo quente emanava da escada de pedra. Enquanto descia, La teve a impresso de penetrar 
num caldeiro infernal, em plena ebulio e enfumaado: os gemidos do trompete e do clarinete, em 
direo s abbadas do sculo XVIII, tornaram ainda maior sua primeira sensao. A fumaa era 
tanta que no se enxergava o fundo da cave, cujas dimenses no ultrapassavam doze metros por 
oito. Alguns casais se revezavam numa dana frentica, muito aplaudidos pelos fregueses que 
lotavam a casa, sentados ou de p.  
- Oque deseja tomar?  
- Um licor de menta com gua - respondeu La depois de olhar  sua volta.  
Um rapaz de camisa xadrez, encharcado de suor, aproximou-se.  
- Quer danar?  
- No, obrigada.  
Ele se afastou, erguendo os ombros.  
Lugar estranho. Msica estranha, diferente de tudo o que conhecia. 
- Laure!  
Acabara de avistar a irm, com o tailleur azul que ela prpria vestia na vspera. Com muita 
dificuldade, conseguiu chegar  mesa onde se encontrava Laure em companhia de cinco ou seis 
rapazes da sua idade: dentre eles, Franck, que a viu primeiro.  
- La, que boa idia ter vindo se encontrar com a gente.  
- No consegui dormir, preocupada com Laure.  
- Ela me contou tudo a respeito de ontem... como vai sua amiga?  
- Bem, no foi to grave assim.  
- Que bom. Laure, olhe quem est aqui.  
- Pouco me importa, no quero ver - mal conseguiu responder.  
- Ela est bbada, quase igual a voc da ltima vez.  
Sim, mas por outras razes, pensou La.  
-  amiga de Franck? - quis saber Frdric Chauvelot. - Agora preciso circular por a, est em boas 
mos. 
Inicialmente, La surpreendeu-se com os movimentos complicados e acrobticos dos danarinos e 
chegou a esquecer por alguns segundos o que considerava uma traio da parte de Franois, assim 
como a tentativa de assassinato de Sarah. Instintivamente, marcava com os ps o ritmo da msica.  
- Seu judeu nojento, so os judeus que sempre causam todos os problemas.  
Apesar do barulho, La ouvira perfeitamente as palavras de Laure, proferidas aos berros com sua 
voz embriagada; permaneceu imvel, incrdula. Franck, cuja me era judia, olhava a amiga sem 
conseguir acreditar no que acabara de ouvir.  
- Seu nojento...  
A bofetada de La em seu rosto cortou-lhe a palavra. Laure comeou a choramingar como uma 
criana.  
- Viu s, ela me bateu!  
- Ajude-me a lev-la para casa. 
- O que houve? Por que ela est chorando? - perguntou a moa ruiva da entrada.  
- Deixa pra l, no t vendo que ela bebeu demais? - comentou Toutoune.  
Tiveram dificuldade para conseguir retir-la.  
- Corbassire, ser que pode levar a menina pra casa? - perguntou Frdric.  
- Tudo bem - respondeu o rapaz sentado ao volante daquele estranho carro bicolor.  
- No  preciso - disse La. - Moramos perto. Franck vai 
me ajudar.  
- Como quiser.  
Na rua mal iluminada, Franck e La seguravam Laure, que mal conseguia ficar de p, seguidos por 
trs amigos do rapaz que cantavam a plenos pulmes.  
- Calem a boca! ... A gente quer dormir!  
Saindo de uma janela, essas palavras foram acompanhadas de um jato d'gua que encharcou o 
grupo.  
- No se passa uma noite sem que um de ns tome um banho  
- comentou Franck. - O povo desse bairro s pensa em dormir. A ducha no acalmou os cantores, 
que recomearam com mais  
fora ainda, O cruzamento das ruas Saint-Andr-des-Arts e Buci estava sem luz. Laure ia ficando 
cada vez mais pesada. O mau humor de La aumentara devido a um princpio de enxaqueca. A 
entrada da rue Grgoire-de-Tours parecia negra como um tmulo. Um dos rapazes acendeu uma 
lanterna de bolso e sua luz fraca iluminou o meio-fio. De faris apagados, um carro se aproximou. O 
tailleur azul de Laure chamava ateno. Bruscamente, acenderam-se os faris. La ergueu o brao 
para proteger os olhos.  
- Oba, que bom, assim d pra enxergar onde a gente pisa.  
A chave de La caiu no cho e ela se abaixou para apanh-la... Uma rajada de metralhadora 
crepitou, ricocheteando na calada... O corpo de Laure se contorceu... Ela se tornara to pesada de 
repente... to pesada... deslizou apesar dos esforos de La para segur-la... o rudo de uma 
mudana de marcha... o cantar dos pneus... uma porta batendo... os faris iluminaram por um 
segundo 
as fachadas dos velhos prdios e se apagaram em seguida... o carro desapareceu em direo ao 
bulevar Saint-Germain... Algumas luzes foram acesas... janelas se abriram...  
- O que houve?...  
- Vocs ouviram?...  
- No lhe falei que era uma metralhadora? Eu conheo!  
- Venha deitar, deve ser mais um bando daqueles bandidos do Tabou!...  
- Socorro! Chamem a polcia!...  
Agachada perto da calada, La segurava a cabea de Laure, que gemia de dor.  
- No foi nada, irmzinha, no foi nada.  
O azul do tailleur sumia lentamente sob as manchas escuras que aumentavam a cada instante. 
Atordoado, com a testa suja de sangue, os olhos fixos naquele corpo estendido, Franck segurava a 
lanterna com mos trmulas.  
- ilumine aqui - gritou La.  
Bem devagar, ela colocou a cabea da irm no colo, com os mesmos gestos suaves de sua me. 
Laure tentou falar.  
- No diga nada.  
Finalmente, ouviu-se a sirene do carro da polcia. A rua, antes completamente deserta, enchia-se 
agora de gente de pijama ou camisola, com um casaco ou um xale nos ombros. Alguns policiais 
apareceram, trazendo uma maca.  
- Afastem-se... precisamos passar...  
A pequena multido abriu caminho.  
- Voltem para casa... no h nada para ver...  
Ningum se moveu.  
Um policial  paisana inclinou-se sobre as duas irms...  
- O que aconteceu? - perguntou. - Quero mais luz. Puta que pariu, coitadinha! Mas.. .j conheo 
voc, foi comigo que falou sobre o caso do Shhrazade hoje  tarde e... essa  sua irm... que 
estava to assustada... Coitada da menina...  
- Rpido, senhor, leve-nos para o hospital.  
Com todo o cuidado, os policiais transportaram Laure, que desmaiara. La e Franck sentaram-se a 
seu lado. 
No corredor do Htel-Dieu, La andava para l e para c, fumando um cigarro afrs do outro. Seu 
mao de Lucky Strike acabou rapidamente.  
- J faz duas horas que esto operando... e voc fica a, esperando calmamente, sem se mexer!  
- O que mais posso fazer? - disse Franck, que suava abundantemente.  
- Sei l... mexa-se, fale comigo!  
- Para dizer o qu?... Voc acha que tudo isso tem a ver com Sarah?  
- No sei, espero que no... Ser que no se trata de seus negcios ilegais no mercado negro?  
- Impossvel, Laure s fazia pequenas barganhas e nunca estivemos metidos em grandes 
transaes... Talvez seja um simples acidente...  
- Um simples acidente!... uma rajada de metralhadora em Paris!... um simples acidente! Voc diz 
cada uma!... Doutor! Doutor, como ela est?  
-  da famlia?  
- Sou irm dela.  
- Foi um milagre ela no morrer na hora. Retiramos sete balas, perdeu muito sangue e o risco de 
hemorragia interna ainda no foi totalmente afastado. Mas ela est viva. Por enquanto, continua 
dormindo.  
- Posso v-la?  
- No, volte para casa...  
- Nem pensar, quero ficar a seu lado. Preciso estar perto quando despertar, se no, ela vai ficar 
apavorada.  
O mdico sorriu, apesar do imenso cansao.  
- Vou pedir que lhe tragam um pouco de caf quente... Alis, nem sei se posso chamar aquilo de 
caf...  
- Obrigada, doutor.  
- Ele tem razo, voc devia voltar para casa e dormir um pouco. No tem sentido ficarmos os dois 
esperando aqui.  
- V voc, se quiser. Eu fico.  
- Tudo bem, eu tambm fico. 
Aps tomarem a bebida que lhes trouxe uma freira, ambos cochilaram encostados um no outro, at 
a chegada do inspetor do turno da noite.  
- Ser que tem alguma idia a respeito do que houve? Ontem atiraram na sua irm, anteontem na 
sua amiga,  demais para uma simples coincidncia.  
- Claro, mas no fao a menor idia.  
- Tem certeza?  
La pediu a Deus para no corar!  
- Absolutamente!  
O policial suspirou, desanimado.  
- Quando poderei v-la?  
- No depende de mim. Eu tambm gostaria de v-la e fazer algumas perguntas. Onde esteve ontem 
 noite?  
- Mas eu j contei, no Tabou.  
- No notou nada suspeito?  
- No, a iluminao da rua estava pssima, s pude ver o carro no final.  
- Era o mesmo da vspera?  
- No sei... um Citron preto...  
- Esse tipo de carro  o mais usado, tanto pelos bandidos como pelos polticos.  
- No  a mesma coisa? - perguntou Franck com ar ingnuo.  
O inspetor ergueu os ombros.  
No final da tarde, autorizaram La a ver Laure.  
- Minha querida...  
- Ela no pode ouvir, est em coma.  
- Quanto tempo vai durar?  
- Uma hora, meses, ningum sabe.  
- Posso ficar com ela?  
- Pode, se quiser. Vamos colocar um catre.  
- Obrigada, irm.  
Deitada na estreita cama, La, tal como no dia anterior, no conseguia dormir. Levantou-se e saiu 
para fumar no corredor. O policial adormecera sentado na cadeira. Ao v-lo, La se lembrou do 
policial de 
planto na porta do quarto de Sarah. Sarah, com quem precisava falar naquela mesma tarde... e 
Franois devia estar louco de preocupao...  
- J lhe disse, senhor, a hora das visitas j passou h muito tempo... Os doentes esto dormindo... 
Por favor, senhor...  
Uma freira minscula saltitava atrs de Tavernier.  
- La!  
Ela conseguiu deter o impulso instintivo de se atirar em seus braos. O policial, despertado, ps a 
mo no revlver.  
- Senhor, o que faz aqui?  proibido.  
- ASrta. Delmas  minha amiga, quero saber como ela vai indo.  
- Volte amanh.  
- No, preciso falar com ela - respondeu apontando para 
La. 
- Conhece este homem?  
- Sim. 
- Vo conversar no saguo.  
La queria recusar, mas a perspectiva de um escndalo entre o representante da lei e seu amante 
fez com que obedecesse.  
Franois segurou-lhe o brao.  
- Como vai Laure?  
- Continua inconsciente, mas os mdicos esperam salv-la.  
- Voc deve partir imediatamente.  
- Nem pense nisso, no posso deix-la.  
- Mas ser que no percebe que era voc que queriam matar? Foram enganados pelo tailleur que 
Laure estava usando.  
- Que tailleur?  
- O azul, que voc vestiu naquela noite.  
- Ah!...  
- J entendeu?  
- Mas por que razo querem me matar?  
- Por que voc  uma amiga ntima de Sarah.  
- Sou, mas nada tenho a ver com o que ela planeja.  
- Isso eles no sabem. Encontramos a pista do carro, falta pouco para interceptarmos um dos 
assassinos. Espero que ele revele os nomes dos chefes da rede. Mas por enquanto voc precisa 
sumir. No vo precisar de muito tempo para perceber que erraram de alvo. 
- Se sabem de tudo, como voc afirma, no estarei segura em parte alguma.  
- No  bem assim. Amanh de manh, Sarah sair do hospital e vamos escond-la num lugar 
seguro. Conversei com o ministro do Interior, teremos a proteo de uma escolta. O que voc 
contou  polcia?  
- Disse que no compreendia o que se passava.  
- Perfeito. Acreditaram em voc?  
- Acho que sim.  
- O ministro colocou o chefe de polcia a par da situao, e este deu as ordens necessrias. Agora, o 
caso encontra-se nas mos do servio secreto. Se a interrogarem, voc no sabe de nada.  
- E quanto a voc, o que pretende?  
- No momento, pouca coisa; fazer com que me esqueam... Voc parece cansada... no se 
preocupe com Laure, vai sair dessa.  
- Espero que sim, mas sinto tanto medo! Parece que voltei no tempo e que Camille est em perigo. 
Tenho exatamente a mesma sensao. Oh, Franois, diga que Laure no vai morrer...  
Tavernier nada respondeu, acariciou suavemente a face plida da amiga. Ela o abraou e colou seu 
corpo contra o de Franois.  
- Minha garotinha, logo eu, que queria tanto te poupar...  
- No foi bem isso o que conseguiu.  
- Meu amor, me perdoe. Eu te amo, gostaria tanto de faz-la feliz...  
- Nisso tambm voc falhou.  
- Prometo que um dia ser possvel.  
- Um dia!...  muito distante.  
Permaneceram unidos e calados. Com a boca em seus cabelos, Franois murmurou:  
- Voc me perdoa?  
Sentiu o corpo de La retesado.  
- Nunca- sussurrou ajovem, aninhando-se entre seus braos.  
- Entendo... mas lembre-se de que a amo.  
- Senhorita, senhorita, sua irm acordou! O mdico plantonista est junto dela - disse o policial 
ofegante.  
- Obrigada, j vou. 
Ela correu at o quarto, seguida por Franois Tavernier. Um homem de branco inclinava-se sobre a 
cama.  
- Acalme-se, senhorita, est tudo bem. Voc  La?  
- Sim.  
- Ela no pra de cham-la, temendo que tivesse morrido.  
- Laure... minha queridinha...  
- La...  voc?...  
- No fale, senhorita, vai se cansar.  
- Estou aqui, no precisa ficar com medo.  
- Franck?... e os outros?  
- Franck est no corredor.  
Tavernier foi cham-lo. Laure estendeu a mo para ele.  
- No chore, ou vou chorar tambm...  
- Senhorita, no se agite tanto, precisa de muita calma.  
- EFranois?... eSarah?...  
- Sarah vai bem... Franois est aqui.  
- Oi, Laure.  
- Fico feliz em saber que est aqui... Estou com dor!...  
- Pronto, no diga mais nada... vou ficar com voc.  
- Sonhei que tia Estelle me chamava.., tenho medo... tanto medo... no vou morrer, vou?...  
- Claro que no, minha querida. Est tudo bem... Sinto tanta dor...  
- Agora cale-se, senhorita, ou pedirei a todos que saiam do quarto. Vou aplicar-lhe uma injeo.., e 
depois a dor vai passar, poder dormir.  
- No quero dormir...  
Enquanto o mdico aplicava a injeo, La e Franck no largaram as mos de Laure. Sem 
maquiagem alguma, ela parecia uma menina. Adormeceu logo em seguida.

Captulo 17

Mais tranqila quanto ao estado de sade da irm, La aceitou a idia de ir para casa e descansar
um pouco. Na rue de l'Universit, Franois preparou-lhe um bom banho. Aps despi-la lentamente, 
ele a carregou at a banheira e, com gestos carinhosos, lavou-a. A suavidade das mos do seu 
amante trouxe-lhe uma paz profunda. Franois colocou La na cama, vestida com um penhoar e 
cobriu-a com uma manta de pele.  
- Agora durma, querida.  
- No me deixe sozinha - disse ela com voz sonolenta.  
- Fique tranqila, no saio de perto de voc.  
Ela adormeceu segurando-lhe a mo.  
Ao despertar, j era noite e ela se encontrava s.  
- Franois! - gritou La, erguendo-se na cama.  
A porta se abriu, deixando passar um raio de luz que iluminou ligeiramente o aposento.  
- Estou aqui.  
- Fiquei com tanto medo que tivesse ido embora...  
- Passei o dia inteiro aqui. Agora, preciso sair e Daniel vem ficar com voc.  
- Tem notcias de Laure?  
- Franck ligou, ela est passando bem. Voc poder v-la amanh. At logo, meu amor, no pense 
em mais nada.  
-  fcil falar. E Sarah? 
- No momento, encontra-se longe de qualquer perigo. No se preocupe, voltarei  noite.  
La adormeceu novamente. Algumas horas mais tarde, acordou sobressaltada.  
- Franois,  voc? - disse em meio  escurido.  
- No,  Daniel.  
- Tive um pesadelo horrvel.  
- Foi por isso que entrei no quarto. Voc gritou e temi que estivesse acontecendo alguma coisa.  
- Franois no regressou?  
- No, deve chegar a qualquer momento. Quer um pouco de caf? Tem um de boa qualidade na 
cozinha.  
- Aceito, obrigada.  
La levantou-se, lavou o rosto e escovou o cabelo no toalete.  
Os dois jovens encontraram-se na cozinha. Tomaram o caf calados. La acendeu um cigarro.  
- Sabe onde se encontra Franois?  
- Tenho uma vaga idia.  
Era a primeira vez que ficavam a ss, cara a cara. No sabiam do que falar.  
- Que horas so? - perguntou La.  
- Quatro da manh.  
Ouviram a chave girando na fechadura da porta de entrada. Surgiram Franois Tavemier e Samuel 
Zederman. Franois parecia exausto, com o rosto barbado, e Samuel estava lvido.  
- Como foi? - quis saber Daniel.  
- Bem - respondeu Franois. - Estvamos certos. Foram realmente aquelas duas mulheres que 
tentaram assassinar Sarah e feriram Laure. Conseguiram escapar, mas prendemos dois cumplices. 
Encontram-se nas mos do servio secreto, sob cerrado interrogatrio. Outro foi morto. A polcia j 
o conhecia, tratava-se de um assassino do bando da rue Lauriston, procurado desde a Libertao.  
- Mas, se elas continuam em liberdade, Sarah ainda corre perigo - disse Daniel.  
- No. Desmantelamos a rede e elas ficaram completamente 
ss. Vai ser muito difcil que passem despercebidas. Nenhuma das duas fala francs e sua 
descrio foi amplamente divulgada. Esta noite, voc vai dormir aqui. Bem, La, vamos nos deitar.  
La notou a expresso de profunda tristeza no rosto de Daniel.  
Franoise tinha toda a razo, pensou, ele est apaixonado por mim.  
No quarto, Franois despiu-se e atirou-se na cama.  
- Venha - disse a La.  
La deitou-se sobre o corpo dele. Como parecia cansado! Ela notou em seus cabelos alguns fios 
brancos que a comoveram. Beijou suas plpebras cerradas, acariciou-lhe o rosto suavemente. 
Pouco a pouco, os traos de seu rosto se descontraram. Ele suspirou. Fez amor com ela, 
lentamente, com um fundo de tristeza, O prazer da relao demorou a se revelar.  
Despertaram com o rudo de batidas na porta. Ouviram a voz de Samuel:  
- Levantem-se! J so quase onze horas.  
- Onze horas! - exclamou Franois, pulando da cama.  
Durante a tarde, La foi ao hospital. O estado da irm estacionara, na opinio do mdico. Franck, 
que no sara de perto de Laure, no se agentava em p. La mandou que fosse descansar e s 
voltasse no dia seguinte. Esgotado, ele concordou. Durante a noite, Laure comeou a delirar, 
chamando pela me, por La, Franck e Daniel. Apavorada, La mandou vir a enfermeira de 
planto. Esta afirmou que no era nada demais, mas aplicou uma injeo na paciente. O resto da 
noite foi tranqilo. De manh, La despertou com o choro de Laure.  
- Tia Esteile... Sinto tanta dor... no quero...  
La pulou da cama e se aproximou da irm.  
- Estou aqui, minha queridinha, estou aqui.  
Ardendo em febre, Laure no parecia reconhec-la.  
- Estou com dor... frio... oh!...  
Um jato de sangue jorrou de sua boca lvida. La gritou.  
- O que houve? Por que gritou? - disse o policial, entrando bruscamente no quarto. - Oh! meu 
Deus!... 
Ele se precipitou para o corredor.  
- Socorro, por favor! Venha logo, irm.  
A freira entrou, acompanhada por uma assistente.  
- Rpido, chame o doutor e a irm Joseph.  
- Irm, ela vai morrer?  
- Reze, minha filha.  
Toda aquela gente da Igreja s sabia dizer isso: "Reze." Como se as preces pudessem deter o 
sangue escorrendo da boca de Laure.  
- Estou com medo... La, estou com medo...  
- No, no... no fale... Estou aqui... o mdico j vem...  
- Mame... mame...  
Levada com urgncia  sala de operaes, Laure faleceu s seis horas da tarde.  
A noite estava sombria, as ruas mal iluminadas. La caminhava s. Perto do Jardin des Plantes, 
assustou-se com os uivos de um lobo. Com o corao batendo aceleradamente, passou a andar mais 
rpido. No pensar... principalmente no pensar... No era verdade, no podia ser verdade... Laure 
no, justo ela, a mais nova.., era injusto demais... Tudo por causa de um tailleur azul... La 
detestava aquele tailleur azul... Era o sangue dela que devia ter jorrado, no o de Laure... Como 
dar a notcia a Franoise, a Estelie?... e Franck?... qual seria a sua reao?... minha querida
irmzinha, me perdoe... Estou comeando a entender Sarah e os outros... Por que matam
inocentes?... no d para aceitar uma coisa dessas... Hoje Laure, e amanh?... Pensou em Charles 
e sentiu uma ameaa pairando sobre o menino. Rpido, ligar para Montillac, certificar-se de que 
tudo estava em ordem.., comeou a correr.  
Na place Saint-Michel deserta, ouvia-se o eco dos seus passos. A rue des Saints-Pres estava 
vazia, abandonada... La experimentou uma certa vertigem. Dobrou a rue de l'Universit, um carro 
passou, a toda velocidade.  
No havia ningum no apartamento, xcaras sujas na pia da cozinha, um cheiro de fumo. La pediu 
uma ligao para Montilac. Aps o oitavo toque, a telefonista respondeu:  
- O nmero no responde. 
- Insista - suplicou La.  
O telefone voltou a tocar.  
- Al!  
- Al,  La, quem fala?  
- Alain Lebrun... Ah,  a Srta. La...  
- No me chame de senhorita... Como vai Charles?  
- Bem, muito bem.  
- Minha tia Esteile melhorou?  
- Al, Alain, est ouvindo?...  
- Sim.  
- Como vai minha tia?  
- Senho... vou passar-lhe Franoise.  
- Al, La?...  
- O que foi?... Est chorando?...  
- Tia Estelie...  
La deixou-se cair numa cadeira, dominada por violenta angstia.  
- Tia Esteile o qu?  
- Faleceu...  
No, gritou La internamente.  
- Faleceu hoje  tarde.  
Como Laure!... meu Deus, por que as duas no mesmo dia... como contar a Franoise?...  
- La... La... est ouvindo?... Responda... Fale, pelo amor de Deus... Compreendo o que voc 
sente... Ela no sofreu... Foi tudo muito rpido... Estava gravemente doente... foi melhor assim...  
Foi melhor assim... Ser que aquela mulher de cabea raspada se dava conta do que dizia?... E 
Laure, era melhor assim?... Tomada por um sentimento de raiva, ela berrou:  
- Laure morreu tambm...  
- O qu?...  
- Isso mesmo: Laure morreu tambm.  
- Se for algum tipo de brincadeira, no tem graa nenhuma... Voc ficou louca?...  
Um imenso cansao tomou conta de La.  
- No se trata de nenhuma brincadeira. 
- No  verdade! ... Diga que no  verdade...  
- Sim,  verdade.  
- Mas como?... Por qu?...  
Por qu?... como se fosse possvel responder... Hoje uma moa e uma anci, amanh...  
- Um acidente... explico-lhe depois... estou cansada, Franoise, to cansada...  
- Eu tambm estou cansada! Quero saber o que aconteceu.  
- Amanh... contarei tudo amanh...  
La desligou; no queria ouvir mais nada. Levantou-se com dificuldade e foi procurar um sonfero 
no armrio do banheiro. No encontrou remdio algum, nem mesmo aspirina; Franois no gostava 
de abusar de produtos farmacuticos. Uma obsesso, dormir... apagar qualquer pensamento... 
Beber, ela precisava beber assim como em Nuremberg, quando de sua chegada  noite aps vagar 
pelas estradas da Alemanha, beber... Na sala, sobre uma mesinha baixa, vrias garrafas: usque... 
conhaque... Marie-Brizard... gim... Encheu um copo de gim e bebeu de um s gole. Como era 
forte!... um copo, outro mais... Titubeando, com a garrafa na mo, ela caiu na cama... A garrafa 
escapuliu e rolou pelo tapete... La mergulhou numa espcie de coma.  
Por que batiam assim na sua cabea?... Ai! ... Aquela luz ofuscante!... Parem!... e essa vertigem...  
- Daniel, chamou o mdico?  
- No, ela s est bbada. No precisa de mdico, mas de uma boa chuveirada.  
- V fazer mais caf.  
Daniel fechou a porta bruscamente. Franois comeou a despir La. No era nada fcil. Ele tinha a 
impresso de lidar com uma boneca de pano. Ela se encontrava finalmente nua quando Daniel 
voltou com uma xcara de caf. Permaneceu na porta, imvel, contemplando aquele corpo 
abandonado.  
- Como ela  linda! - murmurou.  
Com um gesto irritado, Tavemier cobriu-a.  
- Deixe-nos a ss. 
Ajeitou La na cama e tentou fazer com que ela bebesse; um pouco de caf escorreu pelo queixo e pelo 
pescoo; ela gemeu. Franois deitou-a novamente, foi buscar uma toalha mida e limpou-lhe o rosto e o peito; 
os olhos de La abriram-se em meio a uma nvoa rodopiante:  
- Laure...  
As lgrimas brotaram, escorrendo pelo rosto.  
- J sei, meu amor, pode chorar.  
Durante alguns instantes, ele a manteve em seus braos, soluando.  
Impotente, ele se sentia totalmente impotente para consolar a mulher amada.  
- Tia Esteile...  
- Meu amor, tome o caf, vai lhe fazer bem.  
La empurrou violentamente a xcara de caf, que caiu na cama.  
- Ela morreu, tia Estelle morreu!... Ouviu? Morreu! ... como Laure!  
Um profundo desnimo tomou conta daquele homem to vigoroso. Por que tantos sofrimentos, tantas mortes, 
 sua volta? Ele nada podia fazer e deixou que La chorasse. Mais tarde, ela se levantou e, completamente nua, 
dirigiu-se ao toalete; ele a ouviu vomitar e, em seguida, abrir a torneira do chuveiro, onde demorou bastante. 
Ao sair do banheiro, com o cabelo encharcado, Franois se assustou com a palidez e a expresso de seu rosto; 
La havia parado de chorar. Mas agora era pior, percebia-se todo o seu desespero.  
Trs dias mais tarde, partiram para acompanhar o corpo de Laure. No salo de Montillac, o caixo de Estelle 
esperava. Franoise e La abraaram-se, caladas, sem uma lgrima. A p, acompanharam o carro fnebre at a 
igreja. A baslica estava lotada de amigos, vizinhos, gente da regio, todos transtornados com tanta desgraa. 
Padre Henri proferiu palavras de amor e paz. Franoise sensibilizou-se, mas o corao de La permaneceu
impenetrvel em sua dor.

Captulo 18

Minha querida,
A viagem para Buenos Aires est marcada para 10 de outubro. Eu contava poder vir me
despedir mas, depois de Londres, j estou sendo enviado  Alemanha, de onde s retornarei
na vspera do dia 10. Sarah, Samuel e Daniel tambm partem; Daniel viajar em outra data.  
Encontrei Victoria Ocampo em Londres e ela me disse que ficaria muito contente se pudesse 
receb-la em sua propriedade nos arredores de Buenos Aires, em San Isidro. Vai escrever 
diretamente para confirmar o convite. Eu no gostaria que voc aceitasse, pois este pas  
muito instvel, politicamente falando; existem riscos e  melhor manter-se afastada de tudo 
isso. Tente retomar suasforas naquela regio que lhe  to cara. Mais do que nunca, todos 
precisam de voc em Montillac, e  no trabalho que conseguir encontrar a paz. No entanto, 
se voc preferir vir a Paris, o apartamento da rue de l'Universit  seu. Depositei em seu 
nome, no meu banco, uma certa soma. Use o que for necessrio sem escrpulo algum, e 
lembre-se de que tudo o que me pertence tambm  seu.  voc a mulher que amo e que 
considero minha esposa. Sei que chegar o dia em que poderemos viver juntos, sem receio e 
sem presses.  
Admirei sua coragem naqueles dias to difceis; voc se saiu muito bem, minha querida e 
valente garotinha/ Minha admirao por voc  to grande quanto o meu amor 
Escreva-me para a embaixada da Frana em Buenos Aires, o embaixador  meu amigo.  
Sinto saudades, minha querida, e a cada dia sofro mais com sua ausncia. Pense no homem 
que a adora,  
Franois.  
Estou pouco ligando, se ele me admira e me acha valente, e me ama!... Nada disso fez com que 
deixasse de viajar com outra mulher que usa seu nome... ele est rindo da minha cara... Ser que 
pensa que vou ficar esperando feito uma boba? Eu devia fazer exatamente o que ele diz: gastar todo 
o seu dinheiro... Como ele consegue falar em paz se, dentro de mim, reina um caos total?... Ele no 
entendeu nada! Ningum precisa de mim em Montillac, Alain e Franoise arranjam-se muito bem e 
Charles, com eles, encontrou uma verdadeira famlia... Todos se mostram muito gentis com a pobre 
Lisa, que no pra de chorar, e com Ruth... eu me sinto como um peixe fora d'gua naquele 
contexto... Montillac... os vinhedos.., na verdade, sou muito ligada a todos eles e, ao mesmo tempo, 
quase que indiferente, como se nada mais me dissesse respeito... eu gostaria de saber qual  
realmente o meu lugar... no me sinto bem em parte alguma...  
La no respondeu quela carta. No dia seguinte, recebeu o convite de Victoria Ocampo e escreveu 
de volta na mesma hora.  
Cara Senhora,  
Seu amvel convite deixou-me muito comovida. Minha vontade de aceitar  imensa, mas est 
a par das desgraas que se abateram sobre a minha famlia; se eu me ausentasse agora, 
receio que meus parentes ficariam magoados. Esteja certa de que me lembrarei do seu 
convite assim que essa viagem for vivel.  
Aqui a vida continua difcil, pois falta-nos praticamente tudo:  
carvo, po, carne, tecido. Repetimos no dia-a-dia os hbitos que nasceram durante a 
guerra e a ocupao: criao de gado de pequeno porte, horta, trocas. E assim que 
conseguimos sobreviver  
Assim como a senhora, acompanhei o processo de Nuremberg.  
Fiquei surpresa com a relativa demncia do veredicto: doze condenaes  morte para vinte 
e dois rus. Por que os outros dez foram considerados menos culpados? Li na revista 
L'Illustration que Fritsche e Schacht chegaram ao cmulo de dar autgrafos!... Parece at um 
pesadelo!  
Franois Tavernier viaja em breve para Buenos Aires; tero certamente a oportunidade de se 
encontrar  
Mais uma vez meu muito obrigada cara senhora, por sua carta to gentil. Receba a 
expresso de meus melhores sentimentos.  
La.  
Sob um determinado aspecto, La seguiu os conselhos de Franois; mergulhou de cabea no 
trabalho. Participou da vindima junto com prisioneiros alemes e operrios agrcolas, carregou 
pesadas cestas, auxiliou Ruth na cozinha, Alain Lebrun nas contas, ajudou Charles com os deveres 
de casa, percorreu o campo com sua velha bicicleta azul em busca de mantimentos e cogumelos. 
Fumava e bebia muito: no existia mais nenhuma tia Estelie para censur-la carinhosamente. Sua 
expresso tristonha, alis, desanimava quem pretendesse conversar abertamente com ela.  
Certa noite em que o humor de La mostrava-se ainda pior do que de hbito, Jean Lef'evre, que 
viera jantar, disse-lhe:  
- Voc deveria sair com mais freqncia. Por que no vem comigo a Bordeaux? A gente podia ir ao 
teatro, ao cinema...  
- No estou com vontade.  
- O que est acontecendo com voc? No a reconheo mais. Entendo que as mortes de Laure e da 
Srta. de Montpleynet a transtornaram, mas precisa reagir; a vida continua.  
- E para sua me, a vida continua?... Deixe-me em paz, estou bem assim.  
- No, no est nada bem. Basta olhar para voc. Perdeu a alegria de viver, toda sua vitalidade, 
mata-se de tanto trabalhar, deixou de ler, nem liga mais para si prpria, no  mais aquela de quem 
todos ns gostvamos... Oh, desculpe!... Eu no queria mago-la.  
Jean faria qualquer coisa para parar aquelas lgrimas que ele mesmo provocara; ela chorava em 
silncio, de boca aberta, como se sentisse falta de ar.  
- No  verdade, gostamos muito de voc, eu a amo,  por isso que sou to desastrado. La, pelo 
amor de Deus, pare de chorar!  
Desajeitado, Jean apertou-a nos braos; seu rosto mido, o perfume dos seus cabelos perturbaram-
no profundamente. Reviu-a completamente nua na fazenda Canelos, lembrou-se do corpo que se 
entregava, que ele prprio e o irmo amaram por uma noite. Tentou apagar essas imagens... 
impossvel, faziam parte dele, para sempre arraigadas. Beijou o cabelo, os olhos, o pescoo, a boca, 
suas mos deslizaram pelas costas de La, pelos quadris, levantaram a saia... Ela cessara de chorar, 
atenta. Encontravam-se no escritrio de seu pai; afastou-se de Jean e fechou a porta a chave. 
Febrilmente, La desabotoou a blusa, deixou cair a saia e a calcinha e revelou-se ento, esbelta e 
bronzeada. Com um gemido de prazer, Jean levou-a at o sof. Tal qual aquela noite memorvel, ela 
o ajudou a se despir; Jean, atordoado, deixou que ela agisse.  
- No est aborrecida comigo?  
- Claro que no - respondeu La, acendendo um cigarro.  
- Foi timo.  
- Estou to feliz... se voc soubesse como estou feliz!  
- Que bom.  
- Quando vamos casar?  
L vinha ele com a mesma mania! La nem pensara nisso. Para Jean, o que acontecera significava 
uma aprovao quanto ao casamento. Como faz-lo entender que no se tratava disso, e que ela s 
se entregara devido a um profundo sentimento de carncia e solido? Se revelasse a verdade, ele 
ficaria magoado para sempre. Como sair dessa situao sem grandes estragos?  
- Mas eu j disse, no pretendo me casar.  
- Mas todas as mulheres tm vontade de casar!  
- Talvez, mas eu no.  
- Como, depois do que houve entre ns... 
- E da? O que aconteceu  muito natural entre um homem e uma mulher, nada de to extraordinrio 
assim!  
Jean, com o rosto em chamas, baixou a cabea.  
- Vamos, olhe para mim, qualquer mulher gostaria de se casar com voc. Vai encontrar uma moa 
legal...  
- Cale-se! Eu a amo, e  s. Amo-a desde criana, desde ento s penso em despos-la...  
- Tudo no passa de sonho infantil. Raoul tambm, aos dez anos, sonhava em se casar comigo.  
- Como j disse, se voc escolhesse Raoul, eu aceitaria, embora me sentisse muito infeliz; com ele, 
voc teria sido feliz.  
- Com toda a certeza, mas eu tambm no o amava... Pronto, j falei, eu no o amo... gosto muito de 
voc, como se fosse meu irmo, muito mesmo, mas no para casar.  
- Continua apaixonada por aquele Tavernier?  
- Pois , estou apaixonada por aquele Tavernier, como voc disse...  
- Mesmo depois do casamento dele?  
- Isso  problema meu. Se quer manter a nossa amizade, no toque mais no nome dele... Agora, me 
deixe, j  tarde e estou com sono.  
Profundamente magoado, Jean Lefvre saiu do aposento.  
A vida continuou, mais triste e montona do que antes. Certa ocasio, em que La se sentia 
particularmente deprimida, enviou um telegrama a Victoria Ocampo. Esta respondeu simplesmente:  
"Venha." La pediu a uma agncia de viagens de Bordeaux que lhe reservasse um lugar a bordo de 
um navio para a Argentina. Foi bastante difcil, os transatlnticos franceses encontravam-se super- 
lotados; restavam as linhas estrangeiras. Encontraram um lugar na primeira classe no Cabo de 
Buena Esperanza, saindo de Gnova em 11 de novembro. Mal sobrava tempo para as formalidades. 
Agora, ela precisava anunciar sua viagem a Charles e a Franoise.  
- Se acha que  melhor para voc - foi o nico comentrio de Franoise.  
Com Charles, no foi to fcil. O menino chorou, expressou 
toda sua tristeza numa linguagem infantil comovente. A promessa de um traje de gacho e de um 
rpido regresso acalmaram um pouco sua aflio.  
Na vspera de sua partida para Paris, La foi at o tmulo dos pais, de Esteile e Laure. Com todos 
eles, deixava para trs sua infncia e sua mocidade. Com 24 anos apenas, j se sentia velha e, 
aparentemente, perdera todo seu entusiasmo. Profundamente carente e solitria, permaneceu 
sentada na laje tumular, dominada por intensa sensao de desamparo. Nem mesmo percebeu que 
padre Henri a observava.  
- Vim para me despedir; sua irm me disse onde voc estava.  
- Obrigada, padre. Deixo aqui tudo o que mais amo.  
- No, eles se encontraro com voc para sempre, como o Amor eterno. "Aonde voc for, no se 
esquea das coisas simples, seja receptiva s outras, abandone todo egosmo,  amando que se  
amado. No tenha medo de viver de olhos abertos, sabendo da existncia de todos os horrores do 
mal e das maravilhas do belo; no tenha medo de ir ao encontro do novo. O absurdo absoluto para 
um ser humano  de saber que est vivo sem nenhum objetivo..."  
- Sem nenhum objetivo?  exatamente o meu caso.  
- No tem o direito de falar assim. Pense em todos os desgraados. "Quando perdemos tudo... (ou 
demos tudo), ou ento quando enfrentamos enormes dificuldades, existem apenas dois tipos de 
comportamento: podemos nos isolar em nossa prpria dor, alheios a tudo e a todos, prostrados, 
amargos e desesperados; ou ento, ao contrrio, com a mesma intensidade da nossa dor, podemos 
pr em prtica uma abertura, uma espcie de permeabilidade, uma compreenso intuitiva e 
apaixonada do desamparo de outrem. Tal atitude,  claro, se faz acompanhar de um violento 
combate ntimo. Cada um de ns conserva seu temperamento, suas deficincias, seus defeitos... 
Basta enfrent-los. Ningum consegue realizar essa tarefa sozinho. Essa abertura  sempre o 
resultado de inmeros encontros. Ora o encontro de vrios indivduos que se entendem de imediato, 
que se ajudam uns aos outros e possuem o mesmo desejo de servir. Ora o encontro inicialmente 
invisvel, surgindo no mago do ser humano, com o absoluto. A sua maneira, este se manifesta 
e, como um amigo ntimo, pergunta "Voc quer?', e respondemos 'sim'. Algumas pessoas chamam-
no de Eterno que  Amor. Outras no lhe do nome algum. Entretanto, essas tambm o amam e 
consentem."  
- Consentem com qu?  
- "Com o Amor. O amor? Isto  essa violenta paixo, a paixo da comunho, a qual exige o ato de 
servir a quem sofre mais, antes de servir a si prprio. Quem deseja viver em plenitude, seja qual for 
sua condio, deve um dia passar por esse caminho. Tal tipo de enriquecimento, de plenitude, que os 
nicos limites humanos de nmero, tempo, espao e iluso conseguem romper, s pode ser 
alcanado atravs de uma extrema privao. O mundo s continua vivel porque a cada dia, em 
toda parte, seres humanos, atravs de suas desgraas, conseguem se abrir e recusam o isolamento. 
Abrem e iluminam um caminho por onde a multido pode caminhar, aos tropeos, mas sem 
desalento. Existem poucos seres humanos que, por no terem sofrido o bastante, ignoram o que 
significa sofrer, sofrer sem escapatria. Seriam inocentes devido a tal desconhecimento? Claro que 
no. Pois foram concedidos aos seres humanos dois caminhos para penetrar nesse conhecimento:  
sofrer inadivertidamente, de alguma maneira, ou ento amar. E ser que existe algum capaz de ser 
absolvido por ter vivido sem nunca amar?"  
- Sofrer dentro de si mesmo!... Como explica ento os milhes de homens, mulheres e crianas que 
sofreram dentro de si mesmos? No eram ignorantes nem maus, e o que aconteceu com eles?  
- Eu poderia lhe afirmar que dormem na paz do Senhor, no que acredito profundamente; mas voc 
no aceitaria minha resposta, pois seu corao est repleto de dio e ressentimento. No entanto, 
existe em voc uma grande disponibilidade para o amor. H de chegar o dia em que sua confiana 
no homem, na humanidade, voltar a se manifestar... No ria, conheo as qualidades do seu 
corao e sua generosidade. Sob uma capa ftil, talvez, esconde-se uma imensa sensibilidade para 
com seus semelhantes, para com seus sofrimentos. " difcil fazer aceitar que, apesar de tudo, o 
Eterno  Amor. Sim, como explicar que  possvel ser 'crente apesar de tudo', quando os meios de 
comunicao nos mostram simultaneamente todos os horrores e todas as maravilhas do mundo? 
Para mim, s foi possvel no dia em que compreendi o quanto nos enganamos a respeito do Eterno. 
Ns o caricaturamos segundo a nossa imagem humana. Porque, quando o homem  poderoso, 
tambm  dominador; e assim fomos levados a imaginar que o Eterno, pelo fato de ser Todo-
Poderoso, tambm  dominador..."  
- Mas no foi Deus quem nos criou  sua imagem?...  
- " no amor que nos parecemos com Deus. Deus nos criou livres para sermos capazes de amar; 
esta liberdade  a verdadeira grandeza do homem. Deus, por ser Amor,  o "Todo-Poderoso-cativo'. 
Se Deus fosse dominador, deveria ser condenado. Foi Camus quem afirmou: "Jamais aceitarei 
entregar a minha f a um Eterno criador de um mundo no qual choram e sofrem crianas inocentes. 
Convm vingar Deus do insulto que lhe fizeram ao apresent-lo como Todo-Poderoso-dominador.' 
Convm ving-lo mostrando-o "Todo-Poderoso-cativo-por-amor'. Assim como convm vingar o 
homem, pois foi terrivelmente enganado."  
- Vingar o homem? Isso sim, mas como?  
- "Amando. Vingar o homem, vingar Deus amando."  
luz do sol poente, o rosto do monge irradiavabondade a amor. Aquele amor em seu Deus, nos 
homens, que ele tentava transmitir a La. Ela no permaneceu insensvel ao seu discurso exaltado 
que, em certos momentos, lembrava os de seu tio Adrien. Mas aonde fora parar esse tio, com sua f 
em Deus, no homem?... No inferno, se  que o inferno existia...  
- Vou pensar em suas palavras, padre, e tentarei no esquecer que a vingana passa pelo amor.  
Vingar-se amando, pensou La. Preciso falar com Sarah a respeito.  
Regressaram calados a Montillac, passando pelo calvrio que domina o campo, enquanto o sol 
desaparecia num ltimo fulgor.

Captulo 19

Reclinada numa espreguiadeira do Cabo de Buena Esperanza, coberta com uma manta, La
rememorava seus ltimos dias na Frana: o jantar em Montillac, na vspera da viagem, com toda a 
famlia, Jean Lefvre, a me dele e o padre Henri. De comum acordo, s falaram de coisas banais. 
La mostrara-se alegre e carinhosa com todos. Agora que chegara a hora de deix-los, ela percebia 
quanto os amava e quantas saudades iria sentir. Quando todos saram ou foram dormir, La deu 
uma volta pelo velho casaro e desceu at o terrao para um ltimo adeus. Em cada momento 
importante de sua vida, em cada partida como em cada regresso, ela costumava buscar fora e 
determinao naquele terrao, frente  aprazvel paisagem de vinhedos, bosques e prados. Mais uma 
vez, experimentava uma sensao de ruptura, de ida sem volta. Qual o seu destino? Ela no sabia 
responder, apenas pressentia novos sofrimentos.  
De sua permanncia em Paris, ela guardava uma confusa lembrana. A presena diria de Franck, 
que no aceitava a morte de Laure, seus passeios, os filmes que viram juntos, as lojas onde fizeram 
compras com o dinheiro de Franois, tudo aquilo formava um emaranhado, assim como seu trajeto 
at Gnova para embarcar em companhia de Daniel Zederman e Amos Dayan. No navio, 
separaram-se; os dois rapazes viajavam na segunda classe e La sentiu-se aliviada, pois desejava 
ficar sozinha. Durante a escala em Barcelona, ela pde admirar os jardins de Gaud, passear pelas vielas da cidade e assistir com Daniel a um 
espetculo de flamenco numa boate do porto. Em Lisboa, permaneceu no navio, com enxaqueca e 
febril. Uma noite, convidada  mesa do capito, conheceu um holands de Amsterdam viajando a 
negcios: tratava-se de Rik Vanderveen, um homem de cerca de trinta anos, simptico apesar de 
uma certa frieza. Falava um excelente francs com ligeiro sotaque, afirmava ser um colecionador de 
obras de arte, grande amador da pintura surrealista, correspondendo-se regularmente com Andr 
Breton, Marcel Duchamp e Salvador Dali, que ele conhecera na casa de Lise Deharme, mulher 
lindssima e culta cuja residncia situava-se perto dos Invalides. Todas essas conversas sobre arte e 
literatura recordavam a La as que mantivera com o querido Raphal Mahl. Inicialmente, 
encontravam-se no bar todas as noites na hora do aperitivo, em seguida aps o jantar, e por fim 
acabaram sentados lado a lado na mesma mesa, em companhia de dois senhores cinqentes que s 
falavam ingls com um terrvel sotaque.  
Certo dia, ao chegar atrasada para o almoo, no foi notada e pde ouvir os trs homens falando 
alemo em voz baixa; por um instante, La experimentou um certo mal-estar. O sedutor holands 
tornou-se em pouco tempo o maior admirador de La. Cortejava-a discretamente, e ela se mostrava 
bastante receptiva. No entanto, sentia-se irritada com a curiosidade do homem a seu respeito: de 
onde ela vinha? Qual a ocupao de seus pais? Tinha irmos? Estava noiva? Por que viajava para a 
Argentina? Na casa de quem pretendia hospedar-se? Quanto tempo pensava ficar na Amrica do 
Sul? Possua amigos em Buenos Aires? De brincadeira, mais do que por desconfiana, La 
inventara uma famlia, uma vida de jovem despreocupada e sem problemas. A nica coisa sobre a 
qual falou a verdade foi o convite de Victoria Ocampo, sem fornecer porm maiores detalhes.  
Rik Vanderveen danava muito bem, talvez um pouco duro, o oposto do to desenvolto Franois 
Tavernier; mas seu desempenho era muito agradvel, principalmente no tango. Todas as noites, La 
bailava at as duas da manh. Sua juventude e beleza animavam  
aquelas noites um tanto ou quanto formais; ela no recusava ningum que a convidasse, mas dava 
preferncia a Vanderveen. Certa noite, ao lev-la at a porta da sua cabine, ele a puxou para si e a 
beijou. La no resistiu e demonstrou inclusive um certo prazer; em seguida, com ar provocante, 
fechou a porta na cara dele. Aps entrar na cabine, acendeu a luz e deu um berro.  
- La, o que aconteceu? - gritou Vanderveen por trs da porta. Com um dedo nos lbios, Amos fez 
sinal para que ela respondesse.  
- Nada. Esbarrei na escrivaninha. Boa noite, at amanh.  
- Tem certeza de que no precisa de nada?  
- Claro, muito obrigada. Boa noite.  
- Boa noite.  
Sem tirar o dedo dos lbios, Amos afastou La da porta.  
- O que faz aqui? - disse ela em voz baixa.  
- Estava esperando por voc. Faz muito tempo que conhece esse homem?  
- Quem?  
- Rik Vanderveen.  
- Desde o dia em que embarquei. Simpatizamos logo.  
- No observou nada de estranho?  
- No. O qu, por exemplo?  
- Quais so suas relaes com as outras pessoas da mesa?  
- Com o Sr. Barthelemy e o Sr. Jones? So apenas companheiros de mesa. Costumam se 
cumprimentar, mas conversam pouco... Ah, sim! Uma vez.., os trs estavam falando alemo.  
- O que diziam?  
- No entendi muito bem, falavam em voz baixa e se calaram quando cheguei... Acho que ouvi as 
palavras "submarino" e "Crdoba"... Est imaginando que sejam fugitivos nazistas?  
- No sei. Tentamos obter informaes pelo rdio. Por enquanto, seja pmdente e veja se consegue 
maiores detalhes a respeito deles.  
O ar fresco fez La estremecer; dobrou a manta e retornou  cabine.  
Um buqu de rosas com um carto enfeitava a penteadeira: "Espero  
por voc hoje  noite no bar, Rik." E se fosse um nazista?, pensou. Parecia difcil. Ele j no 
lhe relatara sua averso  guerra e s atrocidades cometidas pelos alemes? O fato de falar alemo 
no era surpreendente, muitos holandeses dominavam essa lngua. Amos e Daniel estavam 
enganados, viam nazistas por toda parte. No entanto, La continuava preocupada; tomou a firme 
deciso de se mostrar mais prudente e tentar saber mais a respeito de Rik Vanderveen.  
Para o jantar, ps um vestido longo de crepe marfim com a blusa drapeada e penteou para cima o 
cabelo ondulado. Sorriu de satisfao ao ver-se no espelho.  
Reinava uma grande animao no bar. Jocelito, o pianista, tocava uma valsa lenta e Ricardo, o 
barman, especialista em deliciosos coquetis, sacudia energicamente seu shaker. Sorriu quando La 
entrou.  
- Buenas tardes, senora.  
- Boa noite, Ricardo.  
- Preparei um coquetel em sua homenagem, senhorita, em homenagem  Frana; quer experimentar?  
- Com muito prazer. Como se chama essa bebida?  
- Segunda DB, senhorita.  
O fantasma de Laurent d'Argilat com seu tanque passou. La pegou o copo e bebeu em lembrana 
ao rapaz desaparecido.  
-  muito bom, mas fortssimo.  
- Cuidado com as misturas de Ricardo, so terrveis - comentou Rik Vanderveen, aproximando-se do 
bar.  
- Obrigada pelas rosas, Rik, so magnficas.  
- Vamos sentar. O que deseja tomar?  
- Outro segunda DB.  
- Conheceu algum naquela diviso?  
- Sim, um amigo muito querido que foi morto na Alemanha.  
Vanderveen suspirou.  
- Todos perdemos inmeros amigos nessa guerra.  
- Onde esteve exatamente naquele perodo, Rik?  
- Em 40, fui feito prisioneiro. Passei os quatro anos num campo de oficiais. 
- Foi muito duro?  
- Bastante; mas nada demais comparado aos sofrimentos dos judeus nos campos de concentrao.  
- Tem amigos judeus?  
- Alguns. E voc?  
- Tive um que morreu; e uma grande amiga, que foi deportada.  
- Ela voltou?  
- No sei - mentiu La.  
Durante alguns minutos, beberam calados.  
- Conhece os senhores Barthelemy e Jones?  
- Tanto quanto voc. Sei que esto indo  Argentina para tratar da exportao de carne e que ambos 
so irlandeses. Qual a razo da pergunta?  
- Nada no. Vamos jantar, estou com fome.  
Aps a refeio, La queixou-se de enxaqueca e voltou para sua cabine, onde encontrou uma 
mensagem lacnica de Daniel:  
"Esteja amanh domingo na capela para a missa." Pensativa, ela se deitou mas no conseguiu 
adormecer; levantou-se, vestiu uma cala comprida e um pulver e foi at o convs. Ouviu msica 
no salo onde havia gente danando. Encostada na popa, com os cabelos esvoaantes, ficou olhando 
o mar iluminado pela lua. Um cu espetacular mostrava-se coalhado de estrelas. Franois estaria 
olhando para o mesmo cu, pensando nela, ou j se esquecera de tudo?... La no o avisara de sua 
chegada. No caso de Tavernier no ter encontrado Victoria Ocampo, ficaria profundamente 
surpreso, zangado talvez. Em compensao, Sarah experimentaria o maior prazer em rev-la. Quem 
sabe eu possa ser til?, pensou. Um rudo de vozes despertou-a de seus pensamentos; uma dentre 
elas pareceu-lhe familiar. Intuitivamente, escondeu-se atrs de um rolo de cordas. S conseguiu 
ouvir fragmentos de frases em alemo:  
"Ajudar colegas... autoridades aliadas.., internacional sionista... felizmente Pern... numa estancia 
na Patagnia... nosso tesouro de guerra... seremos os mais fortes... Cuidado... tem algum 
chegando... Ah,  voc.., no, no sabemos de nada... nos encontraremos em Buenos Aires...  
melhor nos separarmos, no devemos ser vistos juntos..." 
Logo em seguida, aqueles homens se afastaram. La saiu do esconderijo: reconhecera perfeitamente 
a voz do Sr. Barthelemy. Amos e Daniel tinham toda razo!... Amanh cedo, iria avis-los. Aps 
olhar  sua volta, retornou rapidamente  sua cabine.  
Quando La chegou, a pequena capela do navio j se encontrava superlotada. Os fiis que no 
conseguiram lugar assistiam de p ao ofcio. Perto da porta, encontravam-se seus dois amigos, meio 
acanhados. La se aproximou. Disfaradamente, Daniel ps um pedao de papel em sua mo; por 
sua vez, ela tambm lhe entregou um no qual relatava o que ouvira na noite anterior.  
Aps a missa, os passageiros da segunda classe regressaram ao seu convs. Rik aproximou-se de 
La.  
- Dormiu bem? E sua enxaqueca, j passou?  
- Sinto-me tima, e o tempo est lindo. Amanh, fazemos escala no Rio. Conhece o Brasil?  
- J estive l antes da guerra.  um pas muito bonito, mas h muitos negros. Quer me dar o prazer 
de passear comigo pela cidade?  
- Talvez.  
- Como assim, talvez? No sou seu fiel escudeiro? Voc no conhece ningum a bordo para 
acompanh-la, e caminhar sozinha pelas ruas pode ser perigoso.  
- O que poderia me acontecer?  
- Na melhor das hipteses, corre o risco de ser importunada. O homem sul-americano costuma ser 
muito mais insinuante que o europeu. Ento, aceita o meu convite?  
- Veremos, amanh  outro dia. Queira me desculpar, tenho hora marcada no salo de beleza.  
- Muito bem, at j.  
"Esteja em sua cabine s duas horas da manh, tenho coisas importantssimas para contar. Tome 
muito cuidado. Assinado: Daniel." Parece um verdadeiro romance de espionagem, pensou La, que 
rasgou a mensagem em mil pedacinhos, enquanto vigiava o cabeleireiro pelo espelho. Para disf 
arar, deu uma rpida olhada nas 
revistas francesas, espanholas e americanas. Uma longa reportagem sobre de Gaulie chamou sua 
ateno. Falavam de sua carreira militar, mas nenhuma palavra sobre suas atividades desde aquele 
ms de janeiro, quando resolvera retirar-se da poltica. Ela se lembrou de sua decepo e profunda 
tristeza. Como, ele tambm, o grande homem abandonava o navio e por qu? "A honra, o bom 
senso, o interesse da ptria proibiam-me de continuar desempenhando uma funo cujo objetivo 
final seria deixar o Estado mais desprezado, o governo mais impotente, o pas mais dividido e o 
povo mais pobre. Por isso, eu deixei um cargo que me parecia ter sido entregue apenas para me 
impedir de exerc-lo." Desde ento, a Frana chafurdava em meio a desavenas partidrias; o belo 
ideal da Resistncia no sobrevivera muito tempo ao fim da guerra. Dentro de um ms, o Natal 
chegaria, um Natal ao sol. Ser que conseguiria experimentar a mesma alegria dos Natais de 
outrora? Uma profunda nostalgia apossou-se dela. Sentada no secador, sentiu-se desconfortvel, O 
cabeleireiro, um efeminado que no falava uma s palavra de francs, aproximou-se para atend-la.  
Pela primeira vez durante a viagem, La sentiu-se irritada. Temia encontrar-se com Rik Vanderveen 
na hora do jantar e receava ainda mais seu encontro tardio com Daniel.  
Contrariando todas as expectativas, o jantar foi alegre e divertido. Convidada juntamente com Rik  
mesa do capito, conheceu umajovem argentina que trabalhava na rdio de Buenos Aires. Num 
francs razovel, a encantadora Carmen Ortega narrou com muito humor suas discusses com Eva 
Duarte, esposa do presidente. Durante algum tempo, moraram juntas no mesmo apartamento da 
calle Posadas, uma linda rua arborizada; no entanto, acabaram por se separar aps vrias altercaes 
a respeito dos seus respectivos amantes. Eva era resentida' , como j revelara em diversas ocasies. 
Vaidosa, invejosa, para ela toda mulher representava uma rival. Fingia-se freqentemente de 
menina ingnua para atrair as atenes. Carmen falou do encontro entre Eva e Pern no Luna-Park,  
e como a bela atriz Libertad Lamarque fora afastada. Morena e com um corpo perfeito, Carmen 
Ortega possua o dom inato de representar. Ao final da refeio, tornara-se amiga de La.  
J eram quase duas horas da madrugada quando La voltou  sua cabine. Acabara de entrar quando 
bateram  porta.  
-  Daniel. Pode abrir.  
O rapaz entrou precipitadamente.  
- Amos e eu tnhamos razo, Barthelemy e Jones so realmente fugitivos nazistas, e dos piores: um 
foi mdico no campo de Buchenwald, o outro auxiliar do comandante do campo de Dachau. 
Chamam-se Adolf Reichman e Maurice Duval.  
- Esse nome  francs.  
- , famlia de origem francesa. O antepassado chegou  ustria no sculo XVII.  
- E Rik Vanderveen?  
- No encontramos nada a seu respeito. Parece realmente ser holands, todos seus documentos esto 
em ordem. Obteremos maiores detalhes em Buenos Aires. E do seu lado, quais so as novidades?  
- Nenhuma. Amanh, vou desembarcar com ele e observ-lo atentamente.  
- Seja muito prudente, Barhelemy e Jones andam desconfiados. Querem saber mais a seu respeito.  
- E quanto a vocs dois, algum problema?  
- De certa forma, sim, mas  exatamente o que queramos. Dois passageiros da segunda classe 
acreditam que somos alemes foragidos da Europa.  claro que fazemos tudo para que pensem o 
contrrio, sem deixarmos de cometer pequenas imprudncias. Relacionam-se com os seus dois 
companheiros de mesa. Na chegada em Buenos Aires, teremos de evitar ao mximo que nos vejam 
juntos, seria muito perigoso para todos ns. Por enquanto, felizmente, ningum notou que nos 
conhecemos e nossa sada em Lisboa passou despercebida. Convm ficarmos separados at a 
chegada, exceto em caso de extrema urgncia. Sabemos onde encontr-la, aguarde notcias nossas.  
Rik Vanderveen no experimentou o menor prazer em servir de cicerone s duas novas amigas que 
descobriram encantadas as imensas praias do Rio, suas ruas animadas, suas luxuosas butiques. Para 
La, tanto luxo e tanto exagero aps a penria da Europa pareciam surgir de um sonho. Mal 
percebeu toda a misria das favelas, avistadas de longe durante um passeio de txi, dominada pela 
alegria contagiante dos brasileiros. Embarcaram carregadas de embrulhos.  
Durante os ltimos dias da viagem, La e a amiga permaneceram juntas o tempo todo, o que deixou 
Vanderveen profundamente irritado; prometeram encontrar-se em Buenos Aires.  
O navio acostou segunda-feira, 16 de dezembro, s sete horas da manh. O tempo apresentava-se 
nublado e fresco. Havia um carro  espera de La. O chofer, enviado por Victoria Ocampo, explicou 
que esta precisara viajar para Mar del Plata por alguns dias e pedia que La a desculpasse. 
Reservara-lhe um quarto no Plaza Hotel, cujo gerente era seu amigo. Assim que regressasse, viria 
buscar La para lev-la a San Isidro. Enquanto isso, o gerente colocava-se  sua disposio para 
mostrar-lhe a cidade.  
- Que sorte a sua! O Plaza  excelente, adoro o lugar. Vamos nos encontrar no bar, s nove da noite? 
Depois, poderamos jantar juntos.  
- Com o maior prazer, at logo mais.  
No Plaza, o gerente, que j estava  espera, levou-a pessoalmente at o seu aposento.  
- Se precisar de alguma coisa, pode mandar me chamar. Vou lhe enviar a camareira. Concede-me a 
honra de almoar comigo?  
- Mas  claro.  
- Ento at breve, vou esper-la no restaurante.

Captulo 20

- J tinham me avisado, mas no acreditei que fosse verdade, O que faz aqui?
- No est vendo? Passando frias.
La reprimiu o violento impulso de se atirar nos braos dele. Mas o principal era no demonstrar 
sua alegria por rev-lo, no deixar que percebesse quanto ela o queria.  
Santo Deus, como ela era linda, ainda mais desejvel que antes, como se isso fosse possvel! Por 
mais que Franois tentasse se mostrar zangado, sentia-se feliz, profundamente feliz com a presena 
de La, apesar de todos os problemas que, fatalmente, iriam ocorrer.  
- Victoria Ocampo me disse que a convidou e que voc aceitou, mas no imaginei que viesse.  
- Voc se enganou; cheguei.  
- Quanto tempo pretende ficar?  
- No sei. Oh! Franois... tudo ficou to difcil, to triste!... Eu tinha a impresso de mergulhar num 
tdio cada vez mais profundo... No parava de pensar em Laure... naquela morte absurda... que era 
eu que deveria ter morrido... E toda aquela monotonia, o imenso desencanto que tomou conta da 
Frana...  pior do que durante a guerra, cada pessoa s pensa em si, em seu dinheiro, seu sustento. 
O mercado negro nunca foi to divulgado, o comrcio dos tquetes de abastecimento to amplo... A 
presena dos americanos chega a ser quase to desagradvel quanto a dos 
alemes; trocamos as tropas de ocupao por outras... Todos tm a impresso de que no h sada... 
Aqui, tudo parece mais fcil, as mulheres so elegantes, os homens bem-trajados, as feiras esto 
repletas de alimentos e as lojas, de mercadorias. Encontra-se chocolate da melhor qualidade. Os 
argentinos s pensam em se distrair e namorar.  
- Trata-se de uma especialidade do pas. O macho argentino, em qualquer lugar, sempre d um jeito 
de tocar no brao ou na perna de uma mulher, isso na melhor das hipteses.  
- Pensei que todos os homens agissem dessa maneira.  
- Com voc, no resta a menor dvida-disse, ele abraando-a.  
- Largue-me!  
- Nada disso, faz no sei quantas semanas que s penso em voc e que no tenho...  
- No tem o qu? - disse ela, debatendo-se.  
- Sabe perfeitamente a que me refiro. Mas talvez com voc seja diferente. Ouvi dizer que a viagem 
foi divertida, voc no teve tempo de se aborrecer com tantos admiradores.  
- Pois , e da?... Sou livre, no sou?  
- No  no! Voc  minha.  
Com que determinao ele pronunciara aquela frase! Atirou-a na cama. La, porm, apesar de seu 
imenso desejo, estava resolvida a no ceder. Era fcil demais: bastava ele aparecer e pronto! J caa 
nos braos dele, apaixonada e meiga como uma gata. Convinha mudar de comportamento!  
Entretanto, foi ele quem a soltou, levantou-se e acendeu um cigarro.  
- Fui convidado para uma recepo aps o casamento da filha do chefe de polcia, o general 
Velazco. Toda a alta sociedade peronista deve comparecer, pode ser divertido para voc.  
- Sarah tambm vai?  
- Claro, ela se tornou amicssima de Eva Pern.  muito til para ns. Trouxe algum vestido bem 
sofisticado? Voc tem de ser a mais linda.  
- Acho que sim. A que horas vai ser?  
- s oito da noite. 
J passavam das nove horas quando Franois Tavemier, Sarah e La chegaram  recepo. A noiva, 
com um vestido de babados e uma cauda imensa, um lao azul-escuro na parte superior do peito, 
recebia os cumprimentos em companhia do marido, Lo Max Lichtschein, e do pai uniformizado. 
Sentada, cercada por uma corte de rapazes, Eva Pern, coberta de jias cintilantes, um lindo chapu 
cobrindo o coque muito bem elaborado, conversava animadamente. Acenou para Sarah.  
- Cara Sra. Tavernier, como estou contente com sua presena. Boa noite, Sr. Tavernier, como vai? - 
disse ela em espanhol.  
- Muito bem, como sempre quando a vejo - respondeu, inclinando-se e beijando a mo que ela lhe 
estendeu.  
Eva Pern sorriu de satisfao ao ouvir aquele galanteio to banal. Em seguida, olhou para La com 
uma expresso de curiosidade e frieza ao mesmo tempo.  
- Quem  esta jovem?  
-  a Srta. La Delmas, uma amiga que acaba de chegar da Frana...  
Eva cumprimentou com a cabea e La fez o mesmo. Ambas no conseguiram esconder um 
sentimento de mtua antipatia. Sarah contornou a situao.  
- La  uma grande amiga, profundamente impressionada por estar em sua presena. Alm do mais, 
no fala espanhol.  
Com um gesto, Eva revelou que no ficara aborrecida e voltou a conversar com os rapazes que a 
rodeavam.  
Sarah pegou o brao de La e atravessaram o salo, em meio a cumprimentos, apertos de mos, 
risos e trejeitos, at o terrao onde havia apenas trs ou quatro pessoas.  
Ao longe, sobre o rio da Prata, viam-se navios passando.  
- Voc se sente muito  vontade aqui, conhece muita gente. Faz tempo que no a vejo to alegre e 
satisfeita.  
- Pois odeio todos eles. S represento essa farsa para melhor me infiltrar nos meios peronistas e 
descobrir quem ajuda os nazistas.  
- J tem alguns indcios?  
- J, o chefe de polcia, Juan Fiomeno Velazco, mantm relaes com vrios deles.  
- Tem certeza?  
- Absoluta, assim como o Dr. Rodriguez Arasja, que vive espalhando acusaes sobre Velazco 
quanto s suas relaes amigveis com membros de redes nazistas. Voc sabia que Daniel e Amos 
conseguiram identificar dois deles a bordo do Cabo de Buena Esperanza?  
- Sim.  
Antes de partir para Crdoba, foram recebidos na chefatura de polcia. Seu amigo holands tambm 
viajou para Crdoba. Ele no tentou te encomodar?  
- No, mandou flores com um carto: "At breve." Tem informaes a respeito dele?  
- Ainda no. Mas Daniel e Amos, que se encontram igualmente em Crdoba, esto atentos...  
- Eles vo acabar sendo presos, pois, assim como eu, no falam uma palavra de espanhol!...  
- No caso deles,  melhor assim. Lembre-se que se fazem passar por alemes e, na realidade, s 
podem falar esta lngua.  
- Mas como se arranjam?  
- Em Crdoba, a situao  muito simples. Os nazistas se instalaram na cidade sem enfrentar 
problema algum. Temos no local amigos argentinos que receberam nossos dois rapazes com a 
maior discrio. Por enquanto, Amos e Daniel esto num hotel que pertence exclusivamente a 
alemes, desde o zelador at a camareira, passando por todos os empregados, com um cozinheiro 
alemo que prepara comida alem, num ambiente tipicamente tirols.  
- E o governo argentino tolera essa situao?  
- A imprensa peronista  pr-alem. Lembre-se de que a Argentina s entrou na guerra contra a 
Alemanha um ms antes da capitulao. Samuel e Uri encontram-se em Buenos Aires. Graas a 
comunistas argentinos, esto na pista de uma rede que organiza fugas de nazistas a partir da 
Espanha. Vamos comear a agir dentro em breve. E voc, o que pretende fazer na Argentina? Ainda 
no sei por que veio.  
- Nem eu sei.., para vingar Laure, talvez. Voc encontrou a pista daquelas duas mulheres?  
O rosto de Sarah contraiu-se.  
- Ainda no, mas no vai demorar.  
Os cachos do seu cabelo curto produziam uma espcie de aurola no rosto levemente maquiado de 
Sarah, dando-lhe uma aparncia ainda mais jovem. Ela estava extremamente elegante em seu 
vestido de seda vermelha de bolinhas brancas.  
- La, como  bom encontr-la aqui!  
As duas amigas viraram-se.  
- Rik! Eu...  
- Voc parece surpresa. No avisei que viria v-la? Apresente-me a esta senhora.  
- Sarah, apresento o Sr. Rik Vanderveen. Rik, apresento a Sra. Mui... Sra. Tavemier.  
Rik bateu os calcanhares e inclinou-se.  
- Encantado, senhora, tenho amigos que j me falaram a seu respeito. 
-  mesmo?... Como assim?  
- Como sendo amiga ntima da linda primeira-dama.  
- As notcias se espalham rpido na Argentina. Est gostando do pas?  
- Muito. Os argentinos so extremamente hospitaleiros. E a senhora, sente-se bem aqui, to longe de 
Paris?  
- Encontra-se em Buenos Aires tudo o que se costumava encontrar em Paris antes da guerra, trata-se 
de uma cidade francfila, sinto-me muito  vontade.  
- E quanto a voc, La? Aprecia a terra do tango?  
- Muito.  
- J se encontrou com aquela moa que conheceu no navio?  
- Veja s... quando se fala do diabo... Carmen!...  
- Che, La!... Querida, estou to contente... Que coincidncia!  
- Vim com uns amigos. Lembra-se do Sr. Vanderveen?  
- Como poderia esquecer nosso protetor das ruas do Rio? Que estranho encontr-lo aqui.  amigo 
do noivo?  
- No, do general Velazco.  
La e Sarah entreolharam-se, e Carmen percebeu tudo.  
- E voc,  amiga de quem? Da noiva? 
- No, da seiora Pern.  
- Pensei que estivessem brigadas.  
- Oh, no,  difcil brigar comigo. La, amanh, vou apresentar um programa na Radio Beigrano, 
com a presena do grande cantor de tango Hugo dei Carril. Est convidada, vai ser muito 
divertido... Oh, que homem lindo!  
-  meu marido - disse Sarah.  
- Oh, perdo!  
- No tem importncia. Querido, esta jovem acha voc muito sedutor. Senhorita?...  
- Carmen Ortega - respondeu com o rosto em brasa.  
La afastou-se, com um aperto no corao. O que viera fazer nesse pas desconhecido, com todos 
esses estrangeiros?... Olhava para o homem que ela amava tanto, atrs de quem viera, apesar de no 
aceitar esta hiptese, justificando-se atrs de falsos argumentos; Franois flertava com aquela jovem 
atriz argentina s porque ela afirmara que era um homem lindo!... E Sarah representando o papel de 
alcoviteira! ... E Rik Vanderveen, por que olhava assim para ela?... E se perceber algo estranho?... 
La sorriu para ele.  
- Parecia to distante, ainda h pouco. Est aborrecida?  
- Um pouco. Que tal a gente sair?  
- No seria muito educado para com seus amigos...  
- Azar, estou com vontade de ir embora. Voc vem?  
Franois, que Carmen Ortega no largava, viu sair o casal e experimentou uma profunda raiva. Ah, 
que menina danada! Em outra ocasio, ele daria o troco.  
No restaurante La Cabana, na mesa vizinha  de Rik Vanderveen e La, seis homens falavam alto 
em alemo, com a maior naturalidade, como se estivessem numa cervejaria de Munique. Pouco  
vontade, La mal conseguia permanecer sentada nem comer a carne de excelente qualidade que lhe 
serviram.  
- No gosta? - perguntou Vanderveen.  
- No estou com muita fome.  
- O lugar no  do seu agrado? 
- Claro que sim,  divertido. Mas nossos vizinhos fazem muito barulho.  
- Entende o que esto dizendo?  
- Nada. E voc?  
- Um pouco. So alemes. H muitos nesse pas. No reparou?  
- No, no prestei ateno. Vai permanecer muito tempo na Argentina?  
- Depende de voc.  
- Como assim?  
-  muito agradvel para mim poder encontr-la, e gostaria de aprofundar nosso relacionamento.  
La no respondeu.  
- Nada tem a dizer? Qual a sua opinio?  
Responder o qu? Por que aceitara jantar com ele? Que tolice:  
s para enciumar Franois.  
- Seria timo - comentou com desenvoltura. - Mas preciso de tempo, agora tenho muitos 
compromissos.  
- Sou extremamente paciente, minha cara amiga.  
Havia um tom de ameaa em suas palavras. La sentiu-se aliviada com o trmino da refeio. Ele a 
levou de volta ao Plaza. No hall, Vanderveen agradeceu pela noite to agradvel e acrescentou:  
- Vou deixar Buenos Aires por alguns dias. Assim que regressar, ligarei para voc. At breve. 
Desejo-lhe uma noite excelente.  
- Boa noite.  
Junto com a chave do quarto, o funcionrio da recepo entregou-lhe um recado.  
No elevador, La leu a seguinte mensagem:  
"Vou passar amanh para almoarmos juntas. Beijos, Sarah."  
Sentada numa confortvel poltrona no bar do Plaza,  espera de  
La, Sarah tomava um naranja bilz. Viu quando ela entrou e acenou  
com a mo. As duas amigas se abraaram.  
- Parece cansada - disse Sarah. - No dormiu bem?  
- No. No preguei o olho a noite inteira. Estou preocupada.  
- Porqu?  
- No sei, sinto algo estranho... a sensao de algum me observando, me vigiando.  
-  natural, deve ser verdade. Qualquer estrangeiro, neste pas, passa por um rgido controle da 
polcia. Pode esperar por um interrogatrio.  
- Voc tambm passou por isso?  
- Com certa discrio. Sou casada com um diplomata e fazem questo de parecer simpticos, mas a 
polcia  muito atuante. Voc precisa transmitir a imagem de uma jovem despreocupada, sem 
problema algum, que s pensa em roupas caras, jias, passeios. O desprezo dos argentinos em 
relao s mulheres  to forte que no conseguem imagin-las de outra maneira; no seja uma 
exceo  regra,  o melhor que tem a fazer para que a deixem em paz. Quanto mais ftil e vaidosa, 
melhor ser para voc.  
- Vou seguir seu conselho. Onde est Franois?  
- Viajou para Montevidu.  
- Por quanto tempo?  
- At o fim da semana. Pediu-me para cuidar de voc.  
- Muito gentil da parte dele.  
- No fique assim. Vamos, vou lev-la para almoar num lugar muito freqentado, o Odeon:  l 
que se encontram atores, jornalistas, escritores, e tambm pessoas menos recomendveis. Depois, 
iremos s lojas Harrods e Gath y Chaves, para ver as modas.  
No Odeon, Sarah foi recebida como uma habitue.  
- Aqui est a sua mesa, Sra. Tavernier.  
- Obrigada, Mano.  
No decorrer do almoo, La observou a farsa representada por Sarah; rindo e falando muito alto: 
uma perfeita idiota, pensou La, que mal conseguia se manter sria. Entrando no jogo da sua amiga, 
ela passou a imit-la:  
- Voc viu o vestido da se flora Pern?... que elegncia!... e o vestido da noiva?.., um certo exagero 
nos babados, talvez.., e aquele lao!... ridculo, no acha?... em Paris, ningum se veste assim... Seu 
chapu est uma graa... e o meu?  uma criao de Gilbert Orcei... lindo, no ?...  
- No est passando das medidas? - cochichou Sarah.  
- No mesmo. Veja s como os homens olham para ns, encantados. E as mulheres, todas elas 
irritadas por nossa causa... Quem voc est cumprimentando?  
- Um casal de atores: Fanny Navarro e Narciso Ibanez Menta.  
- Como consegue conhecer tanta gente?... No olhe para trs.  
- O que foi?  
- Voc no me disse que Amos e Daniel se encontravam em Crdoba?  
- Sim.  
- Pois acabam de sentar numa mesa perto da porta.  
- Tem certeza?  
- Absoluta.  
- Continue se comportando como antes. Ningum pode saber que os conhecemos. Se esto aqui, 
algo deve ter acontecido. O que esto fazendo?  
- Olhando o cardpio... Acenaram para o garom... parece que esto fazendo o pedido... Daniel se 
levantou... perguntou alguma coisa a um garom... agora est indo ao toalete.  
- Acha que nos viram?  
- Penso que sim... Amos fez um sinal com a cabea em direo a Daniel...  
- Fique aqui, eu vou.  
O tempo custou a passar. Finalmente, Daniel voltou. E Sarah, onde estava?  
- At que enfim! Como voc demorou. O que aconteceu? Que cara  essa?  
Plida, o rosto transtornado, Sarah fez um esforo para sorrir.  
- Encontraram a pista dos dois.  
- De...  
- Sim. Preciso avisar Samuel e Uri.  
- Posso ajudar?  
- Agora no. Volte ao hotel, as compras ficam para uma outra ocasio.  
- Prometi a Carmen Ortega assistir a seu programa na Radio Beigrano.  
- Mantenha a mesma programao. Pode ir, ligarei para voc no fim do dia.  
Ao redor de La, o pblico entusiasmado batia palmas para Hugo dei Carril, que acabara de cantar 
Adis pampa mia, como anunciara Carmen, que usava um vestido longo de cetim verde; o 
apresentador fez um comercial dos cigarros Arizona e Carmen prosseguiu com El Casino Ruso; 
em seguida a orquestra finalizou com uma rumba. Os aplausos foram demorados. Carmen veio 
buscar La.  
- Che, vou levar voc ao meu camarote; espere por mim enquanto troco de roupa. O que achou?  
- Foi timo. Gosto muito da voz de Hugo dei Carril.  
- Depois de amanh, meu convidado  Alberto Castillo, mais um grande do tango. Sente-se, no 
demoro. Ajude-me a tirar o vestido.  
O vestido de Carmen ficou no cho e ela apareceu com uma combinao de seda rosa e renda preta. 
Estava linda.  
- Ontem  noite, depois que voc saiu, o general Velazco me fez um monte de perguntas a seu 
respeito; h quanto tempo eu a conhecia, sobre o que falvamos etc. Eu nem sabia o que responder. 
S espero que seus documentos estejam em ordem e que voc no seja amiga de nenhum comunista 
ou estudante.  
- Estudante?  
- Sim, muitos so antiperonistas. Em Crdoba, houve vrias manifestaes contra Pern, a polcia 
prendeu muita gente.  
- No conheo ningum aqui, exceto voc e Victoria Ocampo.  
- Quanto a mim, no faz mal, eles me consideram uma atriz sem a menor importncia. Em relao a 
Victoria Ocampo,  mais complicado: ela e seus amigos so muito vigiados.  
- Porqu?  
- Victoria pertence  aristocracia argentina. Assim como inmeros porteios, ela tambm  
antiperonista. Entende, che?  
- Acho que sim. E voc, qual o seu partido?  
Carmen olhou para a nova amiga e respondeu num tom hesitante:  
- Che... a poltica no  meu forte, sabe. Como todas as  
mulheres, no entendo nada, deixo o problema para os homens, que parecem achar tudo isso muito 
divertido. Na Frana tambm no  assim?  
-  sim, de certa forma... mas agora na Frana temos o direito de votar.  
- Na Argentina ainda no, mas a bela Eva assumiu a misso de salvar as mulheres, mostrar-lhes o 
caminho, logo ela que no passa de uma simples mulher do povo.  
- Voc est dizendo que Eva Pern  feminista?  
- Che! Claro que no. Para Eva todas as mulheres so possveis rivais; mas ela percebeu, a menos 
que seja o prprio Pern, que se trata de uma fora poderosa e est tentando atra-las para o partido 
de Pern. Segundo suas prprias palavras, Eva no  nenhuma solteirona feia para representar o 
papel criado por inglesas, da mulher que s concebe o feminismo como uma espcie de revanche e 
cuja vocao bsica parece geralmente ser reservada aos homens. Ela julga que a imensa maioria de 
feministas do mundo inteiro constitui uma espcie curiosa. Concordo com essa opinio. E voc, o 
que acha?  
- Nem sei, nunca me debrucei sobre o assunto. Parece-me que, pelo fato de ser mulher, a gente 
acaba se tornando feminista. Nunca me senti em oposio aos homens, e me considero capaz de 
fazer as mesmas coisas que eles, nem melhor nem pior. Durante a guerra, as mulheres tiveram de 
tomar decises difceis, muitas lutaram como homens, arriscando a prpria vida para salvar crianas 
judias ou aviadores ingleses. Naquele perodo, ningum se questionava, a gente fazia o que 
precisava ser feito.  
- Aqui  bem mais complicado; com os homens e sua mentalidade de machos, no temos direito a 
quase nada, ficamos sob a tutela dos pais, irmos e maridos. Eva percebeu o problema. Ela anima as 
mulheres a se tornarem economicamente independentes, sem renunciar  sua feminilidade. As 
argentinas confiam nela. Quando ela afirma que a dona-de-casa encontra-se  margem de qualquer 
tipo de seguro, que  o nico ser humano no mundo que trabalha sem ganhar salrio algum, sem 
garantia de respeito, sem horrio, sem domingos, sem frias ou lazer, sem indenizao em  
caso de demisso e sem possibilidade de greve, todas as mulheres aclamam-na calorosamente. Ela 
chegou a sugerir que a nao pagasse um salrio s mes, salrio este proveniente das rendas de 
todos os trabalhadores, mulheres inclusive...  
- No  m idia.  
- Tambm acho. No partido nico da revoluo, nem tudo  lixo.  
- Qual  o lixo?  
- Vou lhe explicar tudo mais tarde. Agora vamos ao Plaza. Voc me oferece um drinque?  
- Claro,  um prazer.

Captulo 21

- Queira me perdoar, querida amiga, por no estar presente quando chegou. Mas assuntos
importantes me prenderam em Mar dei Plata. Voc vem comigo a San Isidro,  claro.  
- S por alguns dias. Se no for muito indelicado, prefiro permanecer no Plaza.  
- Como quiser. Aps as festas de Natal, regresso a Mar dei Plata e voc vir comigo - disse Victoria 
Ocampo, ajeitando os culos de armao branca.  
- Vai passar as festas em Buenos Aires?  
- Sim, vou reunir alguns amigos dentre os quais seu embaixador, Viadimir d'Ormesson. J o 
conhece?  
- Ainda no.  
- Voc vai ver,  um homem encantador, cultssimo, fiel em suas amizades, prestou um grande 
auxilio ao meu amigo Roger Caillois. Viro tambm minha irm Angelica, minha irm Silvina com 
o marido, o escritor Adolfo Bioy Casares, meu querido Jorge Luis Borges, Jose Bianco e Ernesto 
Sabato. Talvez umas pessoas mais, poucas, como o Sr. e a Sra. Tavemier. Mandarei buscar sua 
bagagem  noite. Vamos almoar juntas no London Grili. Ali, eu me sinto um pouco em casa! 
Depois, partiremos para San Isidro.  
No London Gnul, havia uma multido de homens no bar  espera de uma mesa. O matre 
aproximou-se, muito atencioso.  
- Senora Ocampo, que alegria de verla otra vez, nos ech de "nenos."  
- Gracias, Hector  
O almoo foi muito agradvel, apesar das inmeras interrupes provocadas por conhecidos de 
Victoria Ocampo que vinham cumpriment-la.  
Todo sbado e todo domingo  tarde, Victoria Ocampo recebia para o ch amigos, escritores, 
colaboradores da revista Su, intelectuais estrangeiros de passagem. La, instalada h dois dias no 
casaro de San Isidro, ajudava a dona da casa e Angelica a receber os convidados. Ficou surpresa ao 
ver Jorge Luis Borges comer tanto dulce de leche, uma espcie de gelia feita de leite e acar que 
ela achava extremamente enjoativa e que todos os argentinos adoravam. Nora, irm do poeta, falava 
a respeito de sua pintura enquanto Adolfo Bioy Casares o fotografava; Sarah e Silvina Ocampo 
conversavam animadamente, enquanto Viadimir d'Ormesson e Franois Tavernier discutiam em 
voz baixa num canto do salo; todos falavam francs.  
La sentiu-se um pouco  margem de todas aquelas brilhantes personalidades, que discutiam com a 
maior desenvoltura a respeito de surrealismo, poltica, poesia, esoterismo, peronismo e 
sindicalismo. Desceu os degraus da varanda e dirigiu-se para o terrao que dominava o rio. Fazia 
muito calor, ela levantou a saia do seu vestido branco para sentar-se  sombra num banco de pedra 
coberto de musgo verde, e olhou para os veleiros oscilando sobre as ondas. Um dentre eles 
permanecia imvel bem diante do casaro Ocampo. Aquela imobilidade chamou a ateno de La. 
Havia trs homens na embarcao; um deles olhava em sua direo com um binculo. 
Instintivamente, La recuou para a sombra, com medo de se mover, O tempo custava a passar 
quando um rudo de passos, atrs dela, assustou-a. Ela se virou bruscamente.  
- Oh, Franois, que susto voc me deu!... Tome cuidado para no ser visto do rio.., olhe s aquele 
veleiro,j faz uns vinte minutos que um homem de binculo est observando a casa.  
- Voc tem razo,  muito estranho.  
- Estou com medo. No recebi notcias de Sarah, s pude v-la hoje. Pelo que entendi, encontrou a 
pista daquelas duas mulheres.  
-  sim, foi por isso que regressei de Montevidu antes da data prevista. Esto sendo vigiadas. Acho 
que as duas nada perceberam. Em compensao, os amigos delas mostraram-se interessadssimos 
por ns...  
- Por mim tambm?  
- Sim, graas queles homens do Cabo de Buena Esperanza. Felizmente, no parecem ter 
localizado Samuel e Uri, nem Daniel e Amos, que esto instalados no mesmo hotel que as duas 
mulheres, o Jousten, em Corriente, e cujos clientes so quase todos alemes...  
- Mas que idia foi essa de se atirar na boca do leo?  
- Encontram-se mais seguros no prprio terreno dos nazistas do que ns do lado de fora. Estou 
preocupado com voc, minha querida, e gostaria que estivesse longe de tudo isso; nada aqui lhe diz 
respeito.  
- Como assim? No me diz respeito?... No foram eles que assassinaram Laure?  
- Vamos ving-la, mas isso no vai traz-la de volta.  
- Sei, mas no posso viver com a idia de que seus assassinos continuem em liberdade.  
- No ser por muito tempo.  
- O que vocs pretendem fazer?  
- Por favor, j lhe falei, no se preocupe com essa histria. Quanto menos voc souber, melhor.  
Franois abraou-a carinhosamente. Ela se entregou sem resistncia, experimentando uma deliciosa 
sensao de bem-estar. Por que tudo era to complicado? Seria to mais fcil levar a vida sem 
pensar no dia de amanh! Ergueu a cabea e eles se beijaram avidamente. Um rudo de vozes e risos 
fez com que se afastassem.  
Sarah e Victoria aproximavam-se, acompanhadas por Borges e Bioy Casares. La e Franois 
levantaram-se.  
- La, fiquei preocupada - disse Victoria em tom de censura.  
- Esse parque  to lindo e o rio to imponente! Vim admir-los.  
- Pois , esse lugar  muito bonito. Por quanto tempo? Depois de mim, o que ser da casa?  
Sarah aproximou-se e, em sinal de afeto, ps o brao no ombro da amiga.  
- Cara senhora, no  hora de pensar nisso.  
Ao longe, no rio da Prata, o veleiro afastou-se. La foi a nica que notou o fato e experimentou um 
certo desconforto.  
Voltaram lentamente para o casaro. Franois segurou o brao de La.  
- Eu a quero. Por que no vai amanh para Buenos Aires? O quarto do Plaza continua reservado em 
seu nome?  
- Sim.  
- Vou pedir a Sarah para convidar voc, parecer mais natural.  
- , voc pensa mesmo em tudo - disse ela rispidamente.  
- Tudo bem, partirei amanh.  
Quase todos os convidados se despediram. Permaneceram apenas Silvina Ocampo, Bioy Casares e 
Borges.  
Durante a refeio, na imensa sala de jantar com pesadas cadeiras, La precisou esforar-se para 
estar atenta  conversa de Borges, que mudava de assunto com virtuosismo, sem ligar para sua 
interlocutora.  
- Gosta de pontes?...Vou lev-la  ponte Alsina, trata-se de um dos meus locais preferidos em 
Buenos Aires.  
- Jorge, no pretende mostrar a essa menina aquele bairro horrvel, imundo e lgubre - comentou 
Victoria.  
- Sua irm no pensa assim. Freqentemente, Silvina e eu caminhamos  toa pelas ruas da nossa 
cidade, com o objetivo de nos perder. Infelizmente, nunca acontece! Gosto da feira de minha 
cidade natal, tanto quanto de sua beleza.  fundamental caminhar numa cidade, nos subrbios, 
ouvindo a noite. Recordo-me de um longo passeio nos arredores de Buenos Aires antes da guerra, com Drieu la Rochelie; 
j era tarde, andamos bastante e chegamos bem perto do campo. Percebamos a plancie que 
aumentava, as casas iam se tornando cada vez mais raras, cada vez mais baixas. Foi quando Drieu 
descobriu a maneira mais exata de expressar aquela sensao. O que ns, poetas argentinos, 
procurvamos h anos, ele encontrou de estalo. Era uma hora da manh. Ele me disse: "Vertigem 
horizontal." Era exatamente isso. Tinha de ser francs para expressar com tanta clareza o que ns, 
argentinos, sentimos. A Frana  por excelncia um pas literrio. Suponho que  o nico pas onde 
as pessoas se interessam por problemas literrios. No se trata de cenculos ou de divergncia entre 
diferentes escolas. Deve fazer parte do esprito histrico dos franceses, essa maneira de ver todas as 
coisas em funo da histria, o que no acontece em nenhum outro lugar, no  verdade?  
La sentiu-se totalmente incapaz de responder ao escritor. Em seguida, Borges comeou a falar de 
Flaubert, Schopenhauer, Stevenson, Kipling, Oscar Wilde... De Flaubert, ela s lera Madame 
Bovary e de Kipling, O Livro da Selva!... muito pouco para manter uma conversa com aquelas 
pessoas que pareciam brincar com o francs, o espanhol, o ingls e o italiano. La sentiu-se tola e 
ignorante... e no ficou satisfeita. Pouco a pouco, passou a manter-se alheia quela reunio, 
recordando-se dos jantares de Montillac, quando seu pai e seu tio Adrien falavam de seus livros 
preferidos. A menina de ento ouvia tudo com prazer, feliz quando o nome de algum escritor era-
lhe familiar - s vezes, no passava do lugar ocupado por um livro qualquer na biblioteca de seu pai. 
Quando criana, s ela ajudava o pai na arrumao dos livros. Mais tarde, comeou a ler, iniciando 
suas leituras pela primeira letra do alfabeto. Foi assim que leu vrios romances de Edmond About: 
Matre Pierre, a respeito da drenagem das Landes, Le Roi des montagnes, L'Homme  l'oreille 
casse... Os dezoito volumes das Mmoires da duquesa de Abrants, Les Posies 
philosophiques de Louise Ackermann, Irne et les eunuques de Paul Adam. Na letra B, depois de devorar Les Epoux malheureux e Les Amants 
malheureux de Baculard d'Arnaud, atirou-se com muita gula sobre La Comdie humaine de 
Balzac. De Constant, apreciou bastante Adolphe e de Farrre, Fume d'opium; passando por 
Corneilie e Delly. Na letra F, deixou de ler por ordem alfabtica na biblioteca do pai e foi buscar, ao 
acaso de sua inspirao, na letra M: encontrou Mauriac e Montaigne; na letra R, Rimbaud e Paul 
Reboux... Quando as pessoas se surpreendiam com seus saltos de Bourget a Voltaire, ela costumava 
responder com certa irritao: "So apenas livros." Para ela, naquela poca, a 
leitura representava 
antes de mais nada uma fuga, uma evaso. O estilo, o assunto, a poca no tinham importncia; a 
nica coisa que existia era o prazer da leitura, da descoberta. Muitos anos mais tarde, La conseguiu 
estabelecer a diferena entre a boa literatura e a de segunda categoria - sem nunca reneg-la.  
- ...Para escrever realmente alguma coisa, exige-se o desempenho do corpo e da alma, e no se sabe 
qual ser o resultado...  
Quem estava falando? La teve um sobressalto, como se despertasse de um sonho.  
- Ei, La, por onde andou? Perdida em seus pensamentos?  
- Estava pensando no meu pai e nos livros que amei.  
Pronunciou essas palavras em voz baixa. Durante aqueles minutos de ausncia, ela fugira da 
Argentina, das ruas sombrias evocadas pelo poeta, daquele suntuoso casaro com seus convidados 
to falantes e cultos, das ameaas pairando no ar e envolvendo seus amigos, da lembrana de Laure 
morta... Ela estava de volta, saudosa porm mais calma.  
- Se no ficar aborrecida, Victoria, vou para meu quarto. Estou caindo de sono. Algum problema?  
- Claro que no. Voc deve nos considerar uns chatos, com todos os nossos discursos literrios.  
- Nada disso, mas percebi o quanto sou ignorante.  
Ela no reparou no rpido lampejo que iluminou os olhos mopes de Borges.  
No dia seguinte, Victoria Ocampo deixou-a na calie Florida, diante do Jockey Club. Sem pressa, 
olhando as vitrines, La caminhou at o Plaza. Fazia calor, as mulheres usavam vestidos curtos estampados, os homens olhavam 
para elas, com ar de superioridade, bebericando mate ou fumando pequenos charutos pretos. La 
atraa olhares insistentes, piadas de mau gosto, toques indiscretos. A sensao no era desagradvel, 
parecia uma homenagem  sua beleza. Os desejos que ela adivinhava excitavam os seus prprios; 
dentro de poucos instantes, estaria nos braos do homem que amava, o resto no importava. Deteve-
se demoradamente na frente de uma loja que apresentava modelos de Paris; aquele conjunto verde 
com bordados brancos era encantador; quanto quele vestido de vero listrado e colorido, uma 
graa, mas... e o rosto refletido no vidro ao lado do vestido?... Por que tanta angstia?... havia dio 
no olhar do homem fixo em sua imagem... ela virou para trs... O homem ficou surpreso e recuou; 
em seguida, sem deixar de olhar para ela, deu meia-volta e foi embora. Passou pela sede do jornal 
La Nacin e empurrou uma pessoa que lia folhas impressas expostas do lado de fora. Tudo 
aconteceu muito rpido, mas La teve tempo de reconhecer o Sr. Barthelemy. Os dois homens 
sumiram na multido.  
Agora o tempo ficara mais triste, as lojas menos atraentes, a rua menos alegre, repleta de perigos 
ocultos. La precisou esforar-se para no sair correndo. Pela primeira vez, desde que chegara a 
Buenos Aires, no parou para admirar os buqus da magnfica loja de flores, na esquina do Plaza.  
- Tem um recado, senhorita - disse o funcionrio da recepo ao lhe dar a chave do quarto.  
O txi deixou La na esquina de Suarez y Necochea, no bairro de la Boca. Que idia, marcar um 
encontro num lugar desses! Ela olhou  sua volta, tentando orientar-se. No era fcil, nessa cidade 
onde as ruas se cruzavam em ngulo reto. Assim como La se sentia  vontade nas ruas tortuosas de 
Paris ou Bordeaux, em Buenos Aires tinha a impresso de se encontrar sempre no mesmo lugar. 
Agora, o ambiente era um pouco diferente: nada de lojas, um bairro pauprrimo com casas baixas, 
caladas esburacadas, cobertas de lixo, os poucos bares ou cafs fechados. Naquela hora, no incio 
da tarde, tudo parecia dormir  
sob o calor do vero. Um co faminto veio farejar os ps de La e fugiu diante de seu gesto 
ameaador. Ela tropeou nas razes de uma rvore imensa no meio da rua e soltou um 
palavro. Apesar do seu chapu de palha, a claridade incomodava-lhe os olhos; sentia o 
suor escorrendo pelas costas e entre os seios. Ningum morava nesse maldito bairro? De 
uma janela baixa protegidapor uma grade, saa uma cano de Carlos Gardel. La inclinou-
se. Apesar da penumbra do lugar, avistou mesas e cadeiras. Sobre as mesas, copos e pratos 
sujos, no fundo um balco e uma fileira de garrafas. Perto da janela, uma escada estreita e 
ngreme com cinco degraus. Ela desceu, segurando-se nas paredes imundas. Durante alguns 
minutos, no conseguiu enxergar absolutamente nada. Aps o forte calor da rua, o ar do 
salo arejado por um grande ventilador pareceu-lhe delicioso. Exceto a voz de Carlos 
Gardel e o rangido do ventilador, no se ouvia o menor rudo no bar. Pouco a pouco, seus 
olhos habituaram-se  penumbra. O aposento estava vazio, sem fregueses e sem dono. 
Como se dizia mesmo em espanhol: "Tem gente?..." Para expressar sua presena, ela 
tossiu, empurrou as cadeiras.., no rdio, a voz do cantor calou-se, substituda pelos 
guinchos de uma locutora. A imagem de Carmen Ortega de p diante do microfone surgiu 
em sua mente... Nas paredes sujas, retratos de estrelas de cinema em molduras desbotadas: 
La reconheceu algum... claro, tratava-se de Eva Pern... morena e com o rosto mais 
redondo na foto, umas palavras manuscritas com uma letra bem grande, assinadas "Eva".  
La subiu a escada; a rua continuava deserta e branca de calor; voltou para o bar e deixou 
cair o corpo numa cadeira. Naquela altura, sentia-se melhor aqui do que l fora; talvez 
algum acabasse chegando. Ela estava com fome. Levantou-se e, atrs do balco, reparou 
uma cortina vermelha que mal dissimulava uma abertura, com certeza a cozinha. Afastou a 
cortina; percebeu logo um cheiro desagradvel de gordura. A nica luz provinha de um 
respiradouro imundo; a sala era sombria. Bem devagar para no cair, La caminhou, 
oprimida por aquele silncio. Bateu como p numa coisa mole e reprimiu um grito, 
completamente aterrorizada. Trmula, ela se abaixou. Sua mo encontrou um corpo 
estendido no cho;  
sentiu o corao batendo forte. Agarrando o corpo pelos ombros, arrastou-o para o meio da sala.  
- Franois!  
Os olhos estavam fechados, havia sangue coagulado no cabelo. La apanhou uma jarra no balco e 
despejou lentamente a gua em sua testa... gemendo, ele moveu a cabea para a direita e para a 
esquerda e abriu os olhos.  
- Franois!  
Com imensa dificuldade, ele se ergueu.  
- D-me alguma coisa para beber.  
Todas aquelas garrafas! Qual delas escolher?... Ao acaso, pegou uma, cheirou o contedo: servia. 
Ele bebeu pelo gargalo, engasgou-se, tossiu, cuspiu, xingou.  
- Mas isso no  bebida,  cido! - exclamou antes de tomar outro gole.  
Sem largar a garrafa, conseguiu ficar de p, com a camisa suja de sangue e lcool.  
- Faz muito tempo que voc chegou?  
- No sei, uns vinte minutos. O que aconteceu?  
- Marquei o nosso encontro neste bairro, porque considerava o lugar mais discreto que o Plaza. 
Fiquei com sede, entrei neste bar; havia marinheiros, gente do porto, almoando...  
- No vi ningum!  
- Fugiram todos. Eu acabara de chegar quando senti que me seguravam por trs. Devem ter pensado 
que eu estava morto, por isso se mandaram. Voc me encontrou aqui?  
- No, foi na cozinha.  
- No entendo...  melhor sairmos daqui, podem voltar, a menos que tenham ido chamar a polcia, o 
que seria pior ainda.  
- Voc no pode sair assim, precisa de um mdico.  
- Pensaremos nisso mais tarde. Vamos.  
Na calie Necochea, exceto alguns ces, no encontraram ningum. O bairro parecia completamente 
deserto.  
- Vamos andando em direo  avenida Don Pedro de Mendoza, ao longo do rio Riachuelo, 
acabaremos encontrando um meio de transporte.  
Na avenida, um nibus aos trancos e barrancos tentava evitar os buracos da rua. Tavemier acenou 
para que parasse. O veculo diminuiu a velocidade em meio a um rangido de ferro velho.  
- Suba- disse, empurrando La.  
No pra-brisa, via-se todo tipo de enfeites: penduricalhos, retratos de santos, da Virgem, de dolos 
do futebol, fotos de crianas, mulheres nuas...balanando ao ritmo dos solavancos.  
- Che! Senhor, foi sua esposa quem fez isso?  
- Ela  muito ciumenta.  
- J percebi.  
- disse o chofer com pena, sem parar de vender os bilhetes enquanto continuava dirigindo.  
Foram sentar no fundo do nibus, entre duas matronas cheias de embrulhos. Durante todo o trajeto, 
no trocaram uma s palavra. Aninhada contra ele, La deixou de se sentir to apavorada.  
O chofer parou na frente de um prdio imenso e gritou, apontando com o dedo:  
- Seiior tendra que ir a curarse ai hospital.  
- Gracias. Es una buena idea.  
- Senhor, devia ir ao hospital fazer um curativo.  
- uma boa idia, obrigado. 
Franois e La saltaram do nibus.  
- Ei, txi!  
- E o hospital? - perguntou La.  
- Fica para outra ocasio, suba... Para a embaixada da Frana  
- Tavernier, tem certeza de que no est escondendo nada?  
- Sr. Embaixador!...  
- Tudo bem, fique com seus segredos, mas no conte comigo se tiver problemas com a polcia 
peronista. O general Velazco no brinca em servio. Se voc e seus amigos carem nas mos dele, 
nada poderei fazer. As instrues que recebemos de Paris so formais: nada de incidentes com os 
argentinos.  
- Pode ficar tranqilo, Sr. Embaixador, nada temos contra o governo argentino...  
- No me interessa contra quem...  
- Ora, contra ningum.  
- Tavernier, no pense que sou algum idiota. Eu tambm tenho meus informantes. E essa jovem que 
ficou na casa da minha esposa?  
- A Srta. Delmas?...  uma amiga de Sarah, de uma conhecida famlia de Bordeaux...  
- Bordeaux?... Bem... Mas o que faziam juntos naquele bairro to estranho?  
- A essa hora do dia, la Boca  bastante sossegado. Eu s queria lhe mostrar um bairro pitoresco de 
Buenos Aires.  
- Pitoresco, pitoresco... o lugar desta moa  nas lojas da calie Florida e no em la Boca, mesmo 
nessa hora do dia... O que ela veio fazer na Argentina, sozinha?...  
- Est fora da realidade, Vladimir, hoje em dia as moas viajam sozinhas - comentou Tavernier em 
meio a uma gargalhada.  
- Mas est errado. Seja como for, convm que ela seja prudente. Est hospedada na casa da Sra. 
Ocampo, pelo que me contaram?  
- Est, ambas se conheceram em Nuremberg.  
- Em Nuremberg?... Mas o que  que uma jovem como a Srta. Delmas foi fazer em Nuremberg?  
- Assistir ao processo dos criminosos nazistas.  
- Dos criminosos! ... Essa no!... No me diga que ela foi deportada?... Pobre menina.  
- No, trabalhava para a Cruz Vermelha. Se quiser, pode perguntar-lhe pessoalmente.  
- Eu no gostaria de trazer  tona recordaes to desagradveis. So momentos terrveis que nem 
quero lembrar.  
- Acho difcil conseguir esquecer.  
O tom rspido de Franois Tavernier ao pronunciar essas palavras fez com que Vladimir 
d'Ormesson, surpreso, franzisse as sobrancelhas.  
- No foi o que eu quis dizer. Est se referindo  sua esposa, no ?... Admiro muito a coragem da 
Sra. Tavernier e fico profundamente sensibilizado com a confiana que vocs dois depositaram em 
minha pessoa, contando-me esse triste passado... A Srta. Delmas est a par de tudo?  
- Sim, mas  a nica dentre nossos conhecidos.  
- No se preocupe. Agora vamos nos juntar s senhoras.

Captulo 22

La encontrava-se em Mar dei Plata, na casa de Victoria Ocampo, h uma semana e j no sabia
como responder aos inmeros convites da juventude dourada do iocai. S se falava de passeios no 
mar, piqueniques nas estancias da redondeza, excurses de bicicleta, partidas de tnis ou golfe, 
noites danantes ou chs. Todos disputavam a presena da jovem francesa, hospedada na casa de 
uma das personalidades mais visadas de Mar dei Plata.  
Em Buenos Aires, Natal e Ano-Novo foram comemorados com festas e bailes. La e Sarah foram as 
rainhas da colnia francesa e embelezaram os jantares da embaixada da Frana. A agresso que 
vitimara Franois Tavemier no teve continuidade, no se falava mais de nazistas, Samuel e Daniel 
Zederman, assim como Uriben Zohar e Amos Dayan encontravam-se em Buenos Aires e 
comportavam-se como turistas comuns. Carmen Ortega convenceu Sarah e La a terem aulas de 
tango. Os complicados movimentos da dana, ia sentada, ei ocho, la corrida, j no apresentavam 
mais dificuldade alguma para Carmen. Sarah revelou-se uma excelente aluna; quanto a La, trocava 
todos os passos.  
- Mais leve, seja mais leve!... Deixe-se levar - aconselhava o professor Arturo Sabatino, ex-
danarino famoso, com o cabelo cheio de gomalina e uma cala muito apertada na barriga apesar da 
cinta.  
Assim como todos os aposentos da casa Victoria, as paredes do quarto dela eram revestidas de um 
papel estampado com grandes  
pssaros, cortinas na janela, e uma moblia de madeira laqueada. Durante o perodo da sesta, quente 
e mido, todos aqueles temas vegetais davam ao aposento um ar de estufa ou de selva, acentuado 
por um tapete com rosas imensas. A belssima casa de madeira, cujas varandas davam para um 
parque arborizado, lembrava muito Montillac. As prprias Angelica e Victoria Ocampo se pareciam 
com as tias Estelle e Lisa de Montpleynet. A dona da casa passava as manhs trabalhando em seu 
escritrio hexagonal, deixando para a irm e a fiel Fanny o encargo das tarefas dirias. A noite, aps 
o jantar, ela passeava pelojardim com La e alguns amigos; s vezes, sentava-se num banco e 
recitava poemas. La gostava desses momentos calmos e melanclicos. Apesar de tudo, o tdio foi 
chegando. Ela sentia falta de Franois e a saudade era tanta que no a deixava dormir. As carcias 
solitrias s faziam aumentar seu desejo. La lembrava-se de sua ardente relao com Franois no 
quarto do Plaza, aps a cena da embaixada da Frana, e tinha a impresso de que tudo acontecera h 
milnios. As danas da moda, como o merengue ou o samba, os banhos de mar seminua, o sol, os 
homens sedutores transtornavam-na a tal ponto que ela mesma sentia-se envergonhada, apelidando-
se de cadela no cio. J que Franois queria que ela se comportasse, era melhor vir busc-la o quanto 
antes.  
De shorts e sandlias brancas, um leno na cabea, La pedalava pela avenida ladeando o mar. Ia ao 
clube de golfe encontrar-se com Jaime Ortiz e a irm Guillermina. Os dois, um pouco mais novos 
que La, eram os lderes de um bando de moas e rapazes que s pensavam em se distrair. 
Pertenciam todos s melhores famlias da Argentina e gastavam alegremente o dinheiro dos pais.  
Guiliermina e a amiga Mercedes Ramos vieram correndo ao encontro de La.  
- Andou fazendo segredinhos com a gente, querida, tem um homem muito sedutor  sua espera... 
No fique to surpresa, ele  francs como voc.  
Franois... s podia ser ele, para perturbar a tal ponto essas meninas...  
Foi at o terrao, onde bebia e conversava uma elegante multido; numa mesa, encontrava-se 
Franois Tavernier cercado por trs jovens que pareciam completamente dominadas pelo charme do 
rapaz.  
- Aqui est ele - disse Guillermina.  
Ele se virou com uma certa indolncia. O clima argentino fazia-lhe um bem enorme; a pele 
bronzeada realava ainda mais seus olhos claros e acentuava seu ar sensual. Pelo modo como se 
olharam, ficou claro para todas: os dois estavam apaixonados. Quanta volpia naqueles olhares! 
Tavernier percebeu que no conseguira esconder seus sentimentos, o que podia ser perigoso; mas 
por que La era to desejvel? A cada encontro, parecia mais linda que antes! Quase morreu de rir 
ao ver as caras decepcionadas das jovens quando La e ele apertaram as mos como bons amigos 
Decepo que aumentou com a pergunta de La:  
- Como vai sua esposa?  
- Muito bem, mandou-lhe um forte abrao.  
- Devem ter muitas coisas para conversar, vamos deix-los a ss - disse Mercedes.  
Franois e La esperaram que se afastassem e riram s gargalhadas. Um garom aproximou-se.  
- O que voc quer tomar?  
- Um naranja bilz.  
- /Dos, por favor!  
- Muy bien, senor.  
- Estou to contente com sua presena. O que faz aqui? Onde est Sarah?  
- Eu tambm estou muito contente. Tinha um encontro com uns chilenos em Mar dei Plata. Quando 
partiram, ouvi aquelas moas dizendo que a esperavam e resolvi fazer o mesmo. Sarah regressou a 
Buenos Aires.  
- Por que voc no veio para o stio de Victoria?  
- Era o que eu pretendia fazer se no encontrasse voc. Volto imediatamente a Buenos Aires. Daniel 
desapareceu.  
- Daniel?...  
- Sim, h trs dias. A ltima vez que o viram, foi na ABC, uma cervejaria freqentada por nazistas. 
Amos e Uri esto seguindo uma pista por intermdio de um jornalista do La Plata Zeitung.  
- ESamuel?  
- Est feito louco. Quanto a Sarah, recebeu a confirmao da presena de Rosa Schaeffer e da sua 
assistente Ingrid Sauter em Buenos Aires. Encontram-se hospedadas no Hotel Jousten e s saem  
noite com trs ou quatro seguranas.  
- Daniel no ficou neste mesmo hotel?  
- Sim. Na vspera do seu desaparecimento, ele me comunicou sua inteno de mudar de hotel; no 
se sentia em segurana.  
- A polcia foi avisada?  
- Mais ou menos. Ontem, falei com o general Velazco na embaixada da Frana. Como quem no 
quer nada, perguntou-me se eu estava a par das redes sionistas encarregadas de caar os nazistas. 
No estou certo de que ficou convencido com minha resposta.  
- Vou voltar a Buenos Aires.  
- Nem pense nisso. A situao pode piorar e muito rapidamente. Em Mar dei Plata, voc corre 
menos riscos. Em Buenos Aires, o clima de desconfiana tornaria sua permanncia perigosa. A 
polcia peronista anda prendendo muita gente: estudantes, comunistas, estrangeiros...  
- Mais uma razo para ficar a seu lado.  
- Por favor, La, no torne as coisas mais difceis do que j esto. Se quisesse realmente me ajudar, 
tomaria o primeiro avio para Paris...  
- Voc no me ama, se no...  
Ele segurou o brao de La com certa violncia.  
- Cale-se, sua tola. Se eu no a amasse nem ligaria para voc, aqui ou em outro lugar. Eu a quero 
muito. Ainda tenho a esperana de poder, um dia, encontrar um lugar para vivermos juntos, longe 
de tudo isso. Fique em Mar del Plata com Victoria Ocampo.  
Havia uma splica em sua voz. La sentiu-se comovida.  
- Como voc quiser.  
- Oh, obrigado, minha querida! Se soubesse o peso que acaba de tirar dos meus ombros... Agora, 
preciso partir.  
- J?...  
- Tenho de percorrer quatrocentos quilmetros pelas piores estradas, e me esperam  noite.  
- Quando nos veremos novamente?  
Ele no respondeu, mas seu olhar transmitia um amor to intenso que La quase se atirou em seus 
braos. Seu corpo inteiro rebelava-se contra o esforo de resistir quele desejo. Entregou-lhe ento 
sua mo trmula e macia.  
- Por favor.., no chore!  
Com os olhos cheios de lgrimas, acenou com a cabea.  
 medida que ele se afastava, La experimentou a mais profunda angstia.  
- Seu amigo foi embora?... Que pena um homem to lindo ser casado - comentou Guillermina.  
- Todos os franceses so iguais a ele? - perguntou Mercedes.  
La fez um esforo para responder rindo:  
- Todos. Deveriam pedir a seus pais que as mandem  Frana.  
- Por que esto to contentes, meninas? - perguntou Jaime Ortiz, chegando com outros dois rapazes.  
- Falvamos dos franceses.  
- Minha querida Guillermina, no existem s os franceses, os argentinos so os melhores do mundo, 
voc j devia saber - comentou Francisco Martineili, abraando-a.  
- Voc ficou louco, na frente do meu irmo! - disse ajovem, afastando-se dele. - Cuidado, minha me 
est chegando.  
Uma senhora com roupa de praia, o rosto bronzeado e maquiado protegido por um chapu de aba, 
aproximou-se do grupo de jovens. Os rapazes levantaram-se e se inclinaram.  
- Bom dia para todos. Meu marido organiza uma grande festa amanh na estancia, com uma 
orquestra brasileira...  
- Oba! ... Que bom! ... Excelente idia!  
- La,  claro que contamos com voc. Meu marido j sabe tanto a seu respeito pelas crianas que 
deseja muito conhec-la... Nem pense em recusar, j fui ao stio de Victoria Ocampo e ela 
concordou.  
Por que no?, pensou La. Ser uma boa distrao.  
- Voc vai ver, no ficar decepcionada; a estancia  uma das mais belas da regio - comentou 
Jaime. - Quando vamos, me?  
- Amanh cedo. Ficaremos l trs dias. Meu marido j foi com uns amigos. At breve, La, Jaime 
vai passar por volta das seis horas da manh.  
- Obrigada, senhora, at amanh.  
O carro trepidava na estrada em meio a uma nuvem de poeira. A perder de vista, s havia campos 
com raras rvores anunciando a presena de uma estancia. Vez por outra, rebanhos de bovinos 
animavam a montona paisagem. A estrada de terra corria em linha reta em direo ao horizonte; 
encontraram um grupo de cavaleiros.  
- Estamos chegando - disse Jaime, so os gachos do meu pai que vm nos receber.  
La ficou surpresa com as botas e o traje daqueles homens:  
largos cintos cobertos de moedas, uma cala bufante e, por cima, uma espcie de saiote.  
- Chama-se chi ripa. Na frente deles, sobre o cavalo, a manta dobrada  o poncho.  
- E essas bolas penduradas?  
- So boleadeiras. Servem para deter um animal fugitivo, cavalo ou vaca. O chicote achatado com 
cabo de prata chama-se rebenque e a faca,facon. Eles vestiram a roupa de festa em nossa 
homenagem. So homens muito orgulhosos e esplndidos cavaleiros.  
A frente do carro, os gachos penetraram numa alameda ladeada por gigantescas rvores. Aps a 
poeira e o calor da estrada, aquela sombra refrescante foi muito bem-vinda. Rodaram por mais de 
um quilmetro. No fim da alameda, erguia-se um casaro de madeira, com varandas trabalhadas, 
dominando um amplo gramado. No sobrado, um grupo de homens conversava. O dono da casa aproximou-se para receber os 
recm-chegados.  
-  a Srta. Delmas?... Bem-vinda  estancia Ortiz. Voc  ainda mais encantadora do que o meu 
filho contou. Tenho uma surpresa: um amigo seu que, por acaso, tambm faz parte do meu crculo 
de amizades, veio nos visitar.  
- Um amigo?...  
- Sim: o Sr. Vanderveen.  
La mal conseguiu disfarar seu descontentamento.  
- Bom dia, La... O mundo  mesmo muito pequeno. Quando soube que voc viria, aceitei com 
alegria o convite do meu amigo Ortiz. Fiz bem, no acha?  
- Claro - respondeu La, apesar de pensar: V para o inferno!  
- Vejo que sua permanncia na Argentina est sendo proveitosa. J conhece toda a alta sociedade: as 
famlias Ocampo e Ortiz representam o que h de melhor.  
- Conhece-os tambm, ao que parece.  
- Negcios, minha cara, negcios. Como vo seus amigos to simpticos, os Tavernier?  
- Creio que esto bem.  
- No me diga que no tem notcias deles, vocs parecem to ntimos...  
Guillermina contornou aquela situao embaraosa:  
- Venha, La, vou lhe mostrar seu quarto. Fica perto do meu, assim poderemos conversar bastante.  
No interior da casa, reinavam conforto e riqueza: belssimos mveis da poca vitoriana, sombrios 
retratos de antepassados, elegantes esttuas de bronze e suntuosos tapetes. No alto da escada que 
conduzia ao andar de cima, uma tapearia do sculo XVIII com tonalidades veladas, representando 
o julgamento de Salomo, chamou a ateno de La.  
- Gostou? - perguntou Guillermina. - Pois eu detesto. Quando era pequena, sentia o maior medo de 
ser apanhada pelo rei e de ser cortada ao meio. Cada vez que eu passava por aqui, gritava 
tanto que tiveram de mudar meu quarto com minha governanta para o trreo.  
- Um dia - disse Jaime -, eu me fantasiei de rei Salomo, se voc a visse!... Por pouco, precisaram 
la-la!  
- E voc, no dia em que apareci debaixo de um lenol, fingindo que era um fantasma, no se 
mostrou dos mais corajosos.  
-  verdade, masj faz muito tempo. Quanto a voc, confesse que sempre teve medo do rei 
Salomo.  
- No  verdade - comentou Guillermina, vermelha de raiva.  
- Claro que sim.  
- Meninos!.., parem de brigar, O que vai pensar sua nova amiga?... Parecem crianas - disse a Sra. 
Ortiz, em p no alto da escada.  
Embaraados, os dois irmos ergueram os ombros, olhando-se com rancor.  
Era a mesma coisa com Laure e Franoise, recordou-se La, sorrindo com indulgncia. Mas a 
lembrana de Laure apagou seu sorriso. Sentiu um aperto no corao. Aflita, acompanhou 
Guillermina at o seu quarto.  
O aposento era lindo, o verdadeiro quarto de uma jovem, a cama enfeitada com um cortinado de 
renda branca, exatamente como nos filmes americanos. Pairava um cheiro de cera e lavanda. Assim 
como em Montillac. Mais uma vez, La mergulhou em suas tristes recordaes. Sentia saudades de 
casa. O que estava fazendo aqui, to distante de sua realidade? O que procurava? Um profundo 
desconforto a invadiu; em sua mente, tudo se debatia como um pssaro apanhado na armadilha; a 
confuso de seus pensamentos fazia com que ela caminhasse pelo aposento, tal qual uma fera 
enjaulada!  
La acordou sobressaltada, com uma terrvel enxaqueca. Que horas seriam?.., estava muito escuro.  
A festa fora at tarde da noite. Aps o assado, os gachos mostraram toda sua habilidade a cavalo, 
um cantor apresentou melodias melanclicas e em seguida Jaime e a irm quiseram 
danar: samba, merengue, boogie-woogie, um ritmo atrs do outro. La danou at perder o flego. 
O dono da casa, Manuel Ortiz e Rik Vanderveen chegaram a interromper a conversa para v-la 
rodopiando. Ela tambm bebeu muito. Com Jaime, deu uma demonstrao de tango que arrancou 
aplausos da platia. Rik a convidou para acompanh-lo numa msica lenta; La gostou de sentir o 
corpo bem apertado entre os braos de Vanderveen, e ficou irritada com sua prpria sensao. Uma 
dana, ainda vai.., mas por que aceitou ir com ele para o jardim, e no o repeliu quando Rik a 
beijou?... Seria o lcool, a falta de homem?... La levantou-se no escuro e tomou lentamente um 
copo de gua enquanto abria a cortina de sua janela. Tudo parecia to calmo... nem um rudo, nem 
uma luz. Entretanto, l fora... um crculo luminoso.., algum com uma lanterna.., a claridade 
aproximava-se da casa... Trs ou quatro silhuetas de homens que pareciam carregar um pesado 
fardo... La conseguiu ouvir murmrios.., em espanhol... A lanterna iluminou um rosto... Sr. Ortiz... 
o que fazia ele, em sua prpria casa, com aqueles estranhos personagens?... Outro rosto surgiu 
rapidamente da sombra... Rik Vanderveen!... Um dos homens xingou em alemo... La recuou, 
apavorada... no era possvel, devia estar sonhando.., pensou ter reconhecido a voz do homem que 
dizia chamar-se Barthelemy... ento, o outro era... O que fazia Ortiz com notrios nazistas?... E 
aquele volume?.., era um corpo!... os quatro homens afastavam-se.., um rudo de motor... alguns 
segundos mais tarde, acenderam-se os faris... e desapareceram sob as rvores. No escuro, La 
abriu a porta do quarto; lamparinas iluminavam fracamente o corredor deserto. O imenso casaro 
parecia dormir. Ela hesitou em frente  porta de Guillermina... e dirigiu-se para a escada. Na 
verdade, o rei Salomo tinha mesmo um ar terrvel; La teve a sensao de que ele a seguia com um 
olhar de censura. O trreo encontrava-se mergulhado na escurido.., no completamente; sob uma 
porta, na outra ponta do imenso salo, uma luzinha fraca... La aproximou-se tentando evitar os 
mveis.., de repente, a porta abriu-se, ela s teve tempo de recuar e se esconder atrs de um sof... 
Jaime saiu, deixando a porta entreaberta... Daquele aposento, vinha um forte cheiro de charuto... De 
p, alguns homens 
falavam com voz abafada. No!... s podia ser um pesadelo!.., ali, na parede... um retrato e duas 
bandeiras!... aquele retrato! aquelas bandeiras!... aqui!... Sarah e Samuel tinham razo!... Em toda 
parte!... eles estavam em toda parte!... no morreram!.., um rudo de copos e garrafas... Jaime 
voltava, empurrando um carrinho repleto de bebidas... La ainda ouviu as discretas exclamaes de 
alegria e a porta se fechou... uma rolha de champanha... o silncio... Em seguida, como uma 
chicotada, vigoroso, sepulcral, maldito naquela tranqila noite argentina, um s grito... Heil
Hitler!...

Captulo 23

- Rpido, La, estamos esperando, vamos dar um passeio pelos pampas - gritava Guiliermina atrs
da porta.  
- J vou...  
- Por que est trancada?... Vou pedir ch para voc... No demore, os homens j saram h muito 
tempo.  
La levantou-se precipitadamente e abriu a cortina. Fechou os olhos, ofuscada. Tomou uma ducha 
bem fria... Pouco a pouco, sentiu o corpo e a mente novamente despertos... e precisou segurar-se 
nas paredes do chuveiro. Aquela noite?... Um pesadelo?... deslizou e ficou agachada; em seguida, 
sentiu uma violenta nusea subindo... La vomitou... Violentas batidas na porta despertaram-na 
daquele marasmo. Com dificuldade, conseguiu sair do chuveiro, vestiu o penhoar e, com os cabelos 
escorrendo, abriu o trinco.  
- Oh! ... O que aconteceu?... voc nos assustou!... J amos chamar algum para arrombar a porta... 
Que cara  essa?... est doente?... Mame, mame, La no est passando bem!...  
- Pode deixar, Guillermina, no  nada. No dormi muito bem, s isso. E estou com uma terrvel 
enxaqueca.  
- Se voc visse sua cara! Est plida como um cadver! Deve ter bebido demais ontem  noite.  
- O que aconteceu? Eu soube que voc no se sente bem - disse a Sra. Ortiz, em traje de montaria, de 
chicote na mo.  
- Pois , senhora, mas no ser nada demais. Se me der licena, vou ficar no quarto... 
- E nosso passeio? - perguntou Guiflermina, decepcionada.  
- No mudem sua programao por minha causa. Vo indo. Eu vou descansar para estar em forma  
noite.  
- Tem certeza de que no ir se aborrecer, sozinha?  
- No, Guiliermina, obrigada mesmo. Aproveitem bastante e divirtam-se. Desculpe-me, senhora.  
- Claro, vou pedir que lhe preparem uma refeio leve. Enquanto isso, tome bastante ch.  
- Muito obrigada.  
Aps duas xcaras de ch, La comeou a se sentir melhor e a pensar na situao com mais clareza: 
em primeiro lugar, secar o cabelo, vestir-se, saber se era realmente um corpo que ela havia visto 
durante a noite e encontrar-se com Franois ou com Victoria Ocampo. Empurrou a porta do 
aposento na outra ponta do salo onde, na vspera, ocorrera aquela terrvel cerimnia. Uma 
biblioteca com todas as prateleiras de madeira escura, iluminadas por belos livros encadernados; 
no havia mais retratos, nem bandeiras, apenas um local confortvel e sossegado. Numa mesinha, 
um telefone... La tirou o aparelho do gancho: no!... esquecera-se que a telefonista s falava 
espanhol!... Desligou irritada. Vagando pela casa, falou com os empregados para pedir a ligao: 
sacudiram a cabea com ar desolado.  
O sol brilhava forte; havia um chapu de palha jogado numa poltrona de vime da varanda. La 
colocou-o na cabea, atravessou o gramado e chegou a uma alameda que corria entre as rvores. 
Caminhava h algum tempo, perdida em seus pensamentos, quando ouviu um rudo de motor. 
Instintivamente, recuou no bosque e escondeu-se atrs de uma rvore: exatamente como durante a 
guerra, pensou. Uma caminhonete suja de poeira passou lentamente. Do lado de dentro, homens 
armados olhavam atentamente para cada lado do caminho. Na mais completa imobilidade, La 
lembrou-se que vestira roupas escuras, o que era timo naquelas circunstncias. O veculo afastou-
se. O rudo do motor desaparecera h muito tempo quando ela resolveu sair do seu esconderijo e 
retomar a caminhada. Atravs das rvores, avistou uma casa baixa. 
Aps uma breve hesitao, La dirigiu-se at a construo. Rodeou a casa... o lugar parecia 
abandonado. As entradas davam todas para um ptio interno coberto de capim, carroas 
quebradas, material enferrujado. Silncio total. Por uma porta aberta, ela avistou um 
aposento srdido, cheio de todo tipo de detritos. No meio, uma velha mesa de madeira com 
os ps corrodos entulhada de pratos, copos sujos e cinzeiros transbordando de restos de 
cigarros e charutos; pairava um cheiro de mofo e tabaco frio. Num canto do aposento, uma 
lareira repleta de restos de papis queimados. La tocou as cinzas mornas; nas folhas 
poupadas pelo fogo, viam-se listas de nmeros. Do lado oposto  lareira, havia um colcho 
de palha. E se o embrulho da noite passada estivesse escondido aqui?... A palha parecia 
fresca e limpa, o que contrastava com a sujeira do lugar. Em meio a espirros, La afastou a 
palha. Surgiu ento um alapo... fechado com cadeado, mas... o cadeado encontrava-se 
aberto! La abriu o alapo sem grandes dificuldades. Uma escada descia e se perdia numa 
espcie de poo negro. No havia nada que pudesse trazer um pouco de luz?... Sobre a 
mesa, uma velha lamparina. Meio assustada, ela desceu, segurando a lmpada com uma das 
mos e a escada com a outra. Seus ps tocaram o cho coberto de areia fina. Encontrava-se 
num poo de terra de onde partia um subterrneo. Parece a masmorra do velho castelo de 
Saint-Macaire, pensou. A lembrana de suas aventuras quando criana redobrou sua 
coragem. Curvada, penetrou no tnel. Logo em seguida, uma grade impediu-a de continuar; 
no entanto, ela conseguiu empurr-la. Pde ento aprumar-se. No cho, sobre a areia, havia 
palha, farrapos e correntes. Uma verdadeira priso de romance de aventuras!... Com a ajuda 
da lamparina, examinou os trapos velhos. Na realidade, tratava-se de um casaco de pano 
rasgado e todo manchado. Constatou sem surpresa alguma que eram manchas de sangue. 
Enojada, Lajogou fora a vestimenta mas mudou de idia; abaixou-se e examinou os 
bolsos... vazios. No cho, perto do lugar onde deixara cair a roupa, uma claridade... ela 
afastou a areia e conseguiu abrir uma brecha por onde enfiou a cabea: respirou com 
volpia o perfume da terra arborizada. Apagou a lamparina e, com op, aumentou a 
abertura. Algum passara 
por ali recentemente, o que explicava a relativa facilidade de sua tarefa. Por fim, encontrou-se ao 
ar livre, entre as razes de uma rvore altssima, cujos mltiplos troncos formavam, por si s, um 
pequeno bosque. Ao redor, plantas pisoteadas, marcas profundas revelavam que vrias pessoas 
haviam examinado o solo em volta da rvore. Sacudindo o cabelo e a roupa cobertos de terra, La 
seguiu as pegadas e veio dar na estrada. Voltou, sentou-se e recostou-se num dos troncos; ela no 
podia ficar mofando naquele lugar. Adormeceu, exausta.  
O rudo de uma queda e um gemido abafado despertaram-na daquele torpor. Abriu os olhos e sentiu 
a mo que lhe tapava a boca, impedindo-a de gritar.  
- Cale-se, no diga nada!... Acalme-se... No, no est sonhando. Posso solt-la?  
Ela fez que sim com a cabea.  
Era Daniel!... Daniel, sujo, barbado, os olhos inchados e vermelhos, o peito nu coberto por uma 
atadura imunda, descalo, a cala em frangalhos.  
- Era voc que eles carregavam na noite passada?  
- Era, eu desmaiei depois de me torturarem muito... queriam saber se eu a conhecia e quais eram 
meus cmplices. No contei nada, exceto que era alemo como eles e fugira da Alemanha com 
documentos falsos.  
- Acreditaram em voc?  
- Em Buenos Aires, a polcia argentina que me prendeu, falsa ou verdadeira, ficou desconfiada, mas 
por pouco tempo. Fui atirado num carro e trazido para c, onde me espancaram, de olhos vendados. Despertei numa espcie de poro. Ao me verem to machucado, julgaram 
intil me amarrar. 
Durante a noite, senti um filete de ar, cavei a terra e acabei desembocando aos ps dessa rvore.  
- Segui o mesmo caminho, mas no podia imaginar quem iria encontrar!  
- Estamos longe de Buenos Aires?  
- No sei exatamente. Uns seiscentos, oitocentos quilmetros. Aqui a estancia Ortiz, a duzentos 
quilmetros de Mar dei Plata. 
- O que voc faz aqui? No est presa?  
- No... ainda no. Encontro-me hospedada na casa de Victoria Ocampo, mas vim passar uns dias na 
estancia com os filhos dos Ortiz. Essa noite, surpreendi juntos os dois nazistas do navio em 
companhia de Ortiz. Rik Vanderveen tambm se encontra na estancia.  
- Rik Vanderveen?... Qual  a dele nessa histria? As informaes de Tel Aviv a seu respeito so 
incontestveis: trata-se realmente de um industrial holands.  
- Talvez..,  muito estranho...  
-Mas...  
- Espere, no acabei: na estancia, pude presenciar um encontro do qual participava Jaime, o filho do 
dono da casa, diante de um retrato de Hitier e bandeiras com a sustica.  
- Eram alemes?  
- Havia alguns, no pude ver quantos. Alm do mais, falavam espanhol.  
- Entendeu o que diziam?  
- Voc sabe que no compreendo uma palavra dessa lngua.  
- Comecei a aprender, j consigo me virar. Preciso regressar a Buenos Aires. Pode me conseguir 
dinheiro e roupas?  
- Vou tentar. Mas voc no pode ficar aqui. Ainda h pouco, cruzei com um caminho cheio de 
homens armados.  
- Esto procurando por mim.  
- Como conseguiu escapar?  
- Tive muita sorte; procuraram debaixo das rvores, nas moitas, mas no para cima. Trepei na rvore 
e me escondi entre os galhos. Quando vi voc, cheguei a pensar que se tratava de uma alucinao.  
- O que vamos fazer?  
- Volte para a casa. Vou segui-la de longe, pelo bosque, e  noite voc vai me trazer tudo o que 
preciso.  
- Acha que vai ser to fcil assim? Entre a casa e as rvores, h um imenso gramado, do tamanho da 
Place de l'Etoile, e  noite creio que os vigias ficam de guarda.  melhor agir  luz do dia.  
- luzdo dia?... 
- Sim, todos saram a cavalo e vo passar o dia fora, s ficaram os empregados. Vou pedir um 
lanche e coloc-lo numa cesta junto com a roupa.  
- E a roupa?  
- Jaime  mais ou menos do seu tamanho, vou procurar no quarto dele.  
- Tudo bem, ento vamos indo.  
Daniel levantou-se com dificuldade e fez uma careta de dor.  
- Consegue caminhar?  
- No se preocupe, vai dar certo.  
Ao chegarem perto da casa, Daniel, exausto, no agentava mais; seu curativo imundo exalava um 
cheiro ftido.  
- Voc precisa de um mdico.  
- Veremos mais tarde, ande logo.  
La correu em direo a casa.  
- Isso deve dar - disse ela em voz alta, tirando do cabide um terno de linho marrom.  
Nas gavetas da cmoda, apanhou roupa de baixo e uma camisa; no armrio, encontrou sapatos de 
lona confortveis, e no banheiro achou tudo o que precisava para fazer um novo curativo.  
Ao sair do quarto, ouviu o telefone tocando. Algum atendeu. Segundos mais tarde, uma voz 
chamou embaixo da escada:  
- Sefiorita... seuiorita, una ilamada para usted.  
La desceu como uma louca.  
- Cmo?  
- El telfono est en la oficina - disse a empregada, apontando para a biblioteca.  
- Al!...  
- Al!...  voc, La?...  
- Franois!...  
- Est sozinha?...  
- Sim.  
- Bem, no me interrompa... Est em perigo... Vou te buscar... Encontro-me em Mar dei Plata... 
Victoria Ocampo vir comigo...  
-Mas...  
- Esteja pronta na parte da tarde.  
- Deixe-me falar... Encontrei Daniel.  
- Daniel?  
- Sim, estava preso... fugiu...  
- Como vai ele?  
- No muito bem, com uma ferida no peito.  
- Grave?  
- No sei.  
- Tome muito cuidado at eu chegar...  
- Al!... al!...  
A ligao fora cortada. La desligou.  
Na copa, ela pediu com gestos que lhe preparassem um lanche e que o colocassem numa cesta com 
uma garrafa de gua.  
O cozinheiro, acostumado com as extravagncias dos donos da casa, no se surpreendeu. La levou 
a cesta para seu quarto.  
Tirou a comida, escondeu no fundo a roupa e os sapatos, e reps tudo por cima.  
Com ar descontrado, La atravessou o gramado e penetrou no bosque. No encontrou ningum.  
- Daniel, chamou em voz baixa.  
Onde ele estava? Desamparada, La olhou  sua volta... ali... a grama pisada... ele se encontrava 
deitado de bruos numa vala rasa. Ela se aproximou.  
- Daniel...  
Ele no se moveu. Apavorada, ela o sacudiu. Daniel estava desmaiado. Ela conseguiu vir-lo com 
muita dificuldade. Sob o peito, do lado direito, havia uma enorme ferida purulenta onde o sangue se 
misturara a terra e folhas. Cerrando a boca e o nariz, La despejou gua sobre a chaga. Depois de 
limpa, a horrvel leso  
parecia ainda pior. Quando colocou lcool em cima, Daniel teve um sobressalto e abriu os olhos. 
Apesar da dor, conseguiu sorrir.  
- Estou com sede.  
La despejou lentamente um pouco de gua entre os seus lbios quentes e lavou o rosto do rapaz. 
Ele conseguiu erguer-se e olhou sua ferida.  
- Que coisa mais feia.  
- Segure a compressa.  
Aps fazer o curativo, La o ajudou a tirar a cala rasgada e a vestir as roupas que trouxera. Os 
sapatos eram um pouco grandes para ele.  
- Agora sim, voc est mais apresentvel. Precisamos comer.  
- No tenho fome.  
- Eu tenho, e voc tem de fazer um esforo... Pronto, muito bem... Agora, escute: Franois 
Tavernier me telefonou.., contei que voc estava aqui... ele vem nos buscar...  
- At que enfim uma boa notcia! Quando ele chega?  
- A tarde.., voc acha que conseguir agentar at l?  
- No se preocupe. No trouxe nenhuma bebida alcolica?  
- Claro, roubei uma garrafa de Armagnac.  
- Armagnac? Assim meu moral vai melhorar logo. La...  
- Sim?  
- Obrigado por tudo.  
- Que besteira... Espere a gente sair daqui... Agora preciso voltar. Por favor, fique onde est.  
- Abrace-me.  
La inclinou-se sobre a testa molhada de suor e a beijou.  
- Melhor do que isso - disse Daniel, puxando-a para perto.
Seus lbios encontraram-se. La reprimiu um movimento de repulsa: ele ardia em febre.
Completamente transtornado, ele ficou observando La se afastar.

Captulo 24

La acabava de entrar no quarto quando um rudo de cavalgada atraiu-a  janela. Os cavaleiros
estavam de volta. Logo em seguida, o casaro foi invadido por gritos, risos, pisadas, corridas pelas
escadas. A porta de seu quarto foi aberta por Jaime e Guillermina que se empurravam. Era
impossvel de acreditar que se tratava do mesmo rapaz da noite anterior. O oposto de um cafajeste.  
- Como vai?... Melhor, pelo que estou vendo. Sentimos sua falta. O que andou fazendo?  
- Um piquenique sob as rvores.  
- O que ela fez no  da sua conta - disse Guiliermina - Coitadinha, ser que se aborreceu, sozinha?... 
Logo mais,  noite, vai recuperar o tempo perdido. Vou trocar de roupa, at j... Voc no vem, 
Jaime?  
- J vou.  
- Cuidado, ele se julga um dom-juan.  
- V logo, que droga! - disse ele, batendo a porta com fora.  
-  sempre assim, entre vocs dois?  
- Desde criana, a gente no se suporta, mas no consegue ficar longe um do outro.  
- Assim como eu, com minhas irms.  
- Ligaram para voc, hoje  tarde. Quem foi?  
Quanta rispidez em sua voz! Completamente diferente do tom que usara antes.  
- Mas isso no  da sua conta!  
- Tudo o que acontece aqui  da nossa conta, minha e do meu pai. Vou repetir: quem foi?  
- A Sra. Ocampo.  
- A querida Victoria, e por que no falou logo?  
- No achei que fosse importante.  
- O que ela queria?  
- Saber como vo as coisas, se estou gostando daqui.  
- O que respondeu?  
- Que o lugar era horrvel e as pessoas, muito antipticas.  
Jaime riu s gargalhadas.  
- J vi que voc gosta de brincar, eu tambm. No viu ningum?  
- Tirando os empregados, ningum.  
- Agora vou deix-la, arrume-se bem bonita para o jantar.  
Sozinha no quarto, La tomou banho, lavou o cabelo e vestiu-se elegante e confortavelmente; no 
podia usar nada que atrapalhasse seus movimentos. Guardou algumas coisas ntimas numa sacola 
que deixou atrs da porta e desceu.  
Umas dez pessoas tomavam aperitivos, sentadas na varanda. Dentre elas, Rik Vanderveen. 
Aproximou-se, um copo na mo.  
- Sente-se melhor? Eu soube que no passou muito bem.  
- Bem melhor, obrigada. Como foi seu dia?  
- Agradabilssimo. E o seu?  
- Calmo e sossegado.  
- Passeou pelo bosque?  
- No, fiquei sob as rvores, perto do gramado.  
Jaime aproximou-se com o pai.  
- Voc est linda, folgo em saber que j ficou boa.  
- Obrigada, senhor.  
- Meu filho me contou que a Sra. Ocampo lhe telefonou. Como vai nossa querida amiga?  
- Bem. Pelo que entendi, ela deve vir para c.  
La percebeu os olhares de Manuel Ortiz e Rilc Vanderveen.  
- Que boa idia - comentou este ltimo. - Deseja tomar alguma coisa?  
- Obrigada, mais tarde.  
A noite chegou rapidamente, o gramado e os arredores do casaro iluminaram-se. La respondia 
distraidamente s perguntas dos convidados, sempre atenta a um rudo de motor. Um pouco 
afastados, Manuel e Jaime Ortiz conversavam com Rik Vanderveen. O jantar estava servido 
quando todos ouviram um rudo cada vez mais forte; levantaram a cabea: havia luzes piscando no 
cu, aproximando-se da estancia.  
- Um avio - exclamou Guiflermina.  
- Deve ser Jos que quer nos fazer uma surpresa - disse a Sra. Ortiz.  
O pequeno avio aterrissou no gramado, foi at o final, deu meia-volta e parou em frente  varanda. 
Todo mundo correu at l. Com o corao a mil, La reconheceu Franois na cabine. Eu no sabia 
que pilotava, pensou. Sei to pouco a seu respeito. Manuel Ortiz ajudou Victoria Ocampo a descer 
do aparelho.  
- Que prazer - disse ao beijar-lhe a mo.  
- Fiz questo de acompanhar meu amigo, o Sr. Tavernier. Sua esposa est doente e pede a presena 
de La. Viemos busc-la.  
- Meu Deus! Sarah est doente?  
- Sim, gravemente. E insiste para que voc fique junto dela  
- disse Franois aflito.  
- Ento, vamos logo; s vou arrumar minhas coisas.  
-  uma pena - disse o dono da casa-, mas no permitirei que partam sem jantar conosco.  
-Mas...  
- Minha querida La, suba. Faa suas malas e depois junte-se a ns na sala de jantar. Guillermina vai 
ajud-la.  
No havia como argumentar diante daquele tom de voz; era preciso ceder. Como avisar Daniel? Ela 
se aproximou de Tavemier, segurou-lhe o brao e falou bem alto para que todos ouvissem:  
- No se preocupem, Franois vai me ajudar; enquanto isso, poder me dar maiores detalhes a 
respeito de Sarah.  
Encontravam-se na escada, e ningum os seguira. No quarto, abraaram-se impetuosamente.  
- Onde est Daniel?  
La o levou at a janela.  
- V aquela alameda? Ele se encontra numa vala. Mas como ir busc-lo com toda essa iluminao?  
- Teremos de cortar a luz. Voc no reparou onde ficam os fusveis?  
- No... sei l... Perto da copa, tem um quadro cheio de interruptores.  
- Precisamos tentar. Voc pensa levar essa mala?... No tem lugar, pegue s uma bolsa.  
- J est pronta.  
- Tudo bem. Agora, mostre-me onde fica a copa. Se eu conseguir apagar toda essa droga de luzes, 
nada de pnico, fique onde estiver para que ningum desconfie de nada. No escuro, vou trazer 
Daniel para c.  
Todos j se encontravam  mesa quando eles entraram. A dona da casa acenou para Franois 
Tavemier, pedindo que se sentasse a seu lado. La ficou entre Jaime e o pai, que tinha Victoria  
sua direita.  
- Oh, Franois, voc poderia ir at o avio, esqueci meu xale. Desculpe-me, caro amigo - disse ela a 
Ortiz -, estou um pouco gripada.  
Tavernier saiu, correu at o avio, pegou o xale e, sem parar de correr, dirigiu-se ao lugar indicado 
por La. Abriu uma espcie de cortina. Era realmente a caixa dos fusveis responsveis pela 
iluminao da casa e dojardim. No havia muito tempo. Tirou o isqueiro do bolso, esvaziou o 
contedo com o que encharcou a caixa e a cortina e riscou um fsforo. Uma chama azulada 
apareceu, a cortina e a caixa dos fusveis arderam como uma tocha.  
- Exploda logo, droga!  
Seu desejo realizou-se; mltiplas fascas jorraram, as luzes se apagaram no jardim e na casa. 
Franois precipitou-se para fora.  
Na sala de jantar, todos gritavam:  
- Estamos sem luz outra vez!  
- Igual a ontem!  
- No se preocupem, meus amigos, vamos acender as lamparinas... Maria, Jos... pronto...  
muito romntico, no ?  
- Costuma ser freqente? - perguntou Victoria Ocampo.  
- Infelizmente sim, no estamos to bem equipados quanto em Buenos Aires, ou na Frana, no , 
Srta. Delmas?  
Responder... falar para no provocar sua desconfiana.  
- O senhor sabe, na regio de Bordeaux acontece muito, principalmente durante as tempestades, que 
costumam ser violentas por l.  
- No conheo Bordeaux, mas seu vinho sim.  excelente! Sua famlia cultiva a vinha?  
- Sim, o vinho da regio  muito bom, mas no produzimos uma grande quantidade. Quando da sua 
prxima viagem  Frana, espero que possa vir nos visitar para degust-lo; ser um grande prazer 
para ns.  
- Obrigado, senhorita, vou me lembrar do seu convite. Jaime, veja onde est o Sr. Tavemier, deve ter 
se perdido no escuro.  
O rapaz saiu, La cerrou os punhos sob a mesa.  
- Pap, pap, hay un incendio!'  
Levantaram-se todos e correram para a porta.  
Imensas chamas corriam pelas paredes, o acesso  copa e  cozinha encontrava-se interditado. Um 
vigia entrou com um balde de gua.  
- Patro, vi o fogo, a gente est organizando uma corrente, era bom as senhoras sarem.  
- Daniel... Daniel... sou eu, Tavernier!  
- Estou aqui.  
- Tudo bem?... Consegue caminhar at o avio?  
- Vou conseguir.  
Encontravam-Se perto do aparelho quando as chamas surgiram da casa.  
- Foi voc quem fez isso?  
- No tinha outra escolha, suba...  
- Ai!... 
- Sinto muito, amigo... Cubra-se com essa lona.., e no se mexa, pode demorar.  
Tavernier tirou um balde das mos de um empregado.  
- Ah, que bom que est aqui. Obrigado por nos ajudar - disse Jaime.  
- Como o incndio comeou?  
- No sei, veremos mais tarde. Agora, precisamos apag-lo.  
Isso foi feito com menos dificuldade que se pensava. A copa estava totalmente destruda, assim 
como uma parte da cozinha. Manuel Ortiz examinou os estragos.  
- Tivemos sorte, poderia ter sido muito pior. Com certeza um curto-circuito. S me resta fazer uma 
instalao mais moderna. Senhoras, podem voltar  sala de jantar, meus amigos e eu vamos nos 
limpar. Senhores, obrigado por sua ajuda. Sr. Tavernier, sua eficcia foi espantosa; mais uma vez, 
muito obrigado - disse Manuel Ortiz ao lhe estender a mo.  
O jantar,  luz das lamparinas, chegara ao fim. Os homens foram at a varanda fumar . Estava muito 
escuro.  
Victoria Ocampo aproximou-se de Manuel Ortiz.  
- Caro amigo, vamos nos despedir, estou exausta.  
- Tem certeza de que no prefere passar a noite aqui?  
- Sim, o Sr. Tavernier precisa voltar a Buenos Aires o quanto antes. O estado da sua esposa  
gravssimo. La, est pronta?  
- Estou. S vou levar uma sacola, Guillermina me entregar o resto em Mar del Plata.  
Franois pegou a bolsa e, acompanhado por Victoria e La, dirigiu-se at o avio depois de 
cumprimentar Manuel Ortiz, a esposa, os filhos e todos os convidados.  
Victoria Ocampo foi a primeira a subir. Os faris de um veculo apareceram ento em meio s 
trevas. Tavernier ajudou La e subiu por ltimo. Uma caminhonete parou diante da casa, em meio a 
um rangido de freios. Dois homens saltaram, com revlveres no cinto. Franois ligou o motor. A 
hlice comeou a girar. Um dos homens, muito agitado, disse alguma coisa no ouvido de Manuel 
Ortiz. Este  
fez um gesto de profunda irritao. O avio deslizou lentamente pelo gramado... Ortiz correu em 
direo ao aparelho, seguido do filho e dos homens da caminhonete, empunhando as armas... O 
avio aumentou a velocidade... ouviu-se um tiro... O bosque tornava-se cada vez mais prximo... s 
conseguiram decolar bem em cima das rvores...  
No interior do avio, reinava um silncio profundo e tenso, cada um dos passageiros pensando no 
pior. Ao alcanarem uma certa altitude, todos se descontraram.  
- Tivemos muita sorte - disse Victoria Ocampo, com voz calma.  
- Sim, no imaginei que tudo corresse to bem - comentou Franois. - Como vai Daniel?  
- Desmaiou - respondeu La.  
- H um mdico  nossa espera em Buenos Aires.  
- Como, no vamos a Mar del Plata? - perguntou Victoria.  
- No,  muito perto do bando de Ortiz. Os nazistas tm inmeros cmplices em toda a regio. Em 
Buenos Aires, a segurana ser maior. Sinto muito, senhora, por toda esse transtorno.  
- No tem importncia. Odeio os nazistas e seus parceiros, principalmente quando se trata de 
compatriotas. Fico feliz por ter ajudado a salvar esse rapaz.  
O avio aterrissou no clube aeronutico do rio da Prata. Samuel e Sarah encontravam-se  espera 
dos amigos.  
- Daniel est com vocs?  
- Sim.  
- Foi gravemente ferido?  
- Com certeza. Permaneceu desmaiado a viagem inteira.  
- Tem um mdico no carro  nossa espera.  
Daniel, ainda inconsciente, foi cuidadosamente retirado do aparelho. Colocaram-no no carro, que 
partiu, levando ainda Sarah e Samuel.  
- No falei com ningum a respeito da minha chegada - comentou Victoria com ironia. - Vou para o 
Plaza.  
- Vou acompanh-la - disse Franois, abrindo a porta do txi que os esperava.  
A porta do elevador se fechou sobre Victoria Ocampo.  
- Enfim ss - sussurrou Franois. - Todas aquelas emoes me deram sede. O que voc acha de uma 
taa de champanha?  
- Aceito com todo o prazer, mas viu a hora?... O bar j fechou h muito tempo.  
- Vou dar um jeito.  
Ele falou com o recepcionista enquanto lhe passava algumas notas.  
- Voc espera um pouco? Prefiro tratar disso sozinho. Morrendo de sono, encolhida numa poltrona, 
La nem respondeu. Encostado no balco da recepo, Franois observava-a com emoo. Que 
mocinha danada! Revelou a maior firmeza durante toda aquela aventura. Ele sabia perfeitamente 
que se o bando de Ortiz conseguisse deter o avio e prender Daniel, nenhum deles escaparia. 
Conhecia muito bem os mtodos radicais dos nazistas da Amrica do Sul. A presena de Victoria 
Ocampo fora providencial, mas at que ponto? Aqueles homens poderiam facilmente sumir com o 
avio, como se fosse um mero acidente no qual a Sra. Ocampo teria desaparecido. Sem 
testemunhas...  
- Aqui tiene su Champagne. Est seguro que no quiere que se lo subamos?  
- No, gracias. Buenas noches.  
- Buenas noches, senor, buenas noches seuiorita.  
Pronto, senhor, seu champanha. No prefere que o levemos at o quarto?
 No muito obrigado, boa noite.  
Boa noite, senhor, boa noite, senhorita. 
Uma intensa atrao fsica no deixou que os dois jovens tomassem o champanha gelado.

Captulo 25

La e Carmen Ortega terminavam de almoar no restaurante do Plaza.
- No entendo por que Daniel est na sua casa. No sabia que se conheciam.  
- Che, eu no o conhecia! Uns amigos me pediram para escond-lo enquanto est se 
restabelecendo.  
- Amigos?...  
- Che, camaradas das juventudes comunistas.  
- Porque voc  comunista?...  
- Sim - respondeu Carmen, orgulhosa.  
- Mas pensei...  
La, perplexa, olhava para sua nova amiga. Nunca desconfiara de nada, quanto  linda e excntrica 
apresentadora da Radio Belgrano. La encontrara muitos comunistas na Resistncia, mas quase 
todos homens...  
- Qual a relao entre Daniel e os comunistas?  
- Lutamos com os mesmos inimigos e trocamos informaes.  
- Eva Pern sabe que voc  comunista?  
- Este  um dos motivos das nossas discusses, mas so tantos!  
- No  perigoso para voc esconder Daniel?  
- Somos muito cautelosos. O apartamento est sendo vigiado dia e noite por camaradas. Tem 
sempre algum junto dele, che.  
- Quando posso v-lo?  
- Agora no, ele precisa de muito repouso. Voc no se esqueceu da aula de tango, hoje  noite?  
- No, irei com Sarah.  
- Che, vou deix-la, tenho um programa daqui a uma hora e antes preciso passar pelo jornal La Nacin.  
- Vou escrever a minha irm Franoise e depois irei s compras.  
- D uma olhada na loja Gath y Chaves. Chegaram uns vestidos dos Estados Unidos bem em conta.  
- Obrigada pela informao.  
- Mais leveza, senhorita, mais leveza! ... Ombros erguidos... Assim, est melhor - dizia Arturo Sabatini com um 
sotaque que encantava Sarah e La. As duas jovens danavam juntas. La conseguia acompanhar melhor os 
movimentos de Sarah que os do professor.  
- Voc dana muito bem, sabe?  
- E voc fez muitos progressos.  
- No me venha com gozao!  
- Mas no estou zombando, juro... A propsito, Daniel quer v-la.  
- Mas... Carmen me disse que ele precisava de repouso.  
- Claro, mas, para o moral dele, voc precisa vir.  
- Tudo bem...  
- Srta. La, nada de conversa quando se dana tango.  
- Desculpe-me, professor - disse ela, morrendo de rir.  
Aps a aula, Carmen, Sarah e La encontraram-se na calada da avenida de Mayo.  
- Que tal tomarmos um chocolate no caf Tortoni?  perto daqui. 
La. 
- Chocolate, com esse calor!... Voc ficou louca - disse  
- O chocolate  muito... como se diz?... reanimador?.., no... 
restador?,,, 
- Restaurador.  
- Che, isso mesmo, restaurador. 
- Restaurador ou no, prefiro uma bebida gelada.  
- Voc pode tomar o que bem quiser.  
Aps uma longa discusso com Sarah, Carmen aceitou lev-las a sua casa para ver Daniel. Tomaram um txi, 
que as deixou perto do cemitrio da Recoleta...  
- Fica pertinho, vamos a p,  melhor.  
Na frente da entrada do prdio tipicamente burgus, Carmen falou com um rapaz. Depois de examinar 
atentamente La e Sarah, permitiu que entrassem.  
No terceiro andar, Carmen tocou a campainha trs vezes seguidas.  
- Abr, soyyo.  
 Abra, sou eu.  
A porta se abriu.  
- Quin es?  
- Amigas de Daniel, las cOnozco.  
Quem est a?  
Amigas de Daniel, conheo as duas.  
O homem que abrira a porta deixou-as entrar.  
- Como sigue ?  
- Mejor, Ernesto est a su lado.  
- Sabs Ernesto, me alegra mucho volver a verte.  
Como ele est?  
Melhor, Ernesto se encontra com ele.  
Ernesto, que bom rev-lo.  
Ela abriu outra porta. O quarto era bastante arejado graas a um ventilador e se encontrava mergulhado na 
penumbra.  
- Che, Ernesto, como ands ?  
Ernesto, como vai?  
Um rapaz moreno de cabelo bem curto, com umbelo rosto onde brilhavam lindos olhos negros, levantou-se da 
cama onde estava sentado.  
- Muy bien, Carmen, me dijeron que Daniel estaba en tu casa y que quera verme. Muito bem, Carmen. Fiquei sabendo que Daniel estava na sua casa e queria me ver. 
- Bom dia, Daniel, parece timo. Trago visitas para voc... 
- La!... Sarah... que bom rev-las. Samuel passou aqui de manh, depois Ernesto, agora vocs 
duas, quanta felicidade. Se soubesse que to lindas moas viriam me visitar, teria feito a barba.  
- Voc vai ficar muito bem de barba quando ela crescer mais um pouco - comentou Sarah. - Acho 
voc  timo assim. E voc, La?  
- Eu no, no gosto de homem de barba.  
- Ento, amanh vou tirar.  
- S vai fazer a barba quando estiver melhor, che - disse Carmen.  
- Nunca me senti to bem.  
Em seguida, num tom mais srio, perguntou a Sarah:  
- Voc tem notcias?  
O rosto da sua prima contraiu-se.  
- Tenho - respondeu com voz abafada.  
- No vejo a hora de me levantar desta cama... Ernesto, apresento minha prima Sarah, de quem j 
lhe falei, e nossa amiga La Delmas. Quanto a ele,  Ernesto, encontrei-o em Crdoba numa 
conferncia sobre arqueologia pr-colombiana. Simpatizamos logo. Ele foi meu guia em Crdoba.  
- E intrprete tambm, apesar do meu francs horrvel.  
- Que histria  essa? Seu francs no  pior que o meu - disse Carmen... - Mas por que esto rindo? 
Ah! entendi,  o meu sotaque...  
- Um pouco, mas seu sotaque  um charme, e mesmo assim a gente se entende perfeitamente,  o 
principal - disse La, abraando a amiga.  
- Preciso ir, meu irmo Roberto est me esperando - disse Ernesto. - Voltarei amanh. At logo, 
senhorita; at logo, senhora.  
O rapaz acabara de sair quando a campainha tocou trs vezes.  
- Deve ser Samuel, ele avisou que voltaria.  
La, sentada na cama, parecia pensativa e preocupada.  
- O que foi? - perguntou Sarah.  
- Acho que tem muita gente entrando e saindo, neste bairro e neste prdio to sossegados. Durante a 
guerra, vrios membros da Resistncia acabaram presos dessa maneira.  
- Voc tem razo - disse Sarah. - Por isso, amanh ou depois, o mais tardar, Daniel ir para outro 
esconderijo. Franois encontrou um lugar perto do porto.  
Samuel entrou e aproximou-se logo do irmo.  
- Parece bem melhor, que bom!  
- Tudo bem... Como esto Amos e Un?  
- Bem. Mandaram lembranas.  
- La e Carmen, vocs se incomodam de nos deixar a ss?  
- Claro que no, mas no o cansem demais, che! Vamos, La?  
A ss, Daniel perguntou:  
- Para quando ?  
- Esquea isso, voc precisa ficar completamente curado.  
- Mas eu me sinto muito bem. Sei que estava previsto para esta semana... Nem pensem em agir sem 
mim.  
- Calma, Daniel, no se trata disso - disse Sarah. - Estamos aguardando o momento oportuno. Em 
princpio, elas devem deixar o Hotel Jousten na sexta-feira. Assim, voc tem mais trs dias para 
descansar e ficar em forma.  
-  mais do que suficiente. Claro, La no tem nada a ver com isso.  
- Claro - comentou Sarah com certa hesitao.  
- Ela j se arriscou muito por mim, no quero que nada lhe acontea. Promete, Sarah?  
- Que  isso? Voc est apaixonado?  
O rapaz ficou corado.  
- Sim, por mais que eu saiba que  bobagem minha, e que ela gosta de outro, no consigo deixar de 
am-la. Ela possui um certo qu de independente e orgulhosa, ao mesmo tempo em que se mostra 
meiga e frgil; quero abra-la e proteg-la... Entende, Sarah?  
- Claro, mas  melhor esquec-la. Ela ama Franois e ele a ama. No se esquea que os dois se 
sacrificaram por nossa causa. Nossos motivos de vingana no so os deles.  
- Sei, mas sinto-me capaz de abandonar tudo para ficar com ela.  
- Jamais repita isso. Lembre-se do nosso juramento aps o encontro com Simon Wiesenthal: 
mataremos o maior nmero pos- 
svel de criminosos e no h nada nem ningum que possa nos afastar desse objetivo... Voc jurou 
sobre a memria de seus pais, de suas irms. Jurou resgatar os atos que cometeu...  
- Pelo amor de Deus, no fale mais nisso - disse Daniel, escondendo o rosto entre as mos.  
Samuel olhava aquela cena, lvido e profundamente infeliz.  
- Voltarei a falar se voc no mudar de idia. Ns temos muita coisa a ser perdoada.  
Daniel comeou a soluar.  
- No ter pena?...  
- Desconheo o sentido dessa palavra.  
- Pare, Sarah, est sendo muito cruel! Ele  jovem, pode esquecer.  
- Esquecer!... voc ainda fala em esquecer!... Oh! Samuel, como  possvel?  
- Para mim,  impossvel, mas e para ele?...  
-  to impossvel para ele quanto para cada um de ns. Voc no percebe que eles esto contando 
justamente com isso, com nossa preguia, nossa covardia?... J no comearam a afirmar que as 
cmaras de gs jamais existiram, que os documentos fotogrficos foram forjados...  
- Mas todo mundo sabe perfeitamente que  mentira, existem dezenas de milhares de testemunhas!  
- Sim, mas daqui a dez, vinte anos, onde estaro todas essas testemunhas? Mortas ou tero 
esquecido, como voc disse. Pois eu afirmo que temos o dever de fazer com que todos se lembrem 
do horror nazista, e os castigos aplicados aos sobreviventes devem mergulhar os assassinos ocultos 
pelo mundo afora numa angstia diria e na impossibilidade de conhecer um s dia de descanso, 
uma nica noite de sono reparador... S posso continuar vivendo se fizer tudo para que assim seja.  
Sarah calou-se, ofegando. Sua ira vingadora transformava-a por completo: o rosto vermelho onde se 
destacavam, lvidas, as cicatrizes de suas faces, seus traos crispados, sua boca retorcida, os 
cabelos curtos arrepiados... uma verdadeira grgone...  
O silncio que se seguiu tinha algo de brutal. 
Bateram na porta; ouviu-se a voz de Carmen:  
- J acabaram?... Podemos entrar?  
Assim que Carmen e La penetraram no quarto, perceberam a atmosfera tensa e permaneceram na 
soleira, perplexas. Samuel resolveu ento descontrair o ambiente.  
- Vamos deixar Daniel descansar. Voc vem, Sarah?... E La? At amanh, irmozinho.  
- At amanh... at logo, La - disse Daniel em voz baixa.  
La inclinou-se e o beijou com carinho.  
- Obrigado - murmurou ele.  
- Vou tomar conta dele. At amanh - disse Carmen.  
- La, posso lev-la?  
- No, obrigada Sarah, prefiro caminhar.  
- Como quiser.  
La ficou olhando o txi que conduzia Sarah. Andou sempre em frente e chegou a uma praa 
animada onde crianas brincavam e corriam sob imensas rvores. Em frente, um muro altssimo 
atrs do qual avistavam-se cruzes e telhados de capelas: o cemitrio da Recoleta. Ela entrou por um 
porto monumental. No deve ser o cemitrio dos pobres, pensou ao percorrer largas alamedas, 
ladeadas de monumentos funerrios atestando a riqueza das famlias dos defuntos. O oposto do 
humilde cemitrio de Verdelais onde repousavam seus pais e sua irm. No entanto, como de hbito, 
a presena dos mortos lhe fez bem! Num cemitrio, ela se sentia de certa forma protegida... isso 
mesmo, protegida. No saberia explicar por qu, e no entanto... Os mortos no podiam lhe fazer mal 
algum.  
Ela achou graa naquele tipo de raciocnio infantil.  
- No  muito comum encontrar algum sorrindo num cemitrio...  
Mergulhada em seus pensamentos metafsicos, La no notara a presena de um rapaz olhando 
para ela. Ele no tinha nada a ver com isso!...  
- No se lembra de mim?... Eu estava na casa de Carmen ainda h pouco.  
Sim, claro, o lindo rapaz com olhos femininos.  
- Desculpe-me, estava sonhando.  
- Che!... que surpresa, encontrar una chica linda' passeando no cemitrio. No tem medo de 
fantasma?  
- No,e voc?  
Ele deu uma gargalhada que acabou em violento acesso de tosse. Quando conseguiu respirar 
normalmente, sua testa estava molhada de suor.  
- Sinto muito...  minha asma.  
- Uma das minhas irms sofria de asma quando pequena:  
todos os anos costumvamos ir a Bourboule por causa dela. Eu sentia raiva e sempre dava um jeito 
de irrit-la para provocar uma crise. J sei, no era legal, mas... eu detestava Bourboule.  
- De fato, no era muito legal. E agora, como vai ela?  
- Morreu.  
- Oh! Perdo...  
- No se preocupe, no morreu por causa da doena.  
- Ento de que...?  
- Foi assassinada.., vamos mudar de assunto, est bem? Faz muito tempo que conhece Daniel?  
- No, um ms apenas. Como ele mesmo contou, encontramo-nos durante uma conferncia sobre a 
arqueologia pr-colombiana...  
- Eu no sabia que ele se interessava por arqueologia...  
- Tambm fiquei surpreso, pois ele no entendia absolutamente nada do que o conferencista dizia. 
Comecei ento a traduzir...  
- Como soube que ele falava francs?  
- No sabia, foi por intuio. Ele pareceu espantado e me encarou, bastante tenso. Achei-o 
simptico, sorri e... ele tambm. Ao final da conferncia, tornamo-nos amigos. Fomos tomar um 
trago juntos e falamos de poesia, principalmente de Rimbaud.  
Como Daniel, sempre to desconfiado, se aproximara to rpido de um desconhecido? Que eestranho, pensou La. Apesar de  
tudo... esse rapaz tinha uma maneira de ser to direta, um jeito to franco e sedutor de encarar seu 
interlocutor que dava vontade de confiar nele desde o incio. E aquele sorriso, cheio de ternura e 
ironia...  
- E Carmen?  
- Seus pais so amigos da minha tia Beatriz, com quem estou hospedado. Ela  engraada e alegre, 
gosto muito dela.  
- E voc?  
Ernesto corou.  
- Eu tambm... E voc deve ser a linda jovem de quem Daniel tanto me falou, che?  
La no respondeu. Penetrou numa alameda lateral e sentou-se nos degraus de uma capela. Ele se 
aproximou.  
- Voc fazoqu?  
- Sou estudante de medicina.., no primeiro ano.  
-  comunista?  
- No, no sou. A poltica no me interessa. Entretanto, sou contra a injustia, todas as injustias e 
contra o dinheiro que macula tudo o que toca. E voc, o que est fazendo?  
- No sei exatamente. Vim  Argentina convidada por Victoria Ocampo.  
- Victoria Ocampo?... A diretora da revista Sur?  
- Sim, conhecemo-nos na Alemanha.  
- Na Alemanha... - comentou o rapaz, pensativo. - Durante a guerra, meu pai me levou a reunies 
antinazistas. Eu era muito jovem, mas fiquei impressionado. Entendi logo que era necessrio fazer 
tudo para que os alemes perdessem a guerra. Agora precisamos sair daqui, as portas do cemitrio 
vo fechar. Para onde vai? Vou acompanh-la.
- Ao Plaza.
- Che, que bom, moro em Arenales, fica perto do Plaza. Vamos, tem um bonde que passa por l...

Captulo 26

Ao chegar ao hotel, La encontrou uma mensagem de Franois. "Esteja s 21 horas no teatro
Coln, pegue um txi, passe pela entrada lateral. Diga que a esperam no camarote especial nmero 
25. Estarei l." O que significava esse misterioso encontro? Ele no conseguia agir de maneira mais 
simples? Quem sabe se no vou encontr-lo mais uma vez espancado e ferido naquele camarote... 
Foi at o quarto e tomou um banho.  
- Senorita, la entrada es ac.'  
- Ya lo s 
Senhorita, a entrada  por aqui.  
J sei.
- disse La adivinhando o sentido da frase. - Palco especial veinticinco - conseguiu 
pronunciar, sentindo-se ridcula.  
O homem olhou para ela e, com um sorriso malicioso, mandou que o seguisse, Desceu alguns 
degraus, entrou num corredor, depois em outro mais estreito e mal iluminado, passou diante de duas 
portas numeradas e se deteve junto  terceira. Ouvia-se a msica do Lago dos Cisnes.  
- Es ac senorita 
aqui, senhorita 
- disse ele em voz baixa, batendo na porta devagar.  
- Quines?'  
- Es ei portero, estoy con una senorita que dice tener cita en ei palco nmero veiticinco.  
- Quem ?  
-  o porteiro, estou com uma jovem que afirma ter um encontro no camarote especial vinte e cinco.  
A porta se entreabriu. Tavernier lanou uma olhada rpida ao corredor e deixou La entrar.  
- Bueno, gracias
- Tudo bem, obrigado.  
- disse ao homem, entregando-lhe uma gorjeta. 
- Que no me molesten.  
- Quedese tranquilo Senor Luigi vi gila.  
- No quero ser incomodado.  
- No se preocupe, senhor. Luigi vai tomar conta de tudo.  
La juntou as pregas de sua saia de seda vermelho-escura e sentou-se num dos banquinhos forrados 
de veludo da mesma cor, colocados de ambos os lados da entrada. Uma cortina de tecido idntico 
abafava o local, onde reinava um calor sufocante. Franois trancou a porta.  
- Parece que estamos numa boate.  
- Espere, ainda no viu nada- disse ele, afastando a cortina.  
Duas cadeiras forradas, outra cortina.  
- Venha ver.  
Ela se aproximou, Franois entreabriu a cortina; uma grade de ferro cercava o camarote.  
- Cada vez melhor, agora  uma priso.  
- Psiu, veja s.  
Encontravam-se na platia, ao nvel do cho, com uma vista geral sobre os ps dos espectadores. 
Quanto ao palco, no se enxergava absolutamente nada. Franois fechou a cortina e acendeu a luz. 
Uma espcie de lamparina revelou o contorno do seu rosto. Naquela penumbra, La o achou lindo e 
preocupado.  
- Abrace-me... pare... O que est fazendo?... aqui no, voc enlouqueceu!  
- Por qu? Tudo bem, este tipo de lugar foi concebido para  
os encontros de casais adlteros ou para aqueles que no desejam ser vistos.  
- Franois!...  
Aquela relao foi breve, violenta e... deliciosa.  
La, deitada na estreita banqueta, parecia completamente indiferente  posio indecente em que se 
encontrava, com as pernas abertas, o corao disparado, os olhos cerrados, despenteada. Franois 
sentiu o desejo de possu-la novamente e teve de fazer um imenso esforo para no abra-la. 
Transtornado, com uma sensao de grande frustrao, ajeitou seu vestido. La era feita para o 
amor e no para essas perigosas aventuras. Diante de tamanho despudor da parte dela, Tavemier 
chegou a sentir dio de si prprio.  
- Voc viu Daniel?  
- Sim - respondeu ela com voz sensual.  
- No volte para l,  muito perigoso.  
Ela abriu os olhos e se levantou.  
- E para Carmen e os outros, no  perigoso?  
- Sim, mas todos sabem o que esto fazendo.  
- Isso significa que no sei?  
- No quero v-la metida nessa histria.  
- Isso voc j disse. Acontece que j estou encrencada. No adianta tapar o sol com a peneira.  
Ele teve um gesto de desnimo.  
- Ainda h tempo de desistir, para voc.  
- No vou desistir, quero ajud-los.  
Ouviram-se aplausos na sala. Bateram  porta.  
- Quines?  
- Un mensage para usted, Senor.  
- Pselo por debajo de la puerta.  
- Quem ?  
- Uma mensagem para o senhor.  
- Passe-a por baixo da porta. 
Fransois apanhou a folha de papel, abriu-a e leu.  
-  de Sarah.  
- Como sabe que estamos aqui?  
- Costumamos usar este camarote como caixa de correspondncia.  
- O que h nesse recado?  
Ele hesitou.  
- Ser hoje  noite.  
- J? Vamos.  
- Meu amor, eu suplico...  
Havia tanto desespero em sua VOZ! Ela ficou comovida.  
- Quero permanecer a seu lado, d para voc entender? Eu o amo, no posso suportar a idia de 
ficar sozinha enquanto voc e Sarah correm perigo.  
Franois abraou-a com muita ternura e beijou seus cabelos:  
- Est bem.  
Seu carro encontrava-se estacionado perto do Palcio de Justia  
- Aonde vamos?  
- Ao parque Palermo, Amos espera por mim.  
O trfego era intenso na avenida Libertador; atravessaram o roseiral, contornaram o lago e pararam 
na avenida Infanta Isabel. Franois piscou o farol trs vezes e depois mais duas. Mais adiante, um 
carro respondeu.  
-  ele - disse Tavernier, dando lentamente a partida.  
Ao alcanar o veculo, parou.  
- O que ela faz aqui? - perguntou Amos.  
- Substitui Daniel.  
- No foi o que combinamos.  
- Sei, mas precisamos de algum para vigiar.  
- Como quiser, deve saber o que est fazendo. As duas mulheres vo sair do hotel a p, escoltadas 
por um policial argentino. Os trs iro em direo  Plaza de Mayo. Haver um carro esperando por 
eles naquele local. Carmen encontra-se no hall do hotel com Uri, vo segui-los at a praa. Vocs 
viro de carro para o caso de alguma eventualidade.  
- Aque horas?  
- Vinte e trs e trinta. Estacionem na avenida Corrientes, a cerca de vinte metros do hotel. Esto 
armados?  
- Claro.  
- Tudo bem, at j.  
 luz de um poste, Carmen e Uri se abraavam enquanto Rosa Schaeffer e Ingrid Sauter subiam 
no txi estacionado na frente da catedral. Com as portas do carro fechadas, o policial continuou 
caminhando em direo  Casa Rosada. Passou assobiando, completamente indiferente ao 
automvel onde se encontrava um casal abraado.  
- Agora, v ao encontro de Carmen, ela sabe o que fazer. Uri nos segue de moto.  
- Esto indo para onde?  
- Elas devem tentar embarcar no meio da noite para Montevidu. Nos encontraremos em breve no 
porto. Seja prudente, eu a amo muito, meu amor.  
La saltou do carro e dirigiu-se at Carmen e Uri. Este no manifestou sua surpresa ao ver La; 
subiu na moto e foi embora com um aceno de adeus.  
A jovem argentina segurou o brao da amiga.  
- No pude avisar os outros, exceto Uri: Daniel desapareceu...  
- Seqestrado?  
- No, foi ao encontro de Sarah.  
- Quem lhe contou?  
- Por volta das onze horas da noite, sa para fazer compras. Quando voltei, encontrei o camarada de 
planto na porta cado no cho e o outro trancado no apartamento. Na mesa, havia um recado de 
Daniel, avisando que ia se encontrar com Sarah.  
- S isso?  
- Che! Ele no escreveu um romance inteiro!  
- Com aquela ferida!.., e Sarah, onde est?  
- No sei.  
- Tenho a impresso de que chafurdamos na maior confuso... Cuidado, o txi est saindo.  
Elas acompanharam o carro com os olhos: contornou a praa e passou bem na frente das duas 
jovens que recuaram na sombra.  
- Carmen...  
- Sim?  
- O homem ao lado do chofer...  
- Qu?  
-  Jones, um dos torturadores de Daniel.  
- Tem certeza?  
- Tenho, viajamos no mesmo navio. E agora, o que  que a gente faz?  
- Vamos tomar um txi para a avenida de Los Inmigrantes.  
Os porturios e os marinheiros ficaram boquiabertos quando as duas jovens entraram sozinhas.  
- Qu churrasca!  
-  Qu taquerea!  
- Qu hembraje!  
Com as mos nos quadris, Carmen encarou aqueles homens:  
- HUos de puta impotentes, caliense la boca bastardos, soio tienen huevos para insultar a las 
mujeres...  
- Dej, Carmen, no son mala gente. Senres, esta chica es mi sobrina y su amiga es... mi 
sobrina tambin.  
- Disculpanos Juan, no te podiamos adivinar.  
- Tens suerte de tener sobrinas tan bien rellenas.  
Seus filhos da puta impotentes, calem a boca, seus bastardos, vocs s tm colhes para xingar as mulheres...  
Deixa, Carmen, no so to maus assim. Escutem, essa moa  sobrinha e sua amiga ... minha sobrinha 
tambm.  
A gente no sabia, desculpe, Juan.  
Sorte sua ter sobrinhas to boas!  
Os fregueses voltaram a beber. Juan mandou que suas sobrinhas passassem por trs do balco.  
- Ysta, quin es?  
- No te preocupes, es una amiga.  
Quem  essa?  
Uma amiga, no se preocupe.  
Entraram na sala dos fundos repleta de caixas. O homem apontou para uma janelinha.  
- Da a la caile que es perpendicular a la avenida de Los Inmigrantes. De all(pueden vigilar 
todo.  
- Gracias.  
D para a rua perpendicular  avenida de los Inmigrantes; da, podem vigiar tudo.
 Obrigada. 
O homem saiu, fechando a porta atrs de si.  
- Eles no vo demorar. No fim da avenida, fica o cais de embarque. Chegaram.  
Um txi acabara de parar. O chofer e Jones saltaram e olharam  sua volta; em seguida, dirigiram-
se para a esquina. As portas traseiras do carro permaneceram fechadas.  
- O que elas esto fazendo? - perguntou La. - Por que no descem?  
- Quieta, deixe-me ouvir... O chofer est conversando com algum, no  com o dono... Tem um 
cmplice no bar...  
- Ento ele nos viu?  
Uma moto parou... uma silhueta atravessou a rua.., um carro freou, seguido de outro... um rudo de 
cadeiras viradas, copos quebrados... gritos... uma mulher saiu do txi... um tiro... ela caiu... a voz de 
Franois Tavemier...  
- Cuidado, eles esto fugindo...  
O chofer e Jones correram para o txi, o revlver na mo... na luz de um poste, Sarah com uma 
metralhadora... uma rajada... Jones caiu... o chofer deu a partida... Briga na esquina... Tavernier 
atirou na direo do txi... Jones levantou-se... Daniel...  
- Daniel! - gritou La.  
Jones atirou... uma bala o atingiu... Daniel no cho... Franois inclinado sobre ele... empurrando 
Carmen, La abriu a porta... um homem tentou det-la, ela conseguiu soltar-se... Uri subiu na moto 
e saiu atrs do txi... Samuel caiu de joelhos... alguns homens deixavam a esquina apressados... 
com a metralhadora, Sarah aproximou-se do corpo da mulher deitada de bruos... com o p, virou o 
corpo...  
- No, Sarah!  
Ela no ouviu La... no ouvia mais nada... atirava em rajadas... o corpo se contorcia... uma espcie de dana monstruosa... Sarah ria... petrificada, La 
olhava.., esquecendo-Se do perigo... fascinada pelo horrendo bal executado ao vivo na sua frente... 
sirenes...  
- Rpido, a polcia!...  
La despertou daquela mrbida contemplao... Franois puxava Sarah pelo brao... Sarah, que ria 
 por que Samuel carregava Daniel?...  
- Carmen, and con l  
- Carmem v com ele.
No banco de trs do carro de Tavemier, Sarah continuava rindo...  
- Por favor, mande ela parar com isso! - suplicou La.  
Ele no respondeu, dirigindo a toda velocidade ao longo do cais. No se ouviam mais as sirenes. 
Tavemier parou, virou-se para trs e deu vrias bofetadas no rosto de Sarah... finalmente, aquele 
riso demente cessou.  
O carro voltou a andar... Sarah tentava se acalmar e retomar o flego.  
- Cuidado!...  
Por um triz o carro no bateu numa carroa puxada por um burro. Ouviram os insultos do dono.  
O automvel corria; atravessaram um bairro pauprrimo.  
- "O local  um reflexo da fadiga do viajante" - murmurou La.  
- O que  isso? - perguntou Franois.  
-  um verso de Borges do qual acabo de me lembrar.  
Surpreso, ele olhou para La.  
- Voc l Borges?  
- No, mas em Mar del Plata, Victoria Ocampo recitou esse poema, achei sua cadncia muito bonita 
e pedi para ela traduzi-lo.  
Pararam numa rua sombria ladeada de muros altos, cobertos de cartazes rasgados onde estava 
rabiscada em enormes letras negras  
a frase: VIVA PERN. Franois abriu uma porta de ferro trancada a chave, oculta sob os farrapos 
de papel. Entraram. Um gato fugiu com um miado raivoso. Uma luz se acendeu no prdio em frente, 
iluminando um ptio repleto dos mais variados despejos; havia um caminho no meio, o lugar exalava 
um cheiro de abandono e desolao.  
- Onde estamos?  
- Entre amigos, os outros devem encontrar-nos aqui.  
Na claridade, apareceu a silhueta de Uri.  
- Daniel foi gravemente ferido, ele no para de chamar por La.  
- Estou aqui.  
- Vou lev-la at ele.  
Daniel encontrava-se deitado num canto, sobre alguns sacos, com Samuel e Carmen a seu lado. 
Samuel soluava.  
- No chore, irmo... sinto frio... La, onde est La?...  
- Aqui, Daniel... vamos tratar de voc.., oh!...  
La recuou, tapando a boca com as mos: o ventre do rapaz estava dilacerado.  
- La...  
Reprimindo o medo e a nusea, ela se sentou a seu lado e acariciou-lhe os cabelos. O rosto banhado 
em suor expressou tamanha felicidade que La quase caiu em prantos.  
- Estou to feliz.., voc est aqui... abaixe-se... no consigo falar... seja legal com Samuel... ele s 
tinha a mim... no estou com medo de morrer... mas  muito cedo... nunca conheci mulher alguma... 
quando a vi... percebi que era voc... Sarah?...  
- Sim, estou aqui.  
- ... No sinto mais dio... estou em paz... vou encontrar meus pais... La?... eu a amo... Sarah... La 
no... La no... La...  
Sua cabea pendeu contra o ombro.  
La soltou um grito, arrancou sua mo da mo de Daniel e se atirou nos braos de Franois.  
- NoL. Oh! no... no!  
Samuel inclinou-se sobre o corpo do irmo, beijou-lhe a testa e fechou seus olhos. Lentamente, com 
muita dificuldade, ergueu-se,  
contemplou o cadver... tirou o leno do bolso, abriu-o cuidadosamente, colocou-o sobre a 
cabea e, com voz firme, pronunciou o Kadih.  
- Yzgadal veyitcadash Sheme raba bealm de ver chirute veiamlich maichute bechaiechon
uveiomechon uvechai dechol bet Yisrael baagal ubizman kariv veimru Amn... Oss shalom
bimromav hu iass shalom aleinu veal col Yisrael veimru Amn.
Exaltado e santificado seja o Seu grande nome no mundo que Ele criou segundo Sua vontade. Queira Ele estabelecer o Seu
reino no decurso de vossa vida, nos vossos dias e no decurso da vida de toda casa de Israel prontamente e em tempo
prximo; e dizei Amm; Aquele que firma a paz nas alturas, com Sua misericrdia, conceda a paz sobre ns e sobre todo
Israel; e dizei Amm.

Captulo 27

Aps levar La at o Plaza e conversar com o gerente do hotel que ele mandara acordar, Franois
Tavernier partiu com Sarah Muistein e Carmen Ortega. No foram para o apartamento da jovem 
argentina, pois temiam que estivesse sendo vigiado por nazistas; foram  calie San Martn de Tours, 
na casa de Ricardo Lpez, judeu de origem portuguesa e mdico antiperonista. Ali, no luxuoso 
gabinete, esperaram por 5 amuei Zederman, Amos Dayan e Uri Zohar.  
Estes chegaram s trs horas da manh. O Dr. Lpez tirou a presso de Samuel, lvido e sacudido 
por constantes tremores; miniistrou-lhe um sedativo e, logo em seguida, o irmo de Daniel mergulhou 
num sono agitado.  
Nas primeiras horas da manh seguinte, Lpez pediu a amigos que fossem buscar o corpo de Daniel 
e o transportassem para o setor que dirigia no hospital de Rivadavia. S ento Sarah e seus amigos 
conseguiram descansar um pouco.  
Dois dias mais tarde, os jornais publicaram uma pequena notcia a respeito de uma briga em Los 
Inmigrantes, que provocara a morte de uma mulher com passaporte argentino em nome de Mara 
Escalada. Havia uma foto ilustrando o artigo de La Prensa.  
- No  Rosa Schaeffer - disse Samuel.  
-  Ingrid Sauter. Bertha, a gorda, continua solta - acrescentou Sarah.  
- No  a nica. Um dos meus colegas, o Dr. Pino Frezza, que durante a guerra fez parte da 
entourage de Mussolini, declarou  
 sua embaixada ter encontrado Martin Bormann perto da cervejaria alem ABC, na calie Lavaile. 
As organizaes judaicas argentinas foram avisadas e efetuaram buscas, sem o menor sucesso at 
o dia de hoje. Bormann continua solto. Sob a cobertura da Capri, dirigida pelo alemo Karl Fuldner, 
os comits de recepo, o comrcio de falsos passaportes, principalmente em San Isidro, funcionam 
a todo vapor. No jornal Der Weg, cujos primeiros nmeros saram no ano passado, o professor 
Johannes von Leers, chefe da propaganda anti-semita de Goebbels, famoso por ter publicado Die 
Juden sehen dich an1, recomeou seus ataques aos judeus e sua propaganda a favor do nazismo, 
ora sob o pseudnimo de Dr. Euler, ora usando seu verdadeiro nome. Sabemos que ele mantm 
contato com os chefes nazistas fugitivos e se corresponde constantemente com a ustria e a 
Alemanha. Seu apartamento, n 863 da calle MartfnHaedo y Vicente Lpez, est sendo vigiado. Ele 
 ntimo de algumas personalidades peronistas do mais alto escalo. Sentem-se aqui como em sua 
prpria casa. Mas no devemos julgar que todos os argentinos so pr-nazistas. Convm lembrar a 
alegria dos habitantes de Buenos Aires com a notcia da libertao de Paris. Vrios deputados da 
oposio costumam intervir no parlamento para denunciar os servios oficiais que empregam ex-
nazistas; um amigo meu, por exemplo, o Dr. Agustn Rodriguez Araya, e tambm Sylvano 
Santander...  
- Sabem onde se encontra Rosa Schaeffer? - perguntou Sarah, interrompendo Ricardo Lpez.  
- Encontramos o txi, vazio  claro; havia sido roubado. O proprietrio do veculo apresentou queixa 
 polcia, que o interrogou com certa brutalidade. O pobre coitado nem sabia o que dizer:  
Me robaran a mi... Me robaran a mi.. 
Eu fui roubado... eu fui roubado...  
 ele se encontra agora na UTI do Hospital Espanhol.  
- Acha possvel que ele seja cmplice? -perguntou Tavemier.  
- Acho. Ele pode ter alugado o txi e declarado que foi roubado. Um colega meu deve me ligar 
assim que o chofer melhorar. Quanto a Rosa Schaeffer, aps os tiros, no conseguiu embarcar: temos quase toda a certeza 
de que no saiu de Buenos Aires. Nossos melhores agentes encontram-se de vigiia nos locais 
freqentados pelos nazistas e seus cmplices. Inevitavelmente, vai chegar uma hora em que Rosa 
Schaeffer contactar algum deles. A casa de von Leers e os escritrios da Capri esto 
particularmente vigiados. Sr. Tavernier, j falou com a embaixada da Frana?  
- J. Parece que ningum tem nos procurado e podemos voltar ao nosso apartamento de Viamonte.  
- Muito bem. O Sr. Zederman vai precisar fazer o reconhecimento do corpo do irmo e tomar todas 
as providncias para o enterro.  
- Coragem, Samuel, irei com voc - disse Franois.  
- Eu tambm - disse Sarah.  
-  mesmo necessrio?  
- Isso  problema meu. Gostava dele como um irmo, como um filho, desejo prestar-lhe minha ltima 
homenagem.  
- Como quiser.  
A morte de Daniel, ainda to novo, foi lamentada por todos como uma terrvel injustia.  
La sentia-se arrasada. Durante os dias que se seguiram  tragdia, permaneceu praticamente 
trancada no quarto do Plaza, deitada com os olhos arregalados. Aps o drama, ela no se encontrara 
com Franois, nem com Sarah ou Samuel. Carmen vinha visit-la todos os dias, tentando em vo 
tir-la da depresso. Victoria Ocampo quis traz-la de volta a San Isidro. La recusou. Foi Ernesto, 
o amigo argentino de Daniel, quem a arrancou do seu marasmo. Muito abalado pela morte de 
Daniel, ele veio buscarjunto a La um reconforto que, obviamente, no encontrou. O mesmo 
desamparo e a mesma aflio aproximaram a ambos.  
Ele subiu ao quarto de La com um buqu de flores. Encontrou a porta aberta e La deitada na 
cama, cochilando, vestindo apenas uma combinao de seda azul-clara, a cortina do aposento 
semicerrada devido ao intenso calor. Embora um pouco mais velha que ele, ela teve um 
comportamento infantil: encolheu-se como um animal ferido e assustado.  
- Che, sou eu, Ernesto, no tenha medo... Voc no deveria deixar a porta aberta.  
- J sei - respondeu baixinho.  
Ernesto a via agora, completamente diferente da jovem arrojada e despachada do seu primeiro 
encontro; La parecia uma menina apavorada e desamparada. Quanto a ele, sentia-se desastrado, 
tmido, apesar de querer muito confort-la. Sentou-se na cama, acariciou-lhe suavemente os cabelos 
dizendo palavras que ela no entendia, mas cuja melodia transmitia paz e suavidade. Ela se virou e 
encarou o rapaz, os olhos cheios de lgrimas mas com um sorriso nos lbios.  
- Obrigada, Ernesto, pelo bem que me faz... Deite-se a meu lado, segure a minha mo... fale comigo 
em sua lngua... gosto de sua voz...  
Quanto tempo permaneceram assim, como duas crianas bem- comportadas? Com a maior 
naturalidade, seus lbios encontraram- se... eles mal tinham conscincia do desejo que excitava seus 
corpos. La aninhou-se contra ele, suas mos deslizaram...  
Como de costume, cada vez que La fazia amor, sentia-se renascer. Inclinou-se sobre o jovem 
amante: como era lindo, com seus lbios macios e suas mos desajeitadas, meigas! No sentiu o 
menor remorso em relao a Franois Tavernier. Houve tanta espontaneidade, carinho, confiana, 
naquela relao! O ato sexual representara para ambos um enorme consolo.  
- Estou com fome - disse La. - Vamos almoar?  
No restaurante do hotel, todos ficaram felizes ao rever la linda francesa; La e Ernesto foram 
tratados como hspedes de primeira classe, apesar do traje meio descomposto do rapaz. La queria 
fazer-lhe confidncias, mas no sabia at que ponto ele conhecia as atividades de Daniel. Carmen 
dissera: " um amigo, mas no se interessa por poltica,  antiperonista, nada mais." La falou com 
ele a respeito de Montillac, contou que comeava a sentir saudades de casa e que a natureza era 
muito montona na Argentina.  
- Montona para quem no souber olhar. O que diria ento se estivesse no deserto lunar da 
Patagnia!  
- No  na Patagnia que h muitas baleias?  
- Sim, na pennsula Valds.  
- Meu pai ficou louco por baleias depois de v-las no Mxico. Eu gostaria muito de poder conhec-
las tambm.  
- Precisa ir a Puertos Piramides, onde todos os anos elas se renem, entre os meses de julho e 
dezembro.  
- Voc ter de me levar.  
La experimentava um grande alvio com aquele bate-papo banal: o medo, a tristeza e a morte 
estavam to distantes... Despediram-se com um "at amanh".  
Aquele intermdio amoroso funcionara como um blsamo para La. Mais calma, pensava em Daniel 
com uma suave tristeza e se lembrou das ltimas palavras do rapaz em relao ao irmo Samuel. 
Ela sabia que sua presena no iria confortar Samuel, mas podia trazer-lhe um certo consolo. No 
modesto hotel, perto do Plaza, onde os dois irmos ficaram alojados, disseram-lhe que no 
apareciam h quatro dias. Quatro dias! J! Ela resolveu ligar para Franois. Foi Sarah quem 
atendeu.  
- Ainda bem que voc voltou  realidade!  
La ficou surpresa e magoada com aquele tom de voz.  
- Por que fala assim comigo?... Fiquei completamente arrasada, ser que no d para entender?...  
- Desculpe, entendo sim... Eu j me encontro alm da dor. Apesar de tudo, a morte de Daniel me 
abateu profundamente, eu no me achava mais capaz de padecer com tanta intensidade. Pensava 
ter esgotado minha capacidade de sofrimento, mas no foi bem assim... Eles conseguiram me atingir 
mais uma vez... ainda no tinham acabado comigo como pensava... Daniel era minha outra 
metade... agora encontro-me mais solitria do que nunca... Vingarei sua morte como teria vingado 
sua vida... Matarei...  
- Sempre a vingana... sempre a matana...  
- Sempre, foi o juramento que fiz hoje  tarde sobre seu tmulo.  
- Hoje  tarde?... ele foi enterrado sem mim?...  
- Foi Samuel quem pediu, argumentando ser esta a vontade de Daniel.  
Houve um longo silncio.  
- Al, est ouvindo?...  
- Sim... eu gostaria de falar com Franois.  
- Partiu para Mendoza logo aps o funeral.  
- No deixou nada para mim?  
- Sim, uma carta que entrego logo mais.  
- No, eu mesma vou buscar.  
La achou Sarah mais magra e envelhecida; o cabelo preto curto deixara de transmitir um ar de 
juventude ao seu rosto. Vestia um conjunto branco que acentuava a palidez de suas faces. No 
entanto, ela manifestou uma grande alegria ao rever a amiga.  
- Voc est linda. O retiro no Plaza lhe fez muito bem.  
La corou.  
- Obrigada, estou melhor. O que Franois foi fazer em Mendoza?  
- Ele se encontra naquela cidade em carter oficial. Convm tornar verossmil a nossa presena na 
Argentina.  
- Volta quando?  
- Dentro de trs ou quatro dias. Amanh, fui convidada por Eva Pern para um ch em companhia 
das senhoras da Fundao Eva Pern. Trata-se de uma sociedade beneficente criada pela primeira-
dama para se vingar da sociedade das Damas de Caridade. Esta, da qual fazem parte todas as 
mulheres da riqussima aristocraciaporteia, afastou a bela Eva da presidncia honorria, embora, por 
tradio, tal ttulo sempre coubesse  esposa do presidente. As seioras porte flas nunca aceitaram 
receb-la. Venha comigo, assim o tempo custar menos a passar.  
- Vou fazer o qu, neste lugar?  
- Ficar comigo e, principalmente, tentar convencer a todos que somos ntimos de Pern. Poder ser 
til algum dia.  
- Como quiser. 
No txi que a trazia de volta, La leu a carta do seu amante:  
Minha querida,  
Esses ltimos dias passados longe de voc foram como uma eternidade. Desde que voc 
chegou, minha paz acabou. Sinto um medo constante de que algo possa lhe acontecer. Jamais 
experimentei tal sentimento por ningum; estou completamente paralisado. Fico fora de mim. 
Meu amor; suplico mais uma vez, deixe a Argentina, volte  Frana e espere por mim em 
Montillac. Ali  o seu lugar; e no nesse clima de violncia e dio. Voc foi feita para a vida, 
para o amor; voc  a prpria luz. No se deixe levar por sentimentos que no lhe pertencem. 
Voc  dona de um extremo bom senso efoi feita para as coisas prazerosas e delicadas, e 
aqui s posso lhe oferecer insegurana; quem sabe, a prpria morte. Para arranc-la deste 
pas, estou pronto a abandonar tudo, e deixar nossos amigos se perderem na lama... Sei que 
voc vaificar chocada mas, meu amor; v embora... e se no quiser partir sozinha, irei com 
voc. Eu a amo.  
Franois.  
Ele devia am-la muito para escrever uma carta desse teor, logo ele, um homem de honra, 
combatente intransigente. La no podia aceitar tal proposta, seu compromisso junto a Sarah 
tinha um qu de irremedivel, sagrado. Ela nunca o perdoaria por tra-la, mesmo por amor.  
Ernesto marcara um encontro com La no cemitrio de Chacaritas, diante do tmulo de Carlos 
Gardel.  
- Como vou ach-lo? - perguntara a jovem.  
- Qualquer vigia sabe onde fica - respondera Ernesto.  
De fato, La encontrou facilmente o local. Sobre o tmulo, erguia-se uma grande esttua de 
bronze do famoso cantor de tango, com uma mo no bolso da cala e a outra segurando... um 
cigarro aceso, cuja fumaa azulada subia pelo ar quente da tarde. Aquilo surpreendeu La.  
-  costume aqui oferecer um cigarro ao grande Gardel. Voc tambm quer lhe dar um?  
Com a ajuda do amigo, La colocou entre os dedos de bronze outro cigarro aceso.  
Naquela hora, havia pouqussima gente no cemitrio; por isso mesmo, uma mulher de luto escoltada 
por dois homens chamou a ateno de La. No havia dvida, um deles era Barthelemy. E ento?... 
aquela mulher?... s podia ser Rosa Schaeffer. Ela no podia escapar. La segurou o brao de 
Ernesto.  
- Est vendo aquelas trs pessoas mais adiante?  
- Sim.  
- Faa isso por mim. V atrs delas, no se afaste por um segundo.  
- Mas por qu?  
- No posso explicar agora. Tambm no posso segui-las pessoalmente, uma me conhece. T bem?  
- T. Onde a gente se encontra?  
- Vou voltar ao Piara. Assim que voc souber onde esto, encontre-me no hotel.  
J era noite quando Ernesto bateu na porta do seu quarto.  
- Ento?  
- No foi nada fcil; andaram de metr, bonde, txi e novamente metr. Tive muita sorte de no 
perd-los.  
- Para onde foram?  
- Imagine s, logo ali, a Paraguay.  
- Voc tem certeza?  
- Che, fiquei escondido no vo de uma porta durante cerca de uma hora; ningum saiu. Agora, ser 
que pode me explicar?...  
- Essas pessoas so responsveis pela morte de Daniel, so nazistas.  
Ele ficou atnito.  
- Quem pergunta agora sou eu: voc tem certeza?  
- Tenho. Desculpe-me, no posso contar mais nada. Talvez j tenha falado demais.  
- No confia em mim?  
- No  isso, mas essa gente  muito perigosa.  
La telefonou para Sarah; ningum atendeu.  
Soltou o cabelo preso num coque e sacudiu a cabea, como se quisesse livrar-se de um peso.  
- Como voc  linda!  
- Venha deitar-se a meu lado. Estou cansada e gostaria de dormir um pouco.  
- Dormir?...  
S adormeceram muito mais tarde.  
Foram despertados pelo toque do telefone.  
- Al - disse La, bocejando.  
- Desculpe, meu amor, eu a acordei?... S queria saber como voc estava... Sarah lhe entregou a 
minha carta?... Eu a amo... sinto sua falta... Al?... est ouvindo?  
- Sim.  
- Tem mais algum com voc?  
- No, no  isso.  
- Peo desculpas por perturb-la.  
Em Mendoza, Franois desligou irado. La fez o mesmo lentamente, com certa aflio. Ernesto 
olhava para ela sem entender. Discreto, no fez perguntas.  
- J  tarde, preciso voltar para casa. Minha tia e meu irmo vo ficar preocupados.  
Ela se aninhou em seus braos.  
- Sinto-me bem com voc.  
Ele a contemplou como se lesse seus sentimentos. Depois de se vestir, falou:  
- At amanh?  
La respondeu com um simples gesto.

Captulo 28

Na manh seguinte, La despertou ao ouvir o som do telefone;
Samuel precisava v-la. Ela respondeu que j estava descendo.  
Quinze minutos mais tarde, encontrava-se no hall do hotel.  
Samuel esperava, sentado numa poltrona, alheio ao vaivm dos clientes, com o olhar perdido, as 
mos largadas. Quanta mudana para ele tambm! La permaneceu imvel durante alguns minutos, 
profundamente comovida. Foi exatamente nesse momento que Rik Vanderveen se aproximou. La 
no tivera mais notcias dele depois da fuga da estancia Ortiz. Ao v-lo, uma sensao de pavor 
deixou- a paralisada.  
- Bom dia, minha cara, no parece feliz em me rever!... Nossos amigos ficaram um pouco surpresos 
com sua partida to repentina. Como vai a Sra. Tavernier?... Melhor, pelo que me contaram... E o 
nosso famoso Sr. Tavernier? Excelente piloto.  
Durante esse monlogo, Samuel levantara-se e mantinha-se afastado, lendo os folhetos do hotel. 
La entendeu: Vanderveen no podia estabelecer a relao entre o irmo de Daniel e ela. 
Conseguiu sorrir com dificuldade.  
- Bom dia, Rik... Que surpresa, no esperava encontr-lo. Como vai?  
- Como pode ver, sinto-me em plena forma; o clima argentino me faz muito bem. A voc tambm, 
no ?... Cada vez que a vejo est mais linda.  
- Obrigada.  
- Tudo bem; ento podemos marcar umjantar para depois de amanh? s nove horas?... Tudo bem 
para voc?  
- Sim. Em que hotel voc est?  
- Aqui,  claro. Dormimos sob o mesmo teto. Agora preciso ir, tenho um importante encontro. No 
se esquea... depois de amanh? Conto com voc.  
Rik Vanderveen deixou a chave do seu quarto na recepo e saiu acenando para La.  
Por mais que La tentasse se convencer de que nada, nas informaes a respeito de Vanderveen, 
fazia dele um cmplice de Jones e Barthelemy, sua presena na estancia Ortiz era muito suspeita. 
Naquele hall, ela se sentiu vulnervel, exposta a todos os olhares: ningum podia desconfiar de sua 
relao com Samuel.  
- Siga-me - sussurrou ao passar perto dele.  
La caminhou lentamente at a estao de metr San Martin, certificando-se de que Samuel vinha 
atrs dela. Foram os nicos que subiram no vago quase vazio. Ningum os seguira.  
La colocou a mo no brao de Samuel. Permaneceram calados durante alguns instantes.  
- Vim lhe pedir para voltar  Frana...  
- Voc tambm? Mas por que todos vocs cismaram com minha presena na Argentina?  
- Seu lugar no  aqui. Sempre fui contra o seu envolvimento em nossos problemas, apesar da 
opinio de Sarah.  
- Sarah no tem nada a ver com a minha vinda  Argentina!  
- Tanto faz, mas precisa partir.  
- No.  
- Ora essa, no consigo entender, nossa luta no  a sua!...  
- Ser que se esqueceu do assassinato da minha irm?... Por que me recusar o direito  vingana?  
A composio diminuiu a velocidade e parou.  
- Vamos descer - disse Samuel.  
- Vou ficar em Buenos Aires durante alguns dias; aceita almoar ou jantar comigo?  
- Com muito prazer, mas j tenho compromisso para hoje e 
Encontravam-se na Plaza de Ia Republica, face ao obelisco.  
- Vamos at Corrientes, l tem muita gente.  
Caminharam em meio  multido.  
- Falaremos da minha viagem em outra oportunidade; tenho uma coisa importante para lhe contar. Tentei falar 
com Sarah, mas ningum atende na casa dela. Sei onde Rosa Schaeffer se esconde.  
- O qu?! O que foi que voc disse?  
- Sei onde se esconde Rosa Schaeffer, em Paraguay-Esmeralda.  
- Mas fica...  
- Pois , logo ali.  
- Ento vamos agora.  
- No quer mais que eu parta?  
Samuel no respondeu; acelerou o passo e entrou na caile Esmeralda. La corria atrs dele.  
-  aqui.  
Um prdio antigo, com uma mercearia no trreo.  
- Cuidado!  
La entrou apressadamente na loja, seguida por Samuel. Uma vendedora aproximou-se.  
- Buenos das seuiorita, buenos das sen'ior qu desean ?  
Bom dia, senhorita, bom dia, senhor, o que desejam?  
O que responder? La fez o gesto de costurar.  
- Quieren hilo? Qu color?  
- Azul.  
Querem linha? De que cor?  
Azul.
- Pode me dizer o que est havendo?  
La olhava pela vitrine.  
- Vi Barthelemy caminhando em nossa direo.  
- Acha que ele nos viu?  
- Espero que no.  
- Aqu tiene senorita. Es ei color que me pidi?  
- S, gracias.  
Pronto, senhorita; a cor est certa?  
Sim, obrigada. 
Ao sair, La colocou o carretel no bolso.  
- Precisamos voltar com algum que fale espanhol para tentar saber em que andar se encontram. Vamos 
procurar Amos e Uri.  
- Ento posso ficar?  
Samuel ergueu os ombros. Um txi os levou  casa do Dr. Ricardo Lpez. Ao saber de tudo, ele enviou os dois 
melhores agentes de sua organizao. Enquanto esperavam pela volta dos dois homens, mandou servir um 
lanche. Acabavam de tomar o caf quando a campainha soou. Era Sarah.  
- Ah! Voc est a - disse, vendo La. - No se esqueceu de que vamos  Casa Rosada? O que ela faz aqui? - 
perguntou a Samuel.  
Ele nem precisou responder: a campainha tocava novamente. Desta vez, atava-se dos argentinos regressando 
da calie Esmeralda. Ao terminarem o relato de sua misso, Sarah parecia outra pessoa.  
- Agora, ela no me escapa - comentou com sorriso perverso.  
- Precisamos for-la a sair da toca, mas antes convm localizar seus seguranas.  
- Son tres - disse um dos argentinos -, un policia criolio vestido de civil vigila ei inmuebie desde ei 
caf de enfrente, un mestizo y un aiemn.  
- Conoces ai mestizo ?  
- S, es un bandido muy peiigroso, ia policia lo utiliza a menudo para maias negocios.  
So trs: um policial nativo  paisana vigia o prdio do caf situado bem em frente, um mestio e um alemo.  
Conhece o mestio?  
Sim,  um bandido muito perigoso, muito utilizado pela polcia para trabalhos sujos.  
O mdico parecia preocupado.  
- O pior de tudo - disse ele, dirigindo-se a Samuel e Sarah  
-  que a polcia est a par de tudo. Precisamos do maior cuidado.  
- O que pensa fazer? - perguntou Sarah.  
- Manter a vigilncia e tentar conquistar a confiana de um dos seguranas.  
- Devem estar desconfiados.  
- Nenhum argentino resiste a uma linda mulher.  
- Em que est pensando?  
- Vamos enviar Carmen quele caf.  
- Oh! no, Carmen no! - disse La.  
- Carmen  um dos nossos melhores agentes; alm do mais,  lindssima.  
Por isso mesmo, pensou La.  
Sarah aproximou-se.  
- Minha querida, voc fez um timo trabalho. No se esqueceu do nosso ch?... Mal temos tempo de 
nos arrumar. A gente precisa aparecer e causar a melhor das impresses.  
Eva Pern encontrava-se sentada numa poltrona com encosto alto, de madeira dourada e veludo 
vermelho, num dos sales da Casa Rosada. Usava um lindo vestido branco drapeado e estava 
cercada por mulheres com chapus, todas elas muito elegantes. Sarah e La, embora de maneira 
menos ostensiva, no ficavam para trs.  
- Que bom rev-la, Sra. Tavemier, a senhorita tambm.  
La no entendeu, mas cumprimentou sorrindo.  
- Estas senhoras e eu falvamos justamente do papel da mulher em nossa sociedade. Pensei muito a 
respeito. O general ajudou-me nessa reflexo. Com sua pacincia e seu afeto, ele me fez entender 
os diferentes aspectos dos inmeros problemas que dizem respeito  mulher em meu pas e no 
mundo inteiro. Essas conversas fizeram com que eu percebesse, mais uma vez, sua genial 
personalidade. Milhes de homens, semelhantes a ele, devem ter enfrentado o problema a cada dia 
mais grave, nesse sculo to angustiado, da mulher no seio da sociedade. Entretanto, acredito que 
poucos dentre eles se detiveram, como o general, para examin-lo a fundo. Os defensores da mulher 
nos outros pases diro que comear dessa maneira um movimento feminista  pouco feminino... 
Vo afirmar, com toda certeza, que aceitamos de certa forma a superioridade dos homens! Tais 
crticas no me interessam.  
Considero-me profundamente engajada e devo aceitar a misso de guia espiritual das mulheres do 
meu pas.  
- No se pode negar que ela tem uma certa classe - sussurrou Sarah no ouvido de La.  
- Conte-me depois, no entendi nada.  
O ch foi servido.  
- Muchachos, aproximem-se - disse Eva Duarte, interpelando os poucos homens presentes.  
Todos obedeceram.  
O coronel Mercante; Freude, chefe do servio presidencial de pesquisas, personagem temido; padre 
Benitez, seu confessor jesuta; e Alberto Dodero, importante armador, amigo dos Duarte. Em voz 
alta, para que todos ouvissem, a bela Eva falou:  
- Aceitei o convite do general Franco para uma visita oficial  Espanha; em seguida, irei a Roma 
pedir ao papa para que reze por Pern e pelo povo argentino. Terminarei minha viagem  Europa 
em Paris.  
- No pode existir embaixatriz mais linda - disse Alberto Dodero, beijando-lhe a mo.  
A primeira-dama deu uma risada gutural.  
La olhava aquela sociedade to diferente da que pertencia Victoria Ocampo. Aqui, tudo era 
pomposo, quase vulgar, e no havia ningum que falasse francs com ela; Victoria e seus amigos 
expressavam-se perfeitamente em sua lngua materna. Apesar de tudo, La no achava Eva Pern 
antiptica; chegava a sentir uma certa admirao pela atriz medocre, to criticada nos meios 
aristocrticos de Buenos Aires, que conseguira muito cedo - tinha mais ou menos a mesma idade que 
La - ser a primeira-dama do pas. Mas por nada nesse mundo La desejava ocupar esse lugar!  
Finalmente, Sarah avisou que podiam sair.  
Atravessaram a plaza de Mayo. Na frente da catedral, havia vrios txis estacionados. La dirigiu-
se para um deles.  
- Que tal voltarmos a p? Sinto vontade de caminhar - disse 
Sarah. 
- Como voc quiser; vamos passar pela caile Florida e olhar as vitrines.  
S falaram de trivialidades at chegarem  sede do dirio La Nacin. Um grupo de homens, com o 
jornal na mo, comentava as ltimas notcias. Na primeira pgina, um cabealho.  
- Preso em Montevidu um criminoso nazista - traduziu Sarah.  
- Acha que Franois est metido nisso?  
- Sabe-se l - respondeu Sarah, lacnica.  
Chegaram ao Plaza.  
- O que vai fazer esta noite? - perguntou Sarah.  
- Vou ao cinema com Victoria Ocampo. No Ambassador est passando um filme com Humphrey 
Bogart e Ingrid Bergman; depois, vamos jantar com a irm dela, Silvina, e o marido. E voc?  
- Vou ficar em casa, espero notcias de Franois; Samuel deve passar para falar comigo. Se precisar 
de alguma coisa... no vou sair.  
Abraaram-se; de repente, La perguntou:  
- Como se sente?  
Era to inesperado que Sarah ficou desnorteada.  
- O que quer dizer com isso?  
- Nada.  
- O qu, exatamente?  
- Nem parece que Daniel morreu... Ai! Est me machucando!  
Sarah apertava o brao da amiga com punho de ferro.  
- O que significa isso?  
- Largue-me! Ficou louca!  
- Mais do que imagina- disse Sarah, soltando-a. - Quanto a Daniel, voc est redondamente 
enganada. Tudo parece como antes ,voc acha, mas fique sabendo que ns dois estivemos naquele 
inferno, e mesmo se parecemos vivos, se ainda temos emoes, no passam de um vestgio de 
lembranas do que existiu... antes. Somos mortos-vivos. Ento, morto ou no, qual a diferena?... 
Pode me responder, logo voc que se considera to esperta?  
Alguns homens passaram, olhando as duas lindas jovens que travavam uma spera discusso, 
provavelmente por motivos fteis.  
De fato, todos sabem que s as futilidades so consideradas assuntos srios pelas mulheres.  
La pediu a chave do seu quarto, que lhe foi entregue com uma mensagem lida imediatamente. Era 
de Ernesto.  
"Minha querida La, no vou poder v-la hoje, meus pais chegaram de Crdoba. Beijos carinhosos."  
Que pena, gosto desse rapaz, pensou La ao entrar no elevador. No quarto, encontrou dois buqus: 
um extremamente requintado, o outro simples e elegante. Ambos comprados no florista ao lado do 
hotel. O primeiro era de Rik Vanderveen, o segundo de Ernesto.  
A noite passada em companhia de Victoria Ocampo terminara muito tarde. La dormiu mal; as 
flores do buqu de Vanderveen causaram-lhe uma violenta enxaqueca. Franois no telefonou, 
Carmen tambm no. Sentia-se preocupada em relao  nova amiga: Temo que algo lhe acontea, 
pensava La. Despertou de mau humor, ainda com dor de cabea, e resolveu ir no fim do dia  casa 
do mdico Ricardo Lpez. Ao chegar  calle San-Martin de Tours, experimentou uma sensao 
inquietante; muita gente entrava e saa do prdio. Lembrou-se de ter tido essa mesma impresso na 
avenue Henri-Martin, em Paris, na porta do apartamento do carrasco Massuy, de cujas garras ela 
conseguira arrancar Sarah. Naquele momento, Uri chegou ao hali e viu La, pronta a subir.  
- No fique aqui, vamos logo.  
Reinava grande agitao no apartamento do mdico: dentre os presentes, Samuel, com os cabelos 
desgrenhados, e Amos.  
- Tem notcias de Tavernier? - perguntou.  
- No. Aconteceu alguma coisa?  
- Carmen desapareceu.  
- Desapareceu?  
- Sim, ontem  noite, por volta de meia-noite. Ela travou conhecimento com o policial  paisana no 
caf. Ligou para c, relatando tudo. Depois disso, mais nada.  
- Talvez tenha dormido na casa de uma amiga?  
- No, ela nos avisaria, at porque precisava voltar ao caf hoje  tarde. Ningum a viu por l.  
- Eopolicial?  
- Permanecia l e parecia bastante nervoso.  
- J ligaram para a rdio?  
- J, no apareceu.  
- O que posso fazer para ajudar?  
- No momento, nada; nossos amigos argentinos esto agindo.  
- Sarah foi avisada?  
- Sim, tinha um almoo na embaixada da Frana que no podia ser adiado. No deve demorar, 
estamos  sua espera. Quanto a voc,  intil ficar aqui. Vou pedir que a levem ao Plaza. Evite sair 
at nova ordem.  
Profundamente desanimada, La deixou-se levar. Experimentava a mesma impresso de 
insegurana que durante a guerra, mas ali, naquele pas cuja lngua ela no falava, no sabia como 
agir. Onde estaria Carmen? Talvez encontrasse uma mensagem no hotel? Dirigiu-se  recepo 
com uma vaga esperana.  
- No, senhorita, no h nada.
- Obrigada.

Captulo 29

La jantou no quarto, experimentou ler enquanto permanecia atenta ao telefone. Por volta das onze,
agitadssima, ela se vestiu e desceu at o bar, onde pediu uma taa de champanha, seguida de outra.  
- Deve ser muito triste beber sozinha.  
Era Rik Vanderveen, diante da sua mesa. Finalmente algum com quem falar! La deixou de lado 
suas prevenes.  
- Tem toda razo, sente-se, Rik. Pea mais champanha, resolvi beber muito esta noite.  
- Camarero, una boteila de su mejor champagne)  
- Si, seuior.  
Garom, uma garrafa do seu melhor champanha.  
Claro senhor. 
- Tentando afogar suas mgoas?... Nesse caso, era s chamar tioRik!  
Tio Rik! Que ridculo! Tudo bem, esta noite ela se contentaria com sua presena. O garom trouxe 
a garrafa, abriu e serviu a bebida. La ergueu a taa antes de beber.  
- Ho!  muito melhor que o outro.  
-  sua sade, minha linda amiga... No foi ontem que a primeira-dama a recebeu?  
- Foi, como voc soube?  
- As notcias circulam rpido em Buenos Aires; a estranha  
Sra. Tavernier estava com voc. Uma linda mulher, apesar das cicatrizes no rosto... Parecem 
queimaduras de cigarro.  
Se j no tivesse ingerido trs taas de champanha, certamente La se mostraria mais atenta. Mas 
naquelas circunstncias... ela pediu mais, e Vanderveen obedeceu sem pestanejar.  
- Tem visto a encantadora Carmen?  
- Por que essa pergunta?  
- Oh, simples curiosidade! Durante a viagem, pareceu-me que vocs haviam se tornado grandes 
amigas. Apesar do seu comportamento relativamente excntrico, trata-se de uma jovem muito 
agradvel.  
- Encontramo-nos algumas vezes. Quero mais bebida.  
- Senorita, una Ilamada para usted' - disse um garom  
- Gracias.  
Senhorita, telefone para voc.  
obrigada.  
La foi at a cabine e fechou a porta.  
- Al!...  
- La?... Sou eu... Fiquei sabendo a respeito de Carmen... Pelo amor de Deus, seja muito prudente... 
no saia sozinha... Embarco amanh para Buenos Aires... passarei no seu hotel assim que chegar. 
Est bem?  
- Como voc quiser.  
- Ainda zangada por causa daquela noite?... Perdoe-me, sinto muito cime... eu a amo...  
Tambm a amo, pensou La, sinto tanto a sua falta.  
- Al?... Est ouvindo?... Fale comigo, diga alguma coisa...  
- Estou com saudades...  
- No consigo ouvir... Al, al... o que voc disse?...  
Cortaram a ligao.  
La desligou lentamente, dominada por um louco desejo de se encontrar nos braos do amante. 
Amanh! Estariam juntos amanh... O que ele dissera?... Que ela fosse muito cautelosa. Qual era o 
problema? La retornou  mesa, pensativa. Aquelas recomendaes de prudncia tinham a ver com 
Rik Vanderveen? Esse mesmo  
Rik Vanderveen a respeito de quem sabia to pouco. Entretanto, em vrias ocasies, suspeitara que 
fosse nazista.  
- Parece preocupada, em que est pensando?  
- Gostaria de saber se voc  nazista.  
Por que eu disse aquilo?, pensou. Devo estar louca. Sentiu as faces em chamas.  
O rosto de Vanderveen permaneceu impassvel. Com um sorriso irnico, perguntou:  
- Qual o motivo da sua pergunta?  
Responder o qu?... precisava encontrar um argumento plausvel.  
- No sei, foi uma idia que me passou pela cabea.  
- Tem a ver com o telefonema que recebeu?  
- Claro que no! Mas os senhores Jones e Barthelemy no so nazistas?  
- Nada sei a respeito, e mesmo que fossem, em que isso me toca?  
La esvaziou sua taa de champanha, que ele tornou a encher.  
- H muitos nazistas na Amrica do Sul.  
- O que no prova que sou um deles.  
- Correto. Digamos que se trata de uma simples suposio.  
- Suposies muito perigosas. J falou a esse respeito com seus amigos Tavernier?  
La bebeu antes de responder.  
- J.  
- E o que disseram?  
- Que voc  realmente um cidado holands acima de qualquer suspeita.  
- Voc no ficou satisfeita?  
- Claro, agora eu me sinto bem mais tranqila.  
- Estou feliz com isso. Uma linda mulher como voc no deve ter esse tipo de pensamentos.  
- Por qu?  
- Porque pode no ser muito saudvel.  
Que jogo era aquele? A prpria La no conseguia entender. Devia ser por causa do champanha. 
Rik no era nazista, apesar de suas relaes pouco recomendveis.  
- Faz muito tempo que conhece o Sr. Ortiz?  
- Sim, costumvamos negociar antes da guerra.  
- E ele, no  nazista?  
Vanderveen olhou atentamente para La antes de responder.  
- Voc v nazistas por toda parte, parece uma obsesso. Vamos sair daqui e nos distrair; levo-a a 
um show de tango.  
- Mas j  muito tarde!  
- No na Argentina, e no para o tango. Vamos logo,  perto daqui, entre a Corrientes e Sarmiento.  
Apesar da hora tardia, havia muita gente na calle Florida, principalmente homens. Fazia muito calor. 
Pararam na frente de um cartaz luminoso: Marab Maip. Mesas com toalhas vermelhas cercavam 
a pista de dana, a orquestra tocava uma rumba. Cortinas de prolas coloridas moviam-se ao redor 
do salo. O jogo de luzes provocava um fulgor ofuscante. Mal acabaram de sentar e o matre trouxe 
um balde prateado com uma garrafa de champanha, que foi imediatamente aberta.  
- Mas... no pedimos nada!  
- Adivinharam sua preferncia.  
La bebeu. Um casal de danarimos de tango entrou, a mulher de vestido curto de cetim com 
aberturas laterais, longas pernas voluptuosas cobertas de meias rendadas, o homem de terno claro, 
com um chapu que lhe dava uma falsa semelhana com Carlos Gardel. Com ar srio, ele guiava 
sua gil parceira de olhar distante, sensual e ao mesmo tempo arrogante. A msica, triste, profunda, 
nostlgica, mexia com a sensibilidade de La. "Esse pensamento triste que se dana" costumava 
comov-la. Ela gostava da melancolia, da tristeza emanada daquela melodia, espelho da dificuldade 
de viver com um mrbido romantismo. Por um breve instante, ela se viu rodopiando nos braos de 
Franois. O que ela fazia nesse lugar?... A msica parou, o pblico aplaudiu manifestando 
ruidosamente seu agrado.  
- Estou cansada, gostaria de voltar ao hotel.  
- No antes de danarmos juntos.  
Exausta, estonteada pelo excesso de bebida, La deixou-se  
levar, distante. Seu corpo acompanhava o ritmo, dcil, indiferente ao desejo que seu parceiro no 
conseguia disfarar.  
- Quero voc - sussurrou no ouvido de La.  
Ela deu uma risada rouca que o enganou, e estremeceu quando ele a beijou no pescoo.  
- La, voc tambm quer?  
- O qu? - perguntou ela com voz lnguida.  
- Fazer amor.  
- No.  
Foi um "no" rspido e cortante. Ele a apertou com violncia.  
- Porqu?  
- No tenho vontade.  
- Pois estou certo do contrrio.  
- Pense o que quiser. Leve-me ao hotel, quero ir embora.  
- Sua putinha nojenta, acha que pode rir da minha cara assim, sem mais nem menos?  
La soltou-se e retornou  mesa. De um s gole, esvaziou a sua taa. Ao coloc-la sobre a mesa, 
seu olhar cruzou com o de um homem apoiado no balco; ela j conhecia aquele olhar... na vitrine... 
Jones... Encontrava-se em perigo. Levantou-se, deu alguns passos titubeantes. O homem deixou o 
balco e veio em sua direo. La parou e procurou Rik Vanderveen: ele desaparecera; um 
sentimento de pnico apossou-se dela.  
Do lado de fora, o calor era menos intenso; agora, havia menos gente na rua. Nenhum txi 
estacionado. "No saia sozinha", no fora essa a recomendao de Franois?...  
Na calle Florida, ela tentou andar normalmente.  
Os rapazes olhavam para aquela linda chi desacompanhada e de pernas bambas.  
- Adonde va?  
- Podemos ayudaia?  
Para onde vai?  
Podemos ajud-la? 
- Puedo acompaiarla?  
Posso aconpanh-la?
A calie Florida no tinha fim. La olhou para trs, pensou ter visto o homem do bar e comeou a correr. Na 
Viamonte, algum segurou seu brao. Ela gritou. A ponta de uma faca em sua garganta fez com que se calasse. 
Um carro parou. Sem solt-la, o agressor abriu a porta e empurrou a jovem para dentro de uma imensa limusine; 
um cheiro de couro, tabaco, e nada mais.  
Em primeiro lugar, permanecer de olhos fechados, aguardar que a enxaqueca diminua; ela no podia continuar 
bebendo daquela maneira: desejava um bom banho para limpar aquela sensao de sujeira e nusea. Com 
muito cuidado, La abriu os olhos, voltou a cerr-los. Pareceu-lhe ouvir um gemido... Era mais um pesadelo!... 
Precisava despertar, levantar-se, chamar Sarah e Samuel. Ela abriu os olhos... no se tratava de pesadelo.  
Quanto tempo fazia que ela se encontrava ali, amarrada, naquele lugar repugnante e sombrio? Agora, o gemido 
era real. Apesar das cordas que lhe prendiam os braos e os ps, La conseguiu erguer-se. A poucos passos, 
havia um corpo encolhido, sacudido por constantes tremores, de onde partiam os gemidos. Ela permaneceu em 
p com muito esforo e se aproximou saltitando... caiu perto do corpo estendido no cho. Aquela roupa 
amarela, rasgada... manchada... uma impresso de dj vu... a sensao de completa impotncia, de dor 
profunda!... o mal, sempre o mal... Carmen...  
- Carmen!  
Por um segundo, o tremor parou. Com as mos amarradas, La conseguiu vir-la. Oh, no! ... um olho 
intumescido, o rosto coberto de equimoses, a boca ensangentada...  
- Carmen... fale comigo... minha querida, por favor...  
Os lbios feridos esboaram um sorriso que se transformou num ricto de dor. Faltavam dois dentes...  
- Che... La, vas tambin ?  
La... voc tambm? 
Encostada na amiga, La comeou a soluar.  
- No chore... tenho sede... pronto, calma...  
Quantas vezes j lhe disseram calma?... Sentiu vergonha das suas lgrimas, ergueu a cabea... No era apenas 
o rosto de Carmen que fora torturado, suas mos... seus seios... as mesmas queimaduras de Sarah... No! A 
guerra tinha acabado... as torturas tambm... a Argentina no era a Alemanha... e no entanto... ali.., aquela 
linda chica irreconhecvel.., os dedos triturados... os seios queimados... a saia ensopada entre as coxas... 
todo aquele sangue! ... o sangue...  
O grito de La assustou Carmen.  
- Fique quieta... eles vo voltar.., no contei nada... No sei por qu, mas no contei nada... Esto atrs de 
Sarah e dos outros... voc tambm... no conta nada...  
- Mas no quero que me machuquem!  
Apesar de todo seu sofrimento, essa observao provocou um sorriso nos lbios feridos de Carmen, que se 
transformou em grito.  
- Perdoe-me, nem sei o que estou dizendo. Quem torturou voc dessa maneira?  
- Una mujer  
- Uma mulher!... mas como  possvel?... Oh, no!...  
A cena de Sarah carregando o filho morto... o crnio do beb afundado... aquela doutora rindo... Rosa 
Schaeffer! ... Rosa Schaeffer... atordoada, La sentiu-se desfalecer.  
Ela precisava reagir, no podia deixar que a ferissem como Carmen! ... Em primeiro lugar, livrar-se das amarras. 
Com os dedos dormentes, conseguiu, aps vrias tentativas, desfazer o n da corda que prendia seus ps. 
Com os dentes, tentou fazer o mesmo em relao  corda que lhe prendia os punhos, mas o resultado dos seus 
esforos foi pssimo: o n tornou-se ainda mais apertado. O suor lhe escorria pelo rosto e costas; o vestido 
estampado ficou colado  pele. Na espcie de poro onde se encontravam, s havia caixotes,  
tonis, nenhum instrumento cortante... pareceu-lhe que os gemidos de Carmen iam se tornando cada vez mais 
fracos... aproximou-se... a jovem argentina desmaiara.  melhor assim, pensou, no sente tanta dor... De 
repente, um rudo de vozes... palavras em alemo... La se encolheu perto da amiga.  
- Wo ist das Mdchen ?... Ich sehe es nicht  
- Hier Doktor sie hat es geschafft, ihre Beinefreizumachen.  
Onde est a moa?... No a vejo.  
Aqui, doutora, ela conseguiu soltar as pernas.  
Rosa Schaeffer e Barthelemy; atrs deles, o homem do bar.  
- Das ist also die berhmte kieine Franzsin... Hbsches Mdchen... Schade! Ich hoffe, sie ist 
weniger hartnitckig ais die kleine Argentinierin... lst sie tot?  
- Noch nicht
Essa  a famosa francesinha... Bonita moa... que pena! Espero que ela seja mais fraca que a jovem argentina... J morreu?  
Ainda no.  
 - disse Barthelemy, dando um pontap em Carmen. Ela gemeu, obrigando La a levantar.  
- Na, dann bringt sie um.  
Ento, matem-na.  
- No! - gritou La.  
Rosa Schaffer gargalhou.  
- Wir waren nicht sicher ob du deutsch verstehst... Das ist gut, auf die Art gewinnen wir Zeit. 
Ich wiii die Namen undAdressen der Mitgiieder des Netzes deiner jdischen Freundin... Du 
wiiist nicht antworten? Wenn du dich darauf versteifst, dann hast du deinen ietzten Liebhaber 
gehaht... wie du willst. Woraufwarten wir um die andere umzubringen ?
- Ich flehe sie an, lassen sie sie ieben!  
No sabamos com certeza se voc entendia alemo... Isso  timo, assim vamos ganhar tempo. Quero os nomes e endereos dos membros da rede da sua 
amiga judia... no quer responder?... Se no mudar de comportamento, nunca mais ter namorado... como quiser. Mas o que esto esperando para matar a 
outra?  
Eu imploro, deixe-a viver!  
- No! - respondeu Rosa Schaeffer.  
Com um gesto to rpido que La no percebeu logo o que acontecera, Barthelemy cortou a garganta de 
Carmen. 
Aquela faca suja de sangue... o rudo do lquido escorrendo... o corpo agitado por tremores.., e aquela cabea 
que parecia completamente solta... La caiu no cho e ficou olhando sem entender o que via.  
- Carmen - murmurou ela suavemente.  
Ela foi despertada por vrias bofetadas.  
- Raus mit der Sprache, du Hure!  
- Das fhrtjetztzu nichts. Sie ist nicht hei Sinnen und versteht kein Wort. Sou sie sich erstmaj 
von dem Schock erholen...   
- Wir haben nicht viel Zeit, morgen msst ihr schonfort.  
- Ich weiss, warten wir etwas. Bindet sie gutfest.  
- Was machen wir mit der Leiche?  
- Tut sie in den Sack, wir sehen sptter weiter.  
 Voc vai falar, sua filha da 
puta.  
Agora, ser intil. Ela est completamente apagada e no entende uma palavra do que perguntamos. Vamos 
deix-la se refazer.  
No temos muito tempo,  amanh que voc deve partir.  
Sei, vamos esperar um pouco. Amarre-a bem forte.  
que vamos fazer com o corpo?  
Coloque-o num saco, veremos mais tarde. 
O homem do bar e Barthelemy puseram o cadver num saco de juta, que deixaram num canto.  
Sozinha, sentada no cho imundo, La oscilava o corpo com um estranho sorriso.  
Gritos, rudos de luta chegaram at ela... a porta do poro abriu-se bruscamente.., um homem... com um fuzil... 
La parou de se balanar e ergueu os olhos... Vou morrer, pensou. Por que aquele homem a soltava?... Sentiu 
um lquido quente escorrendo pelas pernas.., nada conseguia det-lo.., que imundcie!.., aquele terror...  
- No tenha medo, vim salv-la.  
Salv-la?.., ele dissera mesmo: salv-la?... Teve vontade de rir... Ele a ajudou a levantar; sua saia, encharcada, 
colava-se  pele... sentiu-se envergonhada.., apoiou-se no homem para subir os degraus... uma grande loja de produtos alimentcios... ningum.., que  
horas eram?... Qual a data? Havia uma claridade de fim de tarde...  
uma limusine com cheiro de couro e tabaco...  
- Voc no se esqueceu que vamos jantar juntos esta noite -  
disse Rik Vanderveen, dando a partida.

Captulo 30

Alguns instantes aps a sada de La, dois automveis pararam na frente da loja. Os transeuntes
surpresos viram quatro homens passarem pela porta, com armas ocultas sob os casacos.  
- Como se explica que no haja ningum?  
- Trata-se de uma empresa fictcia, que serve de cobertura aos traficantes nazistas. Os poucos 
empregados so todos de origem alem. Mas h sempre algum para vigiar o local;  bom sermos 
prudentes. Amos fica perto da entrada, vigiando a rua. Franois e Uri me acompanham.  
Aparentemente, o lugar estava vazio.  
- Vamos at o poro - disse Narciso Colomer, o guia.  
- No entendo - comentou Franois Tavernier - por que as portas estavam abertas. Parece uma 
cilada.  
Mal tenuinara sua frase quando se ouviu um tiro e uma bala penetrou na madeira de uma prateleira 
a poucos centmetros da sua cabea. Ele se jogou no cho. Amos e Uri atiraram. Um grito. Um 
homem caiu em meio s caixas. Acima deles, de uma larga viga metlica, outro homem atirou na 
direo de Narciso, mas este foi mais rpido e abateu o atirador que desabou. Em seguida, o 
silncio.  
Deixando o andar trreo aos cuidados de Amos e Uri, Tavemier  
e Colomer desceram ao poro. Tavernier voltou logo em seguida.  
Transtornado, deixou-se cair num caixote.  
- Ea?  
Mostrou que no conseguia falar. Os dois rapazes desceram.  
Uri voltou chorando. Narciso e Amos regressaram, plidos, o olhar repleto de ira... Durante alguns 
instantes, ouviu-se apenas a respirao ofegante dos quatro homens.  
- Ns a vingaremos - disse Uri, enxugando os olhos.  
No carro que a levava, La comeou a voltar a si.  
- Cheguei na hora, ao que parece - disse Rik Vanderveen, colocando a mo no joelho da jovem.  
- Obrigada - balbuciou.  
A limusine corria pelos arredores de Buenos Aires. Pouco a pouco, as casas tornaram-se mais 
raras, a terra substituiu o asfalto:  
 frente, a perder de vista, a imensa plancie.  
- Aonde vamos?  
- Estou levando voc para um lugar seguro.  
- Como me encontrou?  
- Eu a segui, mas no consegui agir antes.  
- Viu o que fizeram com Carmen? Precisamos avisar a polcia.  
- Seus amigos vo se encarregar de faz-lo.  
O que significavam essas palavras? Tudo estava muito confuso em sua mente. Ela precisava 
despertar e tomar uma deciso, o mais rpido possvel.  
- No entendo.  
- Mas to simples: os senhores Tavernier, Ben Zohar, Zederman e Dayan no so seus amigos?  
Como ele sabia os nomes de Amos, Samuel e Uri? Seu corao disparou, o suor umedeceu-lhe as 
mos.  
- Voc no faz parte de uma rede de vingadores?... Por pouco no a encontraram.  
- Mas ento por que...  
- ...tir-la das mos de Rosa Schaeffer?...  
A cabea de La girava... Ele conhecia Rosa Schaeffer... Ento?... Ela tentou abrir a porta do 
carro.  
- No faa isso, seria fatal.  
Um revlver surgiu em sua mo.  
- Se quiser fugir, atiro em seu joelho.  
Apesar de todos os seus esforos, La no conseguiu reprimir as lgrimas.  
- No chore, minha linda jovem. Vai estragar seu bonito rosto. Escute, prometo que, se me contar 
direitinho tudo o que sabe a respeito da organizao dos seus amigos judeus, sua vida ser salva, 
palavra de oficial SS.  
SS! Ele dissera mesmo SS? Essa sigla representava todos os horrores da guerra. Ela recordou os 
amigos assassinados, os montes de cadveres no campo de Bergen-Belsen, o corpo mutilado de 
Carmen... Seus dedos soltaram a maaneta da porta... La deixou-se cair no banco, ao lado de Rik 
Vanderveen.  
Franois Tavemier comunicou  embaixada da Frana o desaparecimento de La. O embaixador e 
ele foram recebidos pelo chefe de polcia, o general Velazco.  
- Lembro-me perfeitamente da Srta. Delmas, uma jovem encantadora. Deve ter sumido com o 
namorado, no deve se preocupar, Sr. Embaixador. Atualmente, as jovens europias...  
- General Velazco, temos certeza de que no se trata disso...  
- Seus informantes sabem de coisas que os meus desconhecem?  
- No se trata de informantes, mas de testemunhas que viram a Srta. Delmas ser levada  fora num 
carro. Uma delas anotou o nmero da placa.  
- Por que essa pessoa no avisou  polcia do seu pas?  
- Deve ter tido um certo receio.  
- Sr. Tavernier, um homem honesto nada tem a temer da polcia.  
- Claro...  
- Como se chama?  
- No guardei o nome.  
- Est zombando de mim, Sr. Tavernier... disse que tem uma testemunha do desaparecimento da 
Srta. Delmas e no se lembra do nome?  
- Esta  a pura verdade - respondeu ele friamente.  
O general Velazco se levantou.  
- Sua Excelncia, senhor... fizeram muito bem em vir falar comigo. Apesar das 
informaes to 
escassas, vou determinar a abertura de um inqurito... vocs sero informados de tudo o que for 
descoberto.  
- Seu hipcrita cafajeste!  
- Acalme-se, meu caro, esse tipo de reao no leva a nada  
- disse Vladimir d'Ormesson. Nossos servios vo atuar separadamente.  
- Mas La j ter morrido. J soube o que fizeram com Carmen Ortega?  
O embaixador suspirou desanimado.  
- Por favor, Tavernier, seja prudente...  
- Estou pouco ligando para todos os seus conselhos de prudncia. Foi exatamente o que eu disse a 
La dois dias atrs.  
- Posso deix-lo em algum lugar?  
- No, obrigado, prefiro caminhar.  
O carro do diplomata afastou-se.  
- Meu nome  Albert Van Severen, sou flamengo. Fui um dos primeiros voluntrios da Legio 
flamenga, com meu amigo, o deputado Reimond Tollenaere. Ns nos sentamos muito prximos da 
Alemanha. Desde o incio da guerra, Tollenaere escrevia no jornal do nosso partido, o Volk en 
Staat: "Nesse mundo de passividade, cheio de anglfilos e burgueses covardes, no podemos 
esconder nossa simpatia em relao ao combate liderado pela Alemanha. Estamos no mesmo 
campo e, mais do que nunca, esse combate  o nosso!" Samos de Radom com a patente de 
Untersturmfhrer SS. Lutamos s portas de Leningrado. Ali, Tollenaere, meu camarada, meu 
irmo, foi morto em 21 de janeiro de 1942. Essa morte reforou minha f em Hitler. A Legio 
flamenga atuou heroicamente, a ponto de o Reichsflhrer Himmler comentar a nosso respeito: "Os 
flamengos lutam como verdadeiros lees!" Ferido s  
margens do Volkhov, cercado com meus homens pelos russos, consegui escapar. Foi quando me 
outorgaram a Cruz de Ferro. Aps alguns meses de hospital, retornei  frente de batalha com a 
brigada de assalto Langemark. Fui feito prisioneiro sobre o Oder, consegui fugir e encontrei-me, em 
Hanover, com dois arianos, Jef Van de Wiele e August Borms. Encontrei tambm o chefe dos 
vales, Lon Degrelle, digno de pertencer ao povo flamengo. Com o fim da guerra, com um grupo 
de ex-membros da Viking, resolvemos expatriar-nos para preparar a revanche. Formamos um 
grande nmero de combatentes em prol deste ideal. A cada dia, novos amigos juntam-se a ns e no 
deixaremos que falsos combatentes judeus atravessem nosso caminho. Todos eles sero 
exterminados, terminaremos o trabalho iniciado...  
- Cale-se! - exclamou La.  
Sem levar em conta essa interrupo, Albert Van Severen, alis Rik Vanderveen, prosseguiu:  
- ...pelo povo alemo. O que no posso entender  que uma mulher como voc se associe quela 
gentalha. Quanto a Tavernier, seu amante, o envolvimento dele parece-me ainda mais estranho.  
- A idia de que lutamos pela liberdade, a dignidade do homem, nunca lhe passou pela cabea?  
- Nada de frases feitas, por favor. A liberdade  o privilgio de muito poucos, a massa  feita para 
obedecer. Vamos, seja boazinha, conte-me tudo o que conhece a nosso respeito. Como soube que o 
judeu Zederman se encontrava preso na estancia Ortiz e como conseguiu avisar Tavernier e a Sra. 
Ocampo? Sabe que chegou a me enganar? Durante algum tempo, pensei que no passasse de uma 
perfeita e encantadora idiota. Mesmo na casa de Ortiz, continuei em dvida...  
- E em relao a Carmen, tambm teve dvida?  
- No, soubemos logo que ela era comunista... O que aconteceu com Carmen deveria alertar voc; 
eu ficaria muito aborrecido se tivesse que entreg-la aos meus amigos...  
- Ento, voc no suja suas mos?  
-  mais ou menos isso. Existem os que do as ordens e os que obedecem. Relate tudo desde o 
incio.  
Antes de mais nada, era preciso ganhar tempo.  
- A essa altura, o embaixador da Frana j deve ter sido informado do meu seqestro...  
-  possvel, e da?  
- A polcia vai intervir.  
- Duvido muito. O chefe de polcia, o general Velazco, no tem se mostrado hostil quanto  nossa 
organizao. Alm do mais, estamos longe de Buenos Aires. Na Argentina, cada um manda no seu 
pedao. Os gachos do amigo que nos empresta aquela estancia so extremamente fiis ao 
proprietrio. Voc no tem a menor chance de fugir. Abandone qualquer esperana, est 
inteiramente em nossas mos. Conte-me tudo que sabe, a menos que prefira esperar a visita da Dra. 
Schaeffer. Ela ficou furiosa com a morte da companheira. Na falta de Sarah Mulstein, a vingana 
dela recair sobre voc.  
La no ouvia mais nada, deslizava lentamente para um profundo desespero, sem perguntas, sem 
revolta, evidente, tranqilo. A conscincia desse desalento a deixava... de certa maneira, serena, isso 
mesmo: serena. No era incompatvel. Ela se sentia irresistivelmente presa, submersa, atolada, 
afogada numa onda sombria, constante, poderosa, veemente, forte e vigorosa; ela corria para um 
universo de luto onde reinava o mal. Para suportar essa dor, resistir era invivel, era necessrio se 
deixar levar, para bem longe at tornar-se inacessvel. Sim, inacessvel, flutuando em direo a 
margens inabordveis...  
- Essa no! ... Voc nem est ouvindo!  
La olhava para ele sem v-lo, como quem diz: "No lugar onde me encontro, voc nunca me 
alcanar." O SS flamengo parecia frustrado com todo o sofrimento mudo que transparecia naquela 
linda mulher. Pressentia que bastava estender a mo para agarr-la, apert-la nos braos e 
submet-la a seu desejo, sem encontrar resistncia alguma exceto a do seu olhar perdido num 
mundo cuja chave ele no possua. No era o que ele desejava. O que importava se era uma 
inimiga? Tratava-se de uma mulher que o atrara desde o primeiro encontro. Em sua vida de 
soldado, ele s conhecera prostitutas e algumas infelizes estupradas aps a batalha. Esse tipo  
de relao s provocara uma profunda repulsa em relao a si prprio, e quase que um sentimento 
de dio para com aquelas criaturas srdidas ou amedrontadas. A presena de La no navio fizera 
com que ele sentisse algo mais do que um breve encontro entre dois corpos. Falou em voz baixa, 
num tom de splica:  
- Fale, eu imploro, fale.  
La sacudiu lentamente a cabea.  
Pela primeira vez na vida, ele sentia medo... medo por ela. Sabia que La falaria, por bem ou por 
mal. Odiava a tortura, julgava-a indigna de um soldado, mas e os outros?... E Rosa Schaeffer?...  
- D-me um cigarro.  
Ele lhe entregou um mao de Carrington.  
- No tem outra marca? - disse La, tragando.  
- Graas ao nmero da placa anotado por uma testemunha, encontramos o nome do dono do veculo: 
pertence a um rico negociante de vinhos chileno, Remondo Navarro, cliente assduo da ABC que, 
durante suas estadas em Buenos Aires, costuma passar as noites tomando cerveja com ex-membros 
da Gestapo. Amigo ntimo de Heinrich Doerge, que, durante a guerra, foi conselheiro do Banco 
Central da Argentina, assim como de Ludwig Freude, embaixador oficioso do Reich em Buenos 
Aires. Sabemos que Freude foi encarregado de ocultar o tesouro nazista. Alguns dos nossos 
informantes afirmam que uma parte desse tesouro deve se encontrar no Chile, nas mos dos 
dirigentes de uma seita secreta nazista.  
Franois Tavernier andava para cima e para baixo, ouvindo atentamente as palavras do mdico. 
Num canto, Amos Dayan e Uri ben Zohar poliam as armas.  
- Remondo Navarro est escondido por enquanto. Sabemos que costuma freqentar uma estancia 
situada a uns cem quilmetros da capital, na direo norte. Dois agentes nossos partiram para l. Se 
encontrarem a estancia, seremos informaclos pelo rdio. Enquanto isso, precisamos nos separar. 
La conhece esse endereo... Possuo uma casinha perto do rio em San Isidro, pertence aos pais da 
minha esposa. Tenho certeza de que nem a polcia nem  
nossos inimigos sabem onde fica. Encontra-se  minha disposio um barco a motor, que podemos 
usar para fugir se formos descobertos. Perto da igreja de San Isidro, h uma esquina dirigida por 
amigos; trata-se de um dos nossos pontos de encontro. Hoje  noite, as instrues sero enviadas 
para l. A senha : "Onde fica o presbitrio?" E a resposta: "O padre no se encontra." A tarde, 
haver uma manifestao dos ferrovirios na plaza de Mayo. Achamos que Rosa Schaeffer sair do 
seu esconderijo, aproveitando a multido. Muitos dos nossos j se encontram no local, perto da casa 
dela e nos arredores. Sarah foi junto com eles.  
- Sarah?... Mas que loucura! Rosa Schaeffer vai reconhec-la  
disse Tavemier.  
- Foi o que dissemos, mas no houve argumento que a demovesse dessa tarefa. Samuel est com
ela.

Captulo 31

Uma jovem loura, os olhos ocultos por culos escuros, olhava os grupos de homens em mangas de 
camisa dirigindo-se  plaza de Mayo. O som abafado e obsessivo dos bumbos chegava a seus 
ouvidos.  
Rosa Schaeffer deixou a rua Esmeralda e entrou na igreja de Maip. A mulher loura seguiu-a, mas 
saiu logo aps. Acenou para um homem que por sua vez entrou na igreja. Pouco depois, duas freiras 
e um padre saram. Apesar do disfarce, Sarah reconheceu Rosa Schaeffer, que nem olhou para a 
mulher loura ao passar a seu lado. Um dos dois homens devia ser Barthelemy.  
A avenida de Mayo estava repleta de gente agitando bandeirinhas e gritando slogans pr-peronistas. 
Os bumbos davam uma dimenso dramtica quela aglomerao. O homem de Mayo; os 
vingadores estavam atrs deles. Os gritos aumentaram; Juan Pern e Eva apareceram na varanda 
da Casa Rosada. Os nomes do presidente e da esposa eram pronunciados ao ritmo dos bumbos:  
- Pern!... Evita!...  
O calor tornara-se insuportvel. Sarah transpirava sob a pesada peruca.  
No parque Coln, a multido era a mesma. Perto do Luna Park, Sarah avistou Samuel. Algum a 
empurrou, murmurando:  
- Cuidado, os carros deles chegaram. Nossos informantes realizaram um bom trabalho.  
- Doutor! O que faz aqui?  
- Eu quis me certificar de que tudo estava em ordem. Viu a caminhonete branca? Pertence a gente 
nossa. Aproxime-se sem pressa, bata duas vezes, mais uma na parte traseira, e vo deix-la subir.  
- No poderamos tentar prend-los agora?  
- No, h delatores por toda parte,  melhor segui-los.  
Sarah entrou precipitadamente pela traseira da caminhonete. No interior, um homem com fones nos 
ouvidos manipulava os botes de um transmissor.  
Amos encontrava-se ao volante de um carro atrs da caminhonete; perto dele, Uri. Ambos usavam 
um chapu que escondia a parte superior do rosto. Samuel e o Dr. Lpez pegaram outro veculo. O 
automvel de Rosa Schaeffer deu a partida. O Dr. Lpez veio atrs, seguido da caminhonete e 
finalmente de Amos.  
O trfego era intenso, os pedestres numerosos; dirigiam lenta- mente. Na avenida Corrientes e alm 
da plaza de la Repblica, era praticamente impossvel avanar.  
Sarah tirou a peruca e sacudiu o cabelo. No interior da caminhonete, reinava um calor infernal. O 
chofer, um jovem argentino muito irritado, fumava um cigarilio que exalava um cheiro inbagvel. 
Rumaram para o norte.  
- Foram em direo  estancia Colomer- disse o Dr. Lpez, a mesma que Remondo Navarro 
costuma freqentar.  
- Tem certeza? - perguntou Samuel.  
- Temos cinqenta por cento de chance: se continuarem em frente, esto indo para l; se dobrarem  
esquerda, vamos enfrentar o desconhecido.  
- Mas no podemos continuar atrs deles por muito mais tempo, acabaro desconfiando.  
- Calma, no prximo cruzamento mudaremos de ttica. Vamos ser trocados. O nosso carro e a 
caminhonete iro na mesma direo. S Amos e Uri continuaro a segui-los.  
O carro de Rosa Schaeffer prosseguiu. Agora a estrada era de terra batida e uma espessa nuvem 
de poeira erguia-se. Logo depois, Amos precisou deixar um caminho ladeado de rvores e se deteve 
assim que ficou fora de alcance, no sem antes verificar que os  
substitutos estavam no caminho certo. Atrs daquele carro, vinha uma grande limusine.  
- Eles tambm tomaram suas precaues - disse Uri.  
A caminhonete chegou logo depois, e finalmente o Dr. Lpez com Samuel.  
- Eles s tm um carro de proteo. At aqui, tudo correu como previsto - disse o mdico. - Vamos prosseguir 
dentro de quinze minutos.  
- Consegui comunicarme con el senor Tavernier confirmo que se dirigen a ia estancia 
Casteili. Segn ias informaciones, es una verdadera guarida. Ei seuor Tavernier va ai aero-
club y liega en avin.  
- Gracias, Carlos.  
Consegui falar com o Sr. Tavernier, esto indo para a estancia Casteili. Segundo as informaes que tivemos, 
trata-se de uma fortaleza, O Sr. Tavernier vai ao aeroclube para pegar um avio.  
Obrigado, Carlos.  
J era noite quando Rosa Schaeffer e seus cmplices chegaram  estancia Casteili. Esta, no muito grande, 
era cercada por um bosque; depois, os pampas. Era praticamente impossvel chegar despercebido. Rik 
Vanderveen os recebeu:  
- Dieser Anzung sitzt sehr gut!
Esse traje lhe fica muito bem!  
 - disse ele, rindo s gargalhadas.  
- Mir ist nicht zum iachen
No acho a menor graa.  
 - respondeu a Dra. Schaeffer, arrancando a touca de freira.  
Sua beleza abrutalhada havia desaparecido. O rosto tornara-se mais pesado e o olhar acuado. Os cabelos 
brancos e despenteados davam-lhe um ar de anci.  
Caminharam em direo a casa.  
Rosa Schaeffer deixou-se cair num velho sof.  
- Geben sie mir zu trinken, und danach nehme ich eine gutes Bad.  
Dem-me algo para beber, depois vou tomar um bom banho.  
- Zu trinken ist kein Probiem, aber was das Bad angeht... es  
LI 
gibt lediglich eine Klapprige Dusche, aus der nur verrostetes Wasser kommt. Damit werden 
sie sich abfinden mssen.  
Para beber, no tem problema, quanto ao banho... s tem um chuveiro muito velho de onde sai uma gua 
enferrujada. Vai ter de se contentar com isso.  
Onde posso tirar essa roupa ridcula?  
Siga-me.  
Ela fez um gesto de resignao.  
- Wo kann ich diese groteske Verkleidung ausziehen?  
- Folgen sie mir.  
Ela falou?  
Acho que ela no sabe de nada.  
Duvido muito.
Ao regressar, seus cabelos estavam penteados num coque preso na nuca, e ela trocara seu traje de freira por 
uma cala e uma camisa de homem, o que destacava seu carter violento... Pegou o copo que Vanderveen lhe 
ofereceu.  
- Hat sie Gesprochen?
 Onde ela est?  
Desde sua chegada, ele temia essa pergunta.  
- Ich glaube, sie weiss nichts.  
- Das wrde mich wundern. Wo ist sie ?  
- In einem der Zimmer.  
- Begleiten Sie mich.  
- Spre wir haben etwas zu besprechen.  
Num dos quartos.  
Leve-me at l.  
Mais tarde, precisamos conversar.  
O soldado que no sentira medo em Leningrado teve um calafrio sob o olhar que lhe lanou Rosa Schaeffer.  
- Wie sie wollen.  
Como quiser.  
Durante o jantar, acertaram os detalhes a respeito da viagem que devia lev-los ao Brasil. J era tarde quando 
ela disse:  
- Gehen wirjetzt zu der Kleinen.  
"Agora, vamos ver aquela moa. 
- S pude ver trs sentinelas do lado de fora; uma delas est no telhado, uma na frente da casa, a outra nos 
fundos - disse Uri.  
- E no interior, quantos so? - perguntou o Dr. Lpez.  
- No menos de cinco, talvez mais.  
- Tavernierj chegou?  
- J, seu avio pousou a uns trs quilmetros daqui, no deve demorar.  
- Tudo parece calmo.  
- Calmo demais. At aqui, foi fcil, muito fcil.  
- Amos conseguiu penetrar no galpo. Vou tentar encontr-lo.  
- Tambm vou - disse Sarah.  
- Seria bom que um de ns acabasse com a sentinela que se encontra atrs da casa.  
- Doutor, deixe comigo, estou acostumado a esse tipo de trabalho - disse Uri.  
A sentinela do telhado acendeu um cigarro e provocou um breve claro nas sombras.  
- So muito imprudentes - disse Samuel em voz baixa.  
Un rastejou at a casa, confundindo-se com o solo. Alcanou a parte iluminada, que contornou at 
chegar aos fundos da habitao. Seus companheiros perderam-no de vista.  
- H quanto tempo esto na casa? - perguntou Franois Tavernier ao se aproximar.  
- H cerca de duas horas.  
- Algum detalhe suspeito?  
- Nenhum rudo, pelo menos. Uri est cuidando de um dos sentinelas. Olhe s, l vem ele.  
A sombra do palestino apareceu na claridade e se misturou ao capim escuro. Na estancia, no se 
ouvia o menor movimento.  
- Pronto - disse simplesmente Uri ao regressar.  
- No viu nada?  
- La encontra-se num aposento dos fundos, reconheci sua silhueta...  
- Sozinha?  
- Acho que sim. H uma grade na janela. Onde est Sarah?  
- No galpo.  
- Tavernier, voc pode acabar com a sentinela que se encontra na frente da porta? - perguntou 
Samuel. 
- No vai ser fcil, precisamos encontrar uma forma de atrair sua ateno...  
- Pedro, todo est bin ?
Pedro, tudo bem?  
- gritou o homem do telhado.  
- Muy bin, Marcello.
- Tendrs que ir a ver Henrique, vigilo por vs.  
- De acuerdo.  
Tudo, Marcelo.  
V ver como est Henrique, posso ficar em seu lugar.  
Est bem.  
Pedro deixou seu posto, fuzil na mo e poncho no ombro.  
- Agora  a nossa chance - disse Franois, rastejando na direo de Pedro.  
Instantes mais tarde, viram Pedro voltando, envolto no poncho, e retomar seu posto.  
- Marcello?  
- S.  
- Todo est en orden.  
- Bin.  
Sim,  
Tudo em ordem  
Est bem.  
Pedro acendeu um cigarro.  
- O que aconteceu com Tavernier? - perguntou o Dr. Lpez.  
- Nada,  ele quem est de sentinela - respondeu simplesmente Samuel.  
- Excelente.  
Ao entrar no aposento onde La se encontrava, Rosa Schaeffer perguntou por que ela no estava amarrada.  
- Die estancia ist gut bewacht, die kannt nicht fliehen 
A estncia est bem vigiada, ela no pode fugir. 
- respondeu Rik Vanderveen.  
No percebeu que Rosa trazia uma chibata na mo. Ela chicoteou brutalmente La, que gritou, protegendo o 
rosto com os braos. Ela foi atingida trs vezes pelas correias de couro; s ento Rik reagiu e segurou o brao 
da nazista.  
- Was ist denn in sie gefahren, lassen sie mich los!  
- Lasst sie los, ich sage euch, sie nichts.  
O que deu em voc? Largue-me!  
Deixe-a, eu j disse que ela no sabe de nada.  
Um revlver surgiu na mo de Rosa Schaeffer.  
- Raus, sie Schkippschwanz. Ich bin mir sicher dass dieses Mdchen etwas weiss, und sie wird 
es mir sagen... Raus oder ich schi esse.  
Fora, seu veado. Estou certa de que essa moa sabe de alguma coisa e ela vai me contar... fora ou atiro.  
- Rik, no me abandone. Cuidado!  
As boleadeiras, lanadas pelo falso padre, enrolaram-se nas pernas de Vanderveen, que caiu.  
- Hauptsturmfhrer Van Severen, ich Misstraue ihnen schon seit einiger Zeit. Bringen sie ihn 
weg und lassen sie ihn gut bewachen.  
Tenente Van Severen, eu j desconfiava de voc h algum tempo. Prendam-no.  
O falso padre e a falsa freira arrastaram Rik Vanderveen para fora aps amarrar-lhe braos e pernas.  
Petrificada, La olhava para aquela que matara o filho de Sarah e tantas mulheres inocentes. Sabia que no lhe 
restava a menor chance.  
Franois Tavernier atemorizara-se ao ouvir os gritos de La.  
- Marcello, oiste? Creo que nos necesiten.  
- Te parece? Nos deron de no mover de aqui.  
- Ven te digo, aca dentro hay pelea.  
Marcelo desceu do telhado com agilidade e se aproximou de Tavernier.  
- Pero no   
- No
 - disse Franois, cravando-lhe um punhal no corao.  
O homem tombou silenciosamente.  
Samuel Zederman e o Dr. Lpez chegaram correndo. Um outro grito fez com que Tavemier se 
precipitasse para a porta.  
- Devagar - disse Ricardo Lpez. - Se fizermos barulho, acabam logo com ela...  
Franois transpirava abundantemente; secou as mos midas na cala sem largar sua KalachnikoV. 
Bem devagar, ele girou a maaneta. A ampla sala mal iluminada parecia vazia... Ouviram risos, 
seguidos de gemidos...  
- Vejam - exclamou Samuel em voz baixa.  
Um homem amarrado e amordaado encontrava-se num canto.  
-  nosso amigo Van Severen! - exclamou Uri, que se juntara ao grupo.  
Retirou-lhe a mordaa, levando o dedo aos lbios para pedir silncio. Van Severen entendeu.  
- La est aqui, rpido - disse ele a Tavernier.  
- Seu canalha! Foi voc quem a trouxe - disse Franois, atingindo-o no nariz com a coronha da sua 
arma.  
- No importa, rpido - gaguejou ele, o rosto ensangentado. La gritou novamente. Enlouquecido, 
Franois atirou-se sobre  
a porta que Rik indicara.  
O torso nu, suspenso pelos punhos atados a uma viga, os ps amarrados, o corpo de La balanava-
se. Franois emitiu um rugido de fera ferida e atirou na mulher que se abaixava para apanhar uma 
arma no cho. Rosa Schaeffer soltou o cigarilio aceso e se escondeu atrs de uma poltrona cujo 
encosto voou em mil pedaos. O Dr. Lpez caiu, atingido por Barthelemy; este correu para ajanela, 
mas uma rajada de metralhadora interrompeu sua fuga, deixando-o atravessado no meio do cmodo, 
morto. Pela grade arrebentada, surgiu Amos, seguido de Sarah.  
- Onde est Bertha, a gorda?... No a matem! ... Essa  minha!  
Ouviram-se tiros na sala, interrompendo a ao dos vingadores. Amos apareceu, passando por cima 
do cadver de Barthelemy. Um desconhecido encontrava-se estendido perto da porta, o rosto 
esmagado. Perto dele, ferido no ombro, Samuel tentava erguer-se. 
- Quantos so? - gritou Amos, dando um pontap no nariz quebrado de Rik Vanderveen.  
- Oito, mas esperamos reforos. Soltem-me, vou ajud-los...  
- Voc est de sacanagem com a gente, seu bosta!  
Sob as pancadas, o flamengo perdeu os sentidos.  
Deixando de lado Rosa Schaeffer e Sarah, Franois soltou La. Rogou pragas ao notar as 
queimaduras de cigarro e as feridas em seus seios. Com mil cuidados, deitou-a num sof semi-
escondido numa saleta.  
- Meu amor, perdoe-me - murmurou, cobrindo-a.  
Encontrar gua o quanto antes, cuidar dela. Saiu sem olhar para Sarah e Rosa.  
- Soltem-me, quero ajud-los, conseguiu dizer Rik Vanderveen apesar dos lbios feridos.  
- Onde posso encontrar gua e ataduras? - perguntou Tavemier.  
- Como est ela?  
Por um instante, os dois homens encararam-se. Franois inclinou-se e, com o punhal, cortou as 
cordas que prendiam Rik. Disparos em sua direo obrigaram-nos a se jogar no cho.  
- Os reforos chegaram - murmurou Vanderveen, pegando o revlver que Samuel lhe passou.  
Rastejando, aproximaram-se da entrada; um homem tombou perto da porta. De bruos, Tavemier 
protegeu-se com aquele corpo; atirou vrias vezes, atingindo dois homens. Pulando por cima do 
corpo, recarregou a arma sem parar de correr.  
- Aqui! - gritou uma voz saindo do galpo. Ele obedeceu, seguido de Samuel.  
Uma granada lanada por Uri explodiu em cima de um carro que se incendiou de imediato. Do 
veculo saram trs silhuetas em chamas, que comearam a correr para o bosque: uma aps outra, 
foram caindo. Em meio aos clares, viram Amos aproximar-se ziguezagueando. J se encontrava 
perto do galpo quando uma granada explodiu perto dele. 
- No ba perto da porta... solte-me, vou buscar gua... como 
- Amos! - gritou Uri, precipitando-se em sua direo.  
Samuel tapou os olhos com a mo vlida. Franois, impotente, olhava para Uri abraando o corpo 
estraalhado do amigo. Vanderveen atirou em direo ao telhado; algum caiu na fogueira em meio 
a gritos de dor.  
Ouvia-se apenas o crepitar das chamas e os soluos de Uri. Franois Tavernier e Rik Vanderveen 
aproximaram-se. Uri ergueu- se, o rosto imundo, encharcado de lgrimas. Pegou a metralhadora e 
caminhou at o flamengo, que, lentamente, ergueu as mos. Uma rajada interrompeu seu gesto. 
Tombou, morto, aos ps de Franois.  
Tal qual duas feras, as duas mulheres giravam caladas sem tirar os olhos uma da outra; eram presas 
do mesmo dio que apagava qualquer vestgio de medo. Pareciam assustadoras, os cabelos 
desgrenhados, o rosto desfeito, a boca espumando. Sarah possua uma arma, a outra no. Ouvia-se 
apenas a respirao ofegante das duas mulheres.  
Na saleta, La voltou a si. Ainda h pouco, pensara ter visto Franois... Devia ser um sonho, estava 
s. S?... No!... Sarah sorria e o espetculo era aterrorizante. Rosa sorria tambm de maneira 
horrvel... loucas, ambas estavam loucas... Sarah deu uma rajada de metralhadora, que pulverizou a 
perna direita da sua inimiga... o sorriso sinistro desapareceu... Sarah ria enquanto atirava na outra 
perna... a alem no gritava.., de costas, lembrava um inseto mutilado...  
- Jetzt gehrst Du mir'
Agora voc  minha.  
 - gritou Sarah.  
- Scher dich zum Teufel, du Hure!  
- We in Ravensbrcl, das wird la.nge dauem. Erinnere dick..  
v tomar no cu, sua puta!  
Assim como em Ravensbrck, vai demorar muito. Lembre-se... 
Uma rajada arrancou a mo esquerda, em seguida a direita... Sarah ria, com um ar de felicidade em 
seu rosto, que recobrara a beleza anterior... Quanta loucura, pensava La, fascinada... havia sangue 
por toda parte... Sarah estava imunda... ria sem parar... atirou  
a metralhadora, que perdera sua utilidade... no bolso do vestido, pegou uma faca cuja lmina reluziu; 
Sarah mudou de idia e guardou-a... La conseguira ajoelhar-se no sof, com as mos no peito... 
Sarah inclinou-se sobre o inseto mutilado... sentou-se escarranchada sobre sua vtima... aquela 
carcaa ensangentada soltou um grito horrvel. La berrava... Sarah continuava rindo.., como ria.., 
arrancou um olho da nazista... La no suportou a cena dantesca... ouviu-se um tiro...  
- No... ela me pertence!  
Com uma bala no meio da testa, Tavernier acabara de matar Rosa Schaeffer.  
A voz de Samuel:  
- Meu Deus!...

Captulo 32

As semanas que se seguiram  morte de Amos Dayan e Rosa Schaeffer foram para todos um
verdadeiro pesadelo. La revia constantemente Sarah brandindo o olho do carrasco transformado
em vtima. A presena de Franois, que se mudara para o Plaza, acalmou um pouco suas angstias.
Encontrou-se com Ernesto e faziam longos passeios juntos pela cidade de Buenos Aires. O pai
havia-lhe contado o que sucedera na estancia Castelli. Ele fazia tudo para distrair a jovem, e
ajudava-a a apagar suas sombrias recordaes. Victoria Ocampo fazia o mesmo, levando-a todas as
tardes ao cinema.
Em 25 de maio, festa nacional da Argentina, La encontrou-se com Eva Pern, lindssima com um
vestido de seda amarela, no teatro Coln em companhia de Vladimir d' Ormesson e dos
embaixadores da Gr-Bretanha e dos Estados Unidos.
Em junho, Victoria Ocampo levou-a ao recital de Charles Trenet nos estdios da Radio El Mundo.
La mal conseguiu conter as lgrimas: aquelas canes tinham um perfume parisiense. Durante o
mesmo ms, Jo Bouillon apresentou Josphine Baker no Politeomo. Naquela ocasio, La chorou ao 
ouvir a msica: Tenho Dois Amores, Meu Pas  Paris.  
- Acho que chegou a hora de regressar - murmurou Franois carinhosamente.  
Ela encostou a cabea em seu ombro.  
- S vou com voc. 
Samuel Zederman restabeleceu-se por completo e voltou a Munique. Uri ben Zohar, desesperado 
com a morte do amigo, vagava pelas ruas quentes de la Boca em busca de um suposto 
esquecimento no lcool e com as mulheres. Temendo represlias, assim que se recuperou, o Dr. 
Ricardo Lpez refugiou-se naBolvia com a esposa e os filhos. Quanto a Sarah, parecia que algo se 
rompera dentro dela. Cedendo aos insistentes pedidos de Franois, ela visitava La de vez em 
quando. As duas mulheres recomearam as aulas de tango, mas o fantasma de Carmen perturbava 
La.  
O inverno se aproximava; um grande baile estava sendo programado no Plaza, para toda a elite 
argentina. Franois ofereceu a La um lindo vestido de tafet azul furta-cor.  
s vsperas do baile, uma boa notcia chegou de Montilac.  
Querida irm,  
Pierre ganhou uma irmzinha, a quem demos o nome da nossa me: Isabeile. Alain e eu 
gostaramos que voc fosse a madrinha; Charles ser o padrinho.  
Minha filhinha  linda. Ruth afirma que ela tem a sua cara. Sentimos todos a sua falta. 
Quando vai voltar? Sem voc, Montillac deixou de ser como antes. A vindima vai ser tima e 
parece que este ano obteremos excelentes resultados.  
Preciso terminar; o beb est chorando de fome.  
Todos mandam um abrao para Franois. Beijos carinhosos para voc. 
PS. Esqueci de lhe dizer que sou muito feliz! 
Franoise. 
At que enfim! Franoise voltara a encontrar a felicidade! La tambm a encontraria junto ao 
amante? Ela duvidava muito. Embora Franois no vivesse mais com Sarah, aquela forte amizade 
deixava-a enciumada. No entanto, Franois nunca se mostrara to presente, to apaixonado. 
Passavam todas as noites juntos, dormindo enlaados num suave cansao. 
As luzes dos amplos sales do Plaza resplandeciam, uma elegante multido perambulava pelos corredores, a 
orquestra tocava as melodias da moda. La danava, esquecendo, como de hbito, todas as suas 
preocupaes e angstias. Franois conduziu-a at a mesa, perto da pista. Sarah, que subira at o quarto da 
amiga para deixar seu casaco, demorava a retornar. As luzes apagaram-se; apenas a pista permaneceu 
iluminada. Um casal de danarinos de tango apresentou um espetculo muito aplaudido. As luzes voltaram. A 
orquestra entoou Adios muchachos. Algum colocou a mo no ombro descoberto de La.  
- Venha - disse Sarah.  
Surpresa, ela se deixou conduzir. Oh, no! ... O olhar fixo no rosto da parceira, ela sentiu seu corpo obedecer  
presso da mo de Sarah... Adios muchachos, compafieros de mi vida.., as lgrimas escorrem pelo seu 
rosto... Sarah... perdo... no percebi... Me toca a m, voy enfrentaria retirada... a orquestra hesita por 
um instante... uma nota falsa... como voc dana bem, Sarah... Ya me voy, y me resigno contra ei 
destino.., nunca seu prprio corpo ficou to unido com outro daquela maneira... Por que Sarah... por qu?... 
aquela sustica infame sobre sua cabea raspada... Nadie ia ataja se tenninaron... no, voc no  puta... 
gosto de voc, Sarah... no se parece com eles... Mi cuerpo enfermo no resiste ms... sinto que vai me 
deixar... voc no os v... Recuerdos de otros tiempos... Olhe, todos nos cercam... buenos momentos... 
leve-me, Sarah... leve-me para longe deles... sinta a minha mo na sua... nunca dancei tango dessa maneira... 
Adios muchachos... est sorrindo!.., entendeu o que estou dizendo calada... minha querida... est 
sorrindo!.., encontrei seu sorriso... Es dios ei juez supremo... Por entre as lgrimas, La tambm sorri... Vou 
lev-la, Sarah... Pues mi vida me hizo... Essa msica cheia de angstia foi feita para voc... Dos lgrimas 
sinceras derrama a mi partida... como voc dana bem... voc ver.., ei da postrero... dentro de 
voc.., o mal... sinto que o mal est morto... morto... Le doy toda mi alma... Sarah... no!...  
Franois Tavernier separou as duas mulheres. Com toda fora, por trs vezes, esbofeteou Sarah... A msica 
parou. A multido permaneceu imvel, silenciosa. Sarah o encarou, admirvel, anjo 
da morte, o corpo insolente moldado por um vestido justo vermelho, aberto dos lados... rosto de uma beleza 
fatal... a cabea raspada marcada por uma sustica desenhada com batom...  
- Cigarro, por favor.  
Cinco ou seis cigarreiras foram-lhe oferecidas... tantas chamas... Voluptuosamente, Sarah deu uma tragada.  
La deixara de ter cimes de Sarah, experimentava agora um profundo sentimento de piedade. Aquele tango 
escandaloso revelou que ela no tinha mais nada a ver com essa sociedade elegante e comedida, que rompia 
com ela e se mantinha afastada. Pegou um leno no bolso do smoking de Franois e se aproximou para limpar 
o smbolo amaldioado. Suavemente, Sarah afastou-a  
- Deixe, s vai conseguir apagar o visvel.  
Com certa rudeza, Franois Tavernier segurou o brao de Sarah.  
- Vou lev-la para casa.  
- Deixe-me, vou subir para o quarto de La e me refrescar um pouco... No, fique aqui, minha querida. Quero 
ficar sozinha.  
- Mas eu no quero deix-la, vou com voc.  
A orquestra recomeou a tocar; por um instante, os olhos de Sarah brilharam de maneira estranha.  
- No insista, a gente se v amanh.  
Ela se virou para todos os presentes e gritou:  
- SAdios, amigos!  
Sem levar em conta o pedido da amiga, La a seguiu, mas foi detida por Franois na porta do salo.  
- No v.  
Ela tentou se livrar.  
- No podemos deix-la sozinha. Ela me assusta.  
- Amim tambm.  
Enquanto falavam, chegaram at os elevadores. Sarah apertou o boto. La tentou se soltar para acompanh-
la, mas a mo de Franois impediu. Um jovem ascensorista abriu a porta. Sarah entrou e acenou para eles, 
ironicamente. A porta se fechou. La sentiu um aperto no corao.  
Os dois amantes no tinham a menor vontade de retornar ao 
salo de baile. Foram buscar os casacos no vestirio e saram do hotel. Atravessaram a plaza San 
Martin e caminharam a esmo. A noite estava linda e a temperatura agradvel; pouca gente nas 
ruas. Ele colocou o brao nos ombros de La, tensa e hostil.  
- Sarah estava linda hoje - disse ela -, como se falase sozinha.  
- Linda?... Sim, de certa forma... uma espcie de divindade pag e venenosa... Voc lembrava um 
inseto prisioneiro na teia de uma aranha negra... Em meio s suas lgrimas, parecia fascinada... 
aquele casal formado por vocs duas foi muito estranho, embaraoso. Apesar do escndalo, fico 
satisfeito por ter presenciado a reao de toda aquela gente.  
- Ento por que interrompeu a nossa dana?  
- Porque era obscena.  
Irritada, La se afastou.  
Continuaram andando e no perceberam que se encontravam perto da embaixada da Frana. Um 
carro freou violentamente perto deles. Imediatamente, Franois ficou na defensiva. Que estupidez a 
sua ter sado sem arma! Um homem saltou do carro. Aliviado, ele reconheceu Vladimir 
d'Ormesson.  
- Ora, meu caro, fiquei sabendo de tudo o que andou aprontando!... Boa noite, Srta. Delmas... Bravo, 
s se fala nisso!... j se deu conta do escndalo?... A Sra. Tavernier precisa sair de Buenos Aires o 
quanto antes. Quanto a voc, Srta. La, meu conselho  que regresse  Frana. Amanh a cidade 
inteira s falar desse tango. Acho que vou ser convocado pelo ministro do Interior ou pelo prprio 
presidente...  
- O senhor no est exagerando um pouco?  
- Tavernier, voc sabe to bem quanto eu que a oposio no pra de censurar o governo deste pas 
por sua simpatia fascista. O caso da estancia Castelli preocupa muito os peronistas. A esposa de 
um diplomata francs danando com uma sustica desenhada na cabea, voc no considera isso 
escandaloso? Venha falar comigo na embaixada antes do almoo.  
O embaixador acenou para La em sinal de despedida e subiu no carro. 
Calados, Franois e La continuaram o passeio.  
Entraram num caf amplo, ruidoso e muito iluminado; a chegada do casal provocou sussurros e 
olhares indiscretos por parte dos homens. La cobriu os ombros nus com o elegante bolero do 
mesmo tom azul que o vestido. O garom se aproximou.  
- Buenas noches, que quieren tomar?  
- Dos copos de cognac, por favoi  
O que lhes trouxeram s era conhaque no nome. Beberam em silncio, afastados pela primeira vez, 
cada um relembrando os acontecimentos da noite. La pensava no dramtico rosto de Sarah 
iluminado por uma chama interna, o sorriso tenso e sarcstico, a presso de suas mos, o corpo 
excitado e gil ao qual o seu prprio obedecia, e principalmente aquela sustica traada com 
determinao. No havia a menor dvida: a loucura dominava sua amiga... No decorrer das ltimas 
semanas, Sarah fizera tudo para que La entendesse! Mas ela nada percebera, nada quisera 
perceber: apesar de todo o horror que Sarah lhe inspirava, deveria tentar entend-la, ajud-la. Em 
vez disso, s conseguira expressar, com seu comportamento, temor e repugnncia; ela a rejeitara, 
deixando-a sozinha frente a seu ato monstruoso.  
Os pensamentos de Franois eram semelhantes aos dela. Tal como La, ele achava que deveria 
estar mais atento  angstia de Sarah. Sentia-se culpado por deixar a amiga entregue aos seus 
fantasmas, por no saber demov-la de suas idias de vingana.  
Conhecendo-a to bem, devia proteg-la contra ela mesma, apoiar-se na memria do pai que Sarah 
adorava. O que Franois diria se ele voltasse para lhe perguntar: "O que voc fez com Sarah?"  
Ao mesmo tempo, por cima da mesa, deram-se as mos. Reencontravam-se finalmente.  
- Vamos buscar Sarah - disse ele.  
O baile atingia o auge quando entraram no Plaza. Subiram at o quarto de La; a porta estava 
aberta, Sarah no se encontrava...  
Sobre o travesseiro, em evidncia, um envelope trazendo o nome de La. No papel de carta com 
o timbre do hotel, ela leu:  
Minha querida,  
Logo mais, irei encontr-la no salo.  
Ainda no sei se estarei viva quando voc ler esta carta. Mas preciso escrev-la, para tentar 
lhe explicar mais uma vez o que me transformou num verdadeiro monstro. No pretendo me 
justficar eu me odeio. No decorrer destas ltimas semanas, entendi que a vingana no trazia 
a paz, mas uma averso a si mesmo; apesar de tudo, considero-a necessria. Perdi a vontade 
de agir No me sinto satisfeita, mas vingana alguma poder apagar o mal que j foi feito. 
Mataram meu pai, meu filho, mutilaram-me para sempre com experincias em meu corpo, mas 
tornaram-me cmplice de suas infmias. Era isso que Daniel e eu no podamos perdoar. 
Fomos cmplices sim, ele ao denunciar um prisioneiro deportado por roubar um pedao de 
po; eu, ao tirar o cobertor de uma mulher quase morta;fomos cmplices com nossa 
incapacidade em nos rebelar Alm disso, mais do que tudo, como aceitar o fato de continuar 
vivendo? Sinto a loucura apossar-se de mim, sinto a demncia me abandonar Percebi que era 
igual a eles, capaz de perseguir um ser indefeso; por mais que eu tente encontrar uma 
desculpa, pensando que eles agiram assim, procuro em vo um resto de orgulho que me 
detenha nesse to sinistro caminho. Lembre-se, eu costumava dizer: "Serei pior do que eles. 
"De certa forma, acabei sendo, e foi o mal mais profundo que conseguiram me causar  
Lembro-me das palavras de Simon Wiesenthal e do padre Henri; o judeu e o padre falavam 
ambos de justia, de f no ser humano. No acredito na justia, deixei de acreditar no ser 
humano. Meu pai era um justo, eles o mataram. Daniel era uma criana ferida, eles o 
mataram. Amos era um inocente, eles o mataram. Mil mortes no conseguiro ving-los.  
Ainda existe voc, que eu amava tanto e a quem causei tanto mal. Revelei o que havia de mais 
desprezvel em mim, sacrifiquei 
voc, colocando sua vida em perigo para saciar minha sede de vingana.  
 a nica cujo perdo eu imploro, pois voc pertence a um  
pequeno grupo de pessoas que acreditam na viabilidade da vida e  
do amor. Diga a Franois que gostei dele como um irmo e que  
lamento ter sido um obstculo entre vocs. No o perca, ele a ama  
e vocs dois foram feitos um para o outro, no h a menor dvida  
quanto a isso. Retornem  Frana, esse pas que tanto amei e onde  
 to bom viver Volte a Montillac, ao menos por algum tempo; esse  
 o lugar que a criou.  
No guarde de mim a imagem grotesca daquele tango, mas da mulher profundamente 
angustiada que passeava com voc entre os vinhedos ou perto do calvrio de Verdelais. Sua 
amiga que a ama,  
Sarah.  
Seguiam-se algumas linhas com a letra alterada:  
A hora chegou, perdoe-me por esta ltima prova. Sei que a loucura tomou conta de mim. 
Adeus.  
Com o rosto transtornado, La entregou a carta a Franois. Durante a leitura, ela caminhou pelo 
quarto sob violenta tenso. Ao chegar ao fim, Franois estava lvido. Exausto, deitou-se, as mos 
sob a cabea.  
- Ora!... No vai fazer nada?  
- No h nada a fazer.  
La atirou-se na cama e o sacudiu.
- Seu cafajeste! No  verdade, no  verdade!
-  verdade sim, e voc sabe to bem quanto eu. No restava outra sada para Sarah.
- Cale-se, vou procur-la.
- Tarde demais.
- Por que tanta certeza?
- Conheo Sarah, e em seu lugar eu faria o mesmo.
- Como quiser, mas eu vou procur-la.
La no esperou o elevador e desceu a escada correndo. Na recepo, empurrou os clientes 
espera da chave.
- Viu a Sra. Tavernier?
- No, senhorita - respondeu o funcionrio -, no depois que ela subiu.
- J faz muito tempo.
- Oh, sim! Vocs estavam aqui quando ela tomou o elevador.
Ento Sarah no sara do Plaza.
No quarto, Franois continuava na mesma posio.
- Venha me ajudar - suplicou La. - Sarah encontra-se no hotel.
Subiram at o terrao que dominava a cidade; ao longe, via-se
o porto. Apenas algumas luzes brilhavam no escuro. Ouviram a
sirene de um navio. Um vento frio fez com que La estremecesse.
- Venha, no tem ningum, voc vai se resfriar.
A contragosto, La aproximou-se de Franois.
- Ali!...
Havia algum recostado numa espreguiadeira. Chegaram mais perto. Sarah parecia dormir. O 
rosto estava descontrado, com um sorriso feliz nos lbios. No cho, ao alcance da mo pendente, 
um revlver.  
O suicdio de Sarah aps o escandaloso baile ocupou a primeira pgina de todos os jornais 
argentinos. Cinco ou seis pessoas apenas assistiram ao enterro, no cemitrio de la Recoleta. Dentre 
elas, Ernesto Guevara.  
Uma semana mais tarde, Franois e La partiram para Bordeaux a bordo do Kerguelen. Ernesto e
Uri vieram se despedir. Antes de embarcar, La virou-se para trs. O jovem argentino acenou pela
ltima vez.
- Che, La.

Boutigny-sur-Opton, 7 de setembro de 1991

